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Full text of "Vida vertiginosa [por] João do Rio"

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JOÃO  DO  RIO 


Vertiginosa 


li 


LIVRARIA  GARNÍER 

R!0  OE  JANEiRQ 


II 


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VIDA    VERTIGINOSA 


DE    lOAO    DO    RIO 


Religiões  no  Rio.  8^  ediçào. 
Alma  encantadora  das  ruas,  3^  edição. 
Momento  literário. 
Jornal  de  verão. 

Cinematographo   chronicas  cariocas). 
Frivola  City   chronicas  mundanas  . 
Os  dias  passam  (chronicas). 
Fados  e  Canções  de  Portugal. 
Portugal  d^agora  (impressões  de  viagem). 
Psychologia  Urbana  (conferencia). 
Dentro  da  noite  (contos.. 
Profissão  de  Jacques  Pedreira    romance). 
Traducçào  das  obras  em  prosa  de  Oscar  Wilde  :  Salomé, 
Retracto  de  Dorian  Gray,  Theatro,  Intenções. 


JOÃO    DO    RIO 


DA      ACADEMIA      BRASILEIRA 


Vida 
Vertiginosa 


Ouel   changement   ò  ciei !   et  d"âme 
et  de  langage  ! 


H.    GARNIER,  LIVREIRO-EDITOR 


iOÍI,  RUA  rio  ouvmoH.  109 
mo  Dl-   JANEIRí) 


H,  RI  E  DES  SAINT>  PERES,  6 

PARIS 


1911 


5  ; 


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A    GILBERTO  AMADO 


Digitized  by  the  Internet  Archive 

in  2010  with  funding  from 

University  of  Toronto 


http://www.archive.org/details/vidavertiginosapOOrioj 


Este  livro,  como  quantos  venho 
publicando,  tem  a  preocupação  do 
momento.  Talvez  mais  que  os 
outros.  O  seu  desejo  ou  a  sua  vai- 
dade é  trazer  uma  contribuição  de 
analyse  à  época  contemporânea, 
suscitando  um  pouco  de  interesse 
histórico  sob  o  mais  curioso  periodo 
da  nossa  vida  social  que  é  o  da 
transformação  actual  de  usos,  cos- 
tumes e  idéas.  Do  estudo  dos 
homens,  das  multidõss,  dos  vidos 
e  das  aspirações  resulta  a  fisiono- 
mia car aderis tica  de  um  povo.  E 
bastam  ás  vezes  alguns  traços  para 
que  se  reconheça  o  tnstante  psychico 
da  fisionomia.  jE"  possivel  acoimar 
de  frivola  a  forma  de  taes  obser- 
vações. Nem  sempre  o  que  é  ponde- 
rado e  grave  tem  senso.  E  o  pedestre 
bom  senso,  de  que  a  sciencia  é 
prolongamento,  sempre  aconselhou 
dizer  sem  fadiga  o  que  nos  parece 
interessante... 


A  Era  do  Automóvel 


A  ERA  DO  AUTOMÓVEL 


E,  subitamente,  é  a  era  do  Automóvel.  O  mons- 
tro transformador  irrompeu,  bufando,  por  entre  os 
descombros  da  cidade  velha,  e  como  nas  magicas  e 
na  natureza,  aspérrima  educadora,  tudo  transformou 
com  apparencias  novas  e  novas  aspirações.  Quando, 
os  meus  olhos  se  abriram  para  as  agi  uras  e  também 
para  os  prazeres  da  vida,  a  cidade,  toda  estreita  e 
toda  de  mau  pizo,  eriçava  o  pedregulho  contra  o 
animal  de  lenda,  que  acabava  de  ser  inventado  em 
França.  Só  pelas  ruas  esguias  dois  pequenos  e 
lamentáveis  corredores  tinham  tido  a  ousadia  d'ap- 
parecer.  Um,  o  primeiro,  de  Patrocinio,  quando 
chegou,  foi  motivo  de  escandalosa  attenção.  Gente 
de  guarda  chuva  de  baixo  do  braço,  parava  estar- 
recida com  se  tivesse  visto  um  bicho  de  Marte 
ou  um  aparelho  de  morte  immediata.  Oito  dias 
depois,  o  jornalista  e  alguns  amigos,  acreditando 
voar  com  trez  kilometros  por  hora,  rebentavam  a 
machina  de  encontro  ás  arvores  da  rua  da  Passagem . 
O  outro,  tão  lento  e  parado  que  mais  parecia  uma 
tartaruga  bulhenta,  deitava  tanta  fumaça  que,  ao 
vel-o  passar,  varias  damas  sufocavam.  A  imprensa. 


JOÃO    DO    RIO 


arauto  do  progresso,  e  a  elegância,  modeio  do  sno- 
bismo, eram  os  percursores  da  era  automobilica. 
Mas  ninguém  advinhava  essa  era.  Quem  poderia 
pensar  na  futura  influencia  do  Automóvel  deante 
da  machina  quebrada  de  Patrocínio?  Quem  "imagi- 
naria velocidades  enormes  na  cairiola  difficultosa 
que  o  conde  Guerra  Duval  cedia  aos  clubs  infan- 
tis como  um  brinco  idêntico  aos  baloiços  e  aos 
ponneys  mansos  ?  Ninguém !  absolutamente  nin- 
guém. 

—  Ah !  um  automóvel,  aquella  machina  que 
cheira  mal? 

—  Pois  viajei  nelle. 

—  Infeliz ! 

Para  que  a  éra  se  firmasse  fora  precisa  a  transfi- 
guração da  cidade.  E  a  transfiguração  se  fez  como 
nas  féerias  fulgurantes,  ao  tan-tan  de  Satanaz. 
Ruas  arrazaram-se,  avenidas  surgiram,  os  impostos 
aduaneiros  cahiram,  e  triumphal  e  desabrido  o 
automóvel  entrou,  arrastando  desvairadamente  uma 
catadupa  de  automóveis.  Agora,  nós  vivemos  posi- 
tivamente nos  momentos  do  automóvel,  em  que  o 
«  chauffeur»  é  rei,  é  soberano,  é  tyranno. 

Vivemos  inteiramente  presos  ao  Automóvel.  O 
Automóvel  rithmiza  a  vida  vertiginosa,  a  anciã  das 
velocidades,  o  desvario  de  chegar  ao  fim,  os  nossos 
sentimentos  de  moral,  de  esthetica,  de  prazer,  de 
economia,  de  amor. 

Mirbeau  escreveu  :  —  «O  gosto  que  tenho  pelo 
«  auto»  irmão  menos  gentil  e  mais  sábio  do  barco, 


VIDA    VERTIGINOSA  5 

pelo  patim,  pelo  balanço,  pelos  balões,  pela  febre 
também  algumas  vezes,  por  tudo  que  me  leva  e  me 
arrasta,  de  pressa,  para  além,  mais  longe,  mais  alto, 
além  da  minha  pessoa,  todos  esses  appetites  são  cor- 
relatos, têm  a  origem  commum  no  instincto,  refrea- 
do pela  civilização,  que  nos  leva  a  participar  dos  ri- 
thmos,  de  toda  a  vida,  da  vida  livre,  ardente,  e  vaga, 
vaga  ai !  como  os  nossos  desej os  e  os  nossos  destinos... » 

Não,  eu  não  penso  assim.  O  meu  amor,  digo  mal, 
a  minha  veneração  pelo  automóvel  vem  exacta- 
mente do  typo  novo  que  Elle  cria  preciso  e  instan- 
tâneo, da  acção  começada  e  logo  acabada  que  Elle 
desenvolve  entre  mil  acções  da  civihsação,  obra 
Sua  na  vertigem  geral.  O  automóvel  è  um  instru- 
mento de  precisão  phenomenal,  o  grande  reforma- 
dor das  formas  lentas. 

Sim,  em  tudo !  A  reforma  começa,  antes  de 
andar,  na  linguagem  e  na  orthographia.  E'  a  sim- 
plificação estupenda.  Um  simples  mortal  de  ha 
vinte  annos  passados  seria  incapaz  de  comprehen- 
der,  apezar  de  ter  todas  as  letras  e  as  palavras  por 
inteiro,  este  periódo  :  «  O  Automóvel  Club  Brasil 
sem  negócios  com  a  Sociedade  de  Automóveis  de 
Reims,  na  garage  Excelsior. »  Hoje,  nós  ouvimos 
diálogos  bizarros  : 

—  FosteaoA.  G.  B? 

—  léss. 

—  Marca  da  fabrica? 

—  F.  I.  A.  T.  60-H.  P.  Tenho  que  escrever  ao 
A.  C.  O.  T.  U.  K. 


JOÃO    DO    RIO 


O  que  em  palestra  diz-se  ligando  as  letras  em 
palavras  de  aspecto  volapuckeano,  mas  que  tradu- 
zido para  o  vulgar  significa  que  o  cavalheiro  tem 
uma  machina  da  Fabrica  Italiana  de  Automóveis 
de  Turim,  da  força  de  60  cavallos  e  que  vae  escre- 
ver para  o  Aéreo  Club  do  Reino  Unido. 

E'  ou  não  é  prodigioso?  E'  a  lingua  do  futuro,  a 
lingua  das  iniciaes  só  entrevista  segundo  Bidon 
pelo  genial  José  de  Maistre,  que  fazia  cadáver  (mes- 
mo credor)  derivar  de  corpus  datus  Qermíhus. 

Um  artigo  de  duzentas  linhas  escreve -se  em 
vinte  quasi  stenographado.  Assim  como  encurta 
tempo  e  distancias  no  espaço,  o  Automóvel  en- 
curta tempo  e  papel  na  escripta.  Encurta  mesmo  as 
palavras  inúteis  e  a  tagarellice.  O  monosyllabo  na 
carreira  é  a  opinião  do  homem  novo.  A  literatura 
é  ócio,  o  discurso  é  o  impossivel. 

Mas  o  automóvel  não  simplifica  apenas  a  Hngua- 
gem  e  a  orthographia.  Simplifica  os  negócios,  sim- 
plifica o  amor,  liga  todas  as  coisas  vertiginosa- 
mente, desde  as  amizades  necessárias  que  são  a  base 
das  sociedades  organisadas,  até  o  idyllio  mais  puro. 

Um  homem,  antigamente,  para  fazer  fortuna, 
precisava  envelhecer.  E  a  fortuna  era  lamentável 
de  pequena.  Hoje,  rapazolas  que  ainda  não  tem 
trinta  annos,  são  millionarios.  Porque?  Por  causa 
do  automóvel,  pòr  causa  da  gazoUna,  que  fazem  os 
meninos  nascer  banqueiros,  deputados,  ministros, 
directores  de  jornal,  reformadores  de  religião  e  da 
esthetica,  aliás  com  muito  mais  acerto  que  os  velhos. 


VIDA    VERTIGINOSA  7 

Si  não  fossem  os  120  kilometros  por  hora  dos 
Dietriche  de  course  não  se  andaria  moralmente  tão 
depressa.  O  automóvel  é  o  grande  suggestionador. 
Todos  os  ministros  têm  automóveis,  os  presidentes 
de  todas  as  coisas  têm  automóveis,  os  industriaes 
e  os  financeiros  correm  de  automóvel  no  desespero 
de  acabar  de  pressa,  e  andar  de  automóvel,  é  sem 
discussão,  o  ideal  de  todo  a  gente. 

Vá  qualquer  sujeito  qne  se  preza  á  cosa  de  outro, 
de  tilbury  ou  de  carro.  Com  um  pouco  de  intimi- 
dade o  outro  dirá  fatalmente  : 

—  Pobre  creatura !  Gomo  deves  estar  moido  ! 
Levaste  para  ahi  uma  infinidade  de  tempo !  Des- 
pede o  caranguejo  e  vem  no  meu  auto. 

Auto  !  Gomprehendam  o  quanto  vai  de  myste- 
rioso,  de  primacial,  de  autónomo  nesta  palavra  ! 
Dahi,  de  certo,  o  poder  fascinador  para  concluir 
negócios  da  invenção  vertiginosa.  Chega-se  com 
estrépito,  stopa-se  brusco,  salta-se. 

—  O  sr.  veiu  de  automóvel? 

—  Para  quem  tem  tanto  que  fazer ! 

—  E'  uma  bella  machina. 

—T  E'  minha,  e  está  ás  suas  ordens. 

—  E  o  chauffeur? 

—  Também  meu.  Mas  o  chauffeur  é  sempie  o  que 
menos  guia.  Teria  muito  prazer  em  conduzil-o... 

Na  outro  dia  o  negocio  está  feito,  principalmente 
si  o  contractante  não  contracta  por  conta  própria. 

Para  se  ganhar  dinheiro,  acima  do  commum 
sedentário,  é  preciso  ter  um  automóvel,  conserval-o, 


8  JOÃO    DO    RIO 

alugal-0.  A  chimera  montavel  dos  idealistas  não 
é  outra  senão  o  Automóvel.  Nelle,  toda  a  quentura 
dos  seus  cylindros,  a  trepidação  da  sua  machina 
transfundem-se  na  pessoa.  Não  é  possivel  ter  von- 
tade de  parar,  não  é  possivel  deixar  de  desejar.  A 
noção  do  mundo  é  inteiramente  outra.  Vê-se  tudo 
fantasticamente  em  grande.  Graças  ao  automóvel  a 
paysagem,  morreu  —  a  paysagem,  as  arvores,  as  cas- 
catas, os  trechos  bonitos  da  natureza.  Passamos  como 
um  raio,  de  óculos  enfumaçados  por  causa  dapoeira. 
Não  vemos  as  arvores.  São  as  arvores  que  olham  para 
nós  com  inveja.  Assim  o  Automóvel  acabou  com 
aquella  modesta  felicidade  nossa  de  bater  palmas 
aos  trechos  de  floresta  e  mostrar  ao  estrangeiro 
la  naturaleza.  Não  temos  mais  la  naturaleza,  o 
Corcovado,  o  Paõ  de  Assucar,  as  grandes  arvores, 
porque  não  as  vemos.  A  natureza  recolhe-se  humi- 
lhada. Em  compensação  temos  palácios,  altos  palá- 
cios nascidos  do  fumo  de  gazolina  dos  primeiros 
automóveis  e  a  febre  do  grande  devora-nos.  Febre 
insopitavel  e  bemfazeja !  não  se  lhe  pode  resistir. 
Quando  os  novos  governos  começam,  com  medo  de 
perder  a  cabeça,  logo  no  começo  ministros  e  altas 
autoridades  dizem  sempre  : 

—  Precisamos  fazer  economias. 

Como?  Cortando  orçamentos?  Reduzindo  o  pes- 
soal? Fechando  as  secretarias?  Diminuindo  venci- 
mentos? 

Não.  O  primeiro  momento  é  de  susto.  As  autori- 
tades  dizem  apenas. 


VIDA    VERTIGINOSA  y 

—  Vamos  vender  os  automóveis. 

Mas  logo  altas  autoi idades  e  funcionários  sen- 
tem-se  afastados,  sentem-se  recuados,  tem  a 
sensação  penosa  de  um  Rio  incomprenhensivel,  de 
um  Rio  anterior  ao  Automóvel,  em  que  eram  pre- 
cisos mezes  para  re alisar  alguma  coisa  e  horas  para 
ir  de  um  ponto  a  outro  da  cidade.  E  então  o  minis- 
tro, mesmo  o  mais  retrogrado  e  velho  revoga  as 
economias  e  murmura  : 

—  Vão  buscar  o  Automóvel ! 

Oh !  o  Automóvel  é  o  Greador  da  época  vertigi- 
nosa em  que  tudo  se  faz*de  pressa.  Porque  tudo  se 
faz  de  pressa,  com  o  relojio  na  mão  e,  ganhando 
vertiginosamente  tempo  ao  tempo.  Que  idéa  faze- 
mos de  século  passado  ?  Uma  idéa  correlata  a  velo- 
cidade do  cavalloedo  carro.  Acorrida  de  um  cavallo 
hoje,  quando  não  se  aposta  nelle  e  o  dito  cavallo  não 
corre  numa  raia,  é  simplemente  lamentável.  Que 
idéa  fazemos  de  hontem?  Idéa  de  bonde  eléctrico, 
esse  bonde  eléctrico,  que  deixamos  longe  em  dois 
segundos  O  Automóvel  fez-nos  ter  uma  apudorada 
pena  do  passado.  Agora  é  correr  para  a  frente. 
Morre-se  de  pressa  para  ser  esquecido  d'alli  a  mo- 
mentos; come-se  rapidamente  sem  pensar  no  que  se 
come ;  arranja-se  ávida  de  pressa,  escreve-se,  ama-se, 
goza-secomo  um  raio ;  pensa-se  sem  pensar,  no  ama- 
nhã que  se  pode  alcançar  agora.  Por  isso  o  Automó- 
vel é  o  grande  tentador.  Não  ha  quem  lhe  resista. 
Desde  o  Dinheiro  ao  Amor.  O  Dinheiro  precisa  de 
automóveis  para  mostrar  quem  é.  O  Amor  serve-se 


10  JOÃO    DO    RIO 

do  automóvel  para  fingir  Dinheiro  e  apressar  as 
conquistas.  Por  S.  Patricio,  patrono  dos  automó- 
veis !  Já  reparastes  que  se  julga  os  homens  pelo 
Automóvel?  Ouvi  os  comentários. 

—  Não.  Elle  está  bem.  Vi-o  d'automovel. 

—  Lá  vae  aquelle  canalha  d'automovel.  Quanta 
ladroeira ! 

—  Bravo  !  De  automóvel... 

—  Os  negócios  d'elle  são  tantos  que  já  comprou 
outro  automóvel  para  dar-lhes  andamento. 

E  no  Amor? 

As  mulheres  de  hoje  em  dia,  desde  as  cocottes  ás 
sogras  pioblematicas,  resistem  a  tudo  :  a  flores,  a 
vestidos,  a  camarotes  de  theatro,  a  jantares  caros. 
Só  não  resistem  ao  automóvel.  O  homem  que 
consegue  passear  a  dama  das  seus  sonhos  nos 
quatro  cylindros  da  sua  ma  china,  está  prestes  a  ver 
a  reahdade  nos  braços. 

—  Vamos  passear  de  automóvel? 

—  De  automóvel?... 

Toda  a  sua  physionomia  illumina-se.  Si  a  paixão 
é  por  damas  alegres,  antes  da  segunda  velocidade, 
nós  já  vamos  na  recta  da  chogada.  Si  a  paixão  é 
difficil,  ha  sempre  a  phrase  : 

—  Que  bom  automóvel!  E'  seu? 

—  E'  nosso... 

Então,  com  uma  carrosserie  de  primeira  ordem, 
chassis  longo,  motorista  fardado,  na  terceira  velo- 
cidade, —  pega-se. 

—  Ai  que  me  magoas. 


VIDA    VERTIGINOSA  11 

—  Tu  é  que  cahiste... 

Como  o  amor  é  o  fim  do  mundo,  num  instante 
comprehende-se  que  de  automóvel  lá  se  chegue 
com  a  rapidez  instantânea.  Comprehende-se  mes- 
mo ser  impossivel  a  indiíTerença  nas  machinas  dia- 
boHcas.  Quando  se  quer  dar  por  concluida  uma 
conquista,  diz-se; 

—  Foi  passear  de  automóvel  com  elle  ! 

E  para  a  mulher  do  século  xx  todo  o  prazer  da 
vida  resume-se  nesta  delicia  : 

—  Vou  passear  d'automovel ! 

Ah !  o  automóvel !  Elle  não  criou  apenas  uma 
profissão  nova  :  a  de  chauffeiir;  não  nos  satisfez 
apenas  o  desejo  do  vago.  Elle  precisou  e  accentuou 
uma  época  inteiramente  Sua,  a  época  do  automó- 
vel, a  nossa  delirante  e  inebriante  época  de  fúria 
de  viver,  subir  e  gosar,  porque,  no  fundo,  nós 
somos  todos  chauffeurs  moraes,  agarrados  ao  motor 
do  engenho  e  tocando  para  a  cubica  das  posições  e 
dos  desejos  satisfeitos,  com  velocidade  máxima, 
sem  importar  com  os  guarda-civis,  os  desastres,  os 
transeuntes,  sem  mesmo  pensar  que  os  bronzes 
podem  vir  a  derreter  na  carreira  doida  do  triumpho 
voraz ! 

Automóvel,  Senhor  da  Era,  Creador  de  uma 
nova  vida,  Ginete  Encantado  da  transformação 
urbana,  Cavallo  de  Ulysses  posto  em  movimento 
por  Satanaz,  Génio  inconsciente  da  nossa  metamor- 
phose ! 


o   Povo   c  o  Momento 


o  POVO  E  O  MOMENTO 


A  um  estrangeiro  intelligente  que,  havia  mezes 
aqui  aportai  a,  preguntei,  como  toda  ^  gente,  por 
uma  fatalidade  de  raça  talvez,  as  suas  impressões. 

—  A  respeito  ? 

—  Do  momento. 

—  Do  momento  e  do  povo? 

—  Naturalmente. 

Elle  conhecia  um  pouco  da  nossa  historia,  falava 
bem  portuguez,  ha  os  nossos  jornaes.  Respondeu- 
me. 

—  O  povo  e  o  momento.  Naturalmente.  O  povo 
das  cidades  varia  segundo  os  momentos  históricos. 
Esses  momentos  históricos  duram  ás  vezes  muitos 
annos.  O  povo  de  leddo,  ha  cinocenta  annos  não 
era  positivamente  o  mesmo  de  hoje,  depois  da 
guerra,  de  Togo,  depois  que  assiste  ás  representações 
de  Ibsen.  O  meio  é  entretanto  o  mesmo,  e  a  raça 
é  a  mesma.  E'  que  os  philosophos  esqueceram  o 
factor  tempo.  A  vida  para  as  nações  tem  também 
um  relógio  qne  marca  o  gyro  do  progresso.  E,  em 


16  JOÃO    DO    RIO 

cada  um  dos  momentos  desse  dia  immenso,  as 
gerações  mostram  uma  feição  própria.  Ha  povos 
que  estão  no  momento  da  treva  inicial,  ha  os 
que  estão  na  treva  de  que  se  não  volta.  Ha  tam- 
bém outros  que  dão  a  sensação  de  crepúsculo,  de 
um  lento  crepúsculo  de  verão  prolongado;  outros 
crepúsculo  de  inverno,  rápidos,  cahindo  como  uma 
barra  de  ferro  cinza.  Sfe  eu  tivesse  aqui  aportado  em 
qualquer  anno  do  Segundo  Império,  teria  visto  o 
mesmo,  exactamente  o  mesmo  povo  de  hoje?  Não  ! 
Absolutamente  não !  Os  povos  novos  evoluem  com 
uma  rapidez  espantosa.  Este  galopou.  E'  como  se 
tivessem  posto  uma  pedra  no  aparelho  do  relógio 
para  obrigal-o  a  adiantar-se  alguns  segundos.  E  o 
curioso  é  que  no  momento,  é  o  povo  menos  cons- 
tituído da  terra. 

Foi  no  dia  seguinte  ao  da  minha  chegada  que  ouvi 
pela  primeira  vez  a  clássica  pergunta  num  club 
militar. 

—  Que  pensa  do  nosso  Rio? 

—  Não  penso  nada. 

—  niustres  viajantes,  ao  contrario... 

—  Sei  d'isso. 

—  Têm  até  promettido  livros. 

—  Devo  dizer  a  verdade,  então?  Penso,  penso 
da  cidade  coisas  graves,  gravíssimas,  que  não 
convém  dizer. 

Algumas  fisionomias  jovens  perderam  a  affabili- 
dade. 

—  Tão  graves  que  se  não  possa  dizer  nenhuma? 


VIDA   VERTIGINOSA  17 

—  Se  fosse  um  indifferente  diria  :  c'est  charmant! 
Mas  não  sou.  E'  o  maior  crime  humano,  a  indife- 
rença. Viver  é  vibrar;  viver  é  interessar-se  com 
enthusiasmo  pelo  assombroso  espectáculo  da  vida. 
O  verso  de  Terêncio. 

Homo  sum,  et  nihil  humani  a  me  alienum  puto. 

é  a  máxima  guia  do  ser  intelligente... 
Houve  um  silencio.  Continuei  então. 

—  Por  isso  digo,  por  exemplo,  que  no  Rio  o  povo 
é  o  menos  constituido  da  terra.  E,  graças  aos  deuzes, 
consegui  explicar  a  impressão  do  scenario  da  mul- 
tidão movediça. 

O  povo  do  Rio  está  em  formação  de  um  typo 
definitivo.  Por  emquanto,  dizem  as  estatisticas. 
ha  maioria  de  brasileiros  e  da  colónia  portugueza 
na  população.  Será  assim  dentro  de  vinte  annos? 
Elle  parece  que  espera  com  prazer  outros  elementos 
componentes.  Os  elementos  de  agora  são  o  brasi- 
leiro na  maioria  filho  ou  neto  de  estrangeiro,  o 
portuguez  vindo  dos  campos,  das  aldeias,  e  não 
das  cidades,  o  hespanhol,  o  inglez,  o  allemão,  o 
francez,  o  syrio  e  cada  vez  em  maior  numero,  o 
italiano.  Gomo  o  brasileiro  é  contrabalançado  assim 
e  tem  ainda  por  cima  o  sangue  do  colono,  segue-se 
que  moralmente  elle  se  sente  inferior,  elevando  um 
protesto  a  dizer  apenas  : 

—  Estou  na  minha  terra  \ 

Sem  aliás  uma  arraigada  convicção  a  respeito. 


18  JOÃO    DO    RIO 

Dahi,  em  vez  de  se  dar  o  caso  da  America  do  Norte 
em  que  se  faz  a  absorpção  do  immigrante,  o  phe- 
nomeno  inverso  da  absorpção  do  nativo  pelo  immi- 
grante. E  o  nativo  é  de  uma  plasmaticidade  espan- 
tosa. A  primeira  influencia  é  a  do  portuguez.  O 
brasileiro  adapta-se  a  elle.  Ha  vínculos  de  sangue, 
ha  apegos  de  carne.  Mas  o  portuguez  é  também 
adaptabilissimo.  Resiste  um  pouco,  mas  cede.  De 
modo  que  vem  o  allemão  e  impõe  a  cerveja  e  o 
choucroute,  vem  o  inglez  e  impõe  a  lingua,  vem  o 
italiano  e  impõe  desde  a  lingua  á  alimentação,  vem 
o  filho  da  Galliza  e  lança  os  seus  hábitos  também. 
Andei  por  diversos  bairros,  assisti  a  espectáculos, 
observei,  fiz  sempre  o  possível  para  não  errar.  Mas 
eu  raramente  erro  numa  observação  e  a  que  eu 
fazia,  logo  depois  de  chegar,  era  que  em  nenhum 
paiz  do  mundo  o  immigrante  se  conserva  tão  preso 
ao  seu  paiz  forçando  mesmo  o  nativo  a  amal-o  e  res- 
peital-o,  e  que  também  em  nenhum  paiz  da  terra  o  im- 
migrante tem  tanto  direito,  e  está  tanto  na  sua  casa. 
~  E  Paris? 

—  Paris  é  uma  cidade  de  prazer,  onde  se  vai 
gastar  dinheiro.  Ha  touiistes,  ha  ricaços,  não  ha 
immigrantes.  Mesmo  assim,  sendo  a  cidade  de 
todo  mundo,  não  ha  artista  estrangeiro  que  faça 
dinheiro  e  tenha  o  theatro  cheio,  e  desde  que  se 
vai  agir  todas  as  portas  se  fecham.  No  Rio,  ha 
companhias  allemãs,  inglezas,  italianas. 

—  E  Nova- York? 

—  Em  Nova-York  o  estrangeiro  cáe  numa  tor- 


VIDA   VERTIGINOSA  19 

rente  para  reapparecer  americano.  Desse  domí- 
nio não  consciente,  premeditado,  mas  vindo  natu- 
ralmente da  fraqueza  numérica  e  moral  do  nativo, 
em  que  a  intelligencia  se  casa  a  um  scepticismo 
indolente  e  vagamente  orgulhoso,  desse  dominio  de 
colónias,  presas  aos  paizes  originários  e  por  conse- 
quência apenas  com  um  interesse  sério  :  o  lucro 
monetário  da  ajuda  reciproca  entre  patrícios, 
segue-se  que  o  Rio  é  uma  cidade  sem  opiniões, 
sem  convicções  politicas,  sociaes  ou  artisticas, 
trocista  sem  haver  razão,  enthusiastica  quando 
ainda  menos  razão  ha,  e  opposicionista  systemati- 
camente,  como  as  crianças  destruidoras. 

Tem  opiniões  politicas?  Nenhuma.  Ou  antes,  é  ga- 
rotamente  contra  os  governos,  contra  todos  os  ho- 
mens de  governo  do  Brasil,  quando  elles  estão  occu- 
pando  os  cargos.  Isso  não  é  opinião.  E' uma  teimosia. 
Se  fosse  um  typo  definido  seria  uma  idyosincrasia, 
cujo  resultado  era  claro  :  a  revolta.  Sendo  uma 
salada  de  fructas  é  uma  pretenção  ingénua  —  a 
que  os  governos  podem  não  dar  importância.  Pas- 
sei o  período  mais  agudo  da  chamada  campanha 
das  candidaturas  no  Rio.  Era  a  primeira  vez  que 
se  dava  a  campanha  — « porque  o  povo  nunca  antes 
se  interessara  pela  eleição  do  seu  presidente  !  »  Os 
jornaes  vinham  inflammados  e  incendiários.  Ao 
lel-os  parecia  que  o  vulcão  rebentaria.  Ao  passar 
pelas  ruas,  o  menos  avisado  asseguraria  a  luta  para 
dalli  a  momentos.  Gritos,  aclamações,  vaias, 
assobios,  cavallarias,  tiros,  um  horror. 


20 


JOÃO    DO    RIO 


O  povo  era  contra  o  candidato  de  um  grupo  pode- 
roso que  ha  muito  se  apossou  da  administração, 
chefiado  por  um  caudilho  de  manha  vulpina.  E  era 
pela  candidatura  de  uma  das  maiores  intelligen- 
cias  contemporâneas,  um  talento  mundial,  cujo 
nome  basta  para  lembrar  aos  paizes  uma  série  de 
actos  admiráveis.  O  Brasil  mesmo,  de  homens 
assim  respeitados  mundialmente,  talvez  só  tenha 
um  outro.  Que  pensar  da  opinião  politica  desse 
povo?  Uma  das  maiores  acclamações  que  eu  tenho 
visto  foi  a  feita  ao  candidato  civil. 

Mas  felizmente  metti-me  nessa  multidão  de 
barulho  diário.  E  só  tirei  uma  certeza  :  a  aversão  ao 
mihtarismo  pelas  próprias  causas  de  internacio- 
nalismo do  povo  e  do  impatriotismo  generalisado. 
Quanto  aos  resultados  da  campanha,  o  governo 
no  dia  supprimiu  as  eleições,  fechando  os  collegios 
e  o  povo  veiu  para  a  rua  ver  um  jornal  contra  as 
suas  opiniões  içar  um  boneco  com  um  numero  fan- 
tástico  de  votos. 

Nem  uma  pedra,  nem  um  gesto  violento,  desses 
que  a  menor  manifestação  politica  sacodem  Paris, 
Londres  ou  mesmo  a  inenarrável  corrupção  de 
Nova-York  !  No  dia  seguinte  em  vez  da  Gommuna 
de  que  se  fallava  —  um  frio  glacial,  um  frio  que 
eu  ia  escrever  commercial. 

Não  era  possivel  outra  cousa?  A  antipathia  á 
candidatura  continuava,  mas  ao  medo  da  ameaça 
do  militar  succedia  o  receio  do  facto.  Não  podia 
haver  patriotismo,  noções  de  pátria,  quando  os 


VIDA    VERTIGINOSA  21 

interesses  económicos  dominavam.  E  não  haverá 
um  «  sentimento  geral  de  patriotismo  »  emquanto 
a  fusão  immigratoria  não  se  der,  creando  um  typo 
perfeito  que  esteja  na  sua  casa  cuidando  dos  inte- 
resses dessa  casa  para  o  seu  próprio  interesse. 

São  possiveis  e  até  communs  os  rompantes,  que 
em  certo  tempo  formaram,  segundo  me  dizem,  até 
uma  corrente  denominada  jacobina.  Mas  o  «  sen- 
timento geral  )>,  esse  falha.  Deante  das  manifes- 
sações  artisticas,  as  classes  cultas  querem  o  estran- 
geiro. Mas  deante  de  outras  faces  da  vida,  desde  o 
geneio  de  primeira  necessidade  ao  divertimento  e 
ao  prazer  carnal,  o  Ímpeto  é  para  o  estrangeiro. 

Nos  paizes  feitos  quer-se  o  estrangeiro  para  gas- 
tar. No  Rio  o  povo  deseja-o  para  ganhar,  e  dá-lhe 
logo  todas  as  regalias,  tudo  quanto  elle  deseja. 

Não  fossem  elles  patriotas  —  isto  é,  homens 
simples  ligados  aos  seus  paizes  —  occupariam  fatal- 
mente cfrgos  públicos.  Fui  a  vários  theatros. 
Estavam  cheios  os  estrangeiros.  Interroguei  vários 
negociantes  —  e  o  commercio  começa  a  se  tornar 
um  dos  mais  adiantados  do  mundo  quando  já  era 
um  dos  mais  fortes.  —  Um  negociante  confessou- 
me  : 

—  Vendo  producto  nacional,  mas  com  a  marca 
estrangeira.  E'  preciso,  para  vender... 

E  o  phenomeno  claro  não  é  percebido  :  a  sug- 
gestão  do  immigrante  que  naturalmente,  sem  que- 
rer, zela  pelos  interesses  económicos  do  seu  paiz, 
conservando  os  seus  gostos  e  impondo-os  ao  nativo. 


22  JOÃO    DO    RIO 

o  estômago  e  a  lingua  sao  sempre  bases  segurís- 
simas de  observação.  Pois  bem.  Em  cem  estran- 
geiros domiciliados  no  Rio  talvez  nem  dez  tolerem 
uma  certa  cousa  chamada  carne  secca,  prato  nacio- 
nal. Em  cem  brasileiros  não  haverá  um  que  não 
goste  de  pratos  hespanhóes,  italianos,  poitugue- 
zes,  allemães.  Ha  estrangeiros  que  passam  uma 
existência  sem  f aliar  o  portuguez.  O  brasileiro  é 
verdadeiramente  espantoso  para  fallar  linguas 
estrangeiras.  Encontrei  negros  nos  «  schisphands  » 
do  cáes  fallando  inglez,  e  o  inglez  é,  segundo  me 
parece,  a  menor  colónia  do  Rio.  A  menor  colónia 
não.  A  menor  é  a  franceza.  Mas  o  francez  toda 
gente  falia.  E'  a  lingua  diplomática,  a  lingua  de 
quem  recebe... 

Assim,  eu  tive  do  povo  do  Rio  uma  impressão 
de  uma  confusão  de  elementos  em  caminho  de 
cristalização.  Do  carioca  antigo  quasi  nada  resta. 
O  typo  de  hoje  é  o  perdulário  sem  fortuna,  conser- 
vador, melancohco,  achando  tudo  mal  na  sua  terra, 
posto  que  vá  ao  inferno  para  que  digam  bem  delia, 
sensual  com  um  manto  de  hypocrisia  colonial, 
que  cada  vez  se  adelgaça  mais,  substituindo  as 
opiniões  que  devia  ter  por  um  deboche  que  vai  da 
vaia  garota  ao  sorriso  sceptíco,  condescendente 
em  extremo  «  despreoccupado  e  commercial  ». 
E  junto  essas  palavras  que  se  contradizem  para 
explicar  o  exaggero  das  negociatas  em  que  o  arranjo 
amoral  substitue  muitas  vezes  o  trabalho. 

Para  o  estrangeiro  como  eu,  e  francez  de  origem. 


VIDA    VERTIGINOSA  23 

é  delicioso  tal  povo,  porque  é  sempre  bom  estar 
numa  terra  onde  se  está  mais  á  vontade  do  que  na 
própria.  Ha  uma  verdade  confidencial  nas  entre- 
linhas dos  artigos  de  vasio  louvor.  E'  essa. 

Eu  abstive-me,  porém,  do  louvor  vasio.  Assistia 
a  uma  aggregação  de  elementos  para  uma  força  tão 
radiosa,  que  dominará  o  mundo.  Nunca  senti, 
nunca  palpei  tanto  vigor.  E  essa  aggregação  de 
futuro  povo  faz-se  na  base  de  uma  grande  e  indes- 
tructivel  esperança.  E'  o  momento,  o  momento 
inolvidável,  o  momento  da  definitiva  transfor- 
mação. 

Mas  têm  todos  o  maravilhamento  da  própria 
obra? 

—  Certo. 

Isso  é  dos  povos  crianças  e  dos  povos  decadentes. 
Os  extremos  tocam-se,  e  são  crepúsculos  o  da  aurora 
e  o  do  occaso.  No  meu  caso  é  a  ingenuidade  do 
gigante  menino  que  suspendeu  uma  montanha, 
e  depois,  admirado  de  o  ter  feito,  exige  o  pasmo 
universal.  Outr'ora  dizem,  que  o  estrangeiro  só 
fallava  da  natureza.  Da  natureza  livre,  selvagem 
e  gloriosamente  feroz.  Era  de  certo  porque  mais 
não  havia.  Os  argentinos  levavam  á  impertinência 
essa  amabilidade  : 

—  Oh !  la  naturaleza !... 

Os  cariocas,  enraivados,  quasi  não  mostravam  ao 
estrangeiro  a  natureza,  o  Corcovado,  o  Pão  de 
Assucar,  a  Tijuca,  as  ilhas,  a  bahia  de  Guanabara. 
Desde  que,  porém,  o  gigante  acordou  com  as  subi- 


24  JOÃO    DO    RIO 

tas  transformações  materiaes,  o  frenesi  de  ser 
admirado,  passou  a  desejar  o  louvor  pelo  assombro 
da  luz  eléctrica,  das  avenidas,  dos  cáes,  de  cousas 
que  o  europeu  deve  conhecer  bem. 

Dous  mezes  depois  de  estar  no  Rio  ainda  não 
conhecia  uma  celebre  pedra,  que  muito  apparece 
em  cartões  postaes  e  denominam  Pedra  de  Itapuca. 
Nessa  pedra  de  Itapuca  de  certo  habitou  algum 
magico,  Índio,  para  que  a  photographem,  porque 
é  de  uma  banaUdade  mórbida.  Pedi,  entretanto, 
a  um  jornalista  para  lá  irmos. 

—  Vamos  antes  ver  o  Cáes. 

—  Mas  a  Pedra? 

—  Vamos  antes  ver  a  Avenida  Beira-Mar. 
Parecia  ter  medo  que  eu  insistisse.  A.o  demais, 

elles  têm  a  convicção  realmente  deliciosa  de  meni- 
neira,  aconvicçãode  que  são  os  primeiros  domundo, 
os  maiores  do  mundo  em  tudo  quanto  começam  a 
fazer  ou  mandam  fazer.  E'  uma  feição  bem  ame- 
ricana do  seu  modo  de  ser,  e  já  um  começo  de  crys- 
talisação  do  futuro  e  definitivo  typo. 

—  Já  viu  a  nossa  Avenida  Beira-Mar? 

—  Já. 

—  E'  a  maior  do  mundo,  pois  não? 
E  outro  logo  : 

—  Dizem  que  mais  bonita  que  a  de  Nice... 
Creio  que  essa  opinião  tem  o  povo  a  respeito 

também  da  Avenida  Central  e  das  outras  avenidas. 

Mas  a  esse  apego  ao  solo  e  á  obra  material  tão 

accentuado  no  carioca  corresponde  o  eterno  des- 


VIDA    VERTIGINOSA  25 

preso  pelo  trabalho  nacional  e  a  maior  irreverência 
pelos  homens  de  mérito  do  seu  paiz  desde  os  poli- 
ticos  aos  artistas.  Os  jornaes  que  se  vendem  mais 
são  os  jornaes  que  descompõem  toda  a  gente.  Não 
se  pede  a  queni  descompõe  qualquer  qualidade  que 
o  imponha.  Basta  descompor.  Parece,  aliás,  que 
esse  processo  generalisado  já  não  faz  mal.  Os  poli- 
ticos  são  todos  ladrões,  descarados,  sem  vergonhas 
desde  o  primeiro  magistrado  ao  delegado  de  poli- 
cia. Quando  deixam  os  cargos  viram  honestos  aos 
olhos  do  povo  e  não  raro  dizem  dos  que  os  insul- 
tavam na  véspera  a  mesmissima  cousa,  porque  o 
povo  é  opposicionista.  Opposicionista  curioso  pois, 
como  todo  o  agglomerado  rápido  de  raças  diversas 
num  terreno  onde  é  fácil  enriquecer,  em  matéria 
de  negócios  ha  uma  condescendência  de  costumes 
mais  ou  menos  californesca.  O  cavalheiro  chamado 
de  gatuno  de  fortunas,  está  certo  de  que  a  sua  cota- 
ção sobe.  E  os  seus  titulos  subiriam  na  pi  aça,  tal 
a  convicção  unanime  do  facto. 

Mas  é  preciso  dizer,  é  regalo  para  o  povo  clamar  : 

—  A  que  estado  chegamos  !  E'.o  cumulo  da  misé- 
ria moral.  Sucia  de  ladrões  que  nos  governam  !  Ah  ! 
o  suor  do  povo  ! 

E  esses  excessos  de  Unguagem  são  calmos,  nas 
confeitarias,  nos  botequins.  Entre  os  remediados 
corresponde  a  uma  secreta  pergunta  : 

—  E  se  também  arranjasse  alguma  cousa? 
Entre  operários,  nas  classes  Ínfimas,  não  corres- 
ponde nunca  á  idéa  de  rancor  socialista.  O  que  daria 


26  JOÃO    DO    RIO 

uma  discurseira  socialista  em  França  não  é  motivo 
para  zanga  real  entre  os  operários  de  diversas 
raças  do  Rio.  Será  que  o  socialismo  não  tenha  raises 
num  paiz  em  que  os  canteiros-ganham  15  $.  por 
dia?  Será  que  o  não  comprehendam?  Será  por  não 
acharem  de  facto,  verdade  no  que  dizem?  Talvez 
por  isso.  Ninguém  pôde  de  longe  pensar  que  esses 
administradores  patriotas  e  cheios  de  vaidade  de 
fazer  grandes  obras,  se  compromettam  em  rouba- 
lheiras ao  atirar  o  paiz  na  senda  do  progresso  com 
uma  velocidade  de  120  kilometros  por  hora.  Não 
havendo  convicções  politicas,  sendo  o  povo  de 
ganhadores  trocistas,  capazes  de  denominar  os 
negócios  agricolamente  de  cavação  e  de  qualificar 
o  facto  de  receber  dinheiro  coro  a  ajuda  do  verbo 
comer,  a  hostilidade  é  apenas  de  palavras.  Pode-se 
caçoar,  pode-se  comer.  Ninguém  se  afunda.  Ou,  se 
cáe,  é  para  resurgir  dentro  em  pouco  com  redobrado 
vigor. 

—  E'  apenas  o  sport  da  difamação,  dizia-me  um 
senhor  grave.  Entretemo-nos  com  isso  como  coro 
o  cricket,  o  lawn-tennis,  o  foot-ball.  A  honra  alheia 
é  a  bola.  E,  no  fundo,  amamos  a  bola. 

Essa  insolência  estupenda  com  que  se  tracta  o 
homem  de  governo,  insolência  muito  diversa  da 
blague  irreverente  de  Montmartre,  é  tambero  uma 
liberdade  a  mais  na  immensa  igualdade  democrá- 
tica. Ah  1  nunca  vi,  nunca  absolutamente  vi  uma 
tal  ausência  de  respeito  de  classe.  Ha  gente  que 
fala  na  Suissa.  E'  porque  nunca  estiveram  no  Rio  ! 


VIDA   VERTIGINOSA  27 

E'  a  cidade  da  intimidade  generalisada,  dos  Íntimos 
desconhecidos.  Gonhece-se  o  recem-chegado  •  pela 
sua  maneira  respeitosa.  Notando  isso,  disse-me 
alguém. 

—  Aqui  a  divisa  é  :  tão  bom  como  tão  bom.  Deante 
da  autoridade  :  Não  pode !  Em  frente  ao  mundo  : 
sabe  com  quem  está  falando?  De  modo  que  todos 
são  importantes,  sem  de  longe  pensar  que  ha 
differenças. 

E,  de  facto,  não  ha.  Os  caixeiros  de  botequim, 
os  creados  de  restaurant,  tractam  com  insolência, 
quando  não  são  familiares  com  os  freguezes.  A 
maneira  mais  comum  de  mostrar  deferência,  de 
engrossar  como  aqui  se  diz,  é  dar  um  abraço.  Os 
carregadores  falam  de  boina  á  cabeça  e  os  conti- 
nues e  os  porteiros  respondem  sentados.  Não  ha 
da  parte  dos  maltrapilhos  o  menor  receio  de  varar 
a  turba  e  ladear  um  sujeito  de  posição.  A  sensibi- 
lidade oííendida  é  mesmo  muito  maior  por  parte 
da  gentalha. 

Um  sujeito  sem  imputíbilidade  fica  ofPendido 
porque  o  trataram  mal  mais  rapidamente  que  o 
homem  importante  : 

—  O  senhor  não  me  cumprimentou  hontem. 

—  Não  vi. 

—  E',  não  viu,  os  pobres  são  despresados...  Mas 
tenho  visto  castellos  mais  altos  cahirem... 

Gastellos  mais  altos...  Sabem  o  que  é  isso?  E' 
a  ameaça  vaga  do  Destino  adverso,  é  o  terror  da 
praga,  é  como  o  fio  que  liga  invisível  o  movimento 


28  JOÃO    DO    RIO 

tempestuoso  da  turba.  Ah  !  a  crendice,  o  fetichismo, 
esse  fatalismo  assustado  do  povo  !  Ha  muitas  reli- 
giões, ha  mesmo  um  resurgimento  da  fé  catholica 
entre  varias  religiões  intellectuaes.  mas  o  terror 
das  crenças  inferiores  domina,  a  crendice  amarra 
cada  creatura.  Póde-se  dizer  que  uma  religião  é 
geral  :  o  medo  ao  Destino.  A  cidade  tem  mais  de 
trezentas  cartomantes  e  outro  tanto  de  videntes, 
archontes,  espiritas  que  se  encarregam  de  ler  o 
futuro,  de  fazer  receitas  e  rezas  e  mandigas  e  feiti- 
ços. As  casas  estão  sempre  cheias.  A  praga  assusta, 
o  máo  olhado  atterrorisa,  a  sorte,  o  azar  dominam. 
E  podia  ser  de  outro  modo?  A  immigração  por- 
tugueza  vem  na  quasi  totahdade  das  províncias 
do  norte,  onde  é  desenvolvido  mais  do  que  em 
nenhum  outro  ponto  de  Portugal  o  que  se  chama 
o  terror  das  velhas  bruxas.  A  immigração  ita- 
liano tem  todo  esse  paganismo  crente  de  figas  e 
jettarutas.  Os  pretos  importados  da  Africa  infil- 
traram nas  gerações  a  miséria  das  suas  praticas. 
Junte-se  a  isso  o  estado  de  alma  inquieta  de  cada 
typo,  a  ambição  de  fazer  fortuna,  de  ganhar  muito 
depressa.  Um  homem  nessa  tensão  de  espirito  é  o 
terreno  próprio  para  todas  as  crenças  do  Azar... 

—  Fui  a  uma  cartomante  que  assegurou  a  reali- 
sação  de  nosso  negocio. 

—  Mas  você  acredita  em  cartomantes? 

—  Pelo  menos  dá-me  esperanças,  dá-me  forças. 

—  E  se  ella  dissesse  o  contrario? 

—  Eu  tentava,  a  ver  se  é  mesmo  verdade... 


VIDA    VERTIGINOSA  29 

Um  pouco  chocado  com  a  intimidade  geral,  o 
«  você  »  e  o  «  tu  ))  de  desconhecidos  de  hontem,  o 
ar  dos  creados  cheios  de  importância,  a  verda- 
deira insolência  com  que  as  classes  baixas  passeiam, 
a  competência  que  qualquer  individuo  se  arroga 
para  discutir  os  mais  variados  assumptos,  o  ar 
«  je  sais  tout  »  que  é  fatal  encontrar  no  barbeiro, 
no  taberneiro,  no  sujeito  pernóstico  empregado  de 
repartição,  capoeira  eleitoral  ou  copeiro,  no  til- 
bureiro,  no  carregador,  no  hoteleiro,  no  menino  do 
commercio,  no  garoto  descalço,  nas  damas,  nos 
homens,  essa  convicção  « larousse  »,  —  fica-se  um 
momento  irritado.  Caramba !  E'  ousadia,  é  topete 
de  mais !  Mas  logo  depois  é  forçoso  sorrir.  Basta 
prestar  attenção  ás  discussões  —  (porque  em  vez  de 
conversar  mais  commumente  se  discute.  As  dis- 
cussões terminam  sempre  por  phrases  cortantes  : 

—  Você  não  entende  nada  disso. 

—  E  é  você  que  entende?  Ora  não  seja  besta. 

—  Besta  é  você... 

Realmente  nem  um  nem  outro  são  bestas. 
Realmente  nem  um  nem  outro  conhecem  o 
assumpto  que  discutem  :  o  vendeiro  que  fala  de 
litteratura,  o  estudante  que  dá  opiniões  musicaes, 
o  bombeiro  que  é  positivista  depois  de  assistir  a 
umas  conferencias  do  Sr.  Teixeira  Mendes,  o  actor 
com  decretos  politicos.  Mas  esse  ar  de  igualdade 
esse  mascarar  de  ignorância  com  o  aspecto  do  «  je 
sais  tout  »,  esse  tom  trepidante,  os  Ímpetos  do 
progresso  por  accessos  febris  —  tudo  isso  é  a  ousa- 

2. 


30  JOÃO    DO    RIO 

dia,  a  divina  ousadia  da  mocidade  que  na  Europa 
perdemos.  Falta  methodo,  uma  anarchia  colossal 
dá  a  impressão  de  pandemonio.  Mas  é  a  formação 
e  a  formação  com  uma  força  de  intelligencia  ins- 
tinctiva.  verdadeiramente  inédita.  E'  possível 
dizer  : 

—  Que  pessoal  pernóstico ! 
Mas  é  justo  assegurar : 

—  E'  uma  das  cidades  intelligentes,  das  mais 
intelligentes. 

Porque  a  intelligencia  de  uma  cidade  é  um  dom 
que  se  avalia  pelo  seu  interesse  em  querer  saber. 
Só  uma  cidade  apparece  intellectual  no  mundo  : 
é  Roma. 

Certo,  não  é  possível  esconder  a  muito  forte 
sympathia  que  os  caracteres  principaes  do  povo 
carioca  me  causaram.  Não  sei  se  seria  pretencioso 
lembrando  o  prefacio  de  La  Bruyère  : 

«  Je  rends  au  public  ce  qu'il  m'a  prêté,  j'ai 
emprunté  de  lui  la  matière  de  cet  ouvrage,  il  est 
juste  que,  Tayant  aclievé  avec  toute  Tattention 
pour  la  vérité  dont  je  suis  capable  et  qu'il  mérite 
de  moi,  je  lui  en  fasse  la  restitution.  II  peut  regar- 
der  avec  loisir  ce  portrait  que  j'ai  fait  de  lui  d'après 
nature,  et,  s'il  se  connait  quelques-uns  des  défauts 
que  je  touche,  s'en  corriger  ». 

Arrisco,  entretanto  a  pretenção.  Mesmo  porque 
todos  de  cá,  com  raras  excepções,  são  temivel- 
mente  pretenciosos  no  bom  sentido  em  geral. 
Apenas,  se  me  perguntarem  :  «  E  o  lado  esthetico? 


VIDA    VERTIGINOSA  31 

E'  bonito  o  povo?  A  impressão?  »  eu  direi  com 
tristeza  : 

—  Não.  A  impressão  geral  do  povo  é  feia.  Vi 
multidões  e  multidões  de  noite  e  de  dia  em  mani- 
festações politicas.  E'  um  povo  misturado  que  se 
resente  da  falta  de  exercicios  physicos  e  do  excesso 
de  pince-nez.  Em  geral  os  homens  vestem  sem 
gosto,  são  curvados,  pallidos.  O  brasileiro  é  mesmo 
magro,  secco.  Nas  grandes  massas,  as  caras  sua- 
rentas  em  que  os  brancos  são  accentuados  por 
caras  pretas  e  amarellas,  em  que  se  vê  uma  quan- 
tidade de  pés  nus,  de  homens  em  tamancos  ou 
em  chinellas  —  não  é  agradável. 

Mas  ainda  ahi  o  momento  é  transformador, 
porque  os  exercicios  physicos  preoccupam,  os 
pince-nez  diminuem,  e  até  já  se  falia  em  obrigar 
os  homens  a  andarem  calçados  contra  a  liberdade 
do  «  não  pôde !  »  geral. 

E  eu  que  pretendia  partir,  dous  dias  depois 
de  chegar,  trato  o  gerente  de  você,  o  creado  de 
«  tu  )),  já  abraço  vários  Íntimos  quasi  des- 
conhecidos, acompanho  um  francez  meu  cicerone 
a  uma  secretaria  onde  tem  um,  negocio  muito 
complicado  de  usinas  metallurgicas  para  a  utili- 
sação  do  ferro... 

E'  a  pátria  joven.  Comprenhendo  o  calor.  Não 
é  de  sol.  E'  da  multidão  aquecida  pelo  torvelinho 
da  vida  intensa  que  vai  produzir  un  grande  paiz. 
Ainda  neste  momento  leio  que  um  navio  acabado 
de  construir  é  o  maior  do  mundo  : 


32  JOÀO    DO    RIO 

Pretenção?  Não  !  Elles  talvez  não  saibam  que 
não  é.  Juventude!  Juventude  apenas,  a  gloiia  da 
mocidade ! 

E  o  estrangeiro,  a  sorrir,  concluiu  : 
--  O  grande  momento  em  que  se   forma  um 
povo ! 


o   Amigo  dos   Estrangeiros 


o  AMIGO  DOS  ESTRANGEIROS 


■ —  Peimitte  que  o  apresente?... 

—  Oh  !  por  quem  é  ! 

—  O  sr.  Gicrano,  um  dos  nossos  homens  mais 
apreciáveis.  Estes  cavalheiros  e  estas  damas  já 
devem  ser  seus  conhecidos. 

—  Sim,  talvez... 

—  Não  ha  duvida  alguma.  São  mesmo.  O  capitão 
japonez  Iro  Kojú.  a  conferente  filandeza  Hips 
Heps,  o  joven  pachá  turco  Muezim,  el  sehor  Goros- 
tiaga  nuestro  amico  dei  Plata,  Mlle  Glavein,  la 
charmante  virtuose  des  danses  árabes,  miss  Gun- 
ther,  the  admirable  miss  Gunther... 

E'  na  rua.  O  sr.  Gicrano  faz  muito  atrapalhado 
um  gesto  esquivo,  de  quem  não  sabe  o  que  ha  de 
dizer.  O  grupinho  internacional  sacode  a  cabeça 
indeciso,  com  esses  sorrisos  de  dançarina  que  nada 
exprimem.  O  amigo  dos  estrangeiros,  o  olho 
redondo,  o  gesto  redondo,  a  bocca  redonda,  é  o 
único  á  vontade.  Esfrega  as  mãos,  espera  um 
segundo,  e  liga  a  conversação  : 

—  Pois  sim  senhor!  A  sra.  Hips  Heps  gostou 
muito    do    Gorcovado. 


36  JOÃO    DO    RIO 

—  Ah  i  muito  bem. 

—  It  is  not,  miss? 

—  Ali  right,  very  beautiful... 

—  E  O  sr.  Gorostiaga  a  Beira  Mar... 

—  Es  verdad.  Mi  quede  extactico,  senor ! 

—  Ah !  muito  obrigado. 

O  amigo  dos  estrangeiros  estala  uma  gargalhada 
fehz. 

—  Ah  !  senhor  Cicrano,  estou  convencido  que 
a  nossa  capitpl  é  uma  das  primeiras  do  mundo  ! 

—  Sin  duda  !  exclama  Gorostiaga. 

—  Mais  naturellement...  sorri  a  virtuose  das 
danças  árabes. 

O  amigo  dos  estrangeiros  ainda  está  uns  segun- 
dos. Depois  dá  o  signal  da  partida.  O  sr.  Cicrano, 
alliviado,  aperta  aquellas  mãos  que  nunca  mais 
apertará  e  já  não  sabem  por  quem  são  apertadas. 
Passos  adeante,  o  amigo  dos  extrangeiros  descobre 
Beltrano,   outro  amigo   : 

—  Esperem  que  lhes  vou  apresentar  Beltrano. 
Querem? 

—  ...  prazer  !  diz  em  massa  e  entre  dentes  o  bloco 
dos  touristes. 

—  Ainda  temos  tempo.  Falta  meia  hora  só  para  to- 
mar o  vapor  e  eu  consegui  duas  lanchas  com  o  inspec- 
tor da  policia  maritima,  a  quem  pretendo  apresen- 
tal-os. 

E  inclemente,  o  amigo  dos  estrangeiros  segura 
Beltrano  pela  aba  do  casaco. 
Quem  é  esse  curioso  homem  amável?   Porque 


VIDA    VERTIGI>'OSA  37 

uma  tal  temosia  recreativa?  E'  inútil  inviagar.  O 
amigo  dos  extrangeiros  representa  um  ponto  de 
interferência  entre  a  velha  cidade  patriarchal  e 
hospitaleira  e  a  nova  cidade  vertiginosa.  Elle 
pôde  julgar-se  como  qualquer  de  nós  um  simples 
cavalheiro  gentil,  um  pouco  gentil  de  mais.  Nós 
não  poderemos  ter  essa  modéstia  de  cla?sificação. 
O  amigo  dos  estrangeiros  é  uma  figura  social, 
creada  num  certo  momento  pelo  Destino  em 
pessoa.  Elle  só,  sósinho,  resume  o  acolhimento  das 
cidades  novas  desejosas  de  serem  gabadas  pelos 
representantes  das  antigas  civilizações :  elle  só 
exprime  e  condensa  uma  semana  oííiciaí;  elle  só 
explica  aquelle  commentario  do  ironista  francez 
após  uma  visita  a  America  : 

—  lis  sont  charmants,  mais  qu'ils  sont  assom- 
mants ! 

O  amigo  dos  estrangeiros  parece  riào  viver 
como  os  mais,  parece  não  ter  afazeres.  Breoccu- 
pações,  necessidades,  além  do  afazer,  da  preoccu- 
pação,  da  necessidade  de  encontrar  estrangeiros 
e  de  enchel-os  de  gentilezas.  Também  é  prodigioso, 
é  incomparável.  O  seu  faro  policial,  o  seu  instincto 
sherlockeano  não  poderão  ter  jamais  rival.  Numa 
cidade  em  que  o  brasileiro  é  apenas  grande  colónia, 
num  porto  de  mai  visitado  por  centenas  de  navios 
de  todas  as  procedências,  elle  sabe  descobrir  o 
estrangeiro  recém -chegado,  sabe  apanhar  o 
estrangeiro  com  cartão  de  visita,  sabf  encon- 
trar   nos  hotéis,   nas   ruas,   em    outros  Jogares  a 

3 


38  JOÃO    DO    RIO 

victima  peregrina.  Os  estrangeiros  háo  de   dizer: 

—  Mas  que  liomem  amável !  E  como  elle  conhece 
gente ! 

O  amigo  dos  estrangeiros  encontrou-os,  trocou 
bilhetes  de  visita,  pediu  informações  e  apresenta- 
os  sem  mais  perguntas  a  quantos  topa. 

Os  nacionaes,  que  com  elle  têm  pouca  intimi- 
dade e  só  o  conhecem  através  daquellas  imperati- 
vas apresentações,  tiram-lhe  o  chapéo  com  immenso 
respeito. 

—  Diabo!  um  sujeito  que  conhece  o  mundo 
inteiro... 

Elle  entretanto  é  uma  flor,  obrando  por  bondade, 
agindo  por  instincto.  Um  poder  superior  exige  do 
seu  bom  coração  aquelle  esforço  gratuito  e  mesmo 
dispendioso  —  porque  para  ser  hospitaleiro  ás 
direitas  o  amigo  dos  estrangeiros  paga  jantares, 
paga  almoços,  paga  ceias,  paga  automóveis.  Ha 
quem,  sorria  da  sua  missão  —  os  frívolos.  Os  obser- 
vadores admiram-n*o.  Uma  conversa  de  meia  hora 
com  tão  importante  figura  internacional  dá  bem 
a  medida  do  progresso  do  Brasil,  da  corrente  de 
curiosidade  que  pelo  nosso  paiz  se  faz  no  mundo. 
Xunca  o  encontramos  sem  um  cacho  de  estran- 
geiros de  nome.  São  bacharéis  de  Coimbra,  são 
oíficiaes  de  marinha,  são  filhos  de  millionarios 
americanos,  são  doutores  das  universidades  alle- 
mãs,  são  banqueiros  russos,  estudantes  francezes, 
conferentes  de  varias  nacionalidades,  industriaes 
de  todas  as  terras,  velhas  damas  literatas,  actrizes 


VIDA    VERTIGINOSA  39 

com  011  sem  renome.  Não  diz  bom  dia  sem  despejar 
dos  bolsos  alguns  estrangeiros,  não  nos  aperta  a 
mão  sem  nos  deixar  na  companhia  de  alguma  per- 
sonalidade desejosa  de  conhecer  o  nosso  paiz. 
Essa  condição  especial  deu-lhe  uma  segurança, 
uma  autoridade  verdadeiramente  brilhantes.  Elle 
apparece  pelos  theatros  guiando  um  bando  cos- 
mopolita, entra  sem  dar  satisfacção  ao  porteiro 
e  dirige-se  ao  empresário. 

—  Trago  aqui  alguns  estrangeiros  illustres  que 
desejam  visitar  as  nossas  casas  de  espectáculo. 
Já  de  certo  ouviu  falar  nelles.  E'  o  celebre  nadador 
P'loureus,  campeão  do  mundo,  é  o  senador  da 
Libéria  Gomide,  é  o  chefe  zulu  Togomú.  Meus  se- 
nhores, o  distincto  empresário,  um  dos  nossos  mais 
distinctos    empresários. 

O  empresário  aturdido  cumprimenta.  O  amigo 
dos  estrangeiros  põe-lhe  a  mão  no  hombro. 

—  Vae  ter  a  gentiliza  de  mandar-nos  abrir  um 
camarote  para  mostrar-lhes  de  como  também  temos 
theatro,  não  é  ?  Os  senhores  vão  ver  uma  opereta 
que  aqui  tem  feito  muito  successo. 

—  Brasileira? 

—  Não,  universal  :  a  Vim^a  Alegre. 

—  Olé  !  muito  interessante... 

—  Conhecem? 

O  empresário  não  tem  remédio  sinão  mandar 
abrir  o  camarote.  Os  estrangeiros  não  têm  remé- 
dio, sinão  ouvir  mais  uma  vez  a  valsa  fatal  que  sôa 
aos  ouvidos  da  humanidade,  cantada  e  guinchada  ha 


40  JOÃO    DO    RIO 

muitissimos  mezes.  O  amigo  dos  estrangeiros,  porem, 
irradia,  tendo  conseguido  mais  umaprova de  hospita- 
lidade, sem  poupar  sacrifícios,  e  subindo  as  es- 
cadas :  • 

—  Os  nossos  empresários  são  como  este,  encanta- 
dores. 

—  Não  ha  duvida,  dizem  as  victimas,  monolo- 
gando internamente  :  raios  o  partam ! 

Mas  a  hospitalidade  é  isso,  a  hospitaUdade  é 
uma  tradição  aborrecidissima,  e  o  amigo  dos 
estrangeiros  é  o  mais  caceteado  e  sempre  a  sorrir. 
Ha  cinco  annos  diariamente  passeia  de  automóvel 
do  Cáes  do  Porto  ao  recinto  da  Exposição  ouvindo 
em  todas  as  linguas  as  mesmas  phrases  de  admira- 
ção pela  belleza  da  paisagem.  Ha  cinco  annos  dia- 
riamente mostra  á  Avenida  Central  e  as  novas 
avenidas.  Ha  cinco  annos,  diariamente  leva  a  thea- 
tros  e  a  clubs  personalidades  de  outras  terras.  São 
tantos   que  ás  vezes  confunde. 

—  O  príncipe  magyar  Za  Konnine  disse  que  a 
Avenida  é  a  mais  bella  do  mundo. 

—  Seriamente? 

—  Não  sei  ao  certo  si  foi  o  príncipe  Za  Konnine, 
si  a  condessa  russa  Trepoff,  si  o  bailarino  exótico 
Balduino,  si  o  encarregado  de  negócios  do  grão 
ducado  de  Baden. 

— •  Grave  problema  hein? 

—  Si  lhe  parece  !  Mas  foi  um  delles,  foi  uma 
pessoa  estrangeira  notável. 

E  sorri  vagamente  inquieto.  Quantas  complica- 


VIDA    VERTIGINOSA  41 

ções  não  poderão  advir  d'aquella  falta  de  seguran- 
ça !... 

O  amigo  dos  estrangeiros  está  convencido  de 
que  presta  um  alto  serviço  gratuito  á  pátria,  que 
é  o  chefe  e  único  funccionario  da  repartição  de 
propaganda  ainda  por  fundar.  Por  isso  explica 
sempre  mais  ou  menos  o  motivo  porque  conduz  os 
desembarcados.  Si  são  chilenos  aperta  os  laços 
fraternaes;  si  americanos  do  norte,  canaliza  para 
nós  grandes  capitães;  si  japonezes,  mostra  ao 
gigante  do  oriente  que  gigantes  somos  nós;  si 
inglezes,  allemães,  francezes  completa  a  obra  de 
missão  de  expansão  económica  realizada  na  Europa. 
Nada  mais  commovente  do  que  vel-o  gosar  as 
palavras  de  banal  gentileza  dos  que  cicerona.  Os 
seus  olhitos  redondos  acompanham  os  menores 
gestos,  sorprehendem  os  mais  breves  movimentos, 
indagam  com  uma  perpetua  desconfiança  logo 
excessivamente  agradecida.  A'  exclamação  :  — 
como  é  lindo  !  —  seja  em  que  lingua  fôr,  sorri,  cheio 
de  vaidade  : 

—  Então,  que  lhes  dizia  eu? 

Parece  que  os  estrangeiros  estão  a  gabar  uma 
cousa  sua.  Em  noventa  e  nove  casos  sobre  cem  os 
estrangeiros  farejam  o  fácil  negocio  de  ganhar 
dinheiro  apenas  com  promessas  de  trabalhos 
demonstrativos  da  sua  admiração  crescente.  Cré- 
dulo e  bom,  o  amigo  dos  estrangeiros  interessa-se 
por  elles,  leva-os  aos  jornaes,  aos  ministérios,  á 
sociedade. 


42  JOÃO    DO    RIO 

E  diz  com  convicção  : 

—  Sabe  que  vamos  ter  um  livro  muito  sincero  a 
nosso  respeito? 

—  De  quem? 

—  Daquelle  jornalista  belga. 

—  Mas  você  é  criança ! 

—  Criança?  Si  elle  me  deu  a  sua  palavra  de  honra  ! 
O  estrangeiro  não  escreve  uma  linha.  O  homem 

extraordinário  conserva-se  sorridente  e  puro,  na 
sua  missão  superior.  Si  outros  repetem  a  mesma 
historia,  o  amigo  dos  estrangeiros  continua  a  sorrir 
satisfeito  e  quando  muito  faz  allusões  vagas  aos  no- 
táveis que  por  cá  andaram  sem  escrever  uma  linha. 

—  O  sr.  deve  conhecer  o  Doumer? 

—  Muito  bem,  mr.  Doumer. 

—  Pois  andou  por  cá,  disse  que  ia  fazer  um  livro 
em  dois  volumes. 

—  Não  fez? 

—  E  arranjou  até  —  feu  não  sei,  é  segundo 
dizem  !)  —  uns  bons  cobres. 

Para  elle  no  fundo  os  estrangeiros  são  todos 
parentes  e  não  tem  vontade  nenhuma  de  ofíendel- 
os.  Até  aos  argentinos  faz  amabilidades.  Quando 
perde  uma  caravana  fica  cor  de  terra,  perde  a  fala 
de  raiva. 

—  Eu  bem.  digo  !...  Levar  os  estrangeiros  pelo 
Estacio  a  Tijuca. 

—  Então? 

—  Para  ver  ruas  empoeiradas !  Essa  gente  não 
entende  mesmo. 


VIDA    VERTIGINOSA  4^ 

Depois,  sorrindo  com  aííectado  desprezo  : 

—  Eu  por  mim,  não  me  importo.  Sua  alma,  sua 
palma. 

Encontrei  liontem  o  bom  amigo  dos  extrangeiros. 
Vinha  suando,  redondo,  acompanhado  de  cinco 
homens   todos   estrangeiros.    Estava   exhausto. 

—  Mas  então  sempre  na  lida? 

—  Que  se  ha  de  fazer?  Estou  que  não  posso 
mais. 

—  Descanse. 

—  Impossivel.  Acabo  de  receber  cartas  de  recom- 
mendação  que  me  tomam  o  tempo  até  o  fim  do 
anno. 

—  Gomo  assim? 

—  E'  que  os  estrangeiros  de  passagem  só  encon- 
trando aqui  um  homem  amável,  que  sou  eu,  guar- 
dam o  meu  nome  e  recommendam-me  depois  os 
amigos. 

—  De  modo  que  você  fica  uma  espécie  de  cônsul 
universal? 

—  Mais  ou  menos.  Gomo  descançar?  E'  impossi- 
vel. 

—  Sim,  é  diííicil.  A  menos  que  não  queira  mor- 
rer. 

O  amigo  dos  estrangeiros  sorriu,   desconsolado. 
Os  estrangeiros,  os  últimos  cinco,  estavam   impa- 
cientes. 
•    —  Você  permitte  que  os  apresente? 

—  Não. 

—  Por  que?  • 


44  JOÃO    DO    RIO 

—  Porque  não  quero. 

—  Não  me  faça  isso.  E'  gente  de  primeira.  Vou 
leval-os  ao  ministério  ! 

E  sorrindo,  o  amigo  curioso,  ergueu  a  voz. 

—  Aqui  este  distincto  periodista  que  já  ouviu 
muito  falar  dos  senhores. 

—  Oh !    monsieur... 

—  Monsieur... 

—  Mei  ei,  journahste...  Aqui  o  reverendo  Schmidt 

de  onde  mesmo?  Aqui  o  sr o  sr....  o  sr.  como  é 

mesmo  •:•  seu  nome?...  O  sr.  Berjanac,  é  verdade. 
Tão   conhecido !    Já  fomos   ás  obras  do   Porto. 
Tiveram  uma  excellente  impressão. 

—  Mais  certainement... 

Olhei  o  amigo  dos  estrangeiros.  Elle  dizia  aquillo 
com  a  mesma  cara  com  que  ha  cinco  annos  o  mesmo 
repete  '  Era  uma  vocação  !  Era  um  predestinado  1 
Era  espantoso  !  E  mais  uma  vez  eu  o  considerei  na 
galeria  dos  representativos  das  tendências  moraes 
de  um  paiz.  um  typo  excepcional,  um  typo  que 
os  deuses  faziam  único  e  symbolico. 


o   Chá  e  as  visitas 


o  CHÃ  E  AS  VISITAS 


A  vida  nervosa  e  febril  traz  a  transformação 
súbita  dos  hábitos  urbanos.  Desde  que  ha  mais 
dinheiro  e  mais  probabihdades  de  ganhal-o,  —  ha 
mais  conforto  e  maior  desejo  de  adaptar  a  elegância 
estrangeira.  A  ininterrupta  estação  de  sói  e  chuva 
-de  todo  anno  é  dividida  de  accordo  com  o  proto- 
collo  mundano;  o  jantar  passou  irrevogavelmente 
para  a  noite.  Todos  tem  muito  que  fazer  e  os 
deveres  sociaes  são  uma  obrigação. 

—  Em  que  occupará  a  minha  amiga  o  seu  dia 
úe  hoje? 

—  A  massagista,  ás  9  horas,  seguida  de  um 
banho  tépido  com  essência  de  jasmin.  Aula  pratica 
de  ingléz  ás  10.  AU  right !  Almoço  á  ingleza.  Muito 
chá.  Toilette.  Costureiro.  Visita  a  Fulana.  Dia  de 
Cicrana.  Chá  de  Beltrana.  Conferencia  literária. 
Chá  na  Cave.  Casa.  Toilette  para  o  jantar.  Theatro. 
Recepção  seguida  de  baile  na  casa  do  general... 

Não  se  pôde  dizer  que  uma  carioca  não  tem  occu- 
pações  no  inverno.  E'  uma  vida  de  terceira  veloci- 


48  JOÃO    DO    RIO 

lade  extra-urbana.  Mas  também  todos  os  velhos 
e  todas  as  velhas  que  se  permittem  ainda  existir, 
não  contém  a  admiração  e  o  pasmo  pela  transfor- 
mação de  magica  dos  nossos  costumes.  E  a  trans- 
formação súbita,  essa  transformação  que  nós 
mesmos  ainda  não  avaliamos  bem,  feita  assim  de 
repente  no  alçapão  do  Tempo,  foi  operada  essen- 
cialmente pelo  Chá  e  pelas  Visitas. 

Sim,  no  Chá  e  nas  Visitas  é  que  está  toda  a  revo- 
lução dos  costumes  sociaes  da  cidade  neste  interes- 
santissimo  começo  do  século. 

Ha  dez  annos  o  Rio  não  tomava  chásenão  á 
noite,  com  torradas,  em  casa  das  familias  bur- 
guezas.  Era  quasi  sempre  um  chá  detestável.  Mas 
assim  como  conquistou  Londres  e  tomou  conta  de 
Paris,  o  chá  estava  apenas  á  espera  das  avenidas 
para  se  apossar  do  carioca.  Ha  dez  annos,  minutos 
depois  de  entrar  numa  casa  era  certo  apparecer  um 
moleque,  tendo  na  salva  de  prata  uma  canequinha 
de  café  : 

—  E'  servido  de  um  pouco  de  café? 

O  café  era  uma  espécie  de  colchete  da  sociabi- 
lidade no  lar  e  de  incentivo  na  rua.  Assim,  como 
sem  vontade  o  homem  era  obrigado  a  beber  café 
em  cada  casa,  o  café  servia  nos  botequins  para 
quando  estava  suado,  para  quando  estava  fatigado, 
para  quando  não  tinha  o  que  fazer  —  para  tudo 
emfim. 

Foi  então  que  appareceu  o  Chá,  impondo-se 
habito  social.  As  mulheres  —  como  em  Londres, 


VIDA    VERTIGINOSA  49 

como  em  Paris  —  tomaram  o  partido  do  Gliá.  O 
amor  é  como  o  chá,  escreveu  Ibsen.  O  chá  é  o 
oriente  exótico,  escreveu  Loti.  As  mulheres  amam 
o  amor  e  o  exotismo.  Amaram  o  chá,  e  obrigaram  os 
homens  a  amal-o.  Hoje  toma-se  chá  a  toda  a  hora 
com  creme,  com  essências  fortes,  com  e  sem  assu- 
car,  frio,  quente,  de  toda  a  maneira,  mas  sempre  chá. 
O  chá  excita  a  eneigia  vital,  facilita  a  palestra,  dá 
espirito  a  quem  não  o  tem-e  são  tantos  !...  —  dizem 
mesmo  que  é  indulgente,  engana  a  fome  e  diminue 
o  appetite.  Quando  as  damas  são  gordas,  o  chá 
emagrece,  quando  as  damas  são  magras  dá-lhes 
com  o  seu  abuso,  sensações  de  frialdade  cutânea,  um 
vago  mal  estar  nervoso,  que  é  de  um  encanto  ultra 
moderno.  Por  isso  toda  a  gente  toma  chá. 

—  Onde  vae? 

—  Tomar  um  pouco  de  chá.  Estou  esfomeado  1 

—  Mas  que  pressa  é  esta? 

—  Quatro  horas,  meu  filho,  a  hora  do  fiç^e-o- 
clock  da  condessa  Adrianna!... 

O  chá  é  distincto,  é  elegante,  favorece  a  conversa 
frívola  e  o  amor  que  cada  vez  mais  não  passa  de 
flirt.  E'  inconcebivel  um  idyllio  entre  duas  chica- 
ras  de  café.  Não  houve  romancista  indigena,  nem 
mesmo  o  fallecido  Alencar,  nem  mesmo  o  bom 
Macedo,  com  coragem  de  começar  uma  scena  de 
amor  deante  de  uma  cafeteira.  Entretanto  o  chá 
parece  ter  sido  apanhado  na  China  e  servido  a  qua- 
tro ou  cinco  infusões  de  mandarins  opulentos,  espe- 
cialmente para  perfumar  depois  de  modo  vago  o 


50  JOÃO    DO    RIO 

amor  moderno.  Por  isso  vale  a  pena  ir  a  um  chá,  a 
um  tea  room. 

Ha  ranchos  de  moças  de  vestes  claras,  rindo  e 
gozando  o  chá;  ha  mesas  com  estrangeiros  e  com 
velhas  governantas  estrangeiras,  ha  lugares  occu- 
pados  só  por  homens  que  vão  namorar  de  longe,  ha 
rodas  de  cocottes  cotadas  ao  lado  da  gente  do  escol. 
Tudo  ri.  Todos  se  conhecem.  Todos  falam  mal  uns 
dos  outros.  A's  vezes  fala-se  de  uma  mesa  para 
outra;  ás  vezes  ha  mesas  com  uma  pessoa  só,  espe- 
rando mais  alguém,  e  o  que  era  impossível  á  porta 
de  um  botequim,  ou  á  porta  grosseira  de  uma  con- 
feitaria, é  perfeitamente  admissível  á  porta  de 
um  Chá. 

—  Dar-me-á  V.  Ex.  a  honra  de  offerecer-lhe  o 
■chá? 

—  Mas,  com  prazer.  Morro  de  fome... 

E  dois  dias  depois,  elle,  que  esperou  vinte  minu- 
tos, na  esquina  : 

—  Mas  o  Destino  protege-me  !  Chegamos  sem- 
pre á  mesma  hora  para  o  nosso  chá... 

O  nosso  chá  !  O  chá  faz  a  reputação  de  uma  dona 
de  casa.  Nos  tempos  de  antanho,  uma  boa  dona  de 
casa  era  a  senhora  que  sabia  coser,  lavar,  engom- 
mar  e  vestir  as  creanças.  Hoje  é  a  dama  que  serve 
melhor  o  chá,  e  que  tem  com  mais  chie  —  son  four, 
para  reter  um  pouco  mais  as  visitas. 

Si  accordassemos  uma  titular  do  império  do 
repouso  da  tumba  para  passeial-a  pelo  Rio  trans- 
formado —  era  quasi  certo  que  essa  senhora,  com 


VIDA    VERTIGINOSA  51 

tanto  chá  e  tantos  salões  que  recebem,  morreria 
outra  vez. 

Ha  talvez  mais  salões  que  recebam  do  que  gente 
para  beber  chá.  Diariamente  as  secções  mundanas 
dos  jornaes  abrem  noticias  communicando  os  dias 
de  recepção  de  diversas  senhoras,  de  Botafogo  ao 
Gajú.  Toda  a  dama  que  se  presa  e  não  ha  dama  ou 
cavalheiro  sem  uma  alevantada  noção  da  própria 
pessoa  —  tem  o  seu  dia  de  recepção  e  a  sua  hora. 
Algumas  concedem  a  tarde  inteira,  e  outras  dão 
dois  dias  na  semana.  Ha  pequenos  grupos  de  amigos 
que  se  apropriam  da  semana  e  se  distribuem  mutua- 
mente os  dias  e  as  horas.  De  modo  que  o  elegante 
mundano  com  um  circulo  vasto  de  relações,  isto  é, 
tendo  relações  com  alguns  pequenos  grupos,  fica 
perplexo  deante  da  obrigação  de  ir  a  três  ou  quatro 
salões  á  mesma  hora,  ficando  um  nas  Laranjeiras, 
outro  na  Gávea,  outro  em  S.  Ghristovão  e  outro 
em  Paula  Mattos,  —  bairro  talvez  modesto  quando 
por  lá  não  passava  o  eléctrico  de  Santa  Thereza... 
Outr'ora  só  se  davam  o  luxo  de  ter  dias,  o  seu  «  dia» 
as  damas  altamente  cotadas  da  corte. 

O  mesmo  acontecia  na  França,  antes  de  Luiz  XVI 
A  visita  era  imprevista,  e  sem  pose. 

Ouvia-se  bater  á  porta  : 

—  Vae  ver  quem  é? 

—  E'  D.  Zulmira,  sim  senhora,  com  toda  a  fami- 
ha. 

Havia  um  alvoroço.  Apenas  dez  da  manhã  e  já  a 
Zulmira !  E  entrava  D.  Zulmira,  esposa  do  nego- 


52  JOÃO    DO    RIO 

ciante  ou  do  funccionario  Leitão,  com  as  tres  filhas, 
os  quatro  filhos,  o  so  brinho,  a  cria,  o  cachorrinho. 

—  Você?  Bons  ventos  a  tragam !  Que  sumiço ! 
Pensei  que  estivesse  zangada. 

—  Qual,  filha,  trabalhos,  os  filhos.  Mas  hoje 
venho  passar  o  dia,  Leitão  virá  jantar... 

E  ficava  tudo  á  vontade.  As  senhoras  vestiam  as 
matinées  das  pessoas  de  casa,  as  meninas  faziam 
concursos  de  doces,  os  meninos  tomavam  banho 
juntos  no  tanque  e  indigestões  coUectivas.  A's  cinco 
chegava  o  Leitão  com  a  roupa  do  trabalho  e  ia  logo 
lavar-se  á  toilette  da  dona  da  casa,  o  quarto  pa- 
triarchal  da  familia  brasileira,  tão  modesto  e  tão 
sem  pretenções...  Só  ás  onze  da  noite  o  rancho 
partia  ou  pensava  em  partir^  porque  ás  vezes  a  dona 
da  casa  indagava. 

—  E  si  vocês  dormissem... 

—  Qual!  Vamos  desarranjar... 

—  Por  nós,  não  !  E'  até  prazer. 

E  dormiam  mesmo  e  passavam,  um,  dois,  tres 
dias,  e  as  despedidas  eram  mais  enternecidas  do  que 
para  uma  viagem. 

Hoje  só  um  doido  pensa  em  passar  dias  na  casa 
alheia.  Passar  dias  com  tanto  •  trabalho  e  tantas 
visitas  a  fazer !  Só  a  expressão,  —  passar  dias  é 
impertinente.  Não  se  passa  dias  nem  se  vae  comer 
á  casa  alheia  sem  prévio  convite.  Adeus  a  bonho- 
mia  primitiva,  a  babosa  selvageria.  Vae-se  cum- 
prir um  dever  de  cortezia  e  manter  uma  relação  de 
certo  clan  social  que  nos  dá  ambiente  em  publico 


VIDA    VERTIGINOSA  53 

com  as  senhoras  e  prováveis  negócios  com  os  mari- 
dos. As  damas  elegantes  tem  o  «  seu  dia».  Ha  tem- 
pos ainda  havia  um  criado  bisonho  para  vir  dizer. 

—  Está  ahi  o  Dr.  Fulano. 

Agora,  o  Dr.  Fulano  tem  as  portas  abertas  pelo 
criado  sem  palavras  e  entra  no  salão  sem  espalha- 
fato. Os  cumprimentos  são  breves.  Raramente 
aperta-se  a  mão  das  damas.  Ha  sempre  chá,  petits 
fours^  e  esse  allucinante  tormento  mundano  cha- 
mado bridge.  Muitos  prestam  attenção  ao  bridge. 
Falla-se  um  pouco  mal  do  próximo  com  o  ar  de 
quem  está  fallando  da  temperatura  e  renovam-se 
três  ou  quatro  repetições  de  idéas  que  agitam 
aquelles  cerebrozinhos. 

Depois  um  cumprimento,  um  shake-hands  per- 
dido, ondulações  de  reposteiros.  Quanto  menos 
demora  mais  elegância.  Vinte  minutos  são  um  en- 
canto. Uma  hora,  o  chie.  Duas  horas  só  para  os 
Íntimos,  os  que  jogam  bridge.  Esses  levam  mesmo 
mais  tempo.  E  sae-se  satisfeito  com  o  sufficiente  de 
flirt,  de  mundanice,  de  dever,  de  novidade  para  ir 
despejar  tudo  na  outra  recepção...  Haverá  quem 
tenha  saudades  da  remotissima  época  do  Café  e  das 
Visitas  que  passavam  dias?  Oh !  não  !  não  é  possi- 
vel !  Givilisação  quer  dizer  ser  como  a  gente  que  se 
diz  civilisada.  Essa  historia  de  levar  o  tempo,  sem 
correcção,  sem  linha,  numa  desagradável  bonan- 
cheirice,  podia  ser  incomparável  e  era.  Em  nenhu- 
ma grande  cidade  com  a  consciência  de  o  ser,  se 
faziam  visitas  como  no  Rio  nem  se  tomava  café 


d4  joao  do  rio 

com  tamanha  insensatez.  Mas  não  era  chie,  não 
tinha  o  brilho  deUcado  da  arte  de  cultivar  os  conhe- 
cimentos, erigir  a  conservação  do  conhecimento 
num  trabalho  serio  e  conservar  a  própria  individua- 
lidade e  a  sua  intimidade  a  salvo  da  invasão  de 
todos  os  amigos. 

Com  o  Chá  e  as  Visitas  modernas,  ninguém  se 
irrita,  ninguém  dorme  a  conversar,  os  cacetes  são 
abolidos,  a  educação  progride,  ha  mais  apparencia 
e  menos  despeza,  e  um  homem  só  pôde  queixar-se 
de  fazer  muitas  visitas,  isso  com  o  recurso  de  morrer 
e  exclamar  como  Ménage  na  hora  do  trespasse. 

Dieu  soit  loué ! 
Je  ne  ferais  plus  de  visites... 

Temos  ahi  o  inverno,  a  «  season»  deliciosa.  Em 
-que  occupará  a  carioca  o  seu  dia !  Em  fazer-se  bella 
para  tomar  chá  e  ir  aos  «  dias « das  suas  amigas.  Não 
se  pôde  dizer  que  não  tenha  occupações  e  que  assim 
não  conduza  com  summa  habilidade  a  reforma  dos 
hábitos  e  dos  costumes,  reforma  operada  essen- 
cialmente pelo  chá  e  pelas  visitas... 

D  ahi  talvez  esteja  eu  a  teimar  numa  observação 
menos  verdadeira.  Em  todo  o  caso  o  chá  inspira 
esses  pensamentos  amáveis,  e  desde  que  tem  o 
homem  de  ser  dirigido  pela  mulher,  em  virtude  de 
um  fatalismo  a  que  não  escapam  nem  os  livres  pen- 
sadores —  mais  vale  sel-o  por  uma  senhora  bem 
vestida,  que  toma  chá  e  demora  pouco... 


Os   sentimentos 
dos   Estudantes   d' Agora 


os  SENTIMENTOS  DOS  ESTUDANTES 
DAQORA 


—  Parece-me  que  o  sr.  não  deseja  ouvir  a  minha 
lição? 

—  Que  estou  cá  a  fazer  então? 

—  O  sr.  fala  alto  e  interrompe-me. 

—  Estou  commentando  certas  phrases  suas 
com  que  não  concordo. 

—  O  sr.  é  um  ignorante,  e  eu  é  que  devo  respon- 
der aos  seus  commentarios. 

—  Está  a  provocar-me?  Olhe  que  não  tenho 
medo  de  caretas. 

—  Nem  eu.  Retire-se. 

—  Retiro -me  sim. 

Era  um  joven  reforçado.  Ergueu-se,  caminhou 
batendo  com  os  pés.  Dois  outros  estudantes  fize- 
ram o  mesmo,  arrogantemente.  A'  porta  o  joven 
reforçado  berrou  : 

—  Não  tenho  medo,  não.  Saia  cá  para  fora,  si  é 
capaz ! 

A  esse  desafio,  o  professor  largou  a  brochura  que 
folheava  e  voou,  positivamente  voou  para  cima 


58  JOÃO    DO    RIO 

do  alumno.  A  aula  inteira  ergueu -se;  continuos,  o 
pessoal  da  secretaria,  outros  estudantes  como  por 
encanto  appareceram,  impedindo  a  scena  brutal 
de  pugilato.  O  alumno,  levado  por  outros  collegas 
tinha  um  sorriso  insolente  de  victoria.  O  professor^ 
debatendo-se  nos  braços  dos  bedéis  gritava  : 

—  Larguem-me  !  Quero  dar  uma  lição  de  educa- 
ção a  esse  patife  insolente  ! 

Estávamos  a  ouvir  uma  aula  interessantíssima. 
Aquelle  incidente  fechava-a  com  um  escândalo. 
Era  aliás  o  terceiro  em  menos  de  um  mez.  O  esta- 
belecimento vibrava  inteiro.  Os  estudantes,  nem 
havia  duvidas,  tomavam  á  entrada  o  partido  do 
collega  ou  preparavam-se  indifíerentes  para  assistir 
como  me  disse  um  —  «a  impagável  tourada ».  Na 
secretaria,  a  direcção  deliberava,  hesitante  na 
expulsão  dos  três  culpados. 

—  E  se  saem  todos?... 

—  Preciso  ser  desaggravado  1 

—  E'  um  escândalo  ! 

Afinal  o  acto  decisivo  ficou  adiado  por  vinte  qua- 
tro horas  e  o  professor  sahiu  agitado  com  alguns 
amigos.  Eu,  nem  ao  menos  pudera  sorrir.  A  scena 
empolgava-me,e  na  rua,  conversando  com  um  phi- 
losopho,  o  philosopho  commentou  o  facto. 

—  Que  queres?  A  culpa  é  dos  professores  que, 
após  as  aulas,  estabelecem  uma  camaradagem  exces- 
siva com  os  rapazes,  vão  com  elles  ás  cervejarias, 
cpntam-lhes  anedoctas  picarescas.  Foi-se  o  tempo 
do  respeito  ao  lente.  O  lente  é  hoje  um  homem  que 


VIDA    VERTIGINOSA  59^ 

tem  sob  a  cabeça  suspensa  a  bengala  do  estudante. 

—  E  o  sr.,  que  faz  o  senhor? 

—  Oh  !  eu  acho  isso  muito  maú,  mas  vou  tam- 
bém ás  cervejarias  com  elles.  Porque  não  quero 
grangear  inimizades... 

Estas  palavras  e  a  scena  que  acabava  de  assistir 
fizeram-me  pensar.  Pensar  é  fácil  agora.  O  mundo 
tem  o  que  se  pôde  chamar  uma  superabundância  de 
idéas.  Pensa-se  muito.  Pensa-se  demais.  Tomei  o 
meu  automóvel,  abstracto.  O  professor  de  philoso- 
phia  preferira  ir  a  pé.  E  só  no  carro,  com  rapidez, 
fui  relembrando  a  transformação  da  alma  do  estu- 
dante —  não  do  estudante  apenas  nacional  mas  a 
do  estudante  universal. 

O  estudante  era,  ha  trinta  annos,  uma  creatura 
que  respeitava  o  saber  como  o  inaccessivel  e  por 
consequência  o  professor  como  o  venerável  ins- 
trumento da  escalada  do  impossivel.  O  professor 
era  uma  obsessão,  a  idéa  fixa  desde  os  tenros  annos 
Havia  primeiro  o  feroz  e  tremendo  professor  de 
primeiras  letras,  armado  de  uma  regoa,  de  uma  pal- 
matória ,de  vários  castigos  vexatórios  e  de  uma 
supina  ignorância.  Não  era  um,  professor,  era  um 
torcionario  do  espirito  e  do  corpo.  As  crianças  fica- 
vam pallidas  e  tinham  crises  convulsivas  de  choro, 
quando  se  avizinhava  a  hora  sinistra  de  ir  para  o 
collegio.  O  collegio  se  lhes  afigurava  o  cárcere,  onde  ^ 
II m  homem  cruel  era  pago  para  tortural-os.  Os  pães 
levavam  os  meninos  pelas  orelhas.  As  mães  aíílictas 
soluçavam.  As  despedidas   eram   tremendamente 


60  JOÃO    DO    RIO 

cruéis,    com   gritos,    desmaios,    um   ambiente   de 
morte. 

—  Adeus,  meu  filho  querido  ! 

—  Mamã!...  mamã!... 

O  pae  severo  —  era  no  tempo  em  que  os  pães 
eram  severos  e  não  tinham  quasi  nunca  a  amizade 
dos  filhos  —  bradava  : 

—  Nada  de  choros.  Não  quero  maricas  em  casa  ! 
Precisa  ser  homem.  Peralta  ! 

O  petiz  passava  a  outros  braços  a  chorar,  e  o  seu 
ultimo  abraço  era  o  de  uma  preta  velha,  que  fatal- 
mente o  creára  e  a  quem  elle  considerava  como 
a  sua  mãe  preta.  Depois  lá  seguia  para  o  monstro 
ou  jesuita  ou  civil  e  ainda  ouvia  o  pae  dizer  : 

—  Inteira  liberdade,  sr.  professor.  Quero  meu 
filho   homem.    Bata-lhe  sempre   que  fôr  preciso. 

O  pequeno  ficava.  Batiam -lhe.  Apprendia  com 
diíficuldade,  accumulando  ódios  e  almejando  os 
preparatórios.  O  cérebro,  violentado  por  um  estudo 
estúpido,  trepava  a  custo  nas  noções  de  humani- 
dades dadas  por  uns  professores  empoeirados  e 
nada  brilhantes.  Já  homens  entravam  com  furor 
na  pandega  e  nas  academias.  Os  passados  profes- 
sores eram  desprezados ;  os  últimos  venerados  como 
os  pontifices  do  saber,  e  rapazes  de  bigode  tremiam 
ao  interrogatório  de  um  lente  cathedratico,  ouviam 
as  suas  palavras  como  a  da  própria  sapiência. 

Esses  rapazes,  entretanto,  são  os  pães  e  os  lentes 
de  hoje.  Aos  filhos  transmittiram  a  herança  de 
surdo  ódio  accumulado  na  raça  uma  porção  de 


VIDA    VERTIGINOSA  61 

lustros  contra  o  professor;  esses  rapazes  fizeram 
a  própria  revolução  do  ensino  e,  sem  querer  —  oh  ! 
sim  !  — infiltraram  na  geração  futura  a  irreverência, 
a  raiva,  a  hostilidade  contra  o  professor.  Hoje,  gra- 
ças a  elles  que  ainda  soíTreram  e  penaram,  levando 
varadas,  castigos  de  jejuns,  palmatoadas,  ralhos  de 
escravos,  os  pequenos  têm  o  mimo  fraternal,  uma 
esplendida  falta  de  respeito  pelos  professores,  e 
tratam  o  mestre  de  superior  para  inferior,  vendo 
sempre  no  ex-monstro  a  injustiça. 

Os  pequenos,  hoje,  aos  seis  annos,  já  passeiam 
na  rua  sós,  e  têm  namoradas.  Quando,  nessa  pura 
edade,  não  são  uns  sabidos  de  marca,  com  dois 
annos  de  collegio,  em  geral,  pedem  a  escola. 

—  Quando  é  que  vou  para  o  collegio,  papá? 

—  Está  com  vontade  de  apprender? 

—  E'  que  me  aborreço  muito  em  casa. 

Vae.  O  pae  paternalmente  leva-o,  recommenda-o. 
O  collegio  pensionista  virou  caserna  em  que  mais 
ou  menos  se  preparam  os  voluntários  da  campanha 
da  vida.  Os  jesuitas  tremem  de  medo  deante  des- 
ses petizes,  porque,  á  menor  censura,  os  pães  logo 
resolvem  tiral-os  dos  collegios  e  dar  queixa  aos  jor- 
naes.  Os  professores  leigos  têm  gymnasios  e  são  escra- 
vos dos  srs.  alumnos.  Nos  collegios  não  internos,  é 
um  divertimento.  Os  lapazes  levam  flores  ás  pro- 
fessoras e  ás  adjuntas,  fumam  cigarros,  jogam  o 
foot-ball,  têm  namoradas.  A  vida  intensa,  esta  vida 
de  vertigem,  de  ambição,  de  fúria  e  de  velocidade 
incute-lhes  o  sentimento  de  que  o  professor  é  um 


62  JOÃO    DO    RIO 

inferior  —  porque  limita  a  ambição  a  ensinar-lhes 
umas  cousas  que  todo  o  mundo  deve  saber.  Os 
meninos  são  príncipes  com  a  idéa  que  os  príncipes 
fazem  dos  preceptores.  Os  exames  de  preparatório 
tornam-se  o  campo  extensissimo  onde  os  exemplos 
dessa  formidável  transformação  da  alma  do  estu- 
dante, pullulam.  O  acto  do  exame  é  tão  comica- 
mente  ridiculo  como  o  de  outrora.  Os  empenhos, 
a  protecção,  e  a  ignorância  das  matérias  mais  ou 
menos  idênticas.  Apenas  o  estudante  passado 
era  o  nobre  diabo  cheio  de  medo,  atterrado,  sem 
confiança  em  si  mesmo,  e  o  estudante  d'agora  é  o 
rapazola  que  discute  theatro,  frequenta  o  café  can- 
tante, fuma  com  o  papá,  confia  cegamente  no  futuro 
e  tem  uma  alta  comprehensão  do  seu  valor  pes- 
soal. Quando  chega  ás  academias,  os  lentes  têm 
appellidos,  os  commentarios  ás  suas  falhas  de  saber 
e  de  moral  são  constantes,  as  aulas  têm  pouca  fre- 
quência e  o  alumno  considera  o  mestre  seu  egual, 
ou  seu  inferior.  Os  queridos  mestres,  quasi  sempre, 
os  amigalhaços,  são  os  que  com  elles  saem  em 
charola  a  conversar.  O  exame  sem  approvação  é 
considerado  como  um  acto  de  desconsideração 
pessoal  que  precisa  de  ataque,  que  requer  a  vaia 
e,  na  maioria  das  A^ezes,  o  desforço  physico.  As  per- 
turbações dos  collegios  internos  são  constantes.  No 
Gymnasio,  no  anno  em  que  meia  dúzia  de  examina- 
dores pretendeu  agir  com  um  pouco  de  severidade, 
foi  a  policia  para  lá,  o  largo  do  Deposito  ficou  em 
polvorosa  e  eram  correrias  de  piquOtes  de  cavalla- 


VIDA   VERTIGINOSA  63 

ria  sob  vaias  monumentaes  a  assobio  e  a  batata. 

—  E  o  saber? 

—  E'  preciso  saber  para  ser  ap provado? 

Nas  escolas  superiores  a  mesma  concepção  egua- 
litaria  nivela  o  curso.  O  estudante  vae  ao  extremo, 
e  lentes,  homens  absolutamente  notáveis  têm  sido 
desacatados  porque  não  approvaram  os  alumnos 
por  ódio  pessoal... 

E'  só  aqui  o  phenomeno?  Não?  Não.  E'  em  toda 
parte.  Vejam  o  que  se  passa  na  França,  em  Paris, 
em  paizes  de  tradição.  As  vaias  na  Sorbonne,  os 
ataques  aos  lentes  estão  na  memoria  de  todos.  E  é 
assim  na  Áustria,  na  Allemanha,  em  Portugal  e  em 
Hespanha,  onde  as  universidades  conservam  um 
poder  irradiante  de  conservatorismo,  é  assim  na 
Itália.  Na  Itália  os  exemplos  são  tão  frequentes 
como  em  França.  Em  1903  um  alumno  da  escola 
naval  esbofeteou  o  lente  em  plena  aula.  Desde  então 
é  moda  na  peninsula  paiz  das  artes.  Ainda  outro 
dia  no  lyceu  Trapani  dava-se  um  caso  mais  grave 
do  que  o  visto  por  mim  uma  hora  antes.  O  professor 
de  francez,  homem  bom  e  fraco,  tal  era  o  barulho, 
exclamara : 

—  Galam-se  ou  não  mal  educados? 

No  fim  da  aula  um  dos  interpellados  approxi- 
mou-se  do  professor. 

—  Não  sou  mal  educado.  O  sr.  vae  retirar  a  pala- 
bra  antes  de  sahir. 

O  professor,  pallido,  explicou  com  subtileza  : 

—  Não  disse  mal  educado  por  julgar  que  os  srs. 


64  JOÃO    DO    RIO     ; 

receberam  má  educação :  disse  porque  no  momento 
os  srs,  pareciam  mostrar  tel-a  esquecido. 

Mas  não  acabou.  O  rapaz  estendera-o  com  uma 
bofetada  violenta... 

Casos  idênticos  ha  uma  porção  a  consignar.  E  a 
Europa  basta  para  mostrar  a  crise  typica  de  trans- 
formação, que  deve  ser  é  muito  mais  rápida  no  novo 
mundo.  O  estudante  é  outro.  A  vida  moderna  tem 
uma  divisa  : 

Tout  et  pas  plus 
Tout   est   permis. 

O  respeito,  a  distancia  chronologica  das  edades 
são  sentimentos  desconhecidos.  Foram  os  nossos 
ascendentes  que  prepararam  a  revolução,  somos  nós 
que  estabelecendo  a  egualdade  creamos  a  anarchia. 
O  Ímpeto  juvenil  é  incommensuravelmente  maior 
agora  do  que  em  qualquer  outra  época.  Ha  symp- 
tomas  generosos  :  o  de  amor  ao  trabalho,  o  de 
conquista  vertiginosa,  o  appetite  de  vencer,  a  segu- 
rança com  que  rapazes  são  mestres  e  vencedores 
na  edade  com  que  outrora  tremiam  deante  do  pro- 
fessor, o  desenvolvimento  pasmoso  da  personali- 
dade, do  orgulho,  a  maravilhosa  maneira  porque  se 
aprehende,  estando  o  conhecimento  no  próprio  ar 
que  se  respira.  Ha  também  violências  e  erros.  A 
mocidade  despreza  o  passado  e  quer  ser  a  única 
obedecida.  O  mestre  passou  a  ser  uma  impertinência. 
O  papel  do  mestre  no  futuro  será  o  de  conferente, 
o  de  conversador.  O  exame  é  cada  vez  mais  uma 


VIDA   VERTIGINOSA  65 

formalidade.  Eu  os  assisti  em  vários  paizes  —  os 
mestres.  Brevemente,  após  as  monographias  lidas 
com  arte,  elles  apenas  conversarão  com  os  assis- 
tentes —  porque  o  alumno  no  mundo  sábio  será 
uma  extravagância  ridicula  e  vergonhosa.  Um  pro- 
fesor  de  primeiras  letras  mostrava-me  ha  dias  as 
provas  de  vários  alumnos  seus  que  já  não  appren- 
diam  a  ler  pelo  processo  antigo  das  letras,  das  syl- 
labas  e  das  palavras,  mas  que  começavam  pelas 
syllabas,  com  um  processo  de  photographia  cere- 
bral admirável.  Já  hoje  não  ha  alumno  de  qualquer 
curso  superior  que  não  critique  ou  não  discorde  do 
professor.  Tempo  virá  em  que  o  ensino  não  passe 
de  série  de  conferencias  succedidas  de  diálogos  amá- 
veis, em  que  os  conferentes  também  apprendam 
um  pouco  com  os  assistentes  e  ao  começar  peçam 
desculpas  do  seu  pouco  saber...  Não  ha  mais  crian- 
ças —  é  sabido.  Ha  homens  jovens  que  sabem  tudo 
e  são  práticos.  «  A  experiência  immediata  da  vida 
resolve  os  problemas  que  mais  desconcertam  a 
intelligencia  pura»  disse  WilHam  James,  professor 
da  Universidade  de  Harward.  Não  haverá  mais 
gente  edosa,  gente  velha  sinão  para  ser  espectadora 
da  vida  intensa.  Os  velhos  são  fosseis.  Os  homens 
que  querem  se  prestigiar  com  essa  ex-importancia 
são  vaiados.  E'  a  juventude,  a  vida  nova,  a  vida 
vertiginosa. 

O  meu  automóvel,  entretanto  parara.  O  moto- 
rista, a  quem  no  dédalo  das  ruas  confiara  a  minha 
vida,  abrira  o  tampo  da  machina  para  vèr  os  cylin- 


66  JOÃO    DO    RIO 

dros.  E  eu  a  fazer  reflexões  sobre  a  differença  das 
gerações,  a  propósito  de  um  conflicto  insignificante  ! 
Nada  disso  era  verdade.  Os  estudantes  são  crian- 
ças, e  como  tal,  entre  os  estudantes  deve  haver 
crianças  teimosas.  Apenas.  Nada  do  que  pretendera 
o  meu  appetite  psychologico  poderia  ser  provado. 
Ah !  phantasia... 

Saltei.  Indaguei  do  motorista. 

—  Então  o  que  ha? 

—  Um  pequeno  desarranjo,  nada  de  importân- 
cia. 

—  Deixe  ver. 

—  Fique  tranquillo.  O  sr.  não  entende  disso. 

A  resposta  fez-me  olhal-o.  Era  um  rapaz  franzino, 
imi)erhe,  com  um  vinco  na  testa. 
'  —  Que  edade  tem  o  rapaz? 

—  Quinze  annos.  Porque? 

—  Por  nada. 

—  Prompto.  Suba. 

—  Mas  quinze  annos  mesmo  ? 

—  Ainda  vou  fazel-os. 

*  O  carro  sacudiu -se  numa  convulsão,  deslisou, 
partiu  rápido.  Então,  como  a  minha  reflexão  estava 
resolvida  a  continuar,  tornei  a  pensar  que  tinha 
razão.  O  attestado-symbolo  de  quanto  eu  dissera 
ia  commigo  :  —  aquelle  menino  de  quinze  annos 
a!quem  eu  entregara  a  vida  e  que  seguia  orgulhoso 
sem  me  dar  importância,  inteiramente  entregue 
a  ebriedade  de  vencer  as  distancias.  Os  estudantes 
tinham  a  mesma  edade.  Gomo  comprehender  o  Res- 


VIDA    VERTIGINOSA  67 

peito  no  momento  da  Velocidade?  E  eu  dei  men- 
talmente razão  aos  estudantes,  tremendo,  com 
medo  —  porque  si  não  desse,  si  duvidasse  delles, 
si  duvidasse,  si  não  concordasse  mesmo  com  os 
seus  excessos  universaes  não  seria,  oh !  deuses 
immortaes !  já  não  seria  moço,  já  teria  horror  de 
ser  considerado  velho,  já  não  gosaria  na  vida  breve 
o  prazer  de  ser  intensamente  d'agora... 


o    Reclamo  moderno 


o  RECLAMO  MODERNO 


Eu  sahia  precisamente  de  ver  combinar  varias 
emprezas  no  escriptorio  de  ummillionario,pobreha 
oito  annos.  O  reclamo !  E'  preciso  dar  na  vista, 
chamar  a  attenção.  Foi-se  o  tempo  da  frase  :  —  «a 
boa  qualidade  impõe-se.  «Não ha  boas  qualidades  : 
ha  reclamo,  a  concurrencia,  a  intensida  de  reclamo 
do  rumor. Todos  nós  estamos áportadeumabarraca 
de  feira,  ganindo  a  excellencia  dos  nossos  productos. 
Lyricamente  maguado,  ouvira  durante  meia  hora 
a  palavra  enthusiasmada  do  poeta  Pedreira,  que 
se  fizera  agente  de  annuncios  e  cheio  de  dinheiro 
despresava  agora  os  alexandrinos  e  os  outros  poetas. 
Pedreira,  o  primeiro  dos  agentes  de  annuncio,  por 
direito  de  conquista  e  nascimento,  falara  cheio  de 
verve. 

—  O  Reclamo,  meu  caro,  é  o  aproveitamento  de 
um  mal  contemporaneo-o  mal  de  apparecer.  E'  o 
mal  devorador,  é  a  epidemia,  é  o  flagello  açoi- 
tando todos  os  nervos,  todos  os  cérebros,  como 
um  castigo  dos  céus.  Que  queres  tu  que  se  faça  na 


72  JOÃO    DO    RIO 

anciã  da  vida  moderna,  na  nevrose  da  concorrên- 
cia, no  desespero  de  vencer?  Apparecer !  Appare- 
eer  !  Não  se  pensa  mais  na  philosophia  amarga  do 
desapparecimento  :  as  legendas  em  bronze  dos 
portões  dos  cemitérios  perderam  o  sentido,  a  signi- 
ficação para  o  homem  contemporâneo  do  auto- 
móvel, que  julga  a  vida  um  record  e  só  pensa  em 
não  ficar  en  panne,  nem  esquecido  dos  que  olham. 

Vê  o  mundo.  O  trabalho  duplicou,  decuplicou, 
centuplicou.  O  esforço  para  a  evidencia,  para  a 
personalização  na  grande  feira  humana,  chupa  os 
ossos,  rasga  os  músculos,  arranca  os  nervos,  exgotta 
desvaira,  enche  os  manicomios;  mas  a  onda  con- 
tinua, impetuosa,  irresistivel,  para  além  das  for- 
ças concebivçis,  atirando  aos  pincaros  os  victorio- 
sos  —  os  victoriosos  de  um  instante  que  consegui- 
ram apparecer.  O  reclamo  é  o  rochedo  a  que  se 
agarram  os  salvados  do  desastre  —  o  reclamo 
gritado,  estridente,  reclamo  que  é  ás  vezes  mentira, 
que  é  ás  vezes  inconveniência,  que  chega  a  ser 
calumnia,  mas  que  faz  apparecer  na  mente  alheia, 
eom  a  brutalidade  de  um  prego  entre  os  olhos,  o 
nosso  nome,  o  nosso  feito,  a  nossa  acção  indivi- 
dual... 

Dize  cá.  Porque  faz  toda  a  gente  conferencias? 
Para  ganhar  dinheiro?  Não  só  por  isso,  mas  prin- 
cipalmente para  gosar  do  reclamo  antes  e  depois. 
Foi  um  processo  de  galarim  permanente  dos  accla- 
mados  para  ser  depois  a  falcatrua  dos  falhos,  e 
para  terminar  em  válvula  de  apparição  para  uma 


VIDA   VERTIGINOSA  73 

série  de  nomes  desconhecidos.  Porque  escrevem  as 
senhoras?  porque  vão  defender  o  divorcio  e  outras 
theorias  ex-subversivas?  Para  armar  o  escândalo 
e  dar  mais  na  vista.  E'  claro.  Porque  os  escriptores 
não  se  limitam  mais  ao  livro  único,  e  se  esfalfam 
em  originaes  para  as  gazetas,  no  desespero  da  pro- 
ducção?  DiíTiculdades  pecuniárias?  Talvez.  Mas  de 
certo,  fatal,  irresistivel,  orgânica,  a  permanente 
vontade  de  se  ver  impresso,  falado,  discutido, 
citado.  Já  estiveste  cinco  minutos  com  um  homem, 
sem  que  o  visses  falar  do  seu  próprio  valor?  Si  é 
sportman,  fala  dos  seus  conhecimentos,  do  seu 
automóvel,  do  seu  cavallo;  si  é  dado  a  conquistas, 
é  insupportavelmente  vaidoso;  si  tem  uma  pro- 
fissão na  classe,  só  ha  elle  e  os  seus  amigos  muito 
depois.  Os  mais  polidos,  os  mais  amáveis,  mesmo 
fazendo  a  outrem  o  elogio  que  reclama  retribuição, 
não  deixam  de  se  elogiar  aproveitando  a  forma 
comparativa.  Deante  da  machina  humana  :  uma 
estrada  atravancada  de  machinas.  No  bojo  de  cada 
machina,  a  movel-a,  mola  de  aço  substituta  da 
alma  :  o  Eu  desesperador.  E  são  todos !  Appa- 
recer !  Apparecer !  Cada  sujeito  cria  uma  attitude, 
cada  ser  fixa  a  personalidade  de  um  gesto,  cada 
typo  arvora  uma  certa  mania,  e  não  ha  quem  não 
queira  ser  o  primeiro  da  sua  classe,  o  bem  conhe- 
cido, o  sem  rival...  Observa  a  sociedade,  o  torve- 
linho, o  chãos,  o  sorvedouro,  o  fjord  humano  que 
é  uma  grande  cidade.  Vês  aquelle  cavalheiro  ? 
E'  um  valdevinos  admiravelmente  bem  vestido. 


JOÃO    DO    RIO 


JNÍáo  O  era  antes.  A  necessidade  de  posar,  de  con- 
servar em  evidencia  a  sua  fachada  fel-o  desoer  a 
roubai'  ao  jogo,  a  peitar  jockeys  em  tribofes  reles, 
a  chumbar  dados,  a  se  degiadar  em  alcovitismos, 
em  proxenetismos  infames.  Mas,  appar^oe ! 

Conheces  Mme  Praxedes,  a  mulher  mais  ele- 
gante do  Rio  ?  Tem  trinta  e  cinco  annos  e  um  filho 
de  dezoito. 

Suicidar-se-ia,  si  a  prohibissem  de  ir  a  urnsi  soirée 
fashion,  si  faltasse  a  uma  festa,  a  um  raout  qual- 
quer de  gente  bem  lançada.  E'  preciso  apparecer, 
não  ser  esquecida,  conservar  no  publico  a  idéa  da 
sua  belleza. 

Estás  atordoado.  E'  pena.  Não  faço  maás  que 
dizer  banalidades  sobre  observações  palpitantes! 
Es-ta  é  que  é  a  verdade. 

Ollia  por  exemplo,  naquelle  caiTo  a  estrella 
fulgurante  dos  nossos  theatros.  Tem  quarenta  con- 
tos de  dividas,  todas  as  suas  jóias  são  falsas,  são  o 
clássico  double  das  verdadeiras  já  até  desappare- 
cidas  do  prego.  Pela  manhã,  antes  de  concertar  a 
cara  com  clara  de  ovo  dormida  ao  relento,  tosse 
meia  hora  na  crise  asthmatica  da  velhice  retardada. 
Mas  oonserva  o  seu  inalterável  sorriso  de  Vénus  da 
ribalta  e  daria  a  ultima  gotta  de  sangue  e  soífre 
todas  as  humilhações  para  permanecer  uo  palco, 
conservando  na  mente  da  cidade  o  seu  nome,  o  seu 
gesto,  o  seu  typo  que  veiu  á  tona. 

Ainda  não  te  dás  com  aquella  íamilia  que 
caminha  a  pé  para  o  theatro  ou  para  Mxa  baile  ?  O 


VIDA   VERTIGINOSA  75 

pae  já  se  exgottou;  a  mãe  e  as  três  deliciosas  filhas 
permittem  as  mais  perigosas  intimidades  a  sujeitos 
com  dinheiro  —  para  obter  cadeiras,  vestidos, 
camarotes,  no  desespero  de  querer  participar  do 
grande  luxo  e  de  apparecer. 

Estes  são  apagados  exemplos  urbanos.  Na 
Detenção  ha  gatunos  que  se  suicidam  de  mentira 
para  que  os  jornaes  falem;  no  hospício,  a  preoccu- 
pação  da  totahdade  dos  doidos  é  a  sua  personali- 
dade perante  o  publico.  Os  mais  audaciosos  assas- 
sinos e  desordeiros,  quando  são  presos  têm  repor- 
ters  da  sua  confiança  aos  quaes  mandam  chamar 
para  que  a  noticia  seja  verdadeira,  bem  clara,  bem 
cheia  de  pormenores  e  bem  com  o  seu  nome.  Bem 
considerada,  a  vida  não  é  sinão  um  penoso  tra- 
balho de  dar  na  vista.  Não  ha  mais  ninguém 
modesto.  O  sábio  no  laboratório  arrisca  a  existên- 
cia com  o  fim  de  ver  o  seu  retrato  em  todos  os 
jornaes,  o  inventor  inventa  antes  de  tudo  um  meio 
de  se  destacar,  e  si  passasses  um  dia  na  redacção 
de  um  jornal  é  que  verias  o  numero  de  pessoas  cari- 
dosas, inventoras,  artistas,  organizadoras  de  coisas, 
apenas  para  empurrar  o  nome.  Que  digo?  Appa- 
recer é  uma  questão  nacional.  Desde  que  a  imprensa 
franceza  deixou  de  amolar  aos  seus  leitores  com 
um  rataplan  desordenado  em  torno  de  Santos 
Dumont,  o  Brasil  está  todo  commovido  e  já  se  fala 
em  justa  reivindicação. 

Mas  não  pares  agora,  homem  de  Deus !  não  me 
interrompas !  Lá  vem  o  redactor  mundano  de  um 


76  JOÃO    DO    RIO 

jornal  que  dá  o  nome  das  pessoas.  E'  um  idiota. 
Mas  que  fazer?  Tratemol-o  bem,  como  elle  nos 
trata !  Diabo  !  Lá  parou  a  conversar.  São  os  Aze- 
vedo loucos  pelo  reclamo.  Os  coitados  inventaram 
agora  mais  um  grémio  :  o  Dreams-Cluh,..  Acabam 
no  hospicio !  Emfim... 

Reflecte  no  numero  crescente  de  desfalques,  não 
só  aqui  no  Rio,  mas  em  todo  o  mundo,  desfalques 
perpetrados  por  gente  quasi  sempre  considerada 
digna  do  nosso  cumprimento.  E'  a  vertigem,  a  ver- 
tigem allucinadora,  o  medo,  o  pavor  de  não  poder 
apparecer  mais,  apparecer  sempre  mais. 

Oh !  não  se  discutem  os  meios,  os  processos.  A 
questão  é  outra.  Sou  um  criminoso,  um  assassino, 
um  ladrão  tremendo?  Venha  o  nome,  olhem  o  meu 
perfil,  assustem-se  commigo.  Sou  eu  !  sou  eu  !  Levei 
a  minha  vida  a  fazer  o  bem,  protegendo  os  miserá- 
veis na  sombra,  constiuindo  hospitaes?  Inaugurem 
o  meu  retrato,  falem  de  mim  !  Sou  eu  !  O  preciso  é 
predominar,  ultrapassar  o  commum  e  o  anonymo. 
Arranjo  dinheiro  por  meios  illicitos?  Que  te 
importa?  Apparento  mais  luxo  que  os  mais,  man- 
dei buscar  uma  victoria-automjvel  como  a  da 
rainha  de  Hespanha  e  os  jornaes  falam  ! 

Uf !  Admiras-te  destas  phrases  que  te  vou  segre- 
dando? Olha  a  rua,  homem  paciente  e  amável.  Que 
vês !  O  senhor  do  mundo  inteiro  o  reclamo  no  seu 
horrífico  multiformismo.  Passou  um  sujeito  de 
bonet,  deu-te  um  papel  :  —  faz-te  a  apologia  de 
três  ou  quatro  cantoras  do  Casino.  Parámos  ha 


VIDA   VERTIGINOSA  '  77 

instantes  deante  de  um  carro  illuminado  crua- 
mente :  era  um  carro  annuncio.  Em  cada  praça, 
onde  instinctivamente  demoramos  os  passos,  nas 
janellas,  do  alto  dos  telhados,  em  mudos  jogos  de 
luz,  os  cinematographos  e  as  lanternas  magicas 
gritam  através  do  ecran^  o  reclamo  do  melhor 
alfaiate,  do  melhor  livro,  do  melhor  theatro,  do 
melhor  revólver.  Basta  parar  alguns  minutos  para 
ver  o  galope  dos  nomes.  No  alto  das  casas,  o  inte- 
resse e  a  nevrose,  não  só  nas  lanternas  magicas 
como  em  letras  de  fogo,  azues,  vermelhas,  verdes, 
enterram  no  publico  a  pua  do  reclamo;  na  praça, 
as  feiras  de  musica  em  que  a  luz  eléctrica  incendeia 
os  cartazes  e  galvanisa  os  apetites  exhaustos  de 
multidão  !  Apparecer.  E'  a  moléstia  de  cidade,  a 
moléstia  do  mundo. 

E  quantos  faz  ella  ganhar,  para  quantos  serve 
de  sustento  !  São  os  artistas,  são  os  electrecistas, 
são  os  ociosos,  são  os  cavalheiros  com  boas  idéas 
de  fazer  f)  producto  dar  na  vista.  Essa  nevrose, 
meu  caro  amigo,  fez  perder  definitivamente  a 
vergonha  a  todos,  arranjou  dinheiro  onde  era 
imposivel  arranjal-o,  e  creou  uma  repartição  maior 
que  todas  as  repartições  publicas  com  empregos  desde 
director  até  continuo :  a  Repartição  do  Reclamo. 

—  E's  nessa  repartição?... 

—  Chefe  de  secção.  Na  das  musas,  nem  ama- 
nuense   era... 

Dexei-o  bem  impresionado.  Mas  tendo  caminhado 
um  pouco  dei  com  um  excellente  rapaz. 


/»  JOÃO    I>0    RIO 

—  Franz?  bom  dia,  caro... 

—  Bom  dia.  Que  calor,  ein? 

—  35  graus  á  sombra.  Um  inferno ! 

—  Si  tomássemos  uma  cerveja? 

—  Com  prazer. 

Franz  sentou-se,  e  alto  : 

—  «  Garçon  »,  uma  Teutonia  «  frappée  w.  Si  não 
fosse  a  Teutonia,  com  este  calor,  que  seria  de 
nós? 

—  Oh  !  bebedor  ! 

—  Não  morreríamos,  porque  teríamos  a  excep- 
cional Bock-Ale,.. 

Franz  é  um  bom  rapaz  que  eu  encontrei  num 
excellente  grupo  de  óptimos  rapazes  bebedores 
de  cerveja.  Alguns  já  morreram.  Um  delles  eu 
vira  menino,  e  morreu  com  quatro  corpos  meus, 
ingerindo  umas  três  dúzias  de  garrafas  de  cerveja 
por  dia  e  gastando  oitocentos  mil  réis  dos  seus  ven- 
cimentos no  licor  de  Gambrinus,  —  como  dizia 
por  ouvir  dizer. 

Não  sei  qual  o  emprego  de  Franz.  Vejo-o  sem- 
pre bem  vestido,  rodeado  de  companheiros,  a 
beber  cerveja,  hoje  é  com  immenso  espanto  que  o 
noto  de  luto  fechado,  quasi  triste  apezar  daquelles 
gritos,  a  chamar  o  «  garçon  »... 

—  Mas  também  você  de  preto  ! 

—  Então  não  sabe? 

—  De  que? 

—  Venho  de  acompanhar  o  enterro  de  Guilherme 
HopíTer,  aquelle  que  teve  um  chopp... 


VIDA    VERTIGINOSA  79 

— Morreu? 

—  Está  enterrado. 

—  A  moléstia? 

Franz  fie  ou  sério.  Uraa  nuvem  passoía-lhe  pelos 
olhos. 

—  Do  que  eu  vou  morrer... 

—  A  bebida? 

—  Sim,  a  bebida  com  que  se  ganha  a  vida... 

Fiquíei  interrogativamente,  mudo.  Franz  empur- 
rou o  eopo.  Um  silencio  tombou.  Afinal,  o  pobre 
rapaz  teve  urai  arranco. 

—  Não  sabe  de  que  vivia  Guilherme?  Do  mesmo 
que  eu  vivo.  De  beber  cerveja.  Foi  elle,  quando  que- 
brou a  casa,  que  imaginou,  na  luta  das  fabricas 
de  cerveja,,  a  instituição  dos  agentes  reclamos 
vivos.  Nada  do  homem  Sandwich,  mas  o  homem 
barrili  de  cerveja.  A  fabrica  a  que  se  p^ropoz,  acei- 
tou. Outra  offereceu-lhe  logo  o  triplo.  Elle  tinha 
um  conto  de  réis  por  mez  e  ordem  illimitada  para 
beber  em  qualquer  ponto  quantas  garrafas  de 
cerveja  quizesse.  Formaram-se  grupos  desses 
reclamistas,  com  ordenados  nunca  inferiores  a 
quatrocentos  mil  réis.  Entrei  nesses  grupos,  encar- 
regados de  expor  indirectamente  as  marcas,  de 
habituar  os  bebedores,  de  forçar  a  cerveja,  mesmo 
grátis-.  Guilherme  entretanto  foi  sempre  o  primeiro. 
Era  espantoso.  Não  sei  quantas  dúzias  de  garrafas 
ingeiia  por  dia.  Tão  habil  se  tornou  que,  nas  rodias 
de  bebedores  por  elle  formadas,  os  outros  pagavam. 
Quando  tinha  o  estômago  cheio,  erguia-se,  ia  ao 


80  JOÃO    DO    RIO 

«  water-closet  »,  punha  o  dedo  na  garganta,  vomi- 
tava tudo  e  voltava  plácido,  a  beber.  Passava  neste 
exercicio  de  uma  hora  da  tarde  ás  duas  ou  três  da 
manhã.  Deitava-se,  dormia  até  ás  oito,  ia  para  o 
banheiro,  vomitava,  e  ás  nove  estava  lépido  no 
escriptorio  da  companhia,  a  receber  ordens.  Sem- 
pre o  julguei  de  ferro.  Quasi  não  comia.  Não 
comia  mesmo.  E  morieu  em  poucos  dias,  cahiu 
desenganado  pelo  medico.  Moriia  de  beber  cerveja. 
O  doutor  dizia  que  nunca  vira  um  organismo  em 
tal  estado.  Tudo  :  nervos,  entranhas,  coração  — 
estragado.  Pena  tenho  de  não  entender  disso. 
Teria  guardado  o  nome  da  moléstia  —  da  moléstia 
de  que  talvez  venha  a  morrer  amanhã. 

O  pobre  rapaz  fallava  e  eu  recordava  a  figura  de 
Guilherme  Hopffer,  magro,  cabello  ralo,  grandes 
mãos,  andar  gymnastico,  uma  doçura  alcoólica  na 
pupilla  azul.  Era  macabramente  amável,  era  extra- 
ordinário. Parecia  com  o  frenesi  da  cerveja. 

—  Também  vocemecê  toma  cerveja.  Pem  pom  ! 

Surgia  logo  depois  do  almoço,  alastrava-se 
numa  «  terrase  ))  de  confeitaria,  passava  uma  hora; 
seguia  adeante.  Certo  dia  encontrei-o  umas  dez 
vezes  sahindo  de  beber  cerveja.  A  ultima,  eram 
três  da  manhã,  no  largo  do  Machado.  E  agora  o 
que  parecera  uma  extravagância  apparecia-me  em 
todo  o  seu  horror  de  concorrência,  de  luta  pela 
vida,  de  desespero  heróico. 

Aquelles  gestos,  aquelle  ar,  aquellas  pilhérias 
que  pareciam  o  feitio  de  um  ser  exótico,  eram  a 


VIDA    VERTIGINOSA  81 

consciente  comedia  de  um  negociante  fallido  resol- 
vido a  cavar  no  mesmo  ramo  de  negocio  a  subsis- 
tência. 

Em  casa  havia  mulher  e  filhos  a  dar  comida. 
Que  fazer?  Arranjar  dinheiro,  não  pouco,  mas  o 
bastante...  Gomo?  Ah!  Gomo?  Numa  grande 
cidade,  fechada  aos  infelizes;  deante  da  indiíTe- 
rença  que  não  se  enternece... 

Então  germinou-lhe  no  cérebro  naturalmente 
aquelle  atroz  pensamento  satânico  de  extincção 
para  viver.  A  companhia  não  lhe  daria,  de  certo, 
um  conto  de  réis  para  ficar  no  seu  escriptorio, 
mas  deu-o  sem  trepidar  para  rebentar  um  homem 
como  uma  bomba  de  chopps,  para  se  dilatar,  para 
engulir  a  rival.  E  esse  homem,  absorvendo  chopps 
e  lançando-os  nos  cantos,  arrastando  a  ingeril-os 
dezenas  de  sujeitos,  tentando  outros  á  profissão 
tremenda,  ergue-se  num  elemento  de  devastação, 
convencido  de  que  elle  pioprio  seria  uma  das  prin- 
cipaes  victimas. 

Que  Poe,  que  Barbey  imaginaria  um  conto  de 
tal  forma  pavoroso?  Qual  de  nós  descobriria  em 
Guilherme  o  nihilista  tremendo,  o  anarchista 
mais  cruel,  mais  louco,  mais  perigoso?  Logo  aos 
primeiros  dias  dessa  vida  de  destruição  e  sem  o 
vicio  sustentáculo,  devia  ter  sentido  claro,  já  não 
digo  o  crime  de  criar  regimentos  de  suicidas  para 
viver,  mas  o  pavor  do  próprio  desastie.  Não  recuou, 
não  tremeu.  Antes  foi  atacado  de  um  verdadeiro 
frenesi   religioso.    Bebia,   bebia,   bebia,   bebia   — 

5. 


82  JOÃO    DO    RIO 

sem  ficar  bêbedo,  tendo  que  saber  o  que  estava 
fazendo  e  o  que  devia  continuar  a  fazer  :  —  beber. 
Franz  contava  machinalmente  aquella  existên- 
cia, e  eu  sentia  na  espinha  um  calefrio  de  medo,  de 
um  medo  vago  e  indizivel,  um  medo  maior  que  o 
dos  espiritos  timoratos  á  meia-noite  num  cemitério, 
o  medo  glacial  da  gente  que  passava,  do  «  garçon  » 
que  servia,  do  pobre  e  lamentável  Franz,  das  altas 
casas,  das  conducções  rápidas.  Era  a  civilização 
na  sua  frieza,  era  o  «  struggle  for  life  »  e  a  engie- 
nagem  mecânica  da  sociedade  esmagando  os  mais 
fracos.  Porque  se  dera  aquella  morte  ?  Para  reclamo 
e  supremacia  de  uma  companhia.  Tinha  ella  culpa? 
^absolutamente  nenhuma.  Acceitava  o  que  jul- 
gava útil  aos  interesses  dos  seus  accionistas.  Para 
que  mais  seguro  fosse  o  pão  de  centenas  de  ope- 
rários, morriam  alguns  utensihos  do  gigantesco 
apparelho,  e  utensilios  com  instinctos  perigosos. 
A  companhia  devia  ter  mandado  uma  coroa.  Ne- 
nhum dos  directores  teria  de  saber  a  causa  da 
morte,  e  quem  a  dissesse  arriscar-se-hia,  de  certo, 
a  perder  o  emprego,  porque  estaria  a  fazer  obra  de 
revolta  commettendo  injustiças  contra  as  largue- 
zas monetárias  com  que  uma  poderosa  empreza 
recebera  as  originaes  propostas  de  ociosos  bebe- 
dores de  chopps.  A  verdade  era  essa  para  o  mundo 
do  interesse  e  também  para  os  justos.  O  macabro 
reclamo  vivo  estalara  como  um  odre.  Que  últimos 
dias  teria  tido  !  Que  grande  ódio  ao  mundo  na  segu- 
rança da  morte  !   E  que  entrevista  com  a  Ceifa- 


VIDA    VERTIGINOSA  ^       »ií 

dora,  si  é  que  a  Morte  nos  vem  regularmente  bus- 
car para  apressar  a  extineção  da  Vida...  Mas 
estava  mortoy  estava  enterrado,  e  outros  reclamos 
vivoa,,  áquella  hora,  pela  cidade  vasta  mostrariam 
a  excellencia  de  varias  befeidiasv  Era  a  civilização. 
Cheio  de  piedade,  interroguei  Franz. 

—  E  você,  que  vae  fazer? 

—  Eu? 

—  Sim.  De  certo,  com  tal  exemplo,  você  não  va€ 
ficar  na  profissão  de  beber  muita  cerveja  como 
reclamo. 

Elle  estava  admiradíssimo. 

—  E  porque  não? 

—  Porque  morre.  E'  o  menos. 

—  Todos  nós  temos  de  morrer.  Tanto  faz  hoje... 

—  Então  continua? 

—  Eu  digo.  A  companhia  tem  gasto  um  dinheiro 
louco  em  reclamos.  Nem  pôde  imaginar.  Depois, 
são  tão  gentis !...  Chamaram -me  para  substituir  o 
Guilherme. 

—  E  acceitou? 

—  Nem  tinha  duvidas.  Um  ordenadão  !  Olhe  quL 
isto  é  sempre  melhor  do  que  ser  empregado  publico. 
Toma  outra  garrafa? 

—  Obrigado. 

—  Mas  tomo  eu. 

—  Porque  vae  você  fazer  isso,  Franz,  você,  que 
já  não  pode  ter  sede? 

De  novo  o  seu  semblante  contrahiu-se. 

—  Com  este  calor,  ha  gente  passando...  Sempre 


84  JOÃO    DO    RIO 

lhes  abre  o  appetite...  c  Garçon  »!  outra  garrafa! 
Bem  gelada !  Está  excellente. 

Fazia  realmente  um  calor  de  fornalha.  O  pobre 
reclamo  moderno  ingeria  o  copo  côr  de  topázio. 
Um  diamantino  brilhava-lhe  no  dedo  mimino.  E 
em  outras  mesas  havia  cavalheiros  bebendo  cer- 
veja. Reclamo?  Que  sei  eu?  Havia  de  outras  mar- 
cas. Eram  as  outras  fabricas?  Talvez...  Mas  o 
meu  coração  confrargia-se  ao  lembrar  que  talvez 
no  futuro  verão  já  aquelle.  Franz  brilhante  não 
estivesse  alli,  onde  estivera  o  verão  passado  a 
figura  macabramente  alegre  de  Guilherme  Hopf- 
fer... 


Modern  Girls 


MODERN  QIRLS 


—  Xerez?  Gok-tail? 

—  Madeira. 

Eram  7  horas  da  noite.  Na  sala  cheia  de  espelhos 
da  confeitaria,  eu  ouvia  com  prazer  o  Pessimista, 
esse  encantador  romântico,  o  ultimo  cavalheiro 
que  sinceramente  odeia  o  ouro,  acredita  na  honra, 
compara  as  virgens  aos  lirios  e  está  sempre  de 
mal  com  a  sociedade.  O  Pessimista  f aliava  com 
muito  juizo  de  varias  cousas,o  que  quer  dizer  : 
fallava  contra  varias  cousas.  E  eu  ria,  ria  desabala- 
damente,  porque  as  reflexões  do  Pessimista  causa- 
vam-me  a  impressão  dos  humorismos  de  um  clown 
americano.  De  repente,  porém,  houve  um  movi- 
mento dos  creados,  e  entraram  em  pé  de  vento 
duas  meninas,  dous  rapazes  e  uma  senhora  gorda. 
A  mais  velha  das  meninas  devia  ter  quatorze  annos. 
A  outra  teria  doze  no  máximo.  Tinha  ainda  vestido 
de  saia  entravada,  presa  ás  pernas,  como  uma  bom- 
bacha.  A  cabeça  de  ambas  desapparecia  sob  enor- 
mes chapéos  de  palha  com  flores  e  fructas.  Ambas 
mostravam  os  braços  desnudos,  agitando  as  luvas 


8S  JOÃO    DO    RIO 

nas  mãos.  Entraram  rindo.  A  primeira  atirou-se  a 
uma  cadeira. 

—  Uff !  que  já  não  posso  !... 

—  Mas  que  pandega ! 

—  Não  é,  mamã?... 

—  Eu  não  sei,  não.  Si  seu  pai  souber... 

—  Que  tem?  simples  passeio  de  automóvel. 
A  menor,  rindo,  approximou-se  do  espelho. 

—  Mas  que  vento  !  que  vento  !  Estou  toda  des- 
penteada   ... 

Mirou -se.  Instinctivamente  olhamos  para  o 
espelho.  Era  uma  carita  de  criança.  Apenas  estava 
muito  bem  pintada.  As  olheiras  exaggeradas,  as 
sombrancelhas  augmentadas,  os  lábios  avivados  a 
carmim  hquido  faziam-lhe  uma  apimentada  mas- 
cara de  vicio.  Era  de  certo  do  que  gostava,  porque 
sorriu  á  própria  imagem,  fez  uma  caretinha, 
lambeu  o  lábio  superior  e  veiu  sentar -se,  mas  á 
ingleza,  traçando  a  perna. 

—  Que  toma? 

—  Um  chopp. 

A  outra  exclamou  logo  : 

—  Eu  não,  tomo  wihsky,  whisky  and  caxambu'. 

—  Ali  right. 

—  E  a  mamã? 

—  Eu  minha  filha,  tomaria  um  groselhe.  O  Sr. 
tem? 

—  Esta  mamã  com  os  xaropes  ! 

E  voltou-se.  Entrava  um  sujeito  de  cerca  de 
quarenta  annos,  o  olho  vitreo,  torcendo  o  bigode, 


VIDA   VERTIGINOSA  89 

nervoso.  O  sujeito  sentou-se  de  frente,  despachou 
o  creado,  rápido,  e  sem  tirar  os  olhos  do  grupo, 
em  que  só  a  pequena  olhava  para  elle,  mostrou  um 
enveloppe  por  baixo  da  mesa.  A  pequena  deu  uma 
gargalhada,  fazendo  com  a  mão  um  signal  de  assen- 
timento. E  emborcou  com  galhardia  o  copo  de 
cerveja. 

Nem  a  mim,  nem  ao  Pessimista  aquella  scena 
podia  causar  sorpreza.  Já  a  tinhamos  visto  varias 
vezes.  Era  mais  um  caso  de  precocidade  mórbida, 
em  que  entravam  com  parte  eguaes  o  calor  dos  tró- 
picos e  a  anciã  de  luxo,  e  o  desespero  de  prazer  da 
cidade  ainda  pobre.  Aquelles  dous  rapazes,  aliás 
inteiramente  vulgares,  para  apertar,  palpar  e 
debochar  duas  raparigas,  tinham  alugado  um  auto- 
móvel, mas  tendo  nelle  a  mãe  por  contrapezo.  A 
boa  senhora,  esposa  de  um  sujeito  de  certo  sem 
muito  dinheiro,  consentira  pelo  prazer  de  andar  de 
automóvel,  pelo  desejo  de  casar  as  filhas,  por  uma 
serie  de  razões  obscuras  em  que  predominaria  de 
certo  o  desejo  de  gosar  uma  vida  até  então  apenas 
invejada.  O  homem  nervoso  era  um  desses  caça- 
dores urbanos.  A  menina,  a  troco  de  vestidos  e 
chapéos  iria  com  elle  talvez... 

—  E'  a  perdição  !  bradou  o  Pessimista. 

—  E'  ávida... 

—  Você  é  de  um  cynismo  revoltante.        i 

—  E  você? 

O  Pessimista  olhou-me  : 

—  Eu,  revolto-me ! 


90  JOÃO    DO    RIO 

—  E  o  que  adeanta  com  isso? 

—  Satisfaço  a  consciência... 

—  Que  é  uma  senhora  cada  vez  mais  compla- 
cente. 

O  Pessimista  enrouqueceu  de  raiva.  Eu,  com  um 
gesto  familiar,  tirei  o  chapéo  ás  meninas  —  que 
immediatamente  corresponderam  ao  comprimento. 

—  Oh  diabo  !  conhecel-as  l 

—  Nunca  as  vi  mais  gordas. 

—  E  comprimenta-as? 

—  Por  isso  mesmo  :  para  as  conhecer.  E'  que 
essas  duas  meninas  são,  meu  caro  Pessimista,  um 
caso  social  —  um  expoente  da  vida  nova,  a  vida 
do  automóvel  e  do  velivolo.  O  homem  brasileiro 
transforma-se,  adaptando  de  bloco  a  civilização; 
os  costumes  transf ormam-se ;  as  mulheres  trans- 
formam-se.  A  civilisação  creou  a  suprema  fúria  das 
precocidades  e  dos  appetites.  Não  ha  mais  crianças. 
Ha  homens.  As  meninas,  que  aliás  sempre  se  fize- 
ram mais  depressa  mulheres  que  os  meninos  homens, 
seguem  a  vertigem.  E  o  mal  das  civilizações,  com 
o  vicio,  o  cançaço,  .o  exgottamento,  dá  como 
resultado  das  crianças  pervertidas.  Pervertidas 
em  todas  as  classes;  nos  pobres  por  miséria  e  fome; 
nos  burguezes  por  ambição  de  luxo,  nos  ricos  por 
vicio  e  degeneração.  Certo,  ha  muitíssimas  rapari- 
gas puras.  Mas  estas,  que  se  transformaram  com 
o  Rio,  estas  que  ha  dez  annos  tomariam  sorvete, 
de  olhos  baixos  e  acanhadas,  estas  são  as  «modern 
girls  )). 


VIDA   VERTIGINOSA  91 

—  Um  termo  inglez... 

—  Diga  antes  americano  —  porque  americano 
é  tudo  que  nos  parece  novo.  Antigamente  treme- 
ríamos de  horror.  Hoje,  estas  duas  pequenas  são 
quasi  nada  de  grave.  Semi-virgens?  Contaminadas 
de  « ílirt  ))?  Sei  lá  !  E'  preciso  conhecer  o  Rio  actual 
para  apanhar  o  pavor  immenso  do  que  podería- 
mos denominar  a  prostituição  infantil.  Este  é  o 
caso  bonito  —  não  se  aíílija  —  bonito  á  vista  dos 
outros,  porque  os  outros  são  sinistros.  O  que  Paris 
e  Lisboa  e  Londres,  emfim  as  cidades  européas 
offerecem  tão  naturalmente,  prolifera  agora  no 
Rio.  A  miséria  deshonesta  manda  as  meninas,  as 
crianças,  para  a  rua  e  explora-as.  Ha  matronas  que 
negociam  com  as  filhas  de  modo  alarmante.  Ha 
cavalheiros  que  fazem  de  coHecionar  crianças  um 
sport  tranquillo.  A  cidade  tem  mesmo,  não  uma 
só,  mas  muitas  casas  publicamente  secretas,  fre- 
quentadas por  meninas  dos  doze  aos  dezeseis 
annos.  Ainda  outro  dia  vi  uma  menina,  de  madei- 
xas cabidas  e  meia  curta.  Olhou -me  com  insolên- 
cia e  entrou  numa  casa  secreta,  que  fica  bem  em 
frente  ao  ponto  de  carros  eléctricos  em  que  me 
achava.  Estas  talvez  não  façam  isso  ainda,  estas 
são   as   eternas   pedidas. 

—  As  eternas  pedidas?,.. 

—  Greaturinhas  com  o  trópico,  o  vicio  das  ruas, 
o  apetite  do  luxo  que  não  podem  ter,  creaturinhas 
que  desde  o  collegio,  desde  os  dez  annos,  se  enfei- 
tam, põem  pó  de  arroz,  carmim,  e  namoram.  O 


92  JOÃO    DO    RIO 

lar  está  aberto  aos  milhafres,  como  se  diria  antiga- 
mente nos  dramalhões.  Elias  têm  um  noivo,  quando 
deviam  estar  a  pular  a  corda.  E'  um  rapaz  alegre, 
que  lhes  ensina  cousas,  e  pittorescamente  lhes  «  dá 
o  fora  ))  tempos  depois,  desapparecendo.  Logo 
apparece  outro.  As  meninas,  por  vicio  e  mesmo 
porque  lhes  pareceria  deprimente  não  ter  um  apai- 
xonado permanente,  recebem  esse  e  com  elle 
contractam  casamento.  Ao  cabo  de  dous  ou  três 
mezes  a  scena  repete-se  e  vem  terceiro,  de 
modo  que  é  muito  commum  ouvir  nas  conversas 
das  pobres  mamãs  :  —  «A  minha  filha  vai  casar  ». 
—  {(  Ah !  já  sei,  com  aquelle  rapaz  alto,  louro  ? »  — 
«  Não.  Agora  é  com  aquelle  baixo,  moreno,  que 
em  tempos  namorou  a  filha  do  Praxedes  »... 

—  Você  é  immoral... 

—  Estou  a  descrever-lhe  um  mal  social  apenas. 
Não  é  assim?  E'.  São  as  «  modern  girls  ».  E  o  mesmo 
phenomeno  se  reproduz  na  alta  sociedade,  com 
mais  elegância,  sem  a  declaração  de  noivado  ofíicial, 
mas  com  um  «  flirt  » tão  intimo  que  se  teme  pensar 
não  ser  muito  mais...  Quaes  as  idéas  dessas  pobres 
creaturinhas,  meu  caro  Pessimista?  Goitaditas ! 
Ingenuidade,  a  ingenuidade  do  mal  espontâneo. 
Elias  são  antes  victimas  do  nome,  da  situação,  do 
momento,  da  sociedade.  Nenhuma  delias  tem  plena 
convicção  do  que  pratica.  E  algum  de  nós,  neste 
instante  vertiginoso  da  cidade,  tem  plena  cons- 
ciência, exacta  consciência  do  que  faz? 

—  Estamos  todos  malucos. 


VIDA   VERTIGINOSA  93 

—  Dil-0  você  !  o  facto  é  que  de  repente  nos  ata- 
cou uma  hyper-furia  de  acção,  um  subitaneo  desen- 
cadear de  desejos,  de  appetites  desaçaimados. 
Não  é  vida,  é  a  convulsão  de  um  mundo  social  que 
se  forma.  O  cynismo  dos  homens  é  o  cynismo  das 
mulheres,  seres  um  tanto  inferiores,  educados  para 
agradar  os  homens  —  vendo  os  homens  diííiceis, 
os  casamentos  sérios,  o  futuro  tenebroso.  As 
«  modern  girls  » !  Não  imagina  você  a  minha  pena 
quando  as  vejo  sorrindo  com  impudência,  copiando 
o  andar  das « cocottes » exaggerando  o  desembaraço, 
acceitando  o  primeiro  chegado  para  o  «  flirt »,  numa 
maluqueira  de  sentidos  só  comparável  ás  crises 
rituaes  do  vicio  asiático  !...  Elias  são  modernas, 
ellas  são  coquettes,  ellas  querem  apparecer,  bri- 
lhar, superar.  Ellas  pedem  o  louvor,  o  olhar  concu- 
piscente, como  os  artistas,  os  deputados,  as  «  cocot- 
tes )>;  as  palavras  de  desejo  como  os  mais  alluci- 
nados  titeres  da  Luxuria.  E  tudo  por  imitação,  por 
que  o  instante  é  esse,  porque  o  momento  desvai- 
rante  é  de  um  galope  desenfreado  de  excessos  sem 
termo,  porque  já  não  ha  juizo... 

—  Virou  moralista? 

—  Gomo  Diógenes,  caro  amigo. 
Entretanto,  o  grupo  das  meninas  e  dos  rapazes 

acabara  as  bebidas.  Os  rapazes  estavam  de  certo 
com  pressa  de  continuar  os  apertões  nos  automó- 
veis. 

—  Vamos.  Já  vinte  minutos. 

—  Não  quer  mais  nada,  mamã? 


94  JOÃO    DO    RIO 

—  Não,  muito  obrigada. 

—  Então,  em  marcha. 

—  Para  a  Beira-Mar ! 

—  Nunca !  interrompeu  um  dos  rapazes.  Vou 
mostrar-lhes  agora  o  ponto  mais  escuro  da  cidade  : 
o  Jardim  Botânico. 

—  Faz -se  tarde.  Olha  teu  pai,  menina... 

—  Qual!  Em  dez  minutos  estamos  lá!  E'  um 
automóvel  esplendido. 

—  Partamos. 

O  bando  ergueu-se.  Houve  um  arrastar  de  cadei- 
ras. Sahiu  a  senhora  gorda  á  frente.  A  menina  mais 
velha  seguia  com  um  dos  rapazes,  que  lhe  segu- 
rava o  braço.  A  menina  menor  também  partia 
acompanhada  pelo  outro,  que  lhe  dizia  cousas  ao 
ouvido.  Ficámos  sós  —  eu,  o  Pessimista  e  o  homem 
nervoso  da  outra  mesa,  o  tempo,  aliás  apenas  para 
que  o  homem  nervoso  se  levantasse,  e,  tomando 
de  um  lenço  que  ficara  esquecido  na  mesa  alegre, 
o  embrulhasse  com  a  sua  carta...  A  menor  das 
pequenas  voltava,  rindo,  a  dizer  alto  para  fora  : 

—  Esperem,  é  um  segundo... 

Correu  á  mesa,  apanhou  o  lenço  com  a  carta, 
lançou  um  olhar  malicioso  ao  homem,  e  partiu 
lépida,  sem  se  preoccupar  com  o  nosso  juízo. 

—  Essas  é  que  são  as  ingénuas?  berrou  o  Pessi- 
mista. 

—  Ha  ingénuas  e  ingénuas.  Ingénuas  xarope  de 
groselhas... 

—  E  ingénuas  whisky  and  Caxambu? 


VIDA   VERTIGINOSA  95 

—  Exactamente.  Esta,  porém,  é  menos  que 
whisky,  e  mais  que  xarope  —  é  o  commum  das 
«  modern  grils  »  o  que  se  pôde  chamar... 

—  Uma  ingénua  cock-tail? 

—  E  com  ovo,  excellente  amigo,  e  com  ovo  ! 


A   Crise  dos  creados 


A  CRISE  DOS  CREADOS 


Recebo  neste  momento  uma  carta  acompanhada 
do  seguinte  bilhete  : «  Lê  estas  linhas  trágicas.  Elias 
resumem  o  maior  tormento  contemporâneo  das 
donas  de  casa  e  consequentemente  dos  pobres 
maridos  das  donas  de  casa.  Lê  e  compenetra-te. » 

Desdobrei  a  missiva  e  li  a  seguinte  longa  historia 
de  um  tormento  de  que  ninguém  fala. 

«  Minha  cara  Baby.  Afinal  ficou  hontem  resol- 
vido. Fábio  consente  em  partir  no  próximo  dia  15. 
Depois  com  os  últimos  caloies  e  os  temporaes  súbi- 
tos á  Wanda  mostrou  os  incommodos  de  garganta. 
Estamos  em  preparativos.  Uf !  Partir !  Partir  é 
sempre  bom,  mesmo  quando  é  apenas  para  outro 
bairro.  Estou  contentíssima !  Uf !  Três  longos 
mezes  de  repouso,  três  longos  mezes  na  casa  dos 
outros,  três  longos  mezes  sem  a  preoccupação,  a 
absorvente  preoccupação,  a  idéa  fixa,  a  angustiosa 
idéa  fixa... 

Não  te  admires  da  minha  face  pallida,  das  olhei- 
ras côr  d'agapantho,  da  magreza  do  meu  todo, 
quando  vires  na  estação  esta  tua  amiga.  E'  da  idéa 


100  JOÃO    DO    RIO 

fixa.  Sempre  fui  uma  mulher  feliz,  nunca  tive  ciú- 
mes, nem  razões  contra  meu  marido,  tenho  um  lar 
encantador,  dois  filhos  que  são  como  duas  flores 
novas,  espelhos  e  costureiras  que  asseguram  a 
continuação  dos  encantos  que  prenderam  meu 
marido.  Mas,  oh  !  Baby,  querida  Baby,  desde  o  pii- 
meiro  dia  do  casamento  o  problema  insolúvel  reben- 
tou aos  meus  olhos  e  foi  crescendo,  foi-se  compli- 
cando, foi-se  fazendo  avatar,  e  nos  liames  da  sua 
insolubilidade,  só  a  pensar  nelle,  como  planta  suga- 
da, fui  empallidecendo,  afeiando,  perdendo  o  viço. 

Si  não  partir  no  dia  15,  talvez  não  resista.  Estou, 
ao  mesmo  tempo  que  sinto  vontade  de  chorar,  com 
Ímpetos  de  quebrar  a  louça,  quebrar  a  cara  ao 
Fábio,  puxar  as  orelhas  á  Wanda.  E  só  isso  porque 
são  seis  horas  da  tarde  e  estamos  apenas,  eu  o 
marido  e  os  dois  filhos;  e  só  isso  porque  para  jantar 
ou  terei  de  ir  á  cosinha  ou  terá  o  Fábio  de  sair  a 
encommendal-o  ao  hotel. 

Adivinhaste  de  certo,  minha  Baby.  A  neurasthe- 
nia  da  tua  amiga  é  o  angustioso  problema  dos  ci  ea- 
dos,  a  razão  de  ser  a  causa  das  maiores  desintelli- 
gencias  no  nosso  lar.  Já  não  posso  mais.  Não  posso  ! 
Não  posso  !  Fábio,  que  odeia  as  gorduras  dos  boteis 
já  foi  á  cosinha  umas  seis  vezes  e  suspirou  olhando 
as  unhas.  O  filho  já  indagou  si  não  se  jantava.  São 
eis  horas.  Por  que  saíram  as  duas  creadas?  Não 
^ei.  E'  lá  possível  saber  porque  as  creadas  deixam 
as  casas  hoje  em  dia?  Ella,  a  cosinheira,  chegou-se 
a  mim  e  disse  pela  manhã. 


VIDA    VERTIGINOSA  101 

—  Depois  do  almoço,  tenho  de  sahir. 
A  copeira  appareceu  então. 

—  A  patroa  deixava  eu  aproveitar  a  compa- 
nhia para  fazer  umas  compras? 

Eu  tinha  de  sahir.  Mas  como  negar  qualquer  coisa 
ás  creadas? 

~  Podem  ir,  mas  não  esqueçam  que  o  Dr.  Fábio 
janta  ás  seis. 

E  dei-lhes  dinheiro  para  os  bonds,  e  fiquei.  Infe- 
lizmente, porque  ellas  estavam  de  combinação  e 
deixavam  a  casa  só,  por  sentimento  de  perversi- 
dade. De  resto  isto  não  me  causou  muita  emoção, 
estou  acostumada.  O  que  me  admiraria  era  vel-as 
voltar.  Imagina  tu  que  este  anno  eu  tive  96  crea- 
das ! 

Sim,  não  rias  nem  julgues  exaggero.  96  creadas 
de  janeiro  a  novembro.  Recorremos  a  annuncios, 
a  casas  de  commissão,  a  exploradores  particulares, 
á  inspectoria  de  immigração,  ao  subúrbio,  á  roça, 
ao  diabo.  Nunca  conseguimos  ter  em  regra  uma 
creada  mais  de  oito  dias  e  tivemos  as  que  duram 
um  dia,  meio  dia,  algumas  horas  e  mesmo  apenas 
minutos.  Contando  os  dias  sem  creada,  essas  96  dão 
a  média  no  anno  de  uma  creada  para  dois  dias.  No 
começo  do  anno  eu  e  o  Fábio  a  rir  do  problema 
apostamos,  eu  como  havia  de  ser  peor,  elle  como 
seria  melhor  e  tomamos  nota  da  primeira  :  uma 
allemã.  Essa  tinha  um  filho  que  todas  as  noites 
rebentava  de  indigestão  porque  a  mulher  o  obri- 
gava a  comer  de  mais  Durou  até  o  dia  5  porque 

G. 


-102  JOÃO    DO    RIO 

partia  para  Santa  Catharina,  onde  o  marido,  dizia 
ella,  tinha  uma  carroça  e  uma  cavalla.  O  dono  da 
venda  arranjou-nos  outra  muito  boa,  sua  patrí- 
cia, chegada  da  terra,  e  de  toda  confiança.  Era 
um  desastre.  Foi  limpar  o  chapéo  alto  do  Fábio  e 
amarrotou-o  todo.  Tentou  abotoar-me  as  botas  e 
arrancou  tantos  botões  que  por  ultimo  arrancou 
as  botinas,  não  tendo  mais  que  arrancar.  A  comida 
era  horrivel  e  apezar  do  calor  a  mulher  tinha  hor- 
ror á  agua. 

—  E'  impossivel !  dizia  eu. 

—  Mas  fica !  assegurava  Fábio.  Tem  paciência. 
Três  dias  depois  a  mulher  fugia  com  o  padeiro^ 

que  também  era  da  terra.  Ah !  Baby,  que  torre  de 
Babel  ancillar  foi  a  minha  casa  este  anno.  Comecei 
por  uma  allemá,  não?  Pois  a  penúltima  era  árabe  í 
São  italianas,  hespanholas,  húngaras,  inglezas, 
francezas,  mulatas,  pretas,  brancas,  todo  o  mundo 
E  nenhuma  fica ! 

Por  que?  indagarás  tu  a  rir.  Por  que?  Ah!  esse 
é  que  o  enygma.  Por  que?  E'  o  caso  de  dizer  como 
aquelle  poeta  sobre  os  coUegas  futuros  : 

Poetes  à  venir,  qui  saurez  tant  de  choses. 

Et  les  direz  sans  doute  en  un  verbe  plus  beau... 

Só  as  donas  de  casa  do  futuro,  de  certo  mais  intel- 
ligentes,  poderão  explicar  as  causas  desse  estado 
horrivel.  Por  que  ellas  saem  ?  Si  ás  vezes  nem  entram 
ou  quasi  não  entram  !  No  mez  de  agosto  contratei 


VIDA    VERTIGINOSA  103 

tuna  creada  de  nome  Miquelina.  Era  preta,  magra, 
óssea,  feia. 

—  Sabecosinhar? 

—  P'ra  mim;  quanto  ao  paladar  dos  outros  é 
preciso  ver. 

—  Quanto  ganha? 

—  Sessenta  e  com  a  condição  de  sahir  ás  6  horas. 
Mas  entro  cedo. 

—  Pois  bem,  acceito. 

—  Venho  amanhã. 

No  dia  seguinte,  ás  5  da  madrugada,  fomos  accor- 
dados  com  um  barulho  medonho.  Quasi  que  pu- 
nham a  porta  em  baixo.  Fábio  ergueu-se  assustado 
e  voltou  satisfeito. 

—  E'  a  cozinheira.  Chegou  cedo,  hein?  Teremos 
sorte  ? 

A's  8  horas  levantámo-nos  e,  indo  á  cozinha, 
encontrei  no  meio  de  um  lago,  deante  da  pia  com 
a  torneira  aberta,  de  joelhos,  mãos  postas,  a  creada 
que  resava. 

—  Nossa  Senhora  da  Consolação,  por  quem  és... 

—  Que  é  isso,  rapariga? 

—  Gala  a  bocca,  estou  resando  a  Nossa  Senhora. 
Ella    estava   apenas   bêbeda,    mas   bêbeda    de 

cahir  e  teve  de  ir,  com  a  ajuda  da  policia,  resar  no 
xadrez.  Teria  estado  esta  em  minha  casa?  A  que  a 
substituio  era  da  roça,  trazida  por  um  agente  explo- 
rador. Pura  roça  do  Meyer  e  da  plataforma,  como 
disse  o  Fábio. 

Chegou,  e  todas  as  condições  foram  acceitas.  Si 


104  JOÃO    DO    RIO 

dormia  em  casa  !  Mas,  duas  horas  depois,  ella  vinha 
annunciar  que,  tendo  esquecido  a  roupa,  ia  buscar 
e  voltava  já.  Até  hoje,  Baby.  Deixou-nos  uma  saia 
suja  e  um  par  de  chinellas  velhas  !  E  não  te  admires. 
A  tercena  que  appareceu  era  hespanhola.  Tinha 
estado  na  casa  do  Conselheiro  Fulano,  na  do  minis- 
tro Cicrano,  era  importante.  Entrava  ás  9  horas  e 
sahia  ás  7. 

—  Quanto  é  o  seu  aluguel? 

—  Conforme. 

—  Conforme  o  que? 

—  Si  forem  duas  pessoas  80 $000. 

—  E  mais? 

—  Cada  cabeça  a  mais,  mais  lOSOOO... 

—  Por  que? 

—  Sabe  usted,  mi  senora,  que  custa  mais  a  fazer. 

—  E  quando  houver  visitas? 

—  Una  gratification... 

Mas  tive  uma  em  agosto  que  impunha  como  con- 
dições o  jantar  ás  4  %  ^^  tarde  e  levar  a  comida 
para  o  «  seu  homem  »  que  a  viria  buscar.  Fábio 
estava  perto  e  não  acceitou,  dizendo  : 

—  Vae,  filha,  e  não  deixes  de  dar  lembranças  ao 
homem... 

Que  fazer?  Que  fazer?  Já  tive  de  pancada  quatro 
creadas,  a  ver  si  alguma  parava.  E'  impossível.  E 
neste  momento,  tendo  de  ir  para  a  cosinha,  já  ima- 
gino o  supplicio  habitual  de  amanhã,  que  é  para 
mim  o  supplicio  de  todos  os  dias  quasi. 

—  Estão  batendo. 


VIDA   VERTIGINOSA  105 

—  Deve  ser  creada. 

—  Quem  é? 

—  Foi  aqui  que  annunciou? 

—  Foi.  Você  é  cozinheiía? 

—  Do  trivial,  sim,  senhora;  as  minhas  condi- 
ções... 

E  dizem  isso  sujas,  desdentadas,  feias,  bêbedas, 
bonitonas,  todas,  todas... 

Ah !  não,  Baby.  No  dia  15  partimos.  Não  imagi- 
nas o  meu  contentamento.  Três  longos  mezes  sem 
ouvir  isso,  sem  pensar  em  creadas  —  o  grande  tor- 
mento de  tantas  casas.  E,  aqui  em  segredo  :  vou 
empregar  esses  dias  a  convencer  Fábio  que  deve- 
mos ir  para  uma  pensão,  definitivamente.  Não 
achas? 

Tua  amiga,  com  coragem  capaz  de  aturar  96 
creadas  em  onze  mezes,  e  muito  do  coração. » 

Eu  fiquei  a  pensar  e  a  sorrir. 

Ha,  cada  vez  mais  grave,  entre  nós,  a  crise  dos 
bons  criados.  E'  uma  crise  como  outra  qualquer,  e 
terrível  para  quem  precisa  conservar  uma  certa 
linha  social  na  sua  residência.  Não  ha  servidores  do- 
mésticos nem  mesmo  regulares.  Os  cozinheiros  são 
atrozes,  as  cozinheiras  são  indescriptiveis,  os  copeiros 
ignoram  por  completo  o  seu  ofiicio,  as  damas  de 
companhia,  as  mucamas,  as  criadas  de  quarto  não 
têm  qualificativos  quanto  ao  cumprimento  de  sua 
obrigação.  Ha,  porém,  mais.  Cozinheiras  e  cozinhei- 
ros são  bêbedos  e  ladrões,  copeiros  são  gatuno?, 
denunciadores,  criminosos  vulgares,  a  criadagem 


106  JOÃO    DO    RIO 

feminina  participa  de  todos  os  vicios  e  de  todos  os 
desequilibros.  As  queixas  á  policia  são  constantes. 
Um  dos  maiores  problemas  de  um  dono  de  casa, 
com  a  incúria  geral,  é  escolher  um  criado  depois  de 
procural-o  muito.  Se  acàa  um,  tem  de  ficar  com  elle 
e  dar  graças  aos  deuses. 

Outro  dia,  diziam-me  : 

—  Nós  peoramos  de  anno  para  anno.  Veja  você 
na  Europa  como  o&  criados  são  baratos  e  bons,  de 
toda  confiança.  Aqui,  já  houve  tempo.  Agora  é  um 
escândalo,  é  uma  vergonha.  Os  ordenados  são  fan- 
tásticos, os  criados  bandidos,  e  nada  mais  arriscado 
do  que  fazer  o  que  nós  todos  somos  obrigados  a 
fazer  :  abrir  o  lar  á  invasão  dessa  tropa  de  delin- 
quentes e  trapos  sociaes,  e  ser  a  victima  indefesa 
nas  suas  mãos. 

Realmente.  O  criado  entra  para  uma  casa  sem 
carteira,  sem  informação,  sem  indagações. 

Exige  varias  cousas.  O  patrão  nada  exige;  porque 
então  não  veria  criados.  Tem  um  copeiro  que  não 
sabe  servir  á  mesa  mas  lhe  pede  dinheiro  adeantado ; 
tem  um  cozinheiro  inaudito  que,  além  de  queimar 
a  comida  e  insultal-o  na  cozinha,  exige  vinho  ás 
refeições  e  o  almoço  tarde,  porque  não  se  levanta 
antes  das  9  horas  da  manhã.  Isso  é,  porém,  o  ideal 
—  porque  pôde  ter  um  ladrão,  o  membro  de  uma 
quadrilha  de  salteadores,  um  assassino,  o  que  é  evi- 
dentemente mais  que  as  mais  absurdas  exigências. 
E  apezar  das  exigências  e  dos  perigos,  a  maior 
angustia  de  quem  precisa  de  criados  é  obtel-os  e 


VIDA    VERTIGINOSA  107 

conserval-os,  mesmo  poi  curto  espaço  de  tempo. 

—  Por  qne  vai  embora  você? 

—  Não  sei,  não. 

—  D 011 -lhe  cem  mil  réis  por  mez.  Você  dorme 
fora,  sahindo  ás  7  e  entrando  ás  8.  Você  tem  vinho 
e  sobremesa  a  cada  refeição;  você  recebe  as  suas 
visitas  todas  as  sextasfeiras.  Você  não  paga  a  louça 
que  quebra.  Já  lhe  dei  vestidos  meus.  Por  que  va^ 
embora  você,  duas  semanas  depois  de  entrar? 

—  Vou  f aliar  com  franqueza  :  não  sympathiso 
com  esta  rua ! 

A  questão  dos  criados  é  uma  questão  económica 
e  também  uma  questão  social.  Não  ha  duvidas  pos- 
siveis  a  respeito.  Outr'ora,  o  criado  como  crise 
social  e  económica  faria  rir  ás  velhas  matronas 
marechalas,  em  casas  enormes  como  quartéis,  de 
um  exercito  de  servos.  Hoje,  só  fallar  em  criada 
demuda  e  vinca  de  tristeza  as  pobres  donas  de 
casas  pequenas. 

—  Por  que,  senhores,  por  que  não  é  como  anti- 
gamente ou  como  na  Europa? 

Elias  juntam  as  mãos  nos  salões,  nervosas,  sem 
animo,  deante  do  horrível  problema,  e  em  cada  casa 
a  irregularídade,  o  desperdicio,  o  cansaço,  a  falta  de 
serviço  regular  ameaçam  desastres,  complicações, 
agonias. 

Ora  ,a  crise  dos  criados  explica  de  um  modo  abso- 
luto a  vertigem  de  progresso  de  um  povo  joven  e  só 
por  esse  progiesso  pôde  ser  explicada.  Ha  penúria 
de  criados?  Não  havia  ha  vinte  e  cinco  annos?  Mas 


108  JOÃO    DO    RIO 

ha  vinte  e  cinco  annos  tinhamos  escravos.  O  criado 
tinha  por  ideal  agradar  e  acabava  fazendo  parte 
da  familia,  sem  vencimentos.  Depois  de  13  de  maio 
os  criados  estavam  baratissimos.  Os  escravos  não 
sabiam  o  que  fazer.  Mas  fez-se  a  corrente  immigra- 
toria.  De  repente,  a  velha  aldeia  acordou  cidade 
triumphal.  A  vida  americana  despertou  nos  nervos 
modorrentos  dos  sem  ambições.  Um  desencadear 
de  appetites,  de  desejos,  de  vontades  irrompeu.  A' 
sementeira  de  fúria  ambiciosa  dos  immigrantes  cor- 
respondeu o  terreno  fertilissimo  do  paiz  novo  em 
frondosas  arvores  de  negociatas,  de  projectos,  de 
realisações  onde  estava  tudo  á  espera  de  realisa- 
ção.  De  Portugal,  da  Hespanha,  da  Itália,  de  varias 
províncias  da  Península,  do  Levante,  do  Libano, 
da  Polónia,  da  Allemanha,  o  immigrante  vinha. 
Eram  bárbaros  ruraes,  ávidos  de  dinheiro,  de  goso, 
de  satisfações  pessoaes,  ignorantes  e  querendo  ga- 
nhar. Não  faziam  questão  de  profissão.  Tudo  lhes 
-servia,  menos,  para  a  maioria,  ir  trabalhar  na  terra, 
voltar  a  ser  o  que  era  lá.  As  crises  sociaes  das  cida- 
des americanas  terão  sempre  como  origem  esse  vicio 
da  immigração  que  renega  o  campo  e  se  urbaniza. 
Com  a  sua  actividade,  com  o  seu  egoismo  trium- 
phal, as  raças  que  fizeram  o  ambiente  de  progresso 
vertiginoso,  tomando  conta  de  varias  profissões, 
expulsaram  e  quasi  liquidaram  os  negros  livres  e 
bêbedos,  raça  de  todo  incapaz  de  resistir  e  hoje 
cada  vez  mais  inútil.  E  o  problema  ficou  nitida- 
mente traçado.  De  um  lado  os  criados  negros  que  a 


VIDA    VERTIGINOSA  109 

abolição  estragou  dando-lhes  a  liberdade.  Inferiores, 
alcoólicos,  sem  ambição,  mim  paiz  onde  não  é  pre- 
ciso trabalhar  para  viver,  são  torpemente  carne 
para  prostíbulos,  manicomios,  sargetas,  são  o  ba- 
gaço da  canalha.  De  outro,  os  immigrantes,  raças 
fortes,  tendo  sabido  dos  respectivos  paizes  eviden- 
temente com  o  desejo  sempre  incontentado  de 
enriquecer  cada  vez  mais,  e  por  consequência,  tran- 
sitórios sempre  em  diversas  profissões.  Gomo  ter 
criados?  Os  negros  não  trabalham  porque  não  pre- 
cisam. Os  brancos  têm  ambições  de  mais,  estão  tem- 
porariamente na  profissão  de  criados. 

Tudo,  de  resto,  num  paiz  que  se  plasma,  é  tem- 
porário. Elles  têm  a  cada  passo  exemplos  de  que 
nada  é  mais  possível  do  que  mudar  e  ganhar  muito. 
Os  barões,  seus  patrões  temporários,  dizem  : 
—  Comecei  de  tamancos,  carregando  cesto. 

Immigrantes,  chegados  sem  roupa  e  sem  nickel, 
são  millionarios.  E'  perigosíssimo  julgar  que  um 
desses  homens  em  mangas  de  camisa  não  seja 
amanhã  riquissimo.  O  espirito  que  obriga  ao  nive- 
lamento social  e  transforma  o  immigrante  num 
insolente  audaz,  sapateando  sobre  as  distancias 
mundanas,  é  uma  secreta  indicação  da  Fatalidade. 
O  meu  engiaxate  de  ha  cinco  annos  —  hontem  !  — 
é  o  maior  bicheiro  da  actualidade,  já  perdeu  mil 
e  quinhentos  contos,  tem  uma  fortuna  de  oitocen- 
tos, o  maior  brilhante  do  Brasil  e  varias  condeco- 
rações. Trata  todos,  inclusivo  eu,  como  se  fossem 
seus  lacaios.  Um  copeiro  de  minha  familia,  copeiro 


110  JOÃO    DO    RIO 

pequeno,  que  commigo  brincava  em  criança,  en- 
contrei-o  outro  dia  no  theatro,  de  smoking  eannel 
de  brilhante.  Fomos  ceiar  juntos,  a  seu  convite. 
Ganhou  já  duzentos  contos  em  construcções.  Fez- 
me  confidencias  : 

—  Ganhei  duzentos  contos.  E  tu? 

—  Escrevi  duas  mil  paginas. 

—  Que  toHce  ! 

Xão  lê  jomaes,  assigna  mal  o  nome,  pretende  ser 
amante  das  senhoras  do  tom,  é  forte,  é  saudável, 
é  sympathico. 

Nada  menos  intelligente  que  desprezar  um  des- 
ses homens.  Na  Europa,  o  criado  é  sempre  criado. 
Nos  paizes  novos,  o  criado  é  ciiado  de  passagem. 
Amanhã  o  seu  copeiro  é  dono  de  companhia,  o  seu 
cozinheiro  tem  um  hotel,  a  sua  criada  de  quarto  é 
cocotte.  Ainda  outro  dia  encontrei  o  pequeno  de 
um  ascensor  lendo  um  livro  de  physica. 

—  Está  a  instruir-se?  Bravo  ! 

—  Para  não  perder  o  tempo.  A  electricidade  é  o 
que  dá  mais  agora. 

—  E  então? 

—  Pretendo  ser  electricista,  antes  de  ser  millio- 
nario. 

Apertei -lhe  a  mão.  Aperto,  de  resto,  a  mão 
aos  cocheiros,  aos  motoristas,  ao  meu  criado 
de  quarto,  aos  garçons  de  restaurante.  Todos 
são  meus  iguaes  sociaes  em  breve,  elevados  pelo 
Dinheiro.  O  meu  criado  de  quarto  é  um  hes- 
panhol   de    quarenta  annos.  Além  desse  já  tem 


VIDA    VERTIGINOSA  111 

outros    empregos    H  ontem    não    me    appareceu. 

—  Tive  muito  que  fazer,  informou-me.  E  preciso 
do  seu  auxilio. 

—  Que  queres? 

—  Eu  e  a  mulher  montámos  uma  grande  casa 
de  engommar,  com  frente  para  a  rua.  Preciso  que 
arranje  um  conto  de  réis.  Damos-lhe  sociedade.  E' 
negocio  certo. 

O  caracter  transitório  de  criado  é  ainda  accen- 
tuado    pelo    sentimento    de    orgulho    dos    servos 
modernos.  A  dependência  domestica  humilha-os, 
oífende-os.   Dahi  o   collocarem-se  como  inimigos. 
O  dono  de  casa  é  um  general  em  cidade  pilhada  e 
vencida.   Os  criados  limitam-se  estrictamente   ás 
suas  funcções,  não  têm  alma,  não  têm  sentimentos, 
riem,  troçam  dos  patrões,  faliam  mal  delles  na  vi- 
sinhança,  roubam-n'os  com  descaro,  exigem  sem- 
pre. E  não  os  tratam  senão  pelo  nome  :  D.  Fulana; 
Sr.  Gicrano.  Por  trás  são  os  qualificativos  pejora- 
tivos e  a  maneira  mais  amável  de  referencia  é  um 
pronome  pessoal  sibilado  com  ira  :  «  Elle»  diz  que 
é  isso.  «  Ella»  engana-o...  Foi  preciso  ir  á^Europa, 
para  ouvir  com  um  tom  humilde  e  domestico  um 
homem  murmurar  :  Sim,  meu  senhor.  E  os  gestos 
ancilares,  os  gestos  de  criadas  passaram  a  ser  usa- 
dos apenas  pelos  parasitas  politicos. 

Não  podia  deixar  de  ser  assim.  Onde  uma  grande 
cidade  de  paiz  novo  que  não  tenha  a  escassez  dos 
criados?  Vejam  os  Estados  Unidos  e  os  excessos, 
as  extravagâncias  que  elles  se  permittem.  Vejam  a 


112  JO.lO    DO    RIO 

Argentina.  Póde-se  mostrar  o  violento  progresso 
de  um  paiz  por  pequenos  factos  de  uma  cidade.  O 
Brasil  apresenta  a  crise  do  criado  como  uma  prova 
de  plethora  de  progresso.  Nos  velhos  paizes  cheios 
de  tradições,  as  classes  elevadas  conservam  as 
posições  —  porque,  diz  Ernest  Charles,  são  as 
mais  instruidas  e  as  mais  intelligentes.  Na  America 
não  ha  tradições  e  quando  as  ha  ellas  são  prejudi- 
ciaes,  como  em  varias  republicas  hespanholas.  Não 
ha  tradições  e  os  elevados  de  hoje  vieram  dos  cam- 
ponios  e  do  operariado  europeu,  com  a  mesma  ins- 
trucção.  Têm  a  mesma  energia,  sabem  mais  ou 
menos  o  mesmo,  têm  o  mesmo  desejo,  são  perfeita- 
mente iguaes.  E  a  vida  é  a  batalha  desesperada  para 
a  conquista  do  Dinheiro,  para  a  escalada  delirante 
da  montanha  de  ouro,  e  o  ideal,  que  faz  o  progresso, 
que  reanima  o  paiz,  que  estabelece  o  deslumbra- 
mento, é  o  mesmo  de  homens  do  mesmo  valor. 

Não  ha  criados,  ha  homens  transitoriamente 
empregados  ao  serviço  de  outros,  emquanto  não 
arranjam  cousa  melhor.  E  a  crise  social  do  criado  é 
uma  das  formas  demonstrativas  do  progresso,  — 
do  progresso  geral  e  da  alma  imperialista  e  barbara 
do  futuro  brasileiro,  que  em  todas  as  cousas  quer 
ser  o  chefe. 

Quaesquer  que  sejam  as  medidas  municipaes  e 
policiaes  a  respeito,  o  mal  só  tende  a  augmentar. 
Dentro  de  dez  annos,  os  criados  —  ainda  os  ha- 
verá no  Rio? 


o    Muro   da   vida  privada 


MURO  DA  VIDA  PRIVADA 


Quando  o  pobre  homem  mais  ou  menos  notável 
saltou  no  Cáes  Pharoux,  encontrou  uma  dupla  fila 
de  photographos  e  de  reporters.  Os  photographos 
armados  de  kodacks  logo  apanharam  a  sua  physio- 
nomia  um  pouco  fatigada.  Os  reporters  precipi- 
taram-se  perguntando  cousas  fúteis  a  que  elle  res- 
pondia de  um  modo  solicito  mas  vago.  Um  dos 
jornalistas  porém  veiu  até  a  portinhola  do  automó- 
vel. 

—  Faz  obsequio,  que  edade  tem? 

—  Gincoenta  e  dois. 

—  E'  casado? 

—  Sim  senhor. 

—  Muitos  filhos? 

O  homem  mais  ou  menos  notável  lespondeu 
sorrindo  : 

—  Dois  apenas...  Sempre  ás  suas  ordens. 

O  carro  poude  então  partir.  Era  um  automóvel 
aberto,  e  nós  três  ainda  riamos  das  perguntas  do 
joven  repórter. 


116  JOÃO    DO    RIO 

—  Que  se  ha  de  fazer?  disse  o  homem  mais  ou 
menos  notável. 

Onde  vou,  apparecem-me  logo  esses  rapazes.  Já 
respondo  sem  sentir.  Mas  o  peor  é  depois.  Os  jor- 
naes  contam  que  eu  cheguei  e  dão-me  o  retrato.  O 
hoteleiro  põe-me  como  cartaz.  Os  meus  menores  ges- 
tos são  espiados.  Os  creados  entram-me  nos  apo- 
sentos sem  serem  chamados.  Ha  gente  que  se 
engana  no  numero  dos  quartos  para  entrar  no  meu. 
Ao  jantar,  seguem  a  lista  que  eu  escolho.  Peço  pi- 
mentas; ha  sempre  reflexões  :  «  como  gosta  de 
pimentas !  não  lhes  farão  mal?))  Prefiro  fructas  aos 
doces.  «  Porque  gosta  mais  de  fructas?))  Nas  ruas 
olham-me  como  um  animal  raro.  Tenho  a  sensação 
de  estar  sempre  preso  num  aro  de  olhos.  E  a  vida 
é  para  mim  infinitamente  triste  porque  não  tenho 
a  liberdade  de  fazer  o  que  eu  quero,  porque  estou 
sempre  amarrado  ao  terror  da  opinão  publica. 

Então,  um  dos  amigos  do  homem  mais  ou  menos 
notável  atirou  fora  o  cigarro,  e  exclamou  : 

—  Não  tens  razão  de  queixas. 

—  Porque? 

—  Porque  és  apenas  uma  victima  um  pouco  mais 
victima  de  um  mal  da  época.  A  curiosidade  é  tão 
excessiva  que  perdeu  o  pudor.  A  vertigem  da  vida  é 
tão  intensa  que  não  pôde  mais  separar  a  vida  pu- 
blica da  vida  particular.  Antigamente  havia  o 
recesso  do  lar.  O  homem  retirava-se  para  a  sua 
casa  e  contra  a  málingua,  a  bisbilhotice  mal  sã  pro- 
tegia-o  muro  da  vida  privada.  Hoje,  a  necessidade 


VIDA    VERTIGiríOSA  117 

urgente  é  pular  esse  muro  importante,  é  espiar  o  que 
se  passa  do  lado  de  dentro.  E  não  ha  quem  ponha  os 
intrusos  para  o  lado  de  fora  do  muro  porque  esta- 
mos sempre  a  trepar  nos  muros  vizinhos.  E'  um 
mal  particular  e  geral.  Como  mal  particular,  cada 
um  o  tem  mais  ou  menos  forte  e  mais  ou  menos  o 
soffre  conforme  o  ambiente.  Gonhece-se  um  homem, 
que  é  admirável  pelas  suas  obras.  Inmediatamente 
recebemos  informações  quasi  sempre  não  verda- 
deiras sobre  a  sua  vida  intima.  Fulano?  Vae  sema- 
nalmente de  carro  a  casa  de  uma  cocotte.  Cicrano? 
E'  um  digno  homem  publico?  Pois  ha  dois  mezes 
não  paga  ao  jardineiro  e  aos  domingos  come  uma 
vez  só  por  economia.  Beltrano?  Mas  Beltrano,  que 
na  vida  publica  é  um  bemfeitor  não  passa  de 
um  tratante,  filho  de  mãe  incógnita.  Um  tal? 
Um  tal,  coitado !  tem  a  esposa,  a  linda  esposa... 
Não  ha  de  quem  não  se  fale  mal.  Outr'ora  era  pre- 
ciso uma  certa  importância  para  ter  disso.  Hoje, 
qualquer  mortal.  Nesta  capital  do  mexerico  e  da 
calumnia  perdeu  o  seu  prestigio  porque  uns  e 
outros  não  fazem  o  dia  inteiro  senão  estiaçalhar  a 
vida  intima  do  próximo  e  levar  encarapitados  sobre 
o  muro  da  vida  privada  a  gritar  com  exaggero  o  que 
lá  se  passa. 

—  Nem  todos  gritam. 

—  Todos. 

—  E  os  amigos? 

—  Os  amigos  Íntimos  são  os  peores,  porque  intei- 
ramente de  dentro,  sem  precisar  saltar  o  muro, 


Ii8  JOÃO    DO    RIO 

inventam  com  mais  foros  de  verdade  e  maior  cre- 
dulidade do  publico.  E  quem  hoje  tem  amigos  Ínti- 
mos? Hoje,  ha  apenas  camaradas  ligados  pelo 
interesse,  as  conveniências  occasionaes.  Veja  os 
homens.  4'  primeira  desintelligencia,  ao  primeiro 
amuo  do  que  explora  menos  e  levanta  a  cerviz, 
immediatamente  se  tratam  de  bandalhos  e  ladra - 
vazes. 

A  sympathia  moderna  é  leve  e  impalpável.  Não 
assenta,  não  se  solidifica.  O  muro  da  vida  privada 
começou  a  perder  o  prestigio  graças  a  ella. 

—  Pessimista  ! 

—  Oh !  não.  Analyso  apenas  e  com  um  certo 
carinho.  Falaria  uma  hora  a  citar  essas  amizades 
que  se  rompem  com  escândalo,  entre  políticos,  entre 
jornalistas,  entre  homens  de  posições  muito  diver- 
sas. —  «  Oh  !  meu  caro  »  equivale  sempre  a  um  inte- 
resse. 

—  Você  inventa  o  thermometro  das  phrases. 

—  Nesta  época  de  arrivismo  desenfreado,  de 
egoísmo  feroz  tem  de  ser  assim.  Houve  um  homem 
ultimamente  que  quiz  inventar  a  expressão  exacta 
das  sensações.  As  palavras  não  davam  bem  as 
nuances  e  o  homem  recorreu  ás  mathematicas,  aos 
números. 

Assim,  tendo  de  dizer  que  o  sol  tinha  um  calor 
um  pouco  demasiado  o  homem  diria  :  o  sol  tinha 
um  calor  mais  3/4  do  commum...  Era  um  phanta- 
sista.  Entretanto  podemos  estudar  o  valor  das 
amabilidades  pelas  cifras,  a  inflexão  pelo  interesse 


VIDA    VERTIGINOSA  119 

qualquer  que  seja  o  interesse.  O  caso  aliás  já  está 
no  Roi  de  Gaillavet  e  Flers,  na  scena  da  recep- 
ção... 

—  Você  é  desolador. 

—  Em  glorificar  o  interesse  e  o  senso  pratico  da 
vida? 

—  Sim,  porque  ha  cousas  que  ninguém  diz, 
apesar  de  todos  pensarem  de  accôrdo. 

—  E  nós  pensamos  de  accôrdo,  tacitamente 
achamos  horrível  o  esboroamento  do  muro  da  vida 
privada,  mas  consentimos  que  delle  em  breve  nada 
mais  exista.  Porque  temos  o  appetite  do  escândalo, 
temos  a  raiva  da  destruição  e  o  civilizado  faz  carni- 
ficinas moraes  apenas.  Si  todos  prestam  attenção 
malévola  á  vida  dos  outros  —  como  uma  resultante 
desse  accumulo  de  bisbilhotices  perversas,  como  ex- 
poente moral  dessa  derrocada  do  velho  symbolo 
que  separava  o  homem  pubhco  do  homem  privado 
surge  a  exasperante  fúria  de  informação,  a  fome 
feroz  do  noticiário,  a  irresponsabilidade  da  calum- 
nia  lida  com  um  prazer  satânico.  Não  acredite  você 
que  só  o  homem  de  notoriedade  soíTre  taes  cousas. 
Soííre  talvez  mais  porque  subiu  e  tem  maior  sen- 
sibiUdade.  Mas  de  facto  todos  soíTrem.  Espiam  as 
repartições  publicas,  espiam  os  quartos,  as  salas, 
logares  secretos,  espiam  as  bodegas,  as  casas  modes- 
tas, os  anonymos.  A  uma  simples  palavra  os  jor- 
naes  fazem  juizos  integraes.  Contam -se  adultérios 
com  os  nomes  por  extenso  das  três  victimas,  con- 
tam-se  defloramentos  com  as  notas  do  exame  me- 


120  JOÃO    DO    RIO 

dico-legal  por  extenso.  Homers  medíocres  vêem 
impressa  a  historia  da  sua  familia,  quasi  sempre 
mentirosa.  Casos  de  honra  não  os  ha  mais  porque 
a  pubhcidade  nulhfica  a  honra  em  theatrahdade, 
espiando  os  bastidores  da  scena.  Gomo  o  homem  é 
um  animal  com  dois  sentimentos  fundamentaes  : 
o  amor  do  hicro  e  o  amor  do  goso,  as  baixezas  do 
dinheiro  e  os  desvarios  da  carne  são  o  escândalo 
permanente  aqui,  como  em  toda  parte.  Derrubado 
o  muro  da  vida  privada,  ha  um  sentimento  de 
insegurança  moral  generalizado.  Faz-se  tudo  ás 
claras  mesmo  quando  não  se  quer.  E  quando  não 
se  faça,  a  imaginação  inverta  como  inventava 
contra  Catão  o  antigo,  que  em  Roma  teve  a  tolice 
inútil  de  transformar  o  muro  da  vida  privada  numa 
casa  de  vidro. 

—  Encaras  com  má  vontade  o  problema. 

—  Com  a  má  vontade  secreta  de  todos  nós.  Der- 
rubado o  muro,  não  se  respeita  nem  a  morte.  O 
sujeito  depois  de  morto  tem  retrato,  tem  noticiai io 
e  tem  calumnias  e  serve  para  calumniar  aos  ou- 
tros. O  menos  que  delle  se  diz  é  que  morreu  por 
imprudência,  pela  sua  vida  má:  o  mais  que  se  diz 
é  que  o  pobre  falleceu  por  causa  dos  médicos  ou  da 
incúria  dos  enfermeiros. 

—  Já  via  a  vida  assim  o  Mísanthropo  de  Molière. 

—  E  a  vida,  apesar  disso  está  cada  vez  melhor. 
O  cavalheiro  pessimista  que  falava  tanto  irri- 

tou-se. 

—  Mas  de  certo.  Secretamente,  somos  contra  o 


VI  KA    VERTIGINOSA  121 

esboroamento  do  muro,  quando  é  para  o  mal,  mas 
ficamos  contentíssimos  quando  satisfaz  o  nosso 
desesperado  exhibicionismo,  porque  sem  o  muro 
os  anonymos  têm  retrato  jornaes,  os  medíocres  se 
affirmam  pela  insistência  do  nome  ímpreso,  as 
vaidades  se  aguçam  pela  publicidade.  Você  mesmo, 
tal  o  estado  da  nossa  moral,  si  fosse  Gorneille. 

—  Nâo  sou  Gorneille. 

—  Ou  Lavoísier. 

—  Não  sou  Lavoísier. 

—  Não  responderia  ao  repórter. 

—  Perdão.  Nos  tempos  desses  cavalheiros  eram 
as  próprias  figuras  de  realce  que  aboliam  o  muro 
compondo    autos-retratos. 

—  Aboliam  depois  de  arranjar  a  vida  como  os 
salões  paia  os  grandes  bailes.  Mas  não  me  inter- 
rompa. Você  mesmo  fez  um  ar  de  victima  depois 
de  responder  ao  repórter.  Entretanto,  si  não  hou- 
vesse reporters  e  photographos  você  estaria  furioso 
agora. 

—  Maldizente ! 

—  Verdadeiro. 

O  automóvel  parara  á  porta  do  hotel.  Saltamos. 
O  gerente,  sem  ter  sido  advertido,  agiu  com  indiffe- 
rença. 

Não  havia  ninguém  á  espera  do  homem  mais  ou 
menos  notável.  Senti  que  o  homem  procurava  com 
os  olhos  alguma  cousa.  Subimos  num  ascensor  ao 
terceiro  andar.  O  semblante  da  creatura  annuviara- 
se  de  repente.  Fazia  um  grande  esforço  para  sorrir 


122  JOÃO    DO    RIO 

e  mostrar-se  alegre.  O  gerente  tratava -nos  como 
toda  gente. 

—  Que  tem? 

—  Nada. 

—  Alguma  dôr.  Saudades? 

—  Não,  nada. 

Ficou  num  quarto  enorme  e  mal  mobiliado,  sen- 
tou-se  á  beira  da  cama. 

—  Que  boteis  os  nossos  !  que  horror ! 

Os  quatro,  meditativamente,  exclamamos  : 

—  Que  miséria ! 

A  tristeza  envolvia-nos.  Nisso  bateram  á  porta. 
O  homem  mais  ou  menos  notável  virou  a  cabeça 
ancioso,  gritou  soffrego  : 

—  Entre ! 

A  porta  abriu-se,  appareceu  um  menino  armado 
de  lápis  e  tiras  de  papel,  nervoso  por  apparecer  nào 
á  porta  só  mas  também  ao  mundo. 

—  V.  exa.  dá  licença?  E'  o  illustre  escriptor? 
Venho  em  nome  do  meu  jornal  cumprimentar  v. 
exa.  e  pedir  algumas  notas... 

O  gerente  voltara-se  rubro,  com  um  olhar  de 
quem  pede  perdão.  O  homem  mais  ou  menos  notá- 
vel, de  novo  radiante,  ergueu-se,  extendeu  a  mão  : 

—  Muito  obrigado,  meu  caro  amigo,  o  que 
quizer... 

Então  o  nosso  pessimista  berrou  com  escândalo 
geral  : 

—  Que  dizia  eu,  meus  senhores,  que  dizia  eu? 
Não  é  o  que  eu  dizia? 


VIDA    VERTIGINOSA       ,  123 

O  homem  sorriu  e  para  nós,  como  a  confessar-se  : 
—  Sim  !  Sim !  Tem  razão.  Somos  todos  assim ! 
Derrubar  o  muro  da  vida  privada  é  horrível  quando 
é  para  mal.  Mas  hoje,  com  a  Dossa  vida  veitiginosa, 
com  a  nossa  anciã  de  sói  e  de  liberdade,  de  exhibi- 
cionismo,  de  vaidade,  do  que  quizeres,  quando 
por  alguns  segundos  o  tal  muro  sentimos,  é  como 
si  sentíssemos  a  asphixia,  o  vasio,  a  rarefacção  da 
vida.  Não  somos  mais  nad-i...  O  muro  está  feliz- 
mente acab-^do.  Graças  !  Porque  só  a  sua  illusão 
por  segundos  entenebrece  a  alma ! 

E  acompanhado  do  gerente  amabilissimo  o 
homem  mais  ou  menos  notável  levou  pelo  braço  o 
repórter,  a  picareta  symbolo  destruidor  do  velho  e 
arrazado  symbolo  do  muro  da  vida  privada. 


Jogatina 


JOQATINA 


De  repente,  sem  que  ninguém  soubesse  por  que, 
todos  nós,  com  afinco,  conhecimentos  práticos  e 
mesmo  erudição,  tornamos  a  descobrir  que  a 
cidade  continua  a  ser,  não  a  terra  dos  cinemato- 
graphos,  não  o  paiz  dos  melomanos,  não  o  paraiso 
das  «  cocottes  »,  mas  apenas  '  o  reino  da  batota. 
Sim,  cá  estamos  numa  desenfreada  e  arruinadora 
jogatina.  Não  é  Monte  Cario.  E'  peor.  E'  incom- 
paravelmente peor.  Não  é  Gascaes,  não  se  asse- 
melha a  nenhuma  cidade  de  cura  e  de  passeio  do 
mundo  porque  reúne  todas  as  cidades  de  cura  e 
as  que  adoecem  a  gente  nesse  appetite  desenfrado 
do  jogo.  Joga-se  nos  cavallos,  nos  gallos,  na  lote- 
ria,  no  bicho,  na  renda  da  Alfandega,  no  final  da 
loteria,  nas  sommas  de  diversas  producções  com- 
merciaes,  nas  flores,  na  electricidade,  na  hypo- 
these  de  ganhar;  joga-se  em  todas  as  ruas,  em  cada 
canto;  aposta-se  no  dado,  no  bac,  no  pocker,  na 
roleta,  no  vermelhinha,  no  cometa  de  Halley,  nas 


128  JOÃO    DE    RIO 

candidaturas,  no  reconhecimento,  nos  actos  do 
governo,  na  possibilidade  da  morte  de  pessoas 
notáveis,  na  fliictuação  do  cambio,  na  honra  alheia, 
no  que  fará  o  sentimental  chefe  de  policia... 

—  A  mulher  do  Praxedes  tem  um  amante  :  o 
Antunes. 

—  Lá  amante  tem.  Agora  o  Antunes  é  que  não. 

—  Affirmo-te.  Vi-a  entrar. 

—  Aposto. 

—  Caso  como  não  é. 

—  O  chefe  de  policia  vae  prohibir  o  jogo. 
•—  Aposto  como  não. 

—  Um  contra  dez  como  vae. 

—  Vinte  contra  um  como  não  vae... 

E'  inteiramente  o  delirio.  Vê-se  um  ajuntamento 
na  rua.  E'  talvez  um  conflicto?  Não.  E'  apenas 
um  grupo  de  jogadores  que  espera  o  resultado, 
pelo  telephone,  de  uma  das  muitissimas  loterias 
que  se  extrahem  durante  a  noite.  Vê-se  uma  casa 
illuminada.  E'  uma  festa?  Não.  E'  um  club  de  jogo. 
Tudo  é  jogo,  só  jogo.  E  agora  é  que  se  comprehende 
na  sua  extensão  a  influencia  dos  costumes  nas  phra- 
ses  de  calão. 

—  Bem  conheço  o  teu  jogo,  já  se  pôde  dizer  que 
é  do  Rio.  Elle  vê  jogo  em  tudo.  Quando  uma 
senhora    exclama    : 

—  Cartas  na  mesa.  Sr.  meu  marido,  ninguém 
duvida  que  elle  venha  de  um  club  de  jogo  e  que 
ella  saiba  jogar  o  solo,  ou  pelo  menos  o  sete  e 
meio... 


VIDA    VERTIGINOSA  129 

Quem  estuda  um  pouco  o  movimento  do  jogo 
publico  fica  principalmente  admirado  como  ha 
tempo  e  gente  para  tantos  jogos.  E'  quasi  inacre- 
ditável. Outr'ora  nós  jogávamos  e  bastante.  Hoje 
é  uma  fúria  e  uma  fúria  em  que  a  intelligencia 
T3ara  ganhar  dinheiro  toma  proporções  esplendidas. 
Passei  dois  dias  a  saber  de  jogos,  começando  pela 
loteria,  a  Grande  Inicial.  Era  um  dia  de  semana,  á 
rua  visconde  de  Itaborahy.  Havia  uma  densa 
agglomeração  á  espera  do  resultado  :  empregados 
de  book-makers  equilibrados  á  beira  da  calçada; 
garotos,  encarregados  de  communicar  o  numero  da 
sorte  grande  aos  pequenos  baqueiros;  trepados 
nos  portaes;  mulheres  cobertas  de  trapos  sórdidos, 
empregados  da  Alfandega,  homens  de  mãos  calle- 
jadas,  marinheiros  e  soldados  de  policia.  Não  era 
possivel  a  entrada  do  publico  para  a  sala  das 
extracções,  devido  a  essa  impenetrável  muralha 
humana  que  se  estendia  pela  calçada. 

Os  garotos  aproveitavam  os  volumes  retirados 
dos  armazéns  aduaneiros,  que  atravancavam  a 
rua,  para  ficar  em  ponto  mais  alto. 

Os  ruidos  seccos  das  machinas  Fichet,  ouvi- 
dos no  recinto,  eram  de  vez  em  quando  pertur- 
bados pela  passagem  estrepitosa  de  pesados  ca- 
minhões e  pelos  fortes  gritos  dos  cocheiros  indi- 
gnados : 

—  Olha  a  frente,  diabo  ! 

Todos  esperavam  anciosamente  o  numero  da 
sorte  grande,   que  decidia  o  resultado  do  bicho. 


130  JOÃO    DO    RIO 

Lá  dentro  compassadamente,  continuava  a 
ser  feita  a  extracção  da  loteria. 

—  Gincoenta  contos  de  réis...  Gincoenta  contos 
de  réis !... 

Houve  um  prolongado  silencio.  Os  que  forma- 
vam a  impenetrável  muralha  humana  ficaram 
attentos,  pareciam  suspensos.  Os  ruidos  rispidos 
das  machinas  Fichet,  morriam  aos  poucos.  A  penúl- 
tima roda,  tocada  com  mais  força,  ainda  girava. 
Faziam-se  cálculos.  Lentamente  o  numero  da 
SOI  te  grande  appareceu. 

—  32290. 

A  turba  espalhou-se  deixando  a  calçada  livre  e 
os  garotos  reuniram-se  nas  primeiras  esquinas.  Nas 
sacadas  dos  velhos  prédios  da  rua  Visconde  de 
Itaboráhy  appareceram  pessoas  a  interrogar  : 

—  Que   hicho   deu? 

—  Urso. 

—  Qual  foi  o  final? 

—  290. 

Ficaram  somente  na  sala  das  extracções  os 
intei assados  pela  loteria.  A  galeria  destinada  ás 
familias  também  esvasiara  integralmente.  Por  que 
só  interessa  o  jogo  do  bicho.  O  jogo  do  bicho  ! 

Pouco  tempo  depois  da  revolta  da  armada,  em 
1893,  o  barão  de  Drummond  começou  a  explorar 
no  Jardim  Zoológico  o  famoso  jogo  do  bicho,  que 
se  alastrou  rapidamente  pelo  Brazil  inteiro,  como 
os  tentaculos  de  um  polvo  colossal.  Por  essa  occa- 
sião  o  numero  de  visitantes  do  jardim  da  rua  do 


VIDA    VERTIGINOSA  131 

Visconde  de  Santa  Isabel,  era  diminuto.  Mas,  pas- 
sados alguns  mezes,  augmentou  extraordinaria- 
mente. Os  bonds  da  extincta  companhia  que  ser- 
viam o  bairro,  partiam,  desde  o  meio  dia  até  ás 
5  horas  da  tarde,  da  rua  da  Uruguyana,  estreita 
e  cheia  de  curvas,  repletos  de  passageiros.  Os  mezes 
passavam  e  as  autoridades  não  impediam  a  joga- 
tina,  que  cada  vez  tomava  maiores  proporções. 
Um  dia,  mais  de  um  anno  após  o  apparecimento 
do  famoso  jogo,  que  já  havia  attingido  ao  delirio, 
o  chefe  de  policia  lembrou-se  de  impedir  a  venda 
de  poules.  O  jardim  fechou.  Os  innumeros  hook- 
makers,  que  já  haviam  surgido  em  todos  os  pontos 
da  cidade,  suspenderam  por  alguns  dias  as  opera- 
ções. Depois  cada  banqueiro  tomou  a  resolução  de 
acceitar  apostas  para  o  bicho,  antecipadamente 
collocado  dentro  de  uma  caixinha,  que  ficava  pen- 
durada no  tecto  da  sala  em  que  eram  vendidas  as 
poules.  Os  apostadores  que  acceitaram  o  novo  sys- 
tema  não  foram  muitos.  Poucos  depositavam  con- 
fiança nos  proprietários  de  book-makers.  Estavam 
no  principio;  havia  hesitação.  Foi  então  que  appa- 
receu  o  jogo  do  bicho  pelos  finaes  da  sorte  grande. 
Mais  tarde  a  casa  bancaria  pertencente  a  M.  Ri- 
beiro, installada  na  rua  do  Ouvidor,  próximo  ao 
largo  de  S.  Francisco,  começou  a  vender  poules 
por  um  novo  systema  denominado  —  o  moderno, 
que  ainda  hoje  existe.  Para  verificar-se  o  resul- 
tado deste  systema  é  preciso  sommar  todos  os  nú- 
meros dos  bilhetes  premiados  até  200$,  inclusive. 


132  JOÃO    DO    RIO 

Depois  veio  o  Rio^  que  consta  da  multiplicação 
do  segundo  premio  pelo  primeiro,  desprezados  os 
três  últimos  algarismos.  Veio,  o  Salteado,  veio  tudo 
quanto  a  mathematica  podia  facilitar,  passando  o 
primitivo  systeraa  a  ser  distinguido  pelo  nome  de 
Antigo. 

De  vez  em  quando  uma  autoridade  policial, 
como  que  desperta  de  um  profundo  somno,  lembra- 
se  que  o  jogo  é  uma  contravenção  prevista  pela 
lei,  faz  tentativas  para  reprimil-o...  Mas,  deante 
da  falta  de  provas  para  caracterisar  o  flagrante 
delicto,  as  providencias  são  integralmente  inúteis. 

Antigamente  os  grandes  hook-makers  eram  ins- 
tallados  nas  agencias  de  bilhetes  de  loterias,  e  os 
pequenos  nos  botequins  ordinários  dos  arrabaldes 
nas  casas  de  quintada,  e  a  venda  do  famoso  jogo, 
em  qualquer  dos  hook-makers,  era  feita  reservada- 
mente. 

Hoje  é  exactamente  ao  contrario. 

Nas  ruas  de  maior  transito  da  cidade  ha  grandes 
casas  de  bicho,  todas  apresentando  o  aspecto 
caracterisco  das  casas  bancarias  das  cidades  flo- 
rescentes. Outras  estão  estabelecidas  em  estreitos 
corredores,  tendo  apenas  uma  vitrine  na  porta,  onde 
se  vêem  espalhados  ao  acaso  alguns  cartões  postaes 
enroscados  e  esmaecidos  pelos  raios  do  sol,  e  vários 
cartazes,  reclamos  de  loteria  extrahidas.  Um  pouco 
afastados  do  centros  6z'cAet>05  têm  somente  pequenos, 
balcões  de  pinho,  sob  a  guarda  de  um  empregado, 
quasi  sempre  creança;  os  proprietários  desses  hook- 


VIDA    VERTIGINOSA  133 

makers  são,  em  sua  maioria,  vendedores  ambu- 
lantes, que  percorrem,  de  meio  dia  ás  2  horas  da 
tarde,  as  estalagens,  casas  de  commodos  e  as 
ofFicinas  que  ficam  nas  proximidades. 

Os  book-makers  commeçam  as  suas  operações 
ás  11  horas  da  manhã.  O  movimento,  á  proporção 
que  se  vae  approximando  a  hora  de  fecha?  o  jogo^ 
vae  augmentando.  A's  2  horas  da  tarde  attinge  a 
maior  intensidade.  Os  empregados  não  descansam 
um  minuto.  E'  um  sahir  e  entrar  de  gente  numa 
verdadeira  agitação  de  colmeia.  Muitas  vezes  as 
próprias  autoridades  policiaes,  que  também  vão 
atraz  de  ganhar  no  bicho^  cruzam-se  á  porta  com 
indivíduos  bastante  perigosos.  A's  2  Vy  horas  é 
fechado  o  jogo  e  conferida  a  feria. 

Depois  ha  um  intervallo  de  trez  horas  começa 
o  jogo  da  noite.  Os  book-makers  vendem,  além  dos 
quatro  systhemas  do  jogo  do  bicho  o  dos  quatro 
prémios,  loterias  clandestinas  e  impagáveis. 

Basta  percorrer  os  olhos  pelos  annuncios  dos 
jornaes  para  ver  a  fabulosa  quantidade  de  loterias 
da  ultima  hora,  conforme  dizem  os  apostadores,  que 
são  extrahidas  nos  fundos  dos  book-makers,  depois 
do  anoitecer.  Outras  ha  que  não  são  extrahidas  em 
logar  algum,  como  o  Jardim  da  Floresta,  o  Globo 
Terrestre.  O  resultado  é  feito  a  lápis,  á  vontade  do 
banqueiro. 

Quem  não  conhece  as  loterias  da  noite  :  Po- 
pular, Caridade,  Companhia  Industrial  Americana^ 
Moderno  Lotto,  Companhia  Elegante,  Garantia,  Bu- 


134  JOÃO    DO    RIO 

raca^  Nasce?ite,  Occídente,  Prosperidade,  Quadra, 
Nascente  da  Sorte,  Estreita  do  Destino,  Museu  das 
Flores,  Segurança,  Grémio  Fluminense,  Industrial 
Mineira,   Industrial   Brazileira  e  outras? 

A  verificação  de  cada  uma  das  referidas  loterias 
clandestina,  loterias  que  o  freguez  não  recebe  ne- 
nhum bilhete  contendo  o  numero  jogado,  é  feita 
de  modo^  diverso . 

Basta  ler  os  prospectos  para  edificação  própria. 
A  Caridade,  por    exemplo,  é  assim  : 

CARIDADE 

SOCIEDADE    BENEFICENTE 

De  accôrdo  com  o  artigo  31  dos  estatutos  ficou 
remido  o  sócio. 

777 

Acceitam-se  encommendas 

As  encommendas  são  feitas  nas  agencias  onde  se 
exhibem  os  referidos  prospectos  e  a  verificação  do 
numero  sorteado  é  feita,  todos  os  dias,  numa  casa 
de  bilhetes  de  loterias  da  rua  Gonçalves  Dias,  pró- 
ximo ao  largo  da  Carioca. 

COMPANHIA  INDUSTRIAL  MINEIRA 

Foi  apresentado  hoje  um  memorandum  que  se 
acha  registrado  sob  o  numero, 

567 


VIDA    VERTIGINOSA  135 

Única  que  se  verifica  sob  a   fiscalisação  dos  se- 
nhores agentes  e  sócios. 

Dizem  pertencer  ao  proprietário  de  uma  agencia 
de  bilhetes  de  loterias,  estabelecida  no  largo  de 
S.  Francisco. 

Esta  é  mais  simples. 

BRINDE  AOS  FREGUEZES  DE  CASA 
TALISMAN    DA   SORTE 

O  numero  é  verificado  pelos  finaes  do  grande 
premio  da  Loteria  da  Capital  Federal.  Pertence  a 
uma  casa  da  rua  da  Assembléa,  próxima  á  rua 
Gonçalves   Dias. 

Numa  casa  do  cáes  dos  Mineiros  também  se 
vende  jogo  do  bicho  em  semelhantes  condições. 

QUADRO 

SOCIEDADE    ANONYMA 

Foi  resgatado  hoje  o  debenture  n. 

807 

Realmente  a  sociedade  é  tão  anonyraa,  que  nin- 
guém sabe  onde  ella  está  installada. 

Outra  : 


136  JOÃO    DO    RIO 

COMPANHIA   ELEGANTE 

GARANTIA    MUTUA 

De  accôrdo  com  a  clausula  V  de  nosso  regula- 
mento, foi  bonificado  o  sócio  inscripto  sob  o  n. 

019 

Ainda   outra   : 

COMPANHIA    INDUSTRIAL    AMERICANA 

«  De  accôrdo  com  os  nossos  estatutos  e  nos  ter- 
mos do  art.  6^  do  Dec.  n.  177  A,  de  15  de  setembro 
de  1893,  e  o  que  preceituam  as  letras  a  e  c  das  con- 
dições do  empréstimo  publicado  no  Jornal  do 
Commercio  de  30  de  maio  e  9  de  agosto  de  1906. 
Esta  Companhia  resgatou  os  debentures. 

1.167 

O  supposto  empréstimo  pedido  por  esta  compa- 
nhia, que  funcionna  na  rua  Sete  de  Setembro,  pró- 
ximo á  do  Carmo,  é  da  insignificante  quantia  de 
1  $,  recebendo  o  accionista  a  importância  de  20  $, 
quando  for  sorteado. 

Num_  book-makcrs  da  rua  Visconde  de  Sapucahy, 
quasi  ao  chegar  á  rua  do  Frei  Caneca,  ha  loteria 
da  noite  de  hora  em  hora. 

A's  7  horas  —  Nascente  da  Sorte. 


VIDA    VERTIGINOSA  137 

A's  8  horas  —  Occidente  da  Sorte. 

A's  9  horas,  ultima,  o  Oriente. 

Desde  o  anoitecer  até  ás  9  horas,  a  rua  fica  cheia 
de  viciosos  que  esperam  o  resultado  das  três  lote- 
rias    clandestinas. 

Ainda  ha  outra  loteria  clandestina,  cuja  verifi- 
cação do  numero  premiado  é  feita  de  um  modo 
bastante  complicado. 

Moderno  Lotto 

N.   397 600    000 

).     97 60    000 

»     79 30    000 

))     25 20    000 

100     000 

397,     379,     793 

739,     973,     937 

Verificação  Labanca,  ás  7  Vo  ^^^o  (n-  185) 

Sommando  a  importância  de  todos  os  prémios 
distribu^*dos  tem-se  um  resultado  de  1  :  310  $, 
emquanto  que  o  freguez,  jogando  em  todos  os  núme- 
ros, emprega  a  quantia  de  1  :  000  $  000  !... 

Na  mesma  casa,  que  é  na  rua  do  Ouvidor,  cujo 
numero  está  indicado  na  lista  do  sorteio,  é  verifi- 
cada, ás  8  %  da  noite,  uma  hora  depois  do  Moderno 
Lotto,  a  loteria  da  Companhia  Elegante. 

Esse  jogo  de  que  apenas  esboço  alguns  dos  vagos 
planos,  é  o  jogo  da  cidade  inteira,  o  jogo  global,  o 
expoente  zoológico  e  palpiteiro  da  vertigem  urbana. 
Jogam  todos,  como  que   forçados  por  um  senti- 


138  JOÃO    DO    RIO 

mento  mysterioso  e  indominavel.  Ha  nessa  tor- 
rente de  exploração  casos  bruscos  de  engraxates 
virados  em  millionarios,  de  fortunas  queimadas  em 
um  mez,  de  roubos  de  banqueiros  pelos  próprios 
sócios,  de  banqueiros  que  fazem  mil  contos  e  acabam 
sem  vintém,  de  taberneiros  analfabetos  jogando 
com  os  massos  de  cem  contos,  de  sujeitos  que  tem 
vinte  e  trinta  casas  de  bicho  espalhadas  pela  cidade, 
e  além  de  explorar  o  povo,  exploram  os  próprios 
vendedores. 

Ha,  porém,  os  outros,  os  lugares  onde  se  joga 
a  roleta,  o  bac,  o  poeker,  a  vermelhinha,  o  dado, 
desde  os  chamados  clubs  chies,  nevrálgicas  salas 
de  mistura  social,  até  os  outros  os,  dos  malandros 
com  escalas  pelas  salas  de  casa  de  famiha  —  que 
tiram  barato  para  ajudar  o  chefe... 

Quantas  casas  de  jogo  ha  na  cidade?  Seria inipos- 
sivel  uma  estatística,  tantas  ha  que  os  próprios 
jogadores  profissionaes  não  conhecem.  Em  nome 
da  moral,  dos  piincipios  da  moral,  muita  gente  se 
revolta  ou  finge  revoltar-se,  pedindo  aos  chefes  da 
segurança  a  perseguição  —  que  estinguindo  alguns 
focos  fatalmente  valorisa  outros.  A  moral  é  uma 
quahdade  que  se  exige  nos  outros.  E  é  cada  vez 
mais  a  mais  elástica  quahdade  social.  A  maioria 
dos  que  clamam  jogam  morbidamente.  Mas  nem 
pôde  deixar  de  assim  ser  .0  jogo  é  uma  aventura. 
Num  paiz  novo  o  espirito  da  aventura  prolifera  e 
os  aventureiros  são  em  grande  numero.  O  ideal 
humano  é  o  dinheiro.  O  principal  é  ter  dinheiro. 


VIDA    VERTIGINOSA  139 

com  pouco  trabalho  ou  nenhum.  Vem  a  negociata. 
Vem  a  jogatina.  São  as  irmãs  naturaes  da  ladroeira 
—  aristocráticas  de  processo.  E  a  situação  é  tal 
no  torvelhnho  vertiginoso  da  vida  nova  que,  único 
cidade  de  mundo  a  cidade  tem  uma  classe  privile- 
giada e  considerada  pelos  fornecedores,  pelas 
cocottes,  pelas  classes  que  dão  consideração  :  a 
classe  dos  jogadores  de  primeira,  emquanto  elles 
são  de  primeira. 

—  Quem  é  aquelle  cavalheiro  bem  posto? 

—  Muito  distincto.  Tem  as  melhores  mulheres 
do  Rio. 

—  Ah ! 

—  Veste,  pagando,  nos  melhores  alfaiates. 

—  Ah! 

—  Paga  generosamente  a  todos. 

—  Mas  afinal  quem  é? 

—  Ah!  sim...  elle  joga. 

—  Apenas? 

—  Tem  um  club  e  varias  casas  de  bicho.  Mas  é 
muito  distincto. 

Jogo  como  profissão  confessavel,  aqui,  apenas. 
Distincto  é  possivel.  As  palavras  tem  a  significa- 
ção que  lhes  empresta  a  época.  Distincto  agora  é 
o  cidadão  que  se  destaca  pelo  dinheiro-seu  ou  dos 
outros.  E  depois  o  jogo  é  visceral  aqui.  Ainda  agora 
abro  um  jornal  e  leio  : 

—  «  Foram  presos  hontem  em  plena  rua  dois 
garotos,  um  de  õ  outro  de  6  annos  que  jogavam 
a  roleta.  O  mais  velho  era  o  inventor  do  instru- 


140  JOÃO    DO    RIO 

mento,  uma  espécie  de  jaburu,  tendo  nos  raios  em 
vez  de  números  nomes  de  animaes.  As  fichas  eram 
de  metal  e  valiam  um  vintém  ou  meio  vintém.  O 
inventor  ,  depois  de  chorar,  aggrediu  furioso  o 
guarda,  dizendo  que  aquillo  era  sua  propriedade  e 
estava  no  seu  direito.   » 


Os   livres    acampamentos    da    miséria 


os  LIVRES  ACAMPAMENTOS 
DA  MISÉRIA 


Certo  já  ouvira  fallar  das  habitações  do  morro 
de  Santo  António,  quando  encontrei,  depois  da 
meia  noite,  aquelle  grupo  curioso  —  um  soldado 
sem  numero  no  bonnet,  três  ou  quatro  mulatos  de 
violão  em  punho.  Gomo  olhasse  com  insistência 
tal  gente,  os  mulatos  que  tocavam,  de  súbito 
emmudeceram  os  pinhos,  e  o  soldado,  que  era  um 
rapazola  gingante,  ficou  perplexo,  com  um  evi- 
dente medo.  Era  no  largo  da  Carioca.  Alguns 
elegantes  nevralgicamente  conquistadores  passa- 
vam de  ouvir  uma  companhia  de  operetas  italiana 
e  paravam  a  ver  os  malandros  que  me  olhavam  e  eu 
que  olhava  os  malandros  num  evidente  inicio  de 
escandalosa  sympathia.  Acerquei-me. 

—  Vocês  vão  fazer  uma « seresta »? 
— •   Sim    senhor. 

—  Mas  aqui  no  largo? 

—  Aqui  foi  só  para  comprar  um  pouco  de  pão  e 


144  JOÃO    DO    RIO 

queijo.  Nós  moramos  lá  em  cima,  no  morro  de 
Santo  António... 

Eu  tinha  do  morro  de  Santo  António  a  idéa  de 
um  logar  onde  pobres  operários  se  agglomeravam 
á  espera  de  habitações,  e  a  tentação  veiu  de  acom- 
panhar a  «  seresta  »  morro  acima,  cm  sitio  tão  labo- 
riosamente grave.  Dei  o  necessário  para  a  ceia  em 
perspectiva  e  declarei-me  irresistivelmente  preso  ao 
violão.  Graças  aos  céos  não  era  admiração.  Muita 
gente,  no  dizer  do  grupo,  pensava  do  mesmo 
modo,  indo  visitar  os  seresteiros  no  alto  da  mon- 
tanha. 

—  «  Seu  ))  tenente  Jucá,  confidenciou  o  soldado, 
ainda  hontem  passou  a  noite  inteira  com  a  gente. 
E  elle  quando  vem,  não  quer  continência  nem  que  se 
chame  de  «  seu  )>  tenente.  E'  só  Jucá...  V.  S.  tam- 
bém é  tenente.  Eu  bem  que  sei... 

Já  por  esse  ponto  da  palestra  nos  iamos  nas  som- 
bras do  Theatro  Lyrico.  Neguei  fracamente  o  meu 
posto  militar,  e  começámos  de  subir  o  celebrado 
morro,  sob  a  infinita  palpitação  das  estrellas.  Eu  ia 
á  frente  com  o  soldado  joven,  que  me  assegurava 
do  seu  heroismo.  Atraz  o  resto  do  bando  tentava 
cantar  uma  modinha  a  respeito  de  uns  olhos  fataes. 
O  morro  era  como  outro  qualquer  morro.  Um 
caminho  amplo  e  mal  tratado,  descobrindo  de  um 
lado,  em  planos  que  mais  e  mais  se  alargavam,  a 
iluminação  da  cidade,  no  admirável  nocturno  de 
sombras  e  de  luzes,  e  apresentando  de  outro  as 
fachadas  dos  prédios  familiares  ou  as  placas  de 


VIDA   VERTIGINOSA  145 

ediíicos  públicos  —  um  hospital,  um  posto  astro- 
nómico. Bem  no  alto,  aclarada  ainda  por  um  civi- 
lisado  lampeão  de  gaz,  a  casa  do  Dr.  Pereira  Reis, 
o  mathematico  professor.  Nada  de  anormal  e  nem 
vestigio  de  gente. 

O  bando  parou,  afinando  os  violões.  Essa  ope- 
ração foi  diíficil.  O  cabrocha  que  levava  o  embrulho 
do  pão  e  do  queijo,  embrulho  a  desfazer-se,  estava 
no  começo  de  uma  tranquilla  embriaguez,  os  outros 
discutiam  para  onde  conduzir-me.  O  soldado  tinha 
uma  casa.  Mas  o  Benedicto  era  o  presidente  do 
Club  das  Violetas,  sociedade  cantante  e  dançante 
com  sede  lá  em  cima.  Havia,  também  a  casa  do 
João  Rainha.  E  a  casa  da  Maroca?  Ah!  mulher! 
Por  causa  delia  já  o  joven  praça  levara  três  tiros... 
Eu  olhava  e  não  via  a  possibilidade  de  taes  mora- 
das. 

—  Você  canta,  tenente? 

—  Canto,  mas  vim  especialmente  para  ouvir  e 
para  ver  o  samba. 

—  Bom.  Então,  entremos. 
Desafinadamente,  os  violões  vibraram.  Benedicto 

cuspiu,  limpou  a  bocca  com  as  costas  da  mão,  e 
abriu  para  o  ar  a  sua  voz  áspera  : 

«  O  morro  de  Santo  António 
Já  não  é  morro  nem  nada...  » 

Vi,  então,  que  elles  se  mettiam  por  uma  espécie 
de  corredor  encoberto  pela  herva  alta  e  por  algum 
arvoredo.  Acompanhei-os,  e  dei  num  outro  mundo. 


146  JOÃO    DO    RIO 

A  illuminação  desapparecera.  Estávamos  na  roça, 
no  sertão,  longe  da  cidade.  O  caminho,  que  ser- 
parava  descendo,  era  ora  estreito,  oralargo,  mas  cheio 
de  depressões  e  de  buracos.  De  um  lado  e  de  outro 
casinhas  estreitas,  feitas  de  taboas  de  caixão  com 
cercados,  indicando  quintaes.  A  descida  tornava- 
se  difficil.  Os  passos  falhavam,  ora  em  bossas  em 
relevo,  ora  em  fundões  perigosos.  O  próprio  bando 
descia  de  vagar.  De  repente  parou,  batendo  á 
uma    porta. 

—  Epa,  Bahiano  !  Abre  isso... 

—  Que  casa  é  esta? 

—  E'  um  botequim. 

Attentei.  O  estabelecimento,  construido  na 
escarpa,  tinha  vários  andares,  o  primeiro  ^  beira 
do  caminho,  o  outro  mais  em  baixo  sustentado 
por  uma  arvore,  o  terceiro  ainda  mais  abaixo,  na 
treva.  Ao  lado  uma  cerca,  defendendo  a  entrada 
geral  dos  taes  casinhotos.  De  dentro,  uma  voz 
indagou  quem  era. 

—  E' o  Gonstanço,rapaz,  abre  isso.  Quero  cachaça. 
Abriu-se  a  porta  lateral  e  appareceu  primeiro  o 

braço  de  um  negro,  depois  parte  do  tronco  e 
finalmente  o  negro  todo.  Era  um  desses  typos  que 
se  encontram  nos  máos  logares,  muito  amáveis, 
muito  agradáveis,  incapazes  de  brigar  e  levando 
vantagem  sobre  os  valentes.  A  sua  voz  era  domi- 
nada por  uma  voz  de  mulher,  uma  preta  que  de 
dentro,  ao  ver  quem  pagava,  exigiu  logo  seiscentos 
réis  pela  garrafa. 


VIDA  VERTIGINOSA  147 

—  Mas,  seiscentos,  dona... 

—  A'  1  hora  da  noite,  fazer  o  homem  levantar 
em  ceroulas,  em  risco  de  uma  constipação... 

Mas,  Benedicto  e  os  outros  punham  em  grande 
destaque  o  pagador  da  passeiata  daquella  noite,  e, 
não  resistindo  á  curiosidade,  elles  abriram  a  janella 
da  barraca,  que  ao  mesmo  tempo  serve  de  balcão. 
Dentro  ardia  sujamente,  uma  candêa,  allumiando 
prateleiras  com  cervejas  e  vinhos.  O  soldadinho, 
cada  vez  mais  tocado,  emborcou  o  corpo  para 
segredar  cousas.  O  Bahiano  saudou  com  o  ar  de 
quem  já  foi  criado  de  casa  rica.  E  ahi  parados 
emquanto  o  pessoal  tomava  paraty  como  quem 
bebe  agua,  eu  percebi,  então,  que  estava  numa 
cidade  dentro  da  grande  cidade. 

Sim.  E'  o  facto.  Gomo  se  creou  alli  aquella  curiosa 
villa  de  miséria  indolente?  O  certo  é  que  hoje  ha, 
talvez,  mais  de  quinhentas  casas  e  cerca  de  mil  e 
quinhentas  pessoas  abrigadas  lá  por  cima.  As  casas 
não  se  alugam.  Vendem-se.  Alguns  são  construc- 
tores  e  habitantes,  mas  o  preço  de  uma  casa  regula 
de  quarenta  a  setenta  mil  réis.  Todas  são  feitas 
sobre  o  chão,  sem  importar  as  depressões  do  ter- 
reno, com  caixões  de  madeira,  folhas  de  Flandres, 
taquaras.  A  grande  artéria  da  «  urbs  »  era  precisa- 
mente a  que  nós  atravessámos.  Dessa,  partiam 
varias  ruas  estreitas,  caminhos  curtos  para  casi- 
nhotos oscillantes,  trepados  uns  por  cima  dos  outros. 
Tinha-se,  na  treva  luminosa  da  noite  estrellada,  a 
impressão  lida  da  entrada  do  arraial  de  Canudos, 


148  JOÃO    DO    RIO 

ou  a  funambulesca  idéa  de  um  vasto  gallinheiro 
multiforme.  Aquella  gente  era  operaria?  Náo.  A 
cidade  tem  um  velho  pescador,  que  habita  a  mon- 
tanha ha  vários  lustros,  e  parece  ser  ouvido.  Esse 
pescador  é  um  chefe.  Ha  um  intendente  geral,  o 
agente  Guerra,  que  ordena  a  paz  em  nome  do 
D^.  Reis.  O  resto  é  cidade.  Só  na  grande  rua 
que  descemos  encontrámos  mais  dous  botequins 
e  uma  casa  de  pasto,  que  dá  ceias.  Estão  fe- 
chadas, mas  basta  bater,  lá  dentro  abrem.  Está 
tudo  acordado,  e  o  paraty  corre  como  não  corre  a 
agua. 

Nesta  empolgante  sociedade,  onde  cada  homem 
é  apenas  um  animal  de  instinctos  impulsivos, 
em  que  ora  se  é  muito  amigo  e  grande  inimigo 
de  um  momento  para  outro,  as  amisades  só  se 
demonstram  com  uma  exuberância  de  abraços 
e  de  pegações  e  de  segredinhos  assustadora  — 
ha  o  arremedo  exacto  de  uma  sociedade  cons- 
tituida.  A  cidade  tem  mulheres  perdidas,  intei- 
ramente da  gandaia.  Por  causa  delias  tem  ha- 
vido dramas.  O  soldadinho  vai -lhes  á  porta, 
bate  : 

—  O'  Alice !  Alice,  cachorra,  abre  isso !  Vai  ver 
que  está  ahi  o  cabo !  Eu  já  andei  com  ella  três 
mezes. 

—  Que  admiração,   gente !...  Todo  o  mundo ! 
Ha  casas  de  casaes  com  união  livre,  mulheres 

tomadas.  As  serenatas  param-lhes  á  porta,  ha 
raptos  e,  de  vez  em  quando,  os  amantes  surgem 


VIDA   VERTIGINOSA  149 

rugindo,  com  o  revólver  na  mão.  Benedicto  canta 
á  porta  de  uma  : 

c  Ai  I  tem  pena  do  Benedicto 
Do  Benedicto  Cabelleira.  » 

Mas  também  ha  casas  de  familias,  com  meninas 
decentes.  Um  dos  seresteiros,  de  chapéo  panamá, 
diz  de  vez  em  quando  : 

—  Deixemos  de  palavrada,  que  aqui  é  familia ! 
Sim,  são  familias,  e  dormindo  tarde  porque  taes 

casas  parecem  ter  gente  acordada,  e  a  vida  nocturna 
alli  é  como  uma  permanente  serenata.  Pergunto 
a  profissão  de  cada  um.  Quasi  todos  são  operários, 
«  mas  estão  parados  ».  Elles  devem  descer  á  cidade, 
e  arranjar  algum  cobre.  As  mulheres,  de  certo  tam- 
bém, descem  a  apanhar  fitas  nas  casas  de  moveis, 
amostras  de  café  na  praça,  —  «  troços  por  ahi » .  E 
a  vida  lhes  sorri  e  não  querem  mais  e  não  almejam 
mais  nada.  Gomo  Benedicto  fizesse  questão,  fui  até 
á  sua  casa,  sede  também  do  Club  das  Violetas, 
de  que  é  presidente.  Para  não  perder  tempo, 
Benedicto  saltou  a  cerca  do  quintal  e  empurrou  a 
porta,  accendendo  uma  candêa.  Eu  vi,  então,  isso  : 
um  espaço  de  tecto  baixo,  separado  por  uma  cor- 
tina de  sacco.  Por  traz  dessa  parede  de  estopa, 
uma  velha  cama,  onde  dormiam  varias  damas. 
Benedicto  apresentou  pagãmente  : 

—  Minha  mulher. 

Para  cá  da  estopa,  uma  espécie  de  sala  com  algu- 
mas figurinhas  nas  paredes,  o  estandarte  do  club, 


150  JOÃO   DO    RIO 

o  vexillo  das  Violetas  embrulhado  em  papel,  uma 
pequena  mesa,  três  homens  moços  roncando  sobre 
a  esteira  na  terra  fria  ao  lado  de  dous  cães,  e, 
numa  rede,  tossindo  e  escarrando,  inteiramente 
indifferente  á  nossa  entrada,  um  mulato  esquálido, 
que  parecia  tisico.  Era  simples.  Benedicto  mudou 
o  casaco  e  aproveitou  a  occasião  para  mostrar-me 
quatro  ou  cinco  signaes  de  facadas  e  de  balaços  no 
corpo  secco  e  musculoso.  Depois  cuspiu  : 

—  Epa,  José,  fecha... 

Um  dos  machos  que  dormiam  embrulhados  em 
colxas  de  chita  ergueu-se,  e  sahimos  os  dous 
sem  olhar  para  traz.  Era  tempo.  Fora,  afinando 
instrumentos,  interminavelmente,  os  seresteiros 
estavammesmo  como  «  paos  dagua  »  e  já  se  melin- 
dravam com  referencias  á  maneira  de  cantar  de 
cada  um.  Então,  resolvemos  bater  á  porta  da 
caverna  de  João  Rainha,  formando  um  barulho 
formidável.  A'  porta  —  não  era  bem  porta,  porque 
abria  apenas  a  parte  inferior,  obrigando  as  pessoas 
a  entrarem  curvadas,  clareou  uma  luz,  e  entrámos 
todos.  Numa  cama  feita  de  taquaras  dormiam 
dous  desenvolvidos  marmanjões,  no  chão  João 
Rainha  e  um  rapazola  de  dentes  alvos.  Nem  uma 
surpreza,  nem  uma  contrariedade.  Estremunha- 
ram-se,  perguntaram  como  eu  ia  indo,  arranjaram 
com  um  velho  sobretudo  o  logar  para  sentar-me, 
hospitaleiros  e  tranquillos. 

—  Nós  trouxemos  ceia!  gaguejou  um  modi- 
nheiro. 


VIDA   VERTIGINOSA  151 

Ahi  é  que  lembramos  o  pão  e  o  queijo,  esmaga- 
dos, esmassados  entre  o  braço  e  o  torso  doseresteiro. 
Havia,  porém,  cachaça —  a  alma  daquillo  —  e 
comeu-se  assim  mesmo,  bebendo  aos  copos  o 
liquido  ardente.  O  joven  soldadinho  estirou-se  na 
terra.  Um  outro  deitou-se  de  papo  para  o  ar. 
Todos  riam,  integralmente  felizes,  dizendo  palavras 
pesadas,  numa  linguagem  cheia  de  imprevistas 
imagens.  João  Rainha,  com  os  braços  muito  tatua- 
dos, começou  a  cantar. 

—  O  violão  está  no  norte  e  você  vai  pr'o  sul, 
commentou  um  da  roda. 

João  Rainha  esqueceu  a  modinha.  E,  emquanto 
o  silencio  se  fazia  cheio  de  somno,  o  cabra  de  papo 
para  o  ar  desfiou  uma  outra  compridissima  mo- 
dinha. Olhei  o  relógio  :  eram  três  e  meia  da  manhã. 

Então,  despertei-os  com  três  ou  quatro  safa- 
nões : 

—  Rapaziada,  vou  embora. 

Era  a  occasião  grave.  Todos,  de  um  pulo,  esta- 
vam de  pé,  querendo  acompanhar-me.  Sahi  só, 
subindo  de  pressa  o  Íngreme  caminho,  de  súbito 
ingenuamente  receioso  que  essa  «  tournée  »  noc- 
turna não  acabasse  mal.  O  soldadinho  vinha  logo 
atraz,  lidando  para  quebrar  o  copo  entre  as 
mãos. 

—  O'  tenente,  você  vai  hoje  á  Penha? 

—  Mas  nem  ha  duvida. 

—  E  logo  vem  ao  samba  das  Violetas? 

—  Pois  está  claro. 


152  JOÃO    DO    RIO 

Atraz,  o  bolo  dos  seresteiros  berrava  : 

«  O  morro  de  Santo  António 
Já  não  é  morro  nem  nada...  » 

E  quando  de  novo  cheguei  ao  alto  do  morro, 
dando  outra  vez  com  os  olhos  na  cidade,  que 
embaixo  dormia  illuminada,  imaginei  chegar  de 
uma  longa  viagem  a  um  outro  ponto  da  terra,  de 
uma  corrida  pelo  arraial  da  sordidez  alegre,  pelo 
horror  inconsciente  da  miséria  cantadeira,  com  a 
visão  dos  casinhotos  e  das  caras  daquelle  povo 
vigoroso,  refestelado  na  indigência  em  vez  de 
trabalhar,  conseguindo  bem  no  centro  de  uma 
grande  cidade  a  construcção  inédita  de  um  acam- 
pamento de  indolência,  livre  de  todas  as  leis.  De 
repente,  lembrei-me  que  a  variola  cahira  alli  feroz- 
mente, que  talvez  eu  tivesse  passado  pela  toca  de 
variolosos.  Então,  apressei  o  passo  de  todo.  Vi- 
nham a  empallidecer  na  pérola  da  madrugada  as 
estrellas  palpitantes  e  canoramente  gallos  canta- 
vam por  traz  das  hervas  altas,  nos  quintaes  visi- 
nhos. 


o   Bem   das  viagens 


o  BEM  DAS  VIAGENS 


—  Faço-te  as  minhas  despedidas. 

—  Que  é  isso? 

—  Parto  para  a  Europa. 

—  Ora  esta !  Eu  também. 

—  Que  coincidência  !  Sabe  que  o  Júlio  parte 
também. 

—  E  o  Gezar  com  toda  a  família... 
Coincidência !  Ha  seis  ou  sete  annos  seria  uma 

coincidência  e  mesmo  um  acontecimento. 

Duas  pessoas  conhecidas  partirem  assim  para  a 
Europa,  sem  ter  tirado  a  sorte  grande,  sem  per- 
tencer a  casas  commerciaes  fortes,  sem  fazer  ao 
menos  testamento !  Era  impossivel.  As  viagens 
eram  combinadas,  discutidas,  participadas.  O 
homem  que  viajava  começava  por  se  julgar  um 
ser  excepcional.  Em  seguida  sentia  o  desejo  de 
fazer  Íntimos  e  desconhecidos  compartilharem 
desse  modesto  juizo.  Quando  o  sujeito  feliz  tinha 
casa  montada,  fazia  leilão.  A  visinhança  —  toda 
cidade  que  se  faz  visinhança  tagarella,  commentava. 


156  JOÃO    DO    RIO 

—  Fulano  vae  para  a  Europa ! 

—  Também  está  em  excellentes  condições  de 
fortuna... 

—  Dizem  o  contrario. 

—  Más  linguas.  Só  a  sogra,  com  a  agradável 
lembrança  de  morrer,  deixou-lhe  tresentos  contos. 
Agora  como  o  coitado  é  muito  idiota,  talvez  volte 
sem  vintém. 

—  Qual !  quanto  mais  burro  mais  peixe... 
Havia  inveja.  E  as  pessoas  conhecidas  pediam 

coisas,  presentes,  recordações.  O  homem  não  ia  a 
Europa,  ia  ás  compras  pelos  conhecidos,  ano- 
tando no  seu  «  book-notes  »  desde  vestidos  para 
raparigas  até  bonecas  para  os  bebés.  Depois,  pro- 
cessionalmente,  iam  leval-o  a  bordo,  onde  quasi 
sempre  havia  essa  inútil  expressão  de  magua  a  que 
denominam  soluços.  O  transantlantico  punha-se 
em  marcha.  O  felizardo  ou  enjoava  ou,  encostado  á 
amurada,  com  os  olhos  vermelhos,  via,  ralado  de 
saudade  fugirem  a  cidade,  as  fortalezas,  o  execra- 
vel  Pão  de  Assucar,  Copacabana,  a  costa...  Ai ! 
S.  Sebastião !  Nem  tão  solemnes  foram  a  partida 
dos  argonautas  para  a  conquista  do  velo  d'oiro  e  o 
arrojo  de  Colombo  para  descobrir  o  novo  mundo. 
Os  poetas  mesmo  não  podendo  fazer  poemas  épicos 
de  facto  não  vulgares,  si  por  acaso  viajavam,  escre- 
viam sempre  a  respeito,  e  patriotas  até  alli,  soluça- 
vam : 

Nosso  céo  tem  mais  estrellas 
Nossos  campos  tem  mais  flores. 


VIDA   VERTIGINOSA  157 

Era  gravíssimo,  e  mentirosissimo... 

Hoje  não.  A  coisa  é  inteiramente  outra.  Parte- 
se  do  principio  de  que  não  é  preciso  ser  rico  para 
viajar.  Com  o  que  gasta  aqui  sem  saber  em  que, 
arruinando-se  nos  restaurants,  nos  botequins, 
nos  maus  theatros,  qualquer  cidadão  passa  com 
a  sensação  do  conforto  em  qualquer  parte  do 
mundo,  na  Itália,  no  Japão,  na  Scandinavia,  no 
Egypto,  incluindo,  já  se  vê,  as  passagens  para  todos 
esses  logares,  porque,  afinal,  o  bilhete  de  primeira 
de  um  transatlântico  sáe  muito  mais  em  conta  que 
o  mesmo  numero  de  dias  mal  hospedado  no  indis- 
criptivel  hotel  dos  Estrangeiros. 

Assim,  si  os  ricos  vão,  vão  também  os  remedia- 
dos, a  quasi  totalidade  dos  que  ganham  apenas 
para  comer,  desde  o  funccionario  publico  ao  simples 
bacharel  da  ultima  fornada,  desde  o  proprietário  da 
casa  até  o  simples  caixeiro.  Ha  a  noção  de  que  por 
estar  na  Europa,  isso  não  é  motivo  para  gastar 
mais.  Ainda  outro  dia  o  garçon  de  um  restaurant, 
ao  servir-me  a  costeleta,  participou-me  : 

—  Parto  para  a  Europa  na  semana  próxima. 

—  Vae  a  Portugal? 

—  Vou  directamente  a  Paris.  Tenho  aprendido 
francez  no  Berlitz... 

Depois  já  ninguém  parte  chorando,  com  sau- 
dades do  Pão  de  Assucar.  A  viagem  fica  resolvida, 
alguns  amigos  vão  a  bordo  tomar  champagne,  o  tran- 
satlântico põe -se  em  marcha  e  quando  o  fatal  Pão  de 
Assucar  desapparece,  está  toda  gente  contente. 


158  JOÃO    DO    RIO 

Creio  que  nem  mesmo  se  enjoa  mais.  A  Europa 
está  tão  perto,  os  meios  de  communicação  são  tão 
rápidos,  os  transatlânticos  balançam  tão  pouco...  E 
realmente  é  assim. 

As  chegadas  logo  também  transformaram  o 
velho  molde. 

Outr'ora  o  homem  que  ia  a  Europa  era  uma 
espécie  rara.  Também  esse  homem  assim  raro  de 
uma  espécie  rara,  tinha  que  contar  a  cada  amigo 
por  miúdo  o  que  vira  e  o  que  não  vira  e  dar  uma 
serie  de  comparações  elucidativas. 

—  Vamos  tomar  café? 

—  E'  verdade.  Que  botequim  ordinário  ! 

—  Então,  em  Paris? 

—  Em  Paris  são  fechados,  não  tem  essa  infâmia 
do  garçon  com  a  cafeteira  na  mão. 

—  O  café  não  é  bom?... 

—  Conforme...  V.  sabe,  a  situação  do  nosso 
café... 

Porque  um  homem  que  vinha  da  Europa  tinha 
a  obrigação  de  saber  tudo,  de  informar  de  tudo, 
da  Sarah,  das  conferencias  da  Sorbonne,  do  nihi- 
lismo  russo,  do  commercio  amoroso  e  da  philoso- 
phia  dominante.  Era  o  homem  raro  que  vinha  de 
além-mar ! 

Depois  passou  a  ser  corpuchic  chegar  da  Europa 
como  quem  chega  do  Sylvestre  ou  de  Botafogo. 

É  que  se  chegava  também  da  America  do  Norte 
onde  tudo  é  natural.  E  o  homem  que  voltava  desses 
logares,    onde   a   Civilisação    deslumbra,   saltava 


VIDA   VERTIGINOSA  159 

alegre   sem   abraços,   indagando    naturalmente  : 

—  Olé !  como  tens  passado?  Recebeste  o  meu 
ultimo  postal? 

E  seria  uma  falta  de  elegância,  uma  falta  de 
tacto,  indagar  desse  homem  : 

—  Então,  que  fizeste  tu?  Fiesole  continua  a 
ser  divina?  A  torre  de  Piza  ainda  inclinada?  Mont- 
martre  sempre  com  cabarets? 

Era  logo  tomar  um  automóvel,  conversar.  Um 
mesmo  levou  o  seu  excesso  de  chie  a  só  me  falar  da 
Bahia  e  de  um  ataque  á  Bahia  apparecido  em 
latim  num  jornal  do  Vaticano,  aliás  não  lido  pelo 
Papa,  que  ignora  as  linguas  mortas.  E  ao  saltar  da 
lancha,  como  quem  salta  de  um  tramway  da  Bota- 
nical  Garden,  estendendo  a  ponta  dos  dedos  e 
depois  de  um  curto;  vaes  bem?  logo  bradou  colé- 
rico : 

—  Aposto  que  vocês  não  viram  num  jornal  do 
Vaticano  o  calumnioso  artigo  sobre  a  Bahia, 
dizendo-a  um  paiz  de  negros?  A  Bahia,  que  a 
Dièterle,  a  rainha  das  operetas,  acha  interessante  ! 
A  Bahia  que  tem  o  Severino  e  o  Marcellino  e  o 
grande  Tosta  !  Infame  ! 

Para  um  espirito  sem  observação,  a  evolução  do 
homem  que  chega  da  Europa,  não  teria  e  não  tem 
um  grande  valor.  Para  os  espiritos  convencidos  de 
que  os  pequenos  factos  são  a  origem  das  grandes 
coisas  essa  evolução  é  um  signal  importante  no 
progresso  urbano.  Ha  vinte  annos  era  um  aconte- 
cimento viajar;  hoje  já  não  o  é.  Ha  vinte  annos,  o 


160  JOÃO    DO    RIO 

homem  que  chegava  da  Europa  tinha  a  sensação 
de  ser  novo,  de  trazer  novidades.  Hoje,  se  arris- 
casse chronicas  informativas  nas  palestras  teria  a 
sensação  de  um  enorme  ridiculo. 

Gomo  Givilisação  significa  fazer  como  os  outros 
e  mostrar  saber  tudo,  o  homem  viajado  com  o  seu 
rápido  evoluir  dá-nos  assim  a  absoluta  certeza  do 
seu  absoluto  refinamento  nos  costumes  geraes. 
Não  só  isso.  Desde  que  a  elegância  o  obriga  a  desem- 
barcar de  Génova  como  quem  vem  da  Villa  Gua- 
rany,  com  esta  apparencia  que  em  pouco  é  reali- 
dade, o  homem  que  vem  da  Europa  consegue  impor 
a  sensação  de  universalidade  de  conhecimentos  e  a 
certeza  certa  de  que  o  mundo,  pequeno  já  para  nós, 
não  tem  mais  surprezas.  E  essa  noção  é  um  pro- 
longamento evolutivo  dos  costumes,  dá  a  cada  um 
de  nós  a  idéa  que  sabemos  tudo,  estamos  na  China 
como  em  Marrocos,  em  Marrocos  como  em  Berlim, 
em  Berlim  como  no  Estacio  de  Sá.  A  nossa  esphera 
de  conhecimentos  alarga-se  nas  intimidades  des- 
conhecidas. Não  se  pergunta  simplesmente  : 

—  Gomo  está  o  papá?  Por  que  não  foi  ao  jantar 
das  Gouveia? 

Indaga-se  : 

—  Você  vio  a  ultima  pilhéria  do  Jaurès? 

—  E'  verdade.  E  o  caso  do  Mirbeau.  A  Vie 
Parisienne  continua  entretanto  a  dizer  que  o 
Anatole  de  France  é  o  amante... 

—  Homem,  neste  caso  eu  tenho  a  opinião  de 
um  ultimo  conferente. 


VIDA   VERTIGINOSA  161 

E  nós  não  citamos  nem  o  Ozorio  Duque  nem  o 
inexoravelmente  humourista  João  Phoca.  Dizemos 
com  ar  fmo  : 

—  Ai !  filho  !  conferencia...  As  do  Doumer  eram 
deploráveis. 

É,  ou  não  é  civilisação?  E'  a  mais  completa,  a 
mais  perfeita  ,a  mais  acabada !  Sentimo-nos  á 
vontade,  encurtamos  o  mundo  e  mettemol-o  no 
rol  das  coisas  que  se  conhecem  commummente. 

O  homem  que  chega  da  Europa  é  o  exemplo 
comprovativo,  a  cada  etapa  da  sua  evolução  pre- 
ciosa de  que  o  Brasil  sobe  mais  três  palmos  no  seu 
próprio  conceito.  Ainda  assim  faltava  o  tom 
intimo  :  o  tom  do  Turot  desembarcando  aqui  ou 
lá,  e  o  tom  da  intriguinha.  Esse  ultimo  tom  não 
faltou.  Agora,  o  homem  volta  dizendo  :  —  Não  te 
contaram  o  que  Cicrano,  premio  de  pintura,  acaba 
de  fazer  para  ser  recebido  no  «  Salon  »  ?  Sabes  que 
a  bella  baroneza  engana  o  marido  com  um  mariola 
vagamente  sportman,  emquanto  o  barão  arruina- 
se  em  ramilhetes  palermas  para  as  cantoras  dos 
cafés  baratos.  Os  esculptores  pintores  tem  levado 
num  conflicto  damnado. 

Partindo  do  assombro,  o  homem  representativo 
passou  pelo  chie  de  não  contar  o  que  vira ;  interes- 
sou-se  depois  lá  pelo  que  de  nós  se  dizia,  acabou 
achando  natural  estar  lá  como  aqui  e  aqui  como  lá; 
ampliou  os  seus  conhecimentos  das  terras  e  dos 
homens;  f aliou  dos  nossos  e  dos  alheios  do  mesmo 
modo,  e,  sem  perder  as  suas  condições  intrinsecas 


162  JOÃO    DO    RIO 

de  brasileiro  acabou  por  desembarcar  do  paquete 
para  contar  a  ultima  intriguinha  de  atelier,  nossa 
e    insignificante. 

Com  isso  mudam-se  os  hábitos,  —  os  hábitos, 
da  sociedade,  os  hábitos  administrativos.  Outr'ora 
o  verão  era  uma  estação  de  infernal  calor  em  que 
se  fingia  ir  para  varias  cidades  consideradas  de 
clima  fresco. 

Por  consequência  o  inverno  era  a  estação  paraiso 
das  casas  de  modas,  dos  empresários  de  theatro, 
dos  pequenos  artistas  das  companhiasitas  portu- 
guezas  e  italianas  que  fazem  beneficios,  dos  pro- 
prietários das  casas  de  penhores,  dos  restaurants, 
das  cocheiras  de  carro,  dos  donos  de  garages.  Era 
também  o  terror  dos  chefes  de  familia. 

—  Que  tem  você,  filhinha? 

—  Deixe-me;  vim  de  casa  da  Gocotta... 

—  A  mulher  do  Praxedes  fez-te  alguma  desfeita? 

—  Po  quem  me  toma  você? 

—  Então  que  houve? 

—  E'  que  a  Gocotta  já  assignou  a  companhia 
franceza  e  a  lyrica.  Sou  muito  infeliz  !  Para  que 
deixei  a  casa  de  meus  pães? 

O  marido,  nervoso,  podia  responder  : 

—  Para  vires  aborrecer  um  coitado  que  não  tem 
culpa  nenhuma  do  desastre  de  teres  nascido. 

Mas  não  dizia  e  procurava  um  prestamista  a 
juro  fabuloso,  para  fingir  de  rico.  De  modo  que  o 
inverno  era  também  o  paraiso  dos  prestamistas, 
o  bom  momento  para  os  D.  Juans,  e  definitiva- 


VIDA   VERTIGINOSA  163 

mente  a  grande  hora  da  pose  nacional.  Vinham 
do  Norte  e  vinham  do  Sul  tabaréos  mettidos  a 
sebo,  os  hotéis  rebentavam  de  gente  e  o  observador 
gozava. 

Gozava  sabendo  o  que  ia  gozar.  Era  como  um 
guloso  que  conhecesse  o  cardápio  antes.  Podia-se 
degustar  por  antecipação  até  mesmo  o  aspecto  da 
sala  do  Lyrico  com  os  nomes  em  cada  camarote  e 
em  cada  fauteuil. 

Agora  não.  Os  tempos  felizes  tudo  transforma- 
ram. A  anciã  do  mundo  velho  ligada  a  um  prudente 
medo  do  frio  estabeleceu  a  confusão.  A  sociedade 
carioca  chega  de  Petrópolis.  Costureiros,  chape- 
leiros,  emprezarios,  fornecedores  de  todo  género 
avidamente  annunciam  novidades,  a  sociedade 
faz  um  ar  de  enfado  e  prepara  as  malas.  Vão  par- 
tir. Para  onde?  Para  a  Europa.  Vão  todos  para  a 
Europa.  Não  é  no  verão  que  o  Rio  fica  vasio ;  é  em 
pleno  inverno.  Os  jornaes  não  dão  o  movimento 
dos  costureiros,  dão  o  movimento  das  partidas. 
Ha  a  gente  rica,  ou  que  finge  de  rica  e  vae  por  conta 
própria;  ha  os  que  podem  arranjar  commissões. 
Desses  o  numero  cresce  espantosamente.  Vae 
gente  á  Europa  por  conta  do  governo  ver  até  si  a 
Europa  está  no  mesmo  logar.  E  além  dessa  gente 
feliz,  partem,  também  os  modestos,  os  modestis- 
simos.  E'  um  êxodo  geral. 

—  Oh!  como  vae? 

—  Arranjando  as  malas. 

—  Parte? 


164  JOÃO    DO    RIO 

—  Para  a  Europa.  Vou  passar  seis  mezes. 

—  E  a  estação  theatral? 

—  Ora,  filho,  eu  em  Londres ! 

E  as  senhoras  entrando  nos  costureiros  : 

—  V.  Ex.  chegou  a  propósito.  Dehciosas  toilet- 
tes  de  theatro. 

—  Não  falle  nisso.  Quero  dois  costumes  de  via- 
gem. Dentro  de  vinte  dias  estarei  na  rua  de  La 
Paix,  chez  Doucet  ou  chez  Paquin,  vendo  as  ver- 
dadeiras ultimas  novidades. 

—  E  os  theatros,  excellentissima. 

—  Os  theatros?  Em  Paris. 

Certo,  um  jacobino  feroz  achará  tal  desprendi- 
mento de  máo  eífeito.  Eu  considero-o  excellente. 
Cada  viagem  pessoal  é  um  factor  não  só  da  propa- 
ganda do  Brasil  como  de  civilisação  interna.  Da 
abundância  de  transatlânticos  brasileiros  nos  últi- 
mos tempos,  veio  em  algumas  cidades  da  Europa 
a  fixação  de  nosso  typo,  a  sympathia  por  uma  espé- 
cie e  um  paiz  até  então  mais  ignorados  do  que  o 
Congo.  Nas  cidades  portuguezas  espera-se  a  pri- 
mavera como  o  momento  da  chegada  dos  brasi- 
leiros, o  momento  em  que  os  hotéis  ficam  cheios, 
e  ha  maior  movimento.  Em  Paris,  uma  série  de 
fornecedores  e  de  restauradores  tem  a  certeza  de 
os  ver  chegar  quando  chegam  as  andorinhas  e  nos 
velhos  troncos  brotam  de  novo  folhas  tenras.  Ha 
sitios  mesmo  da  divina  cidade,  onde  se  falia  do 
brasileiro,  como  se  falia  do  argentino.  Ha  todas  as 
raças  do  mundo  no  boulevard,  mas  ha  também 


VIDA   VERTIGINOSA  165 

muitos  brasileiros  e  os  brasileiros  têm  a  sympathia. 

Gomo  excellencia  para  a  nossa  civilisação,  então, 
as  viagens  ficam  sempre  acima  dos  nossos  elogios. 
Em  primeiro  logar  o  patriotismo  longe  de  se  per- 
der transforma  a  mesquinhez  do  detalhe  e  a  fatui- 
dade do  incomparável  no  amor  da  pátria  integral, 
em  bloco.  O  Brasil  está  muito  mais  perto  do  bou- 
levard  que  o  boulevard  do  Brasil.  Uma  pessoa 
ama  a  sua  terra,  não  apenas  a  achar  que  como  a 
nossa  paizagem  não  ha  egual,  como  a  nossa  riqueza 
não  tem  o  mundo  outra,  e  quejandas  tolices;  mas 
para  ver  que  é  preciso  fazer  do  Brasil  um  paiz  como 
elle  ainda  não  é. 

Aqui,  sem  conhecer  coisa  melhor,  o  homem  é 
insensivelmente  rotineiro.  O  grande  desastre  de 
Brasil  foi  a  estreiteza  lamentável  do  2°  império, 
com  uma  immigração  lenta  de  gente  simples  das 
aldeias  a  prefazer  a  massa  da  população  urbana, 
e  um  sentimento  romântico  de  patriotismo  lyrico, 
que  nos  prendia  a  meia  dúzia  de  sábios  pesquiza- 
dores  mas  nos  fazia  julgar  infinitamente  distante 
a  Europa  e  nos  dava  por  satisfeitos  apenas  com  as 
selvas,  os  pontos  de  vista,  a  naturaleza.  Havia  par- 
tidos políticos  mas  ninguém  se  lembrava  de  con- 
certar as  ruas,  havia  o  amor  da  pátria,  mas  nin- 
guém imaginava  fazel-a  prosperar  por  meios  prá- 
ticos. A  Republica  libertou  moralmente  um  povo 
amarrado  ao  carrancismo  de  meia  dúzia  de  idéas 
estabelecidas,  e  fez  bem  o  Brasil  novo,  a  era  de 
progresso  evidente  que  atravessamos.  As  viagens 


166  JOÃO    DO    RIO 

entram,  fazem  parte  desse  progresso.  E'  vendo  o 
estrangeiro  que  o  brasileiro  procura  corrigir-se  e 
melhorar;  foi  vendo  as  outras  cidades  que  S.  Paulo 
se  fez  o  que  hoje  é  e  o  Rio  tende  a  se  tornar  em 
alguns  decennios  um  grande  centro  de  civilisação, 
de  arte,  de  prazer  e  de  vida  febril.  Um  simples 
cidadão  numa  simples  viagem  vem  tão  transfor- 
mado, tão  mais  apto  á  incentivar  o  desenvolvi- 
mento interno  do  paiz,  tão  mais  útil  á  coUectivi- 
dade,  que  era  caso  de  pedir  ao  governo  a  organi- 
sação  de  caravanas  de  rapazes  para  ir  fazer  a  via- 
gem de  instrucção  final,  após  os  seus  cursos  oíficiaes. 

Nós  ainda  temos  —  e  muitas  !  —  coisas  que  não 
passam  de  máos  hábitos,  de  costumes  de  colónia 
ronceira.  Ao  observador  não  escapa  o  desencontro 
chocante  da  civilisação  de  uns  pontos,  ao  lado  da 
persistência  de  defeitos  antigos  de  outros. 

Mas  cada  anno  que  se  passa,  a  transmutação  de 
valores  se  opera,  e  ha  cidades,  ha  adaptações,  ha 
uma  inumerável  serie  de  pequenos  melhoramentos 
pessoaes  que  redundam  no  melhoramento  urbano. 
E'  a  universalisação  do  brasileiro  exigindo  que  elle 
faça  da  sua  capital,  não  apenas  o  museu  do  Cor- 
covado, do  Pão  de  Assucar  e  de  outras  pedras  mais 
ou  menos  altas  e  mais  ou  menos  feias,  mas  o  grande 
centro  da  America  do  Sul. 

Os  vapores  vão  cheios  agora  para  a  Europa. 
Tanta  gente  vae,  que  já  os  de  volta  não  fingem  mais 
de  snobs  e  só  desejam  implantar  aqui  o  que  lá  viram 
de  bom.  E'  o  êxodo  temporário  que  se  accentua. 


VIDA   VERTIGINOSA  167 

Ainda  bem.  Greaturas  felizes  essas  que  partem  a 
abeberar-se  do  Bello  e  a  sugar  no  velho  continente 
a  Energia,  primacial  de  todas  as  virtudes.  Vão  a 
passeio,  vão  gozar,  vão  divertir-se,  vão  mesmo,  se 
quizerem,  pandegar.  Cada  uma  delias  porém, 
inconscientemente,  ao  voltar,  amando  mais  a  sua 
terra,  sem  paspalhices  balofas,  será  um  agente  pro- 
pulsor do  progresso  e  da  civilisação. 

E  a  civilisação  que  é,  em  summa,  o  conforto  do 
corpo,  o  conforto  da  alma,  o  equilíbrio  fundamen- 
tal para  a  eclosão  da  belleza  e  das  idéas  creadoras, 
estende  com  estas  viagens  o  seu  gérmen  imponde- 
rável sobre  a  cidade  de  S.  Sebastião,  ainda  hontem 
aldeia  de  procissões,  estreita,  sórdida  e  tolamente 
pretenciosa... 

Um  cavalheiro  com  quem  outro  dia  conversava 
dizia-me  : 

—  Meu  amigo,  do  Rio  verdadeiro  dentro  de  dez 
annos  não  haverá  senão  a  vaga  recordação.  As 
avenidas,  a  luz  eléctrica,  o  cáes,  tudo  isso  e  mais 
o  Ímpeto  com  que  o  paiz  novo  acordou  para  o  pro- 
gresso, inteiramente  modificaram  os  nossos  hábi- 
tos que  eram,  com  tanto  encanto,  hábitos  coloniaes, 
hábitos  portuguezes  aclimatados.  Dentro  de  dez 
annos,  o  Rio  terá  o  dobro  dos  habitantes,  umas 
quarenta  companhias  trabalhando  diariamente  e 
ninguém    reparará   nessas   mudança   de   hábitos. 

Amanhã  seremos  como  esses  tremendos  trans- 
atlânticos em  transito,  e  eguaes  a  todas  as  cidades. 

Eu  espero  ainda,  quando  alguém  me  perguntar 


168  JOÃO    DO    RIO 

se  vou  á  Europa,  poder  muito  em  breve  responder. 

—   Impossível. 

Os  meus  criados  acabaram  de  pedir  um  mez 
de  descanço  para  ir  a  Génova;  o  meu  chacareiro 
seguio  em  viagem  de  recreio  para  o  Porto,  e  o 
cocheiro  do  íiacre  (que  eu  tomava  á  noite  para 
passear  fingindo  de  particular)  decidio  partir  para 
a  Hespanha,  a  ouvir  malaguenas  e  os  discursos 
vermelhos   de   Barcelona. 

Será  o  record  da  Givilisação... 


Esplendor   e    Miséria   do   jornalismo 


10 


ESPLENDOR  E  MISÉRIA  DO  JORNALISMO 


Um  joven,  chegado  do  norte,  appareceu  na 
redacção  do  jornal.  Era  noite.  A  sala  estava  cheia. 
As  secretarias  especiaes  todas  occupadas,  a  grande 
mesa  do  centro  repleta  de  reporters,  de  cabeça 
baixa,  escrevendo,  enchendo  tiras.  A's  janellas  jor- 
nalistas conversavam.  A'  mesa  do  secretario,  dois 
sujeitos  pendiam  supplices.  As  perguntas,  os  risos, 
as  gargalhadas  cruzavam-se. 

De  instante  a  instante,  o  retinir  do  telephone  li- 
gava á  administração,  a  delegacias  distantes,  á 
typographia.  O  redactor  principal  deixava  o  seu 
gabinete,  com  o  sorriso  nos  lábios.  Estava  admirável 
e  era  tratado  com  deferências  especiaes.  O  carro 
esperava-o,  um  carro  muito  bem  posto.  Um  literato 
em  plena  apotheose  da  chronica  acclamada  para- 
doxava  num  grupo,  com,  ares  Íntimos  e  superiores. 
A  media  tinha  o  traje  impeccavel.  A  alegria  inun- 
dava as  faces,  e  o  secretario,  erguendo  um  pouco  a 
voz,  depunha  na  mesa  um  grande  masso  de  convi- 
tes para  bailes,  para  jantares,  para  theatros,  para 


172  JOÃO    DO    RIO 

pic-nics,   para  almoços,   para   ceias   para   sessões 
solennes  e  dizia  : 

—  Escolham ! 

O  joven  chegado  do  norte  foi  até  o  chronista.  Que 
criatura  deliciosa  e  feliz  esse  homem? 

De  uma  delicadeza  de  velludo,  achando  tudo 
fácil,  o  mundo  um  jardim  encantado,  onde  se  colhe 
a  flor  que  se  quer,  e  ávida  um  sonho  côr  de  rosa.  Oh  ! 
estava  desvanecido ! 

Então  conheciam-n'o  no  Norte  1  oh  !  A  futilidade, 
o  hoje  que  o  amanhã  esquece !...  E  o  que  vinha 
fazer?  Trabalhar?  Mas  os  ministros  eram  uns  anjos 
á  procura  de  homens  de  talento,  mas  os  empregos 
choviam...  Queria  acceitar  do  seu  pobre  jantar? 
Depois  dar-lhe-ia  um  dos  seus  cartões  permanentes 
para  o  music-hall,  para  a  opereta,  para  o  drama 
ou  para  o  circo  de  cavaUinhos  —  tudo  a  mesma 
coisa  egual  a  circo.  O  rapaz  chegado  do  norte  accei- 
tou  por  um  excessivo  acanhamento,  e  como  a  con- 
versa se  generalizasse,  gaguejou  : 

—  Mas  que  força !  mas  que  potencia  que  é  uma 
empresa  jornalistica ! 

—  Apenas  a  infância,  estamos  na  infância,  por- 
que relativamente  aos  outros  paizes  as  nossas  tira- 
gens são  insignificantes.  Mas  é  uma  empresa  esta 
que  tem  cerca  de  dois  mil  contos  de  material  e  que 
sustenta  seiscentas  pessoas  mais  ou  menos. 

—  Nunca  vi  um  jornal  por  dentro... 

—  Nunca?  indagaram  varias  vozes  de  rapazes. 

—  E'  fácil.  Quer  vel-o  agora? 


VIDA   VERTIGINOSA  173 

Deram-lhe  explicações  :  a  reportagem  a  redac- 
ção, a  collaboração;  mostraram -lhe  gabinetes, 
livros  de  assignantes  em  cofres  fortes  para  não  se 
perderem  em  caso  de  incêndio,  os  immensos  halls 
da  typographia  e  das  linotypes,  a  sala  da  clicha- 
gem,  a  sala  da  photographia,  a  sala  da  gravura,  a 
stereotypia,  as  machinas,  seis  ou  sete  machinas 
enormes,  espécies  de  monstros  conscientes. 

—  Um  jornal  que  custa  100  réis  ao  publico  fica 
num  numero  commum,  sommando  as  diárias  de 
todos  os  vencimentos,  por  quasi  três  contos.  Só 
a  grande  tiragem  pôde  compensar... 

—  E  esta  obra  tremenda  faz -se  hoje  para  reco- 
meçar amanhã? 

—  Si  nós  não  temos  hontem?  Vae  achar  inútil 
que  um  batalhão  de  gente  se  esbofe  de  trabalho 
para  uma  obra  que  já  não  serve  amanhã?  Que  quer? 
A  civilização !  A  anciã  da  novidade,  da  noticia, 
da  mentira,  do  bluff... 

—  E'  espantoso  ! 

—  E  si  fossemos  jantar? 

Meio  atordoado,  o  joven  chegado  do  norte  acom- 
panhou o  chronista,  participando  um  pouco  do 
brilho  do  homem  celebre.  Cumprimentos  respeito- 
sos, abraços,  perguntas,  gente  que  se  voltava.  Na 
Avenida  um  ministro  que  ia  tomar  o  seu  automó- 
vel parou,  conversou.  Mais  adiante  o  chefe  de  poli- 
cia rasgou  um  cumprimento  que  parecia  de  dele- 
gado para  o  chefe.  No  restaurante  foi  um  í  brouha- 
ha  ».  O  proprietário  em  pessoa  veiu  espalhar  peta- 

10. 


174  JOÃO    DO    RIO 

las  de  rosa  na  mesa.  Das  outras  mesas,  nomes  de 
cotação  na  politica,  na  finança,  na  industria  cum- 
primentavam. 

—  V.  Exa.  toma  como  sempre?... 

—  Champagne  brut   Imperiale,  AppoUinaris... 
O  jantar  foi  delicado  e  agradável.  O  chronista 

falava  com  desprendimento  de  contos  de  réis,  da 
sua  amizade  com  o  presidente  da  Republica.  O 
joven  indagava  de  certos  nomes  cuja  fama  até  á 
sua  provincia  chegara. 

—  Ah  !  está  muito  bem.  Tem  talvez  uns  trezen- 
tos contos. 

—  E  Fulano? 

—  Fulano  é  intelligentissimo.  Ha  dez  annos 
dormia  em  rolos  de  jornaes.  Hoje  tem  carro,  tem 
automóvel  e  comprou  esta  semana  uma  casa  para 
a  amante  no  valor  de  100  contos. 

—  E  Beltrano,  o  grande  poeta? 

—  Parte  para  Paris,  a  vêr  a  primeira  do  «  Chan- 
tecler»... 

No  fim  do  jantar,  elegantemente,  o  chronista  faci- 
litou ao  joven  dois  ou  três  ingressos  de  casa  de 
espectáculo,  mandou  buscar  um  carro,  despediu-se 
cheio  de  ternura  e  partiu.  O  carro  era  de  praça 
mas  esse  final  foi  a  gotta  d'agua  para  o  transbor- 
damento  da  admiração.  O  joven  chegado  do  norte, 
á  meia-noite,  estava  no  seu  quarto,  pensando.  Ti- 
nha vinte  annos,  queria  subir,  rapidamente.  Que  me- 
lhor profissão  a  adoptar?  O  jornalismo  leva  a  tudo, 
mas  é,  especialmente,  a  profissão  sonhada  :  gloria, 


VIDA  VERTIGINOSA  175 

fama,  dinheiro,  tudo  fácil!  Que  outra  profissão 
poderia  ter  tanto  esplendor?  E  essa  gente  não  tinha 
assim  tanto  talento,  afinal.  Ao  contrario  !  Oh  !  per- 
tencer a  um  jornal,  fazer  a  chuva  e  o  bom  tempo 
para  uma  porção  de  gente,  dominar,  ganhar  di- 
nheiro, ter  as  mulheres  a  seus  pés,  os  homens  no 
bolso,  vir  talvez  a  ser  dono  de  um  grande  diário, 
privando  na  intimidade  das  potencias  politicas... 

No  dia  seguinte  estava  resolvido.  Entraria  para 
um  jornal.  Levou  um  mez  para  conseguil-o.  Ne- 
nhuma capacidade  de  dentro  das  gazetas  servia  como 
empenho.  Arranjou  um  industrial  muito  rico  e  um 
senador.  O  jornal  estava  na  gaveta  de  ambos. 
Entrou  e  foi  repórter. 

Então  elle  viu  a  anciã  perdulária  por  dinheiro 
dos  jornaes;  elle  viu  que  as  remunerações  secretas 
dos  governos  são  regateadas  e  pagas  mal  como  as 
contas  de  um  particular  em  apuros ;  elle  viu  que  o  não 
comprehendiam  sincero  e  bom  senão  com  o  fito  de 
gorgetas  vergonhosas,  elle  comprehendeu  o  trabalho 
dilacerante  e  exhaustivo  dos  que  tinham  subido,  e  a 
fúria  com  que  se  agarravam  ás  posições,  atacados 
violentamente  pelos  invejosos  da  mesma  profissão. 

Não  era  um  esplendor.  Era  a  miséria  infernal. 
Elle  repórter,  tinha  um  ordenado  que  seria  irrisó- 
rio se  o  secretario  não  ganhasse  uma  somma  men- 
sal perfeitamente  cómica,  e  se  o  poeta  admirável 
não  tivesse  por  cada  chronica,  assignada  com  o  seu 
grande  nome,  o  que  qualquer  barbeiro  faz  por  dia. 
A  qualquer  parte  onde  fosse  era  traduzido  por  noti- 


176  JOÃO    DO    RIO 

cia.  Não  era  homem,  era  um  futuro  numero  de  li- 
nhas não  pagas.  Nem  sympathias  nem  aííeições  na 
vida  dos  profissionaes.  Inveja,  maledicência,  calum- 
nia,  o  horror,  e  o  interesse  relativamente  fraco 
deante  da  gula  voraz  de  fora,  querendo  o  jornal 
para  agente  de  todas  as  suas  pretenções.  A  todas 
as  autoridades  servia  esperando  ser  servido  num 
empreguinho  que  não  vinha.  A  quantos  se  approxi- 
mavam  punha-se  ponte  de  passagem  para  uma 
gratidão  que  não  surgia.  Andava  atrazado,  indivi- 
dado,  perseguido  pelo  alfaiate.  E  tinha  deante  de  si 
essa  coisa  aíílictiva  e  atroz  que  se  chama  :  a  bohe- 
mia  de  trabalho.  Trabalha  hoje  pela  manhã;  tra- 
balha amanhã  imprevistamente,  até  de  madrugada. 
Não  almoça  hoje  por  falta  de  tempo;  ceia  amanhã 
em  vez  de  jantar. 

Ao  cabo  de  um  anno  tinha  duzentos  e  cincoenta 
mil  réis  por  mez  e  já  assignara  uma  «  enquête  » 
sobre  costureiras.  Não  abrira  mais  um  livro.  Sen- 
tia-se  sem  saber  nada  e  entretanto,  capaz  de  com- 
prehender  e  de  tratar  immediatamente  de  qualquer 
assumpto.  Era  uma  espécie  de  ignorância  encyclo- 
pedica,  ao  serviço  de  uma  porção  de  gente,  que 
delle  se  servia  para  trepar,  para  subir,  para  ganhar, 
com  carinho  e  cynismo. 

—  O  jornalismo  leva  a  tudo,  com  a  condição  de 
delle  sahir  a  tempo... 

Mas  sahir  como?  Com  elledera-se  um  conto  de 
fadas.  Vira  um  palácio  rutilante.  Entrará.  Dentro 
havia  principalmente  contrariedades  e  as  portas 


VIDA   VERTIGINOSA  177 

para  sahir  tinham  desapparecido.  Oh  !  passar  toda  a 
vida  a  fazer  noticias,  a  ser  uma  parte  de  gazeta  que 
se  repete  todos  os  dias  !...  Quiz  vêr  se  lhe  augmenta- 
vam  o  ordenado.  Mas  se  havia  na  casa  reporters  de 
sessenta  mil  réis  por  mez?  A  única  posição  conve- 
niente era  no  jornal  a  de  director.  Director  ou  ge- 
rente. Quanto  dinheiro  !  Quanta  honra  !  Mas  tam- 
bém como  essa  honra  era  relativa  de  uns  maganões 
políticos  que  lisonjeavam  para  obter  o  nome  im- 
presso com  elogio  !  Gomo  em  dinheiro  o  arroto 
mentia !  Uma  vez  diseram-lhe  que  o  seu  jornal 
recebera  sessenta  contos  para  defender  um  negocio 
complicado.  Junto  aos  sujeitos  que  fingiam  ter 
pago,  elle  ouviu  as  phrases  normaes. 

—  Não  podemos  fazer  mais...  estes  jornaes... 
temos  sido  muito  gentis. 

—  Seis  dezenas  de  contos... 

—  Oh !  não  falemos  nessas  ninharias. 

As  ninharias  de  seis  dezenas  de  contos  limita- 
vam-se  ao  pagamento  á  linha  das  publicações 
feitas  por  elles,  e  pagamento  regateado  e  atra- 
zado. 

Isso  deu-lhe  um  grande  desgosto.  Os  jornaes 
barateavam-se.  Grandes  torres  levantadas  á  vai- 
dade humana  eram  aproveitadas  barato  de  mais. 
Se  as  opiniões  não  existiam,  se  um  sujeito  que- 
rendo uma  nota  na  primeira  pagina  estava  certo 
de  a  obter,  porque  dal-a  por  um  preço  irrisório  e 
as  mais  das  vezes  grátis,  tudo  quanto  ha  de  mais 
grátis?  Essa  barateza  geral  era  em  tudo.  O  jornal 


178  JOÃO    DO    RIO 

desconhecia  a  sua  força  phenomenal,  a  força  que 
elle  sentia  onde  estivesse. 

—  E'  do  jornal 

—  E'  repórter ! 

Certo  havia  um  vago  receio.  Mas  podia  fazer 
tudo;  era  tratado  com  considerações  especiaes  de 
primeira  figura. 

—  Arranjas-me  isso? 

—  Eu?  Não  posso... 

—  Você,  do  jornal  tal !... 

Poderia  elle?  Não  poderia?  Podia  ás  vezes, 
pedindo  a  toda  gente  que  conhecia. 

Alguns  attendiam,  quando  indirectamente  iam 
receber  um  grande  obsequio  por  seu  intermédio. 
Assim,  fez-se  correspondente  telegraphico,  com  os 
políticos  de  alguns  Estados  na  mão,  telegra- 
phando  tudo  quanto  o  jornal  ia  dar.  Com  o  pescoço 
comprido  viveria  das  ramas.  E  as  ramas  deram-lhe 
redobrado  serviço,  fizeram-n'o  mentir  com  desas- 
sombro. Ao  cabo  de  um  anno,  convencido  do  seu 
valor  para  a  galeria,  tinha  uma  sinecura  de  oito- 
centos mil  réis  do  governo,  recebia  avisos  reserva- 
dos do  ministério  em  que  exercia  o  jornahsmo, 
ganhava  um  conto  e  tanto  de  jornal. 

A  ambição,  as  preoccupações,  os  interesses,  os 
negócios  tomavam -lhe  a  alma.  Queria  ter  mais,  que- 
ria ter  muito  mais  —  e  o  jornalismo  chegando  a 
um  certo  ponto  não  dá  mais.  Muita  vez  pensando, 
elle  não  sabia  dizer  a  sua  situação.  Era  pouco  defi- 
nida. Poderia  sossobrar  no  dia  seguinte... 


VIDA   VERTIGINOSA  179 

Mas  com  elegância  comia  nos  primeiros  restau- 
rantes, com  20  %  de  abatimento,  posava  grátis  nas 
confeitarias  para  levar  concorrência,  conseguia  que 
os  que  lhe  pediam  favores  correspondessem  com  o 
máximo. 

—  Grande  cavador,  você ! 

—  Cavador,  o  homem  que  trabalha  forçando 
o  seu  temperamento... 

Deu  um  balanço  na  alma;  viu  quanto  tinha  peo- 
rado  em  tudo,  sentiu  mesmo  a  inanidade  de  uns 
dinheirinhos.  E  entrou  na  redacção,  onde  já  era  re- 
dactor. 

E  succedia  que  outro  joven  chegado  do  norte 
apparecera. 

—  Então,  o  sr.  quer  ser  jornalista? 

—  Eu  desejava... 

—  Não  caia  nessa.  E'  uma  vida  infernal !  De 
cem  vence  a  metade  de  um.  Tudo  isto  é  a  illusão. 
Vire  estes  rapazes !  Não  sáe  nickel.  Examine-os. 
Estão  todos  doentes.  Não  é  vida;  é  uma  torrente ! 

—  Mas  o  sr...  murmurou  o  recem-vindo. 

—  Eu  cheguei  ha  alguns  annos.  Mas  si  fosse  a 
recomeçar  preferiria  quebrar  pedra.  Seja  empre- 
gado pubUco ! 

—  Não,  eu  vou  ser  jornalista. 

—  A  attracção,  o  inferno... 

E  o  joven  que  tinha  chegado  do  norte  alguns 
annos  antes,  vendo  a  resolução  do  que  chegara  hon- 
tem,  já  temendo  a  victoria  desse,  já  temendo  uma 
antipathia,  já  temendo  o  ataque  de  jornal  de  que 


180  JOÃO    DO    RIO 

tinha  um  louco  medo,  covarde,  assustado,  neuras- 
thenico,  insincero,  sorriu,  abrandou  a  voz. 

—  Que  se  ha  de  fazer?  Com  estas  disposições 
vence-se.  Estou  ás  suas  ordens  para  ajudal-o  a 
collocar-se... 


Cabotinos 


11 


CABOTINOS 


No  gabinete,  áquella  hora  da  noite,  havia  apenas 
o  velho  e  importante  homem  pohtico  em  compa- 
nhia do  joven  e  desconhecido  jornahsta.  A  casa  fica- 
va no  alto  da  montanha  a  pique  —  uma  casa  com 
columnas  mouriscas  e  pateos  internos  forrados  de 
mosaico  polycolor.  Era  noite,  e  das  janellas  do  gabi- 
nete por  onde  entrava  o  cheiro  apaziguante  do 
arvoredo,  via-se  no  diamante  liquido  do  luar  o 
desdobrar  infindável  da  cidade  enorme  embaixo, 
no  mar,  e  na  linha  vaga  do  horisonte  o  mar  e  o 
céu  confundidos.,,  O  homem  politico  estava  de 
pyjama.  O  joven  jornalista  de  frack.  O  homem  poli- 
tico quasi  não  se  via,  porque  havia  apenas  o  can- 
dieiro  protegido  pelo  para-luz  de  seda  rubra  e  elle 
ficava  recostado  longe,  na  rocking. 

O  joven  jornalista  mostrava  a  face  ambiciosa 
banhada  no  halo  do  luar  —  porque  estava  apoiado 
á  janella. 


184  JOÃO    DO    RIO 

Era  muito  tarde. 

—  Mas  V.  Ex.  será  ministro? 

—  Quem  sabe? 

—  E'  certo. 

—  Depende  do  candidato.  Nada  é  certo,  neste 
mundo. 

—  Quem  pôde  prever  até  que  o  não  apontem 
ao  supremo  cargo? 

Houve  um  longo  silencio.  O  politico  ergueu-se; 
accendeu  o  charuto,  pegou  de  um  livro. 

—  Sabe  com  que  me  entretive  estes  últimos 
dias?  Com  um  livro  interessantissimo. 

—  Algum  trabalho  de  sociologia? 

— •  Exactamente  :  o  volume  de  um  cómico  Pedro 
Hittemans.  Chama-se :   Memorias  d'um  Cabotino. 

—  Oh  !  Excellencia  ! 

—  Mas  sim,  meu  caro,  um  livro  excellente  e 
encantador,  um  livro  que  veio  mais  uma  vez  tiazer- 
me  a  documentação  ás  minhas  idéas  sobre  a  orga- 
nisação  da  sociedade  moderna. 

—  Deve  ser  então  bom  mesmo... 

—  E'.  Deve  lel-o.  Nunca  se  tem  o  curso  completo 
e  o  meu  amigo  inicia  apenas  a  sua  carreira. 

O  jornalista,  um  pouco  desconcertado,  deixou  a 
janella,  vindo  até  á  mesa;  o  politico  baforou  o 
fumo  do  charuto  com  infinito  tédio. 

—  Menino,  não  se  oíTenda.  Também  eu  não 
tenho  o  curso  completo.  E  lá  em  baixo  na  cidade 
ha  mais  discipulos  que  mestres. 

De  facto  porém  o  mundo  tende  a  ser  cada  vez 


VIDA    VERTIGINOSA  185 

mais  —  a  Federação  Gabotinal  das  Cabotinopolis... 
Gomo  jornalista  moderno,  preoccupadocom  o  docu- 
mento exacto  talvez  você  não  tenha  olhado  com 
olhos  de  olhar  a  evolução  do  viver  urbano. 

Se  olhasse  verificaria,  immediatamente,  primeiro: 
que  o  trabalho  honrado  não  dá  fortuna  a  ninguém; 
segundo  :  que  todos  nós  somos  refinadissimos  ma- 
landrins ;  terceiro  :  que  não  nos  esganamos  physi- 
camente  mas  nos  esfaqueamos  e  nos  assassinamos 
moral  e  monetariamente  a  cada  instante.  O  mais 
bandido,  o  mais  cruel,  o  mais  patife  é  quem  vence. 

—  Quando  não  vae  para  a  cadeia. 

— •  Está  enganado.  Vão  para  a  cadeia  creaturas 
vulgares,  sem  energia  e  sem  resistência,  vão  para 
a  cadeia  os  malandrins  do  panno  do  fundo  que 
não  estudaram  o  papel,  os  fracos,  os  sentimentaes,  os 
desperdiçadores,  isto  é  as  anomalias,  as  aberrações, 
o  menor  numero.  Os  patifes,  os  gatunos,  os  verda- 
deiros ladrões  e  os  assassinos  magnificos,  esses 
todos  respeitam,  consideram  e  veneram.  Para  domi- 
nar, para  vencer,  é  preciso  praticar  com  affoiteza 
o  que  a  moral  e  o  código  condemnam  quando  se 
pratica  covardemente.  Veja  você  Napoleão  — • 
matava  gente  aos  milhares  e  ninguém  se  atrevia  a 
mettel-o  no  xilindró  como  qualquer  facadista  reles 
da  Saúde.  Veja  você  os  grandes  banqueiros  ou  os 
chamados  reis  de  varias  industrias.  Os  primeiros 
representam  a  fome,  a  miséria,  a  desgraça  de  uma 
porção  de  creaturas  roubadas  em  honra  das  tran- 
sacções commerciaes;  os  segundos  affirmam  a  escra- 


186  JOÃO    DO    RIO 

vidão  branca  e  cegam  o  mundo  com  o  dinheiro 
amassado  no  suor  de  exércitos  collossaes  de  des- 
graçados. Veja  você  os  politicos. 

Nenhum  delles  venceu  verdadeiramente  senão 
sendo  ingrato,  hypocrita,  velhaco,  falso. 

A  vida  é  como  uma  batota  lobrega.  Já  entrou 
alguma  vez  nesses  estabelecimentos,  onde  a  policia 
só  não  entra  para  cumprir  o  seu  dever?  Pois  nessas 
tavolagens  sórdidas  ha  diversos  jogos  prohibidos 
e  roubados  que  se  denominam  de  azar  :  a  vermelhi- 
nha, o  jaburu,  a  roleta,  o  monte.  Em  torno  de  cada 
mesa  acotovela-se  uma  roda  famélica,  de  revólver 
no  bolso  e  alma  fria  como  um  iceberg. 

Não  ha  mutua  confiança;  ha  certeza  geral  de 
roubalheira  e  patifaria.  Nós  estamos  numa  batota 
maior.  O  dado  é  a  politica,  a  roleta  é  o  commercio ; 
a  vermelhinha  é  a  arte;  o  jornalismo  é  o  monte... 

— •  V.  Ex.  hoje  está  deliciosamente  pessimista... 

—  Estou  a  dizer  coisas  velhas  com  um  certo  pejo 
de  as  repetir. 

O  homem  moderno  não  tem  nem  pessimismo  nem 
optismo,  porque  não  tem  alma.  O  homem  moderno 
trata  da  sua  vida,  vê  se  não  perde  a  occasião  de 
apanhar  o  seu,  que  é  quasi  sempre  o  dos  outros, 
livre  e  desembaraçadamente.  Repare,  meu  caro, 
já  não  digo  para  o  mundo,  que  é  um  exemplo  muito 
grande,  mas  para  uma  cidade  apenas.  Porque  fez 
Fulano  fortuna?  Porque  roubou.  Porque  Gicrano 
está  numa  posição  brilhante?  Porque  embrulhou  os 
seus  companheiros  mais  próximos. 


VIDA    VERTIGINOSA  187 

Engano,  dolo,  violência,  a  bolsa  ou  a  vida,  hon- 
rada malandragem  de  alto  a  baixo.  Eu  que  aqui  es- 
tou falando  estou  certo  de  que  você  é  um  malí^n- 
•dro... 

—  Oh!  excellencia... 

—  E  faço-lhe  este  elogio  porque  o  considero  um 
typo  com  probabilidade  de  vencer  e  porque  eu 
próprio  tenho-me  na  conta  de  um  espertalhão  de 
primeira  ordem.  Até  mesmo  o  ser  que  Kmita  a  sua 
ambição  explora  os  bons  sentimentos.  Sou  padrinho 
do  filho  de  um  amanuense  paupérrimo  com  oito 
filhos^  O  amanuense  não  tinha  coragem  de  pedir  o  que 
fosse.  Um  dia  encontrei-o  furioso ; « Imagine  V.  Ex. 
que  morreu  o  barão  António,  meu  compadre  qua- 
tro vezes,  e  nada  deixou  para  os  pequenos  !  Se  sou- 
besse, tel-o  ia  mandado  á  fava  !  Não  era  padrinho 
nem  do  primeiro!  «Era  puríssimo  esse  compadre, 
era  honestissimo...  Jogava  com  os  filhos  contra  a 
morte  dos  compadres... 

—  Mòlière  estudou  a  sua  moléstia  no  Alceste... 

—  Deixemos  de  frazes...  Alceste  seriamos  todos 
nós  se  não  quizessemos  aproveitar  o  mundo  tal  qual 
está.  A  tavolagem  tem  uma  porção  de  taboletas 
para  encobrir-lhe  o  fim.  Mas  deve  ter  notado  que, 
sinceramente,  ninguém  se  queixa  de  que  não  haja 
dentro  o  que  a  taboleta  annuncia.  Assim  com  a 
vida.  Todos  mais  ou  menos  sabem  das  taboletas, 
conservam-nas,  exageram-nas  e  cuidam,  com  ellas 
a  tapar-lhes  as  faces,  de  arranjar  a  vida  da  maneira 
mais  suave. 


188  JOÃO    DO    RIO 

—  Realmente... 

—  E'  o  caso  do  verso  do  Hugo!  hein? 

Moíitaigne  eút  dit  :  «  Qiie-sais-je?  »"et  Rabelais  :  «  Peiít- 

[être  !  » 

Está  meio  convencido?  Nesta  existência  porém, 
a^sim  constituida,  a  taboleta  preoccupa  cada  vez 
mais.  Não  ha  como  os  jogadores  para  occultarem 
e  negar  o  vicio.  A  humanidade  é  assim,  de  forma 
que  nós  temos  nas  cidades  modernas  um  sentimento 
geral  de  evolução  espantosamente  rápida  :  o  cabo- 
tmismo. 

Foi  o  orgulho  que  fez  o  homem  firmar-se  nas  patas 
trazeiras  e  apoiar-se  a  um  pedaço  d'arvore,  ao  des- 
cer da  arvore.  O  orgulho  transformou-se  em  vai- 
dade como  o  pedaço  d'arvore  em  bengala.  A  vai- 
dade, por  falta  de  elementos  fortes  em  que  se  firmar, 
fez-se  exhibicionismo  :  o  exhibicionismo  à  outrance 
é  o  cabotinismo  geral. 

O  homem  arranja  a  vida,  e  faz-se  por  dinheiro 
titular;  a  dama  manda  fazer  uma  toilette  e  quer  que 
todos  saibam;  o  philantropo  offerta  grandes  som- 
mas.  annunciando  previamente  a  dadiva.  Ninguém 
duvida  das  próprias  forças  e  todos  querem  dar  na 
vista  :  velhos,  mulheres,  homens,  creanças,  philo 
sophos  e  estudantes  da  escola  primaria,  cocottes  e 
damas  protectoras  de  caridade,  homens  notáveis  e 
vis  anonymos.  Por  cabotinismo  faz-se  tudo;  por 
cabotinismo  nada  se  recusa.  Estou  mesmo  conven- 
cido de  que  ao  globo  terráqueo  não  acontece   o 


VIDA    VERTIGINOSA  189 

que  aconteceu  á  lua,  pela  cabotinagem  com  que 
persiste  em  fazer  de  satélite  do  sói  esta  pobre 
terra... 

—  Cabotinos  é  uma  palavra  franceza. 

—  Que  não  vale  a  pena  traduzir  em  vernáculo. 
Cabotinos,  como  sabe,  chamaram  aos  actores 
mediocres  e  exhibicionistas  de  uma  origem  feroz- 
mente aggressiva.  Mas  cabotinos  são  toda  gente. 
E'  impossivel  encontrar  um  homem  absolutamente 
notável  que  não  seja  cabotino.  E  assim  são  os 
outros,  a  grande  espécie  humana.  No  dia  que  dese- 
jar ver  o  cabotinismo  inconsciente  vá  com  uma 
machina  photographica  para  a  rua.  Verá  como  terá 
a  rua  inteira  com  vontade  de  sair  photographada. 
Individualmente  cada  uma  das  pessoas  que  appa- 
rece  julga  ser  o  typo  saliente  e  o  foco  das  attenções. 
Se  desejar  particularisar  essa  observação  geral, 
estude  diversas  classes  sociaes,  vá  indo  de  cima 
para  baixo,  e  encontrará  cabotinos  desde  os  politi- 
cos  dominantes  até  os  copeiros,  cabotinos  posando 
com  descaro  a  sua  importância,  e  subindo  e  ga- 
nhando mais  a  vida  exactamente  por  isso... 

—  Caspite  ! 

—  Mesmo  só,  ainda  encontrará  cabotinismo, 
apenas  cabotinismo,  olhando  o  espelho  ou  fazendo 
um  exame  de  consciência. 

—  Sr.,  sou  um  homem  puro. 

—  Deixe  de  cabotinismo.  De  manhã,  antes  de 
me  apparecer  o  creado,  acontece-me  o  mesmo... 

E  se  estou  a  falar  com  esta  franqueza  —  é  que 

11. 


190  JOÃO    DO    RIO 

precisamente,  por  condições  curiosas,  por  curiosas 
condições  de  raça  e  de  meio,  o  Rio  é  o  maior  centro 
de  cabotinismo,  de  cabotinismo  as  mais  das  vezes 
infantil,  ingénuo,  mas  cabotinismo. 

—  Gomo  assim?  '• 
O  politico  ergueu-se. 

—  Porque  somos  um  paiz  de  chefes. 

A  desorganisação  capital  do  nosso  systema  poli- 
tico, a  anarchia  da  nossa  arte,  a  oscillação  dos  nos- 
sos costumes,  tudo  isso  vem  de  um  phenomeno 
moral  verdadeiramente  espantoso  :  o  Brasil  é  umo 
paiz  de  revoltados  em  que  todos,  entretanto,  são 
tratados  de  chefes. 

—  Chefes? 

—  Mas,  meu  caro,  não  se  faça  de  ingénuo.  Aqui 
ós  homens  ou  são  doutores  ou  coronéis,  mas  todos, 
irrevogavelmente,  são  chefes.  Chefes  de  que,  não 
sei  bem,  mas  chefes,  homens  compenetrados  de  que 
têm  influencia,  de  que  dispõem  de  um  amplo  cir- 
culo de  admiradores  e  de  escravos.  Ainda  ha  pouco, 
acompanhei  as  eleições  municipaes.  Eram  todos 
chefes  de  diííerentes  valores  mas  que  não  se  podia 
contar  de  um  ao  maior,  porque  estavam  numa 
completa  confusão. 

Um  jornalista  estrangeiro  perguntou-me  um  dia 
onde  estavam  os  commandados  desses  chefes.  Ri 
amarello,  com  uma  certa  doze  de  patriotismo  exa- 
cerbado (e  o  patriotismo,  como  diriaophilosopho, 
é  a  bihs  da  humanidade)  mas  concordei. 

Com  effeito.  Nós  vivemos  numa  época  de  cliefes. 


VIDA    VERTIGINOSA  191 

Todos  são  chefes.  Por  que?  Ninguém  sabe.  Mas  são. 
Os  jornaes  noticiam  a  chegada  de  um  coronel.  O 
coronel  hoje  pôde  não  ser  fazendeiro,  mas  é  chefe 
politico  de  real  influencia  no  seu  districto,  lá  longe, 
onde  ninguém  vae.  Um  cidadão  faz  annos.  E'  pos- 
sivel  que  o  cidadão  tenha  defeito,  mas  domina 
uma  porção  de  gente.  Somos  quasi  byzantinos  nesta 
qualificação.  Tudo  é  chefe,  desde  o  Grande  Chefe 
José  Gomes  Pinheiro  Machado  até  os  cozinheiros 
que  são  chefes  da  cozinha,  digo  mal,  até  os  capoei- 
ras que  são  seu  chefe... 

E'  um  desejo  de  consideração  que  assim  impelle 
os  homens  a  serem  todos  chefes? 

Gamille  Doucet,  secretario  da  Academia  Fran- 
ceza,  já  escreveu  dois  versos  que  não  são  bons  mas 
valem  por  sinceros  : 

Considération  !    Considération  ! 

Ma  seule  passion  !  Ma  seule  passioii ! 

Ha  de  ser  certamente,  por  isso.  Chefe é  uma  pala- 
vra bonita,  sôa  bem. 

—  Chefe ! 

— -  Eminente  chefe  ! 

Não  se  sabe  de  que,  mas  é  de  eíTeito.  Depois  nós 
vivemos  numa  verdadeira  parada,  com  a  alma 
no  bolso  e  o  risinho  da  cavação  nos  lábios.  Chefe  é  um 
qualificativo  agradabilissimo  e  que  não  compro- 
mette  a  ninguém.  Para  um  pedido,  nada  mais  sym- 
pathico. 

—  Meu  caro  chefe,  peço-lhe  a  fineza... 


192  JOÃO    DO    RIO 

Chefe  de  que?  Pode  ser  do  que  pede  e  pôde  ser  da 
sua  estribaria. 

—  Ah !  sempre  militei  ao  lado  deste  chefe  ! 

O  militar  aqui  é  a  maneira  de  embrulhar  uns  aos 
outros,  que  é  o  que  se  faz  em  eleições  entre  nós, 
com  toda  a  violência  dos  partidos.  De  um  momento 
para  outro,  apôs  muitos  sacrifícios  de  dinheiro,  o 
chefe  vê-se  como  o  senador  Vasconcellos  sem  nada, 
nem  mesmo  o  seu  delicioso  sorriso  de  louça  da  casa 
Vieitas.  Mas.  apezar  de  comprehender  isso,  melhor 
dtis  raros  que  não  o  são,  os  chefes  são  incapazes  de 
resistir  á  força  do  qualificativo.  Ainda  outro  dia  vinha 
no  tramway  com  um  deputado  do  Districto.  Na  pri- 
meira parada,  um  sujeito,  de  côr  encardida  natu- 
ralmente chefe  eleitoral,  trepou  no  estribo,  gritando : 

—  Meu  chefe,  dá  licença? 

O  homem  sorrio.  Chefe  I  O  cavalheiro  pendeu- 
Ihe  no  ouvido.  Chefe  I  S.  Ex.  tornou  a  metter  os 
dedos  no  bolso.  Chefe !  A  sua  mão  apertou  a  mão 
do  soldado  fiel  com  uma  nota  que  ficou  na  do  sol- 
dado fiel.  O  carro  partio,  os  baleiros  ficaram;  o  ca- 
valheiro balançou  o  corpo  para  trás  na  mais  ele- 
gante prova  de  cinemática  capadoçal  que  eu  tenho 
visto,  e  cahio  no  mundo,  gritando  : 

—  Sempre  ás  ordens  de  V.  Ex.,  meu  chefe  ! 

E  todo  o  bonde  ficou  olhando  o  sympathico  cida- 
dão, que  era  chefe. 

Quem,  entretanto,  não  foi,  com  ou  sem  vontade, 
um  dia  chefe?  Ha  os  que  são  empregados  modestos 
e  vem  para  a  rua  contar  historias. 


VIDA    VERTIGINOSA  193 

—  Aquillo  estava  uma  balbúrdia.  Foi  um  tra- 
balhão !  Felizmente,  com  um  pouco  de  esforço,  con- 
segui fazer  voltar  a  ordem... 

E'  uma  grande  mentira,  mas  elles  passam  por 
chefe.  Quantos  secretários  de  redacção  ha  por  ahi 
que  não  poderiam  ser  nem  contínuos,  secretários 
de  lingua,  posando  reformas  na  calçada?  Quantos 
directores  gerentes  ondulam  por  esta  cidade,  que 
não  passam  de  reles  agentes  sem  outra  impor- 
tância? Quantos  cavalheiros  que  nem  eleitores  são, 
asseguram  aos  candidatos  ingénuos  os  «  seus  ho- 
mens» para  o  voto? 

Ha  os  que  abominam  o  qualificativo,  mas  pela 
circumstancia  têm  de  ser  allegoricamente  chefe  de 
alguma  coisa,  porque  em  certas  reuniões  a  doença  é 
tão  definitiva,  que  acham  pouco  apresentar  um 
sujeito  que  não  seja  chefe.  . 

—  Tenho  o  prazer  de  apresentar-lhe  o  Theodo- 
rico,  rapaz  muito  serio.  Já  é  chefe  na  casa  em  que 
está  empregado. 

—  Oh !  bondade  de  seu  Bonifácio,  que  é  um 
chefe  bondoso. 

—  Não  senhor  !  Justiça. 

—  O  Sr.  é? 

—  Caixeiro  da  Sapataria  Esperança.  Sou  eu  e 
o  patrão  só.  Mas  como  o  patrão  sae  fico  a  tomar 
conta.  Qual  chefe  !  modesto  gerente  ! 

Todos  esses  chefes  de  facto  parecem-se.  Foi  a 
mania  da  chefia  politica  que  nos  aranjou  esta 
angustiosa  situação  politica  em  quo  o  Sr.  Pinheiro 


194  JOÃO    DO    RIO 

faz  a  reprise  dos  seus  ares  estranhos  de  pythonisa 
dos  pampas,  com  erros  de  grammatica  e  facalhão 
na  cava  do  collete.  E  não  se  pôde  dizer  que  o  maior 
dos  chefes,  a  Grande  Ursa,  o  Dalai-lama  tenha  uma 
só  rasão  para  mandar  na  poKtica  de  vinte  milhões 
de  habitantes... 

Mas,  a  opinão  do  jornahsta  estrangeiro  fizera-me 
reflectir.  Não.  Elle  tinha  razão.  Talvez  o  modo  de 
expHcar  o  phenomeno  não  fosse  muito  exacto. 
Mas  como  expHcal-o?  ^Megalomania,  inconsciência, 
costume?  Em  todo  o  caso  falta  de  equihbrio  so- 
cial, falta  de  sobriedade.  Esta  é  terra  em  que  os 
homens  quando  se  encontram  dão  quasi  sempre 
exclamações  e  não  deixam  de  abraçar-se.  Esta  terra 
é  o  paiz  em  que  as  damas  vinte  vezes  (jue  se  despe - 
çam  dáo-se  sempre  reciprocamente  um  par  de  beijos 
nas  bochechas;  este  paiz  é  o  logar  onde  ainda  ha 
bem  pouco  tempo  os  cidadãos  se  tratavam  de  : 
amigo,  correligionário  e  quasi  parente;  este  Rio  é 
o  Rio  dos  exaggeros. 

—  Dos  chefes ! 

—  E  consequentemente,  meu  amigo  é  caboti- 
nopolis. 

—  Está  a  brincar... 

—  E  sabe  a  causa  do  desenvolvimento  dessa 
nevrose  aguda,  sabe  o  eixo  dessa  roda  de  pose  allu- 
cinante,  meu  caro  e  joven  amigo?  O  jornal,  o 
jornal  que  elogia  e  ataca,  glorifica  e  atassalha;  o 
jornal  que  estampa  o  retrato,  o  jornal  que  publica 
o  nosso  nome  no  dia  em  que  um  homem  vae  aífir- 


VIDA    VERTIGINOSA  195 

mar  ao  registro  civil  ser  nosso  pae,  marcando-nos 
para  sempre  com  o  desejo  de  ver  repetido  e  prece- 
dido e  seguido  de  adjectivos  esse  nosso  nome;  o 
jornal,  trombeta  do  cabotinismo  que  agita  com  o 
mesmo  espalhafato  o  nome  do  homem  que  matou, 
do  homem  que  salvou  cinco  outros,  do  homem  que 
toca  ou  dansa,  ou  pula,  ou  canta  ou  descobre  a 
navegação  açrea,  da  dama  que  usa  plumas  grandes, 
do  ladrão,  do  advogado,  da  senhora  seria,  da  bar- 
regã, do  sabão  da  moda,  do  depurativo,  do  sapatei- 
ro, da  actriz  —  o  jornal,  essa  grande  alavanca  de 
levantar  o  mundo  que  o  philosopho  antigo  já  ten- 
tara adivinhar... 

—  Para  vencer  pois,  V.  Ex.  aconselha-me  que 
aprenda  a  ser  cabotino  de  primeira  classe? 

—  Não;  aconselho-o  apenas  a  ficar  jornalista. 
O  jornalista  é  o  tyranno  da  Federação  das  Gaboti- 
nopolis.  Fique  no  jornal. 

—  E  se  V.  Ex.  fôr  ministro? 

—  Não  o  empregarei. 

—  Já  vê  que  não  é  o  que  diz. 

—  Não,  meu  caro,  farei  apenas  o  que  fez  o 
marquez  de  Pombal  ao  seu  melhor  amigo.  Não  sabe? 
O  seu  melhor  amigo  estava  arruinado  e  foi  dizel-o 
ao  formidável  primeiro  ministro.  O  primeiro  minis- 
tro sorriu,  puxou-o  para  a  janella,  e  com  o  braço  no 
seu  hombro  disse  :  —  Vem  amanhã.  No  dia  seguinte 
fez  o  mesmo.  Oito  dias  depois  o  amigo  estava  con- 
tente :  renascera -lhe  o  credito,  porque  toda  gente  o 
sabia  intimo  do  grande  primeiro  ministro... 


196  JOÃO    DO    RIO 

Cabotino,  hein,  o  Pombal?  E'  de  três  assobios! 

—  Assim,  V.  Ex.  levar-me-á  á  janella? 

—  Não;  chamal-o-ei  para  o  meu  carro  ás  vezes. 
Você  terá  tantos  negócios  e  tantas  advocacias  admi- 
nistrativas que  não  se  lembrará  de  emprego.  E  eu, 
pequeno  ingénuo,  serei  assim,  dupla  e  experta- 
mente  cabotino  :  fecho  a  possivel  hostilidade  de 
seu  jornal  e  finjo  de  democrata,  com  o  trabalho  ape- 
nas de  transportal-o  ao  meu  lado  nos  carros  do 
Estado... 

Era  muito  tarde.  O  velho  politico  olhou  a  face  do 
jornalista  moço  e  viu  uma  tal  expressão  de  êxtase 
admirativo  que  ia  a  acreditar  ter  dito  coisas  estra- 
nhas, lembrando  que  tudo  neste  mundo  foi, 
é,  e  cada  vez  mais  será  cabotinismo,  se  o  jorna- 
lista moço,  abrindo  os  braços  e  tremulo  de  commo- 
ção  não  murmurasse  machinalmente  : 

—  Grande   chefe  !... 


A   má  lingua 


A  MÃ  língua 


O  nosso  pharisaismo  era  naquella  noite  diabó- 
lico. O  grupo  formára-se  dos  receios  mútuos  da 
má  lingua  de  cada  um.  Dous  conversavam  estra- 
çalhando a  honra  de  uma  senhora  honesta,  ou  pelo 
menos  tida  como  tal.  O  terceiro  chegado  tivera 
receio  de  sahir  sabendo  que  o  iam  passar  pelo  ca- 
dinho da  infâmia  logo  após  vel-o  dar  as  costas.  O 
quarto  fora  assim  fraco.  Estavam  uns  seis  ou  oito 
nas  mesmas  condições  e  naturalmente  ferozes 
contra  toda  a  gente.  A  perversidade  com  o  exer- 
cicio  exacerba-se,  de  modo  que,  ao  cabo  de  um 
certo  tempo  naquelle  canto  de  confeitaria,  o  grupo 
a  fallar  parecia  uma  desesperada  matilha  de  cães 
em  fúria. 

O  honesto  magistrado  Diogo  Guimarães?  Hones- 
to? Um  malandrão,  encontrado  certa  vez  num 
alcouce  infecto,  após  um  voto  caro.  A  esposa  do 
Hortencio?  Mas,  o  Hortencio  sahia,  especial- 
mente, para  leval-a  a  estabelecimentos  suspeitos. 


200  JOÃO    DO    RIO 

E  os  filhos  do  Goulart?  Mysterio.  O  Goulart  ia 
tirar  a  sorte  entre  vinte  dos  seus  mais  Íntimos 
amigos.  Ninguém  escapava  daquelle  esmurra- 
mento  bárbaro  da  maledicência,  ninguém  era  serio, 
era  digno,  ninguém  tinha  uma  qualidade  boa.  Em 
compensação  havia  qualidades  más  de  sobra  e 
invenções  integralmente  infernaes.  A  acreditar 
naquelle  grupo  desaçaimado,  a  sociedade  seria  um 
conjunto  de  forçados  da  penitenciaria  e  do  hospicio 
de  alienados,  tripudiando  mas  primeiras  posições, 
para  dar  pasto  á  perversidade  envenenada  de  tanta 
phrase  má.  O  desespero  era  tal,  a  onda  varria 
tanta  gente,  que  já  um,  ao  atacar  mais  alguém, 
punha  a  antepara  :  «  não  sei  se  ha  aqui  alguém 
amigo  de  Gicrano ».  E  as  legendas  mais  estranhas, 
as  invenções  mais  infames  ensopavam  de  lama 
os  nomes  mais  conhecidos. 

Um  dos  maledicentes  habituaes  estava  contando, 
sem  nada  saber  de  positivo,  as  razões  do  divorcio 
do  casal  Garcia  Pedreira. 

—  Dizem,  que  a  culpa  é  delle.  Não  vou  defender 
um  gatuno  advogado  administrativo,  como  o  Gar- 
cia Pedreira.  Mas  a  causa  é  a  mulher.  Combinou  ir 
passar  com  a  mãi,  em  Friburgo,  metteu-se  com  um 
cocheiro  de  praça  e  passou  os  três  dias  de  Carna- 
val vestida  de  homem,  com  um  gabão  de  borra- 
cha, fazendo  de  «  secretario  »  e  sentada  na  boléa. 
Messalina  napelle  de  uma  exótica. 

A  roda  ria  quando  Américo  de  Souza,  que  chegara 
por  ultimo  e  ouvia  todo  o  horror  como  quem  as- 


% 


•VIDA    VERTIGINOSA  201 

siste  ao  vomito  intérmino  de  um  vulcão  lamacento 
disse  frio  : 

—  Essa  senhora  estravagante  não  passou  os  três 
dias  de  Carnaval  nem  em  Friburgo  nem  na  boléa 
de  um  carro  de  praça.  Passou-os  no  leito,  com  febre 
de  quarenta  gráos,  depois  de  uma  forte  commo- 
ção.  E'  nobre  e  honesta. 

Houve  um  silencio  inquieto.  Américo  sorriu  : 

—  O  mesmo  acontece  á  esposa  do  Hortencio,  o 
mesmo  acontece  ao  Diogo  Guimarães,  o  mesmo  acon- 
tece ao  Goulart.  Tudo  o  que  vocês  dizem  para  ahi, 
ha  meia  hora,  com  «  verve»  e  «  entrain»  é  calum- 
nia,  indignidade,  mentira.  Mas  também  que  diriam 
vocês  sem  ter  o  que  fazer  obrigados  a  perambular 
pelas  confeitarias?  Vocês  são,  por  obrigação  do 
officio  de  ociosos,  os  creadores  de  legendas.  Nada 
mais  fértil,  do  que  a  preguiça.  Todas  as  legendas 
envenenadas  são  obra  vossa,  e  essas  legendas  por 
mais  cheias  de  peçonha  raramente  prostram  as 
victimas. 

—  Pelos  modos,  interessa-te  muito  a  mulher  do 
Garcia  Pedreira. 

—  Nem  a  conheço  pessoalmente.  Interessa-me, 
apenas,  accentuar,  aqui,  nesta  pequena  roda  .de 
apaches  amadores  da  virtude  alheia,  um  principio 
—  o  principio  da  falsificação  das  personalidades. 
Descancem.  Não  é  uma  aggressão  á  vocês.  Seria 
idiota.  Neste  momento,  em  outras  confeitarias,  em 
vários  botequins  em  plena  rua,  ha  uma  infinidade 
de  rodinhas  de  frustes,  de  «  fructos  seccos»,  de  pre- 


202 


JOÃO    DO    RIO 


tenciosos  sem  força,  a  fallar  mal,  a  calumniar,  a 
não  ter  uma  idéa  generosa.  Atacar  vocês,  seria 
reproduzir  a  velha  imagem  de  D.  Quixote,  contra 
os  moinhos  de  vento. 

—  Estás  a  dizer-nos  desaforos. 

—  De  que  vocês  se  desforrarão,  quando  eu  sahir, 
inventando  três  ou  quatro  historias,  bem  atrozes  e 
bem  infames.  Mas,  eu  tenho  um  principio. 

—  E'  preciso  que  o  digas... 

—  Um  principio  reservado  a  estabelecer,  entre 
vocês  e  é  que  a  má  lingua  é  a  maior  idiotice  do 
orbe.  Em  primeiro  logar.  a  má.  lingua  tem  por  fim 
crear  uma  legenda  que  tisna,  uma  calumnia  que  se 
torna  a  sombra  fantasista  de  uma  vida  .Basta  que 
a  vida  seja  exemplar,  para  que  a  legenda  má  só  a 
realce.  Alguém  que  escutasse  o  caso  da  Garcia  aqui, 
só  ficaria  respeitando  mais  essa  senhora.  Por  esse 
lado,  e  esse  lado  é  a  base  inconsciente  dos  «  vir- 
tuosi ))  da  calumnia  urbana,  a  má  lingua  é  inoffen- 
siva.  Eu  conheci,  durante  dez  annos,  uma  alma  de 
artista  a  quem  a  calumnia  dava,  no  minimo,  os 
vicios  de  Heliogabalus,  e  que  a  sociedade  respeitou 
sempre  porque  era  a  sombra  falsa  —  a  legenda. 

Por  outra,  meus  camaradas,  a  legenda  calumnio- 
sa  é  um  propulsor  da  popularidade  nessas  épocas 
de  nervosismo  e  de  attracção  do  mal,  e  neste  caso, 
os  má-linguas  são  os  patetas  encarregados,  com 
todo  o  seu  ódio,  de  conservar  o  fogo  sagrado.  Um 
homem  esperto,  fadado  pelos  deuses  a  preoccupar 
os  seus  contemporâneos,  se  quizer  crear  uma  atti- 


VIDA    VERTIGINOSA  ZiJÓ 

tude  OU  modifical-a,  é  fazer  um  gesto  e  deixar  o 
resto  ao  cuidado  da  legenda.  Sempre  que  eu  ouço 
um  de  vocês  contar  que  fulano  é  um  meneláo  cynico 
e  um  tal  gatuno  immoral,  começo  por  pensar  imme- 
diatamente  o  contrario,  e  no  theatro,nas  festas, nas 
grandes  agglomerações  dos  nomes  em  vista,  quer 
das  mulheres  quer  dos  homens,  faço  o  meu  julga- 
mento de  qualidades  más  pelo  que  vocês  não  dizem 
e  de  qualidades  boas  pelo  que  vocês  affirmam  de 
horrível.  Quando  alguém  me  assegura  :  Tens  alli  um 
canalha  de  sorte  !  a  minha  sympathia  vai  logo  para 
um  homem  intelligente.  E  se  não  fosse  assim,  eu 
teria  uma  opinão  horrenda  da  famiUa,  da  sociedade, 
dos  homens,  e  do  paiz  que  é  o  meu. 

Talvez  vocês  assegurem  que  isso  é  uma  teimosia 
paradoxal.  Não  é.  Vocês  são  úteis.  Utilíssimos. 
Xada  se  perde  na  natureza.  Vocês  são  os  portadores 
das  mentiras  que  a  gente  quer,  e  quando  são  das 
mentiras  que  a  gente  não  quer  (raramente  porque 
o  talento  do  má-lingua  é  apenas  feito  para  desen- 
volver e  exaggerar)  integralmente  inócuos.  Ainda 
não  tive  um  exemplo  falho.  Para  conseguir  uma 
attitude  basta,  com  certa  publicidade,  carregar  um 
pouco  num  gesto.  Dias  depois  a  psychologia  per- 
versa já  arranjou  uma  legenda  fantástica  e  como 
a  credulidade  pubhca  é  inaudita,  fica  você  como 
um  ser  estranho.  Quando  quizer  mudar,  mudar  o 
gesto  basta.  A  má  lingua  encarrega-se  de  tudo  o 
mais.  Eu  conheci  um  homem  puro  e  honesto,  que 
nem  a  tão  commum  perversidade  cerebral  possuia. 


204  JOÃO  DO  RIO 

Esse  homem  era  conhecido  como  o  maior  devasso 
dos  meus  amigos.  Eu  já  lancei  como  poeta  novo, 
poeta  do  «  sensitismo »,  auctor  de  um  soneto  ideal 
de  forma,  certo  individuo  que  nunca  perpetrou 
sequer  uma  quadra  e  que  com  grande  riso  seu  foi 
considerado  o  Revoltado  durante  annos,  sem  que 
fosse  preciso,  ao  menos,  passar  das  primeiras  pala- 
vras do  fantástico  soneto  : 

«  A  sensação  !  Na  vida...» 

Com  estas  quatro  palavras,  elle  foi  espalhado, 
apontado  e  injuriado.  Para  ser  importante  nos 
tempos  que  correm  é  quanto  basta.  Assim,  a  má 
lingua  que  diz  :  aquelle  sujeito  é  um  rico  avaro ! 
desenvolve-lhe  o  credito  como  obriga  a  confiança 
do  vendedor,  que  recebe  a  conta  de  outro  tido  por 
caloteiro.  Assim,  a  má  lingua  cria  a  curiosidade 
dos  ingénuos  e  torna  mais  respeitosa  a  sympathia 
dos  que  percebem  a  sua  calumnia.  Assim,  a  má 
lingua  mesmo  quando  deturpa  um  facto  e  arrasta 
o  homem  por  essas  ruas,  que  são  bem  nascidas  da 
grande  rua  da  Amargura,  conserva  o  seu  nome 
vivo,  o  seu  nome  na  attenção  geral,  o  seu  nome 
f  aliado. 

—  Mas  quando  ha  provas,  factos,  documentos? 

—  Quando  ha  isso  não  é  má  lingua,  é  verdade,  e  é 
inteiramente  um  caso  diverso.  Mas  nenhum  de 
vocês  prova  com  documentos  na  mão,  posto  que 
não  tenham  nada  com  o  facto  de  ordem  particular, 
que  a  senhora  do  Goulart  tenha  amantes  nem  que 
a  senhora  do  Garcia  passasse  os  três  dias  de  Carna- 


VIDA    VERTIGINOSA  205 

vai  com  um  cocheiro  de  praça,  fazendo  de  «  secre- 
tario )).  A  calumnia  é  infame,  mas  a  má  lingua  for- 
ma-se  exactamente  de  calumnias  que  não  se  pro- 
vam e  que,  ao  contrario,  é  fácil,  quando  se  tem 
vontade,  desmentir.  Fica  a  fama  como  um  vago 
rumor  e  ás  vezes  o  tempo,  longe  de  estabelecer  o 
principio  que  a  calumnia  ao  menos  tisna,  modifica 
a  opinião  e  transforma  creaturas  consideradas 
horrivelmente,  em  santas  martyrisadas  pela  babu- 
gem da  perversidade  social. 

Nessa  occasião,  um  rapazola  estridente  approxi- 
mou-se  do  grupo  e  logo  para  quem  fallava  : 

—  Parabéns  !  Não  negues  !  Já  toda  a  gente  sabe. 
Que  devasso  e  que  felizardo  este  homem.  Foi  hon- 
tem  com  a  Lola  Prates  para  casa.  E  viram-no  numa 
posição  no  carro,  que  posição  !... 

Américo  sorriu. 

—  Ora,  aqui  teem  vocês  a  má  lingua  agradável ! 
A  Lola  é  hoje  a  mulher  mais  formosa  do  Rio.  Com 
ella,  todas  as  posições  seriam  para  causar  inveja. 
Hontem,  fui,  com  eíTeito,  levar  essa  creatura  á  casa, 
mas  apenas  com  as  dores  de  uma  appendicite  que  a 
obrigou  a  ser  operada  hoje.  Fui  por  compaixão. 
As  nossas  relações  não  passam  de  apertos  de  mão 
sem  desejo.  Pois  já  hoje  eu  sou  da  Lola,  em  posição 
curiosa  no  carro.  E  amanhã,  serão  ditos  horrores  ! 

A  má  lingua  é  isso  —  a  deturpação,  o  exaggero 
do  nosso  gesto.  Se  eu  quizesse  passar  por  conquista- 
dor, ahi  estava  a  convencer  vocês  com  quatro  ou 
cinco  phrases  evasivas  e  com  certeza  de  que  cinco 


206  JOÃO    DO    RIO 

—  ou  mais  senhoras  me  olhariam  já  de  outro  modo. 
A  má  lingua  !  Não  ha  nada  de  positivamente  ruim 
no  mundo.  Esta  acção  ignóbil,  que  vocês  fazem 
quasi  profissionalmente  e  que  toda  a  gente,  mais 
ou  menos,  pratica  é  o  echo  da  fama  e  a  creação  da 
legenda,  que  empolga  como  uma  grande  sombra,  a 
multidão.  Para  as  senhoras,  para  os  fracos  essa 
calumnia  não  chega  a  produzir  o  desastre.  Para  os 
homens  públicos  é  um  accrescimo  de  renome  actual, 
porque  no  futuro  o  que  importa  é  o  gesto,  a  obra, 
a  acção.  E  eu  só  tenho  pena  que  graças  a  vocês  e  ás 
calumnias  e  ás  piadas  dos  cafés  e  dos  « bars)),  muita 
creatura  idiota  tenha  ficado  á  tona  tanto  tempo... 

E  Américo  levantou-se.  Então,  o  que  estava  a 
fallar  da  honra  de  Mme  Garcia,  teve  uma  excla- 
mação alegre. 

—  Continuemos,  meus  senhores,  a  praticar  a  boa 
acção.  Este  Américo  que  poza  o  paradoxo  porque 
dizem  delle  cousas  atrozes,  estava,  ha  um  mez... 

E  todos,  com  afinco,  para  occupar  o  não  que 
fazer,  continuaram  a  estraçalhar  a  reputação  alheia, 
nesse  prazer  curioso  que  é  uma  das  feições  mais^ 
accentuadas  das  conversas  cariocas. 


Feminismo   activo 


FEMINISMO  ACTIVO 


—  V.  exa.  deseja? 

A  dama  de  uma  belleza  grave,  modestamente 
vestida,  sorriu  sem  tristeza. 

—  Excellencia  é  talvez  exaggerado.  Eu  sou 
apenas  Mme.  Teixeira,  uma  criatura  a  que  a  neces- 
sidade acompanha  e  que  não  tolera  a  ociosidade. 
E  desejava  trabalhar,  trabalhar  como  um  rapaz 
trabalhador.  E'  possivel? 

—  Mas  perfeitamente. 

—  E  o  sr.  seria  capaz  de  interessar-se  por  mim? 

—  De  boa  vontade. 

—  Então  dê-me  uma  carta.  Quero  ser  caixeira. 
Não  tive  a  menor  surpresa.  Sentei-me,  escrevi 

um  bilhete  para  certo  grande  armazém,  entreguei- 
lh'o.  Mme  Teixeira  agradeceu  sem  excesso  e  sem 
requebros  equívocos,  saudou,  desapareceu  no  cor- 
redor. Ia  muito  bem  e  muito  superior. 

Ha  dez  annos,  o  acto  dessa  senhora  seria  um 
acontecimento.  Hoje  —  graças  aos  deuses  !  —  é 
natural  entre  as  cousas  naturaes.  O  nosso  antigo 

12. 


210  JOÃO    DO    RIO 

preconceito,  o  preconceito  lusitano  de  afastara  mu- 
lher da  actividade,  obrigando-a  á  vida  de  parasi- 
tismo quando  não  de  serralhos  abertos,  pelo 
menos  de  genyceu  romano,  onde  a  matrona  era  a 
augusta  o  respeitável  fabricante  do  prolonga- 
mente  das  familias  —  desapparece.  E'  propria- 
mente a  libertação  definitiva  do  sexo.  E  de  modo 
lento  e  engenhoso. 

Essas  criaturas  que  Proudhon  definia  como  «  um 
meio  termo  entre  o  homem  e  o  animal  «  e  Shope- 
nhauer  aconselhava  a  «  bater,  dar  de  comer,  e 
fechar  »  começaram  pela  independência  mundana. 
Uma  senhora  mundana  é  um  ornamento  social, 
representa  um  papel,  pertence  m.ais  ao  programma 
do  dia  que  ao  lar.  Depois  tivemos,  mesmo  na 
monarchia,  senhoras  libertas,  que  chegaram  á 
literatura  e  fizeram  versos.  Eram  vistas  com  terror 
sagrado  pelas  matronas  e  com  um  ar  de  ironia 
invejosa  pelos  homens.  Conheci  uma  dessas  se- 
nhoras que  se  chamou  a  baronesa  de  ^lamanguape, 
cuja  vida  de  agonias  intimas  daria  para  uma 
novella  phantastica  de  tormentos. 

Mas  a  situação  de  obrigar  a  mulher  á  escravidão 
social  com  o  argumento  da  sua  fragilidade  fe- 
chando-a  no  limite  de  ou  a  ser  dona  de  casa, 
mantida  pelo  homem  como  um  apparelho  do  lar, 
mais  ou  menos  estimável",  ou  virar  a  esquina  da 
honra  com  a  dor  maior  de  ser  ainda  mantida  pelo 
homem,  devia  acabar.  Devia  acabar  pelo  desenvol- 
vimento social  da  terra,  pela  corrente  permanente 


VIDA    VERTIGINOSA  211 

das  idéas  estrangeiras,  pela  invasão  immigratoria, 
pelas  necessidade  urgente  da  vida  intensa.  No 
tempo  em  que  uma  senhora  só  sahia  á  rua  nos  dias 
solemnescom  o  esposo,  a  filharada  e  as  criadas,  no 
tempo  em  que  as  cocottes  revolucionavam  a  cidade 
como  animaes  diabólicos  encarregados  de  perder 
os  pães  de  familia,  e  as  actrizes  eram  essas  damas, 
era  possivel  que  uma  mulher  achasst  natural, 
sem  fundo  de  exploração  e  de  parasitismo,  viver 
á  custa  do  senhor  seu  marido. 

—  Mulher,  dizia-me  um  conselheiro  —  mulher 
é  para  ficar  em  casa.  Si  eu  tivesse  uma  filha  que- 
rendo ser  como  lá  fora  medica  ou  advogada, 
matava-a ! 

—  E'  mesmo,  accrescentava  a  conselheira,  — 
até  parece  incrível  uma  moça  seria  apprendendo 
em  livros  de   homens  ! 

E,  phenomeno  curioso  !  só  os  pobres,  a  gente 
pobre  que  faz  mais  filhos  e  trabalha  mais  estabe- 
lecera no  casal  o  communismo  do  trabalho  para  o 
direito  egual  á  despesa  —  porque  as  mulheres  dos 
trabalhadores  braçaes  sempre  trabalharam  tanto 
quanto  os  maridos. 

A  Repubhca,  isto  é  a  acção  de  Benjamin  Gons- 
tant  e  de  seus  discípulos  mesmo  anteríor  á  Repu- 
bhca, fez  a  carreira  liberal  das  professoras  publicas. 
Meninas  que  não  contavam  certo  o  casamento, 
famílias  modestas  sentiram  o  bem  de  dar  instruc- 
ção  ás  filhas  garantindo -lhes  o  futuro.  Esta  car- 
reira abriu  horizontes.  A  primeira  medica  causou 


212  JOÃO    DO    RIO 

espanto.  Os  homens  foram  os  que' mais  a  guerrea- 
ram no  seu  egoísmo  de  tudo  querer.f^A  primeira 
advogada  foi  chasqueada.  A  totalidade  dos  cére- 
bros masculinos  não  pensa  no  outro  sexo  sem  um 
desejo  de  humilhação  sexual.  Essas,  porém,  eram 
casos  excepcionaes  de  aspiração  grande.  Havia 
também  a  necessidade,  e  a  sinceridade  envergo- 
nhada e  que  não  tinha  coragem  de  se  ir  propor  aos 
patrões  para  trabalhar  honradamente. 

Gomo  resolver  o  problema? 

A  civilização  resolveu-o  naturalmente.  Não 
estamos  ainda  na  cidade  ingleza  de  High  Wycombe, 
em  que  miss  Ethel  Dove  foi  eleita,  unanimemente 
pelo  conselho  municipal,  prefeita.  Não  estamos 
no  Gincinatti,  em  que  uma  senhora  architecta  foi 
encarregada  de  construir  um  theatro  modelo. 
Não  estamos  em  Londres,  em  que  as  mulheres 
fazem  meetings  querendo  occupar  um  logar  na 
representação  nacional.  Não  estamos  em  Paris, 
onde  as  mulheres  são  cocheiras  e  lutam  pela  vida, 
guiando  os  carros  da  praça  pelos  boulevards. 
Ainda  não  temos  a  mulher-sandwiche.  Mas  iremos 
lá  necessariamente  e  honestamente,  abolindo  velhos 
preconceitos. 

Qual  a  situação  da  mulher  actualmente?  Ha  a 
mulher  sociedade,  mulher  salão,  bella,  mundana 
influente.  Não  existia  outr'óra.  Hoje  veste  no 
Paquin,  mantém  um  salão  com  recepções  e  five-o- 
clock.  E'  em  muitos  casos,  posto  que  não  pareça, 
a    associada     do     homem    politico.     Um     direc- 


VIDA    VERTIGINOSA  213 

tor  de  jornal  dizia-me  outro  dia  de  um  ministro. 

—  Este  X  está  insuportável !  Mas  eu  dei  a  minha 
palavra  de  honra  a  Mme  Z  que  o  não  atacaria. 

E  era  verdade.  Ha  em  seguida  a  literata. 

Eu  sempre  tive  pelas  senhoras  que  fazem  lite- 
ratura —  um  atemorado  respeito. 

As  relações  com  uma  poetisa  são  verdadeiros 
desastres  impossiveis  de  remediar,  masque  o  galan- 
teio social  obriga  a  acoroçoar.  Quando  a  femme 
des  lettres  deixa  o  verso  e  embarafusta  por  outras 
dependências  da  complicada  arte  de  escrever,  as 
relações  passam  á  calamidade.  No  ultimo  congresso 
scientifico,  uma  dessas  damas,  mettida  numa  roupa 
semi-masculina,  apanhou-me  certa  vez  de  sopetão, 
e  eu  passei  um  dia  inteiro  a  vel-a  manejar  o  lor- 
gnon,  recitar,  com  pedroiços  na  voz,  um  ensaio 
sobre  o  feminismo  no  Brasil  e  pedir,  entre  suspiros 
languidos,  um  pouco  dagua  com  assucar.  Desde 
então  o  meu  respeito  transformou-se  em  terror  e  é 
bem  de  crer  que  este  terror  augmente,  dada  as 
evidentes  manifestações  de  epidemia  literária, 
que  ora  convulsione  os  cérebros  femininos.  Hoje  a 
cidade  tem  uma  infinita  serie  de  modalidades  do 
protheu  :  —  ha  poetisas,  ha  rivaes  de  Maupassant, 
ha  advogadas  escriptoras  sociaes,  ha  ensaistas, 
ha  romancistas,  ha  comediographas,  literatas 
profissionaes,  literatas  mundanas,  literatas  |  de 
cartões  postaes...  E'  preciso  um  cuidado  enorme 
para  andar  na  rua,  estar  num  baile,  entrar  num 
café,  assistir  a  uma  exposição  da  arte,  ir  a  uma 


214  JOÃO    DO    RIO 

conferencia;  é  preciso  uma  pesquiza  adunca  para 
escapar  á  literatura  das  damas,  mesmo  no  namoro 
serio  ou  no  flirt  adiador.  A  dama  literata  lá  está, 
a  dama  literata  está  em  toda  a  parte. 

Mas,  porque  esse  terror?  Porque,  em  primeiro 
logar  e  por  via  de  regra,  essas  senhoras  são  de 
uma  absoluta  mediocridade;  porque,  em  segundo 
logar  e  como  consequência  da  postiçaria  espiri- 
tual, as  mesmas  senhoras  deixam  de  ser  mulheres 
para  tomar  attitudes  incompatíveis,  vestuários 
reclames  e  fazer  em  torno,  com  algumas  idéas 
impraticáveis,  um  barulho  maior  que  o  homem 
bólido.  Ninguém  pôde  deixar  de  respeitar  D.  Júlia 
Lopes  de  Almeida,  um  talento  engastado  na  mais 
pura  alma  de  mulher  ou  Mme  Faure  que  quer  con- 
tinuar a  ser  mulher  quando  as  suas  collegas  desis- 
tem do  sexo,  mas  hão  de  concordar  intolerável  uma 
matrona  de  casabeque  e  punhos,  dizendo  tohces 
no  bP  congresso  scientifico,  em  vez  de  ficar  em 
casa  a  remendar  lucrativamente  as  piúgas  do 
esposo... 

Porque  escrevem  essas  senhoras?  Ninguém  o 
soube;  ninguém  o  saberá.  Com  certeza  porque  não 
tinham  mais  o  que  fazer,  como  a  Duqueza  de  Dino. 
Mas  ellas  escrevem,  escrevem,  escrevem.  E  é 
uma  actividade,  é  um  trabalho,  um  trabalho  libe- 
ral, tanto  que  uma  senhora  chamada  Jane  Misine 
já  fez  uma  conferencia  com  o  seguinte. titulo  afir- 
mativo apezar  da  interrogação  :  E'  a  mulher  de 
letras  um  typo  social? 


VIDA    VERTIGINOSA  215 

Mas  ao  lado  de  exhibicionismo  irritante  e  da 
vaidade  activa,  ha  o  labor  continuo  e  modesto  que 
as  iguala  ao  homem. 

Nos  grandes  armazéns,  o  caixa  é  sempre  uma 
senhora,  varias  secções  são  occupadas  especial- 
mente por  mulheres.  Nos  botequins,  nos  restau- 
rantes, ellas  lá  estão  fazendo  trocos.  Senhoras 
bellas  e  distinctas  são  agentes  de  seguro,  andam  a 
trabalhar  desde  cedo,  agentes  de  annuncios,  repor- 
ters  reclamistas,  professoras  de  linguas.  No  correio 
e  nos  telegraphos,  as  novas  agencias  são  occupa- 
das por  meninas.  Ninguém  mais  fica  admirado  que 
uma  senhora  tenha  que  fazer,  trabalhe,  collabore 
na  vida  social,  esteja  ao  lado  do  homem,  capaz  de 
ter  idéas  pessoaes  e  de  existir  sem  o  auxilio  pecu- 
niário. O  dono  de  um  grande  armazém  dava-me 
conta  das  suas  impressões  : 

—  Você  não  imagina  como  eu  mesmo  me  admiro 
da  rapidez  da  assimilação.  Essas  meninas  sem  pra- 
tica, collocadas  no  balcão  são  em  primeiro  logar 
muito  mais  amáveis  que  os  homens.  Depois... 

—  Depois? 

—  Depois  vendem  mais,  sabem  envolver  a  fre- 
guezia,  entendem  seriamente,  dois  dias  após  a 
(Mitrada,  da  sciencia  do  negocio.  Sou  forçado  a 
admittir  novas  e  ainda  não  despedi  nenhuma.  O 
commercio  a  varejo,  como  uma  serie  de  outras 
profissões,  devia  ser  feito  por  mulheres. 

Que  diria  a  esse  homem  pratico  o  espirito  con- 
servador? Que  responderia  ao  negociante  o  padre 


216  JOÃO    DO    RIO 

Bouvier,  que  affirmava,  segundo  Ernest  Charles,  ser 
a  mulher  um  «  mixto  do  burro  pela  teimosia,  da 
gata  pela  preguiça,  da  gallinha  pelo  cacarejar,  de 
macaco  pela  lábia  »  e  que  rematava  a  violência 
assegurando  :  —  «  quanto  á  lascívia  e  á  maldade  a 
mulher  só  a  ella  própria  pôde  ser  comparada  «? 
Ficaria  furioso,  bradando  contra  a  immoralidade 
—  porque  a  immoralidade  é  socialmente  apenas 
aquillo  que  não  é  uso  fazer  e  pensar  no  momento. 

Eu  estou,  porém,  convencido  de  que  adquirindo, 
a  mulher  a  posição  a  que  tem  direito  na  sociedade, 
mas  adquirindo  como  um  homem,  pelo  seu  esforço, 
pelo  seu  trabalho,  pela  sua  intelligencia,  a  vida 
será  muito  mais  nobre,  muito  mais  doce,  muito 
mais  graciosa,  muito  mais  bella.  Dizem  que  o  amor 
maternal  enfraquece  e  os  laços  do  lar  desatam.  Mas 
ha  pães  extremosissimos,  que  toda  a  sua  vida 
trabalharam,  e  ha  mães  que  vivem  em  casa  e  batem 
nos  filhos.  Dizem  que  o  amor  será  diverso.  Ah  !  este 
sim !  este  mudará !  As  meninas  não  esperarão  um 
marido  apenas  para  continuar  sem  fazer  nada,  nem 
os  pães  impingirão  as  filhas  como  um  bicho 
dispendioso.  E'  o  amor  pelo  amor,  sem  interesse, 
convencidos  ambos  de  que  são  eguaes  e  que  neste 
mundo  quem'\não  deixa  o  sulco  da  actividade  é 
indigno  de  viver. 

Certo,  a  minha  phantasia  vê  esse  futuro  muito 
próximo  deante  de  alguns  casos  de  femenismo 
racional  sem  literatura.  Mas  o  meu  enthusiasmo  é 
cada  vez  mais  vivo  quando,  ao  visitar  uma  fabrica, 


VIDA    VERTIGINOSA  217 

vejo  a  mulher  e  o  marido  trabalhando  egualmente 
em  teares  idênticos  emquanto  os  filhos  estão  ou  no 
collegio  de  mulheres  ou  já  na  oíTicina  como  appren- 
dizes,  mostrando  o  mesmo  valor  dos  pães ;  a  minha 
alegria  é  grande  quando  converso  com  uma  se- 
nhora que,  longe  de  trinar  insignificâncias,  diz 
profundamente  cousas  sérias;  o  meu  contentamento 
de  civihzado  augmenta  quando  corajosamente  vejo 
uma  rapariga  preferir  ao  concubinato,  ao  mau 
casamento  ou  á  perdição,  um  posto  honrado  de 
trabalho,  em  que  o  dinheiro  lhe  vem  ás  mãos  limpo 
e  digno. 

Romantismo  !  dirão.  O  homem,  pelos  hábitos 
de  sociedade,  aliena-se  gentilmente  deante  das 
raparigas...  A  reforma  dos  costumes  é  mais  um 
assalto  feminino. 

Conforme.  Eu  considero-as  meus  eguaes.  No 
mesmo  dia  em  que  dei  o  cartão  a  Mme  Teixeira, 
recusara  amavelmente  cartas  de  recommendação 
para  uma  das  muitas  senhoras,  mediocres  que  como 
tantos  outros  homens  mediocres  fazem  conferen- 
cias circulares  pelo  interior.  E  recusei  como  recu- 
saria a  um  homem.  E'  que  ha  trabalho  e  trabalho, 
honestidade  e  honestidade,  no  dizer  do  venerando 
Quintino.  E  ha  também  para  mim  a  certeza  de  que 
o  feminismo  activo  não  é  dizer  bobagens  e  fazer 
livros  idiotas,  captando  complacências  e  lucros 
por  ser  mulher.  Mas  corajosamente  pôr-se  ao  lado 
do  homem  e  ser  a  sua  companheira  e  a  sua  egual 
na  vida,  utihzando  as  suas  quahdades  no  aperfei- 

13 


218  JOÃO    DO    RIO 

çoamento  da  sociedade.  Renan  disse  que  os  homens 
devem  ter  todas  as  opiniões  para  saber  qual  a 
melhor.  Tenho  essa  opinião  ha  vários  annos.  E' 
talvez  a  mais  velha  opinião  adquirida  que  possue 
o  meu  cérebro.  E  até  agora  não  vejo  a  necessidade 
senão  de  conserval-a  na  medida  do  possivel... 

Dias  depois  de  dar  o  cartão  para  o  grande  arma- 
zém, encontrei  o  proprietário  : 

—  Já  está  empregada  a  sua  protegida.  Excel- 
lente  e  com  duas  filhas  muito  intelhgentes. 

—  Quem  é? 

—  Homem  leviano,  que  apresenta  sem  conhecer  ! 
Mme  Teixeira  é  uma  viuva  que  só  achou  aquella 
solução  á  vida.  Como  as  meninas  iam  vel-a,  dei- 
Ihes  um  «  rayon  »  de  confecções  de  crianças.  Ga- 
nham honestamente  o  seu  dinheiro. 

—  E  estão  contentes? 

—  Como  quem  tem  a  convicção  de  ser  sério. 
Não.  A  mulheres,   que  tem  servido  sempre  as 

transformações  lerdas  da  civilisação  masculina 
são  no  século  da  actividade  febril,  desejosas  de  se 
egualar  ao  homem.  E  com  esplendidas  qualidades, 
inclusive  a  falta  de  noção  do  tempo.  O  D.  Mac 
Dougal,  da  Universidade  de  Harvard,  reuniu  duzen- 
tas e  cincoenta  raparigas  e  fez  uma  descoberta 
sensacional.  Perguntou -lhes  —  umas  lendo,  outras 
trabalhando,  outras  desocupadas,  — quanto  tempo 
tinha  passado,  entre  trinta  e  cem  segundos.  Todas 
deram  um  tempo  muito  maior.  Uma  chegou  a 
afirmar  que  passara  dez  minutos.  Não  tinham  a 


VIDA    VERTIGINOSA  219 

noção  do  tempo?  Não.  Tinham  a  noção  do  tempo 
moderno,  da  lentidão  do  tempo  e  da  vertigem  do 
momento.  E  cada  uma  d'ellas  avaliava  o  segundo 
por  minutos  e  os  minutos  por  horas... 


o  Trabalho  c  os   Parasitas 


o  TRABALHO  E  OS  PARASITAS 


A  civilisação  traz  a  multiplicidade  das  profis- 
sões. Numa  aldeia,  que  recursos  tem  uma  mulher 
para  ganhar  a  sua  vida?  Numa  cidade  pequena, 
cidade  que  se  diga  de  segunda  ordem  mas  seja 
mesmo  de  quarta,  que  recursos  tem  um  homem? 
Todos  se  conhecem,  tudo  se  sabe,  e  por  isso  mesmo 
tudo  é  feio.  A  honestidade  é  uma  qualidade  de  que 
fazemos  questão  nos  outros.  Nas  aldeias,  nas  peque- 
nas cidades,  e  mesmo  nas  grandes.  Apenas  nas 
grandes  tudo  é  torrencial,  excessivo,  abundante,  e 
na  torrente  vão  arrastados  os  menos  dotados. 
Dahi  a  multipHcidade  de  profissões  de  que  as  gran- 
des capitães  são  ninho  acalenta^dor.  Ha  profissões 
de  deixar  um  homem  ingénuo  de  queixo  cabido, 
ha  profissões  subitamente  profissões  tão  originaes 
que  os  mais  scepticos  têm  de  curvar-se. 

Eu  vinha  precisamente  a  pensar  na  somna 
enorme  de  trabalho  contemporâneo.  Vivemos 
melhor?  Ha  mais  dinheiro?  E'  verdade.  Mas  cada 


224  JOÃO  DO  RIO 

um  na  sua  profissão  trabalha  mais.  E'  o  estadista 
com  a  somma  de  responsabilidades  acrescidas, 
querendo  impor-se  ao  povo;  é  o  industrial,  é  o 
escriptor  compondo  livros  sucessivos,  é  o  jornalista 
estalando  de  trabalho,  são  os  artistas  e  os  arte- 
sãos sem  descanso,  multiplicando-se,  é  o  commer- 
ciante,  é  o  operário  dobrando  o  serviço.  O  desejo 
do  dinheiro  e  do  confortável  multiplica  o  trabalho. 
Até  os  empregados  públicos  são  outros  na  verti- 
gem da  vida  intensa.  Até  as  mulheres  e  as  creanças 
atiram- se  resoludamente  á  conquista  do  bem 
estar  pelo  trabalho.  Não  é  possivel  comprehender 
a  vida  de  hoje  na  bohemia  espectatora  ou  na 
ociosidade.  A  cidades  são  grandes  forjas  de  acti- 
vidade. 

Vinha  a  pensar  no  magnifico  espectáculo  quando 
encontrei,  após  longa  ausência,  de  certo  na  Deten- 
ção, um  estimável  amigo,  o  incorrigivel  ladrão 
Agostinho  Batata,  o  creador  da  « gravata  modern 
styl  »  no  mundo  dos  larápios.  Apertei-lhe  a  mão 
leal, — leal  para  elle,  porque  nunca  o  deixou  mal  — 
exclamei  : 

—  Ha  quanto  tempo  ! 

—  E'  verdade.  Ha  uns  annos. 

—  Então  que  se  faz? 

—  Eu  sai  ha  seis  mezes  de  cumprir  a  sentença. 
E  o  senhor?  No  mesmo,  continua  na  mesma  pro- 
fissão? Olhe  que  deve  ser  aborrecido... 

—  Aborrecidíssimo,  principalmente  porque  ha 
uma  porção  de  pessoas  desejosas  de  delia  fazerem 


VIDA    VERTIGINOSA  225 

parte  sem  saber  ler  e  que  se  vingam  descompondo 
a  gente. 

—  E'  isso.  Uma  complicação !  E  você,  continua 
gatuno?  Também  tem  seus  contras... 

—  Oh !  está  fazendo  pouco  no  seu  creado. 

—  Já  não  és  gatuno? 

—  Olhe  bem  para  mim... 

Reparei  então  que  Agostinho  Batata  tinha  uma 
roupa  modesta  e  um  ar  de  violeta  vergonhosa. 
Era  attrahente  quasi. 

—  Regeneraste -te? 

O  conhecido  «  gravateiro  )>  sorrio. 

—  O  senhor  acredita  que  alguém  se  regenere 
no  mundo?  Não  me  regenerei.  Mudei  de  profissão. 
A  profissão  de  gatuno  é  cada  vez  mais  arriscada. 
Uma  pessoa  empenha  a  vida  e  ás  vezes  não  tira 
nada,  ou  tira  uns  annos  de  prisão.  Bonita  não  ha 
duvida,  intelhgente,  valente,  porque  é  a  única  em 
que  o  roubo  é  crime  —  lá  isso  bem.  Mas  arrisca- 
dissima.  Quando  sai  da  Detenção,  pensei  muito 
tempo.  Que  apito  tocarei  eu  agora? 

—  Era  difficil. 

—  Mais  do  que  imagina.  Era  preciso  escolher 
entre  as  profissões  em  que  não  se  faz  nada. 

—  Oh !  creança  louca !  são  as  abundantes  no 
Rio.  Gomo  protegido  de  Mahomet  dos  Levitas,  o 
formidável  Pinheiro,  você,  Agostinho  Batata, 
tinha  logo  um  desses  trabalhosos  empregos... 

—  Não  preciso  de  protectores.  Assim,  triste  e 
philosophicamente,  puz-me  a  palmilhar  a  Avenida. 

13. 


226 


JOÃO    DO    RIO 


Montaria  um  jornal  para  edições  únicas  com  vários 
títulos  e  varias  primeiras  paginas  após  publica- 
ções officiaes?  Faria  chantages?  Seria  amante  de 
velha  rica  ou  meretriz  abonada?  Serveria  de  secre- 
tario a  algum  politico  influente?  Apresentaria  a 
minha  candidatura  a  intendente  ou  a  deputado? 
Tudo  isso  leva  tempo... 

—  E  custa  um  pouco  de  dinheiro  para  come- 
çar. 

—  Eu  estava  a  nenhum... 

—  Doloroso  estacionamento. 

—  Passei  um  dia  sem  comer.  Mas  resisti  ao 
apetite  que,  para  satisfazer  o  outro,  tinha  de  bater 
algumas  carteiras.  Não  1  roubar  nunca !  O  Rio  não 
precisa  que  se  use  desses  meios  violentos  :  o  Rio  é 
grande,  e  a  cadeia  é  pequena. 

—  Foi  então?... 

—  Foi  então  que  descobri  a  profissão  commoda 
agora  em  moda  mais  do  que  nunca  :  pedir  dinheiro, 
morder... 

Recuei  prudentemente.  Agostinho  sorrio  avan- 
çando. 

—  Não  se  assuste.  E'  commum,  é  mais  que  com- 
mum,  é  como  o  jogo  do  bicho.  Outr'ora  eram  cita- 
dos dois  ou  três  sujeitos  que  tendo  feito  pro- 
messas de  viver  honestamente  sem  trabalhar, 
viviam  a  morder.  Agora,  esses  sujeitos  são  os  remo- 
tos patriarchas  da  cavação  suave.  Conheço  typos 
desde  os  elegantes  até  os  mal  arranjados,  que  não 
querem  outro  emprego.  Que  digo?  Já  fiz  conhe- 


VIDA    VERTIGINOSA  227 

cimento  com  duas  famílias  proíissionaes  da  «  den- 
tada »  desde  o  chefe  até  o  moleque  copeiro. 

A  esposa  de  capa  preta  e  o  ar  triste  chama  a 
gente  aos  corredores  e  noticia  que  tem  um  cadáver 
em  casa.  As  meninas  fazem  missa  pedida.  Os  rapa- 
zes pedem  emprego  e  emquanto  não  vem  o  emprego 
alguma  coisa.  O  chefe  de  um  desses  lares  é  solemne, 
alto,  de  sobrecasaca.  A  media  é  de  vinte  mil  réis 
por  dia.  O  homem  pede  como  se  cobrasse  e  já  pensa 
em  construir  uma  casinha  no  subúrbio... 

—  E'  espantoso  ! 

—  Qual  espantoso.  O  que  é  preciso  é  uma  certa 
habilidade;  e  conhecimentos,  isto  é,  conhecer  os 
outros.  Ha  os  d'ares  despreoccupados  :  « terás  por 
acaso  uma  de  cinco?  »  Ha  os  d'ares  envergonhados, 
indo  ao  lado  da  victima  e  baixo  : «  deixe  ver  algum 
para  o  jantar  »  :  Ha  os  impertinentes,  atrás  dos 
homens  conhecidos,  aborrecendo-os  até  elles  darem: 
«  sou  um  seu  admirador;  pôde  contar  commigo 
até  a  morte  ».  Ha  os  exploradores  da  sensibilidade 
feminina  :  «  dê-me  a  senhora  alguma  coisa,  conheço 
tanto  seu  marido  e  sua  filha... » E'  infinito  o  numero. 
E  não  é  preciso  esforço  algum  :  é  andar  e  repetir 
a  mesma  cantilena. 

—  Afinal  isso  é  uma  variedade  do  mendigo. 

—  Não  diga  isso,  meu  caro  senhor.  O  mendigo  é 
outra  coisa.  E'  verdade  que  o  numero  tem  tam- 
bém crescido  extraordinariamente  e  eu  contei 
ainda  hontem,  numa  hora  de  Castellões  vinte  e  três 
garotos,   sete   capengas,    dez   cegos,    quinze  sem 


228  JOÃO  DO  RIO 

moléstia    apparente.    Mas    o    mendigo     é    repu- 
gnante. 

—  O  mordedor  é  o  mendigo  do  paiz  do  tão  bom 
como  tão  bom,  do  não  pôde!  e  do  sabe  com  quem 
está  falando? 

—  Corto  relações  se  continua. 

—  E'  uma  opinião,  que  não  admitto.  Nada  de 
insultos.  Sabe  lá  quantos  cavalheiros  e  alguns  até 
distinctos  vivem  hoje  de  morder?  Depois  é  a  civi- 
lisação.  Ha  vinte  annos  em  vez  de  ser  mordedor, 
moço  bonito  ou  agente  de  negócios  eu  tive  a  tolice 
de  estrear-me  na  ladroeira  franca.  Erro.  Hoje  só 
um  parvo  dedica-se  á  carreira  de  ladrão  simples, 
ladrão  sem  mais  nada.  E'  o  mesmo  do  que  querer 
carregar  carvão  nas  ilhas  :  é  o  fim  certo  sôm  futuro. 
O  senhor  que  é  um  homem  razoável,  sabe  perfei- 
tamente o  grande  erro  da  propriedade.  O  erro  da 
propriedade  foi  a  razão  de  todas  a  guerras.  Os  se- 
nhores feudaes eram,  como  eu,  gravateiros  selvagens. 
Por  causa  do  erro  da  propriedade,  os  homens  bri- 
garam violentamente.  Mas  é  uma  descoberta 
moderna  e  definitiva  que  a  violência  é  sempre  pre- 
judicial. Os  gatunos  de  estrada  rareiam  e  appa- 
recem  os  gatunos  de  salão.  Quando,  entretanto,  o 
homem,  está  calmo  reflecte,  e  reflectindo  verifica 
que  tirar  sem  que  os  outros  vejam  ainda  é  grave. 
Então  creou-se  a  ladroeira  com  a  acquiescencia 
geral.  Todos  roubam.  E'  o  momento  do  roubo  pela 
maciota... 

—  Mas  você  está  doido.  Batata. 


VIDA    VERTIGINOSA  229 

—  A  maioria  pelo  menos.  O  capitai  é  uma  hypo- 
these    circulante... 

—  Pelo  amor  de  Deus,  não  digas  tolices. 

—  Eu  poderei  provar  que  o  dinheiro  que  dá  é 
o  ganho  sem  trabalho.  Ha  de  certo  dez  mil  modos 
de  finta  publica,  de  tramóias,  de  negociatas  dessas 
cavações  em  que  o  sujeito  apparece  dizendo  : 
estou  aqui  para  ser  roubado  !  e  apanha  todos  os 
seus  larápios...  Esses  são  de  resto  os  activos.  Os 
mordedores  são  passivos.  Esperam  que  se  lhes  dê, 
para  não  ter  a  menor  responsabilidade.  Hoje,  desa- 
fio a  que  me  prendam.  E.  entretanto,  faço  honesta- 
mente, os  meus  seiscentos  por  mez. 

Cumprimentei  Agostinho  Batata  pela  sua  evo- 
lução moral.  Excellente  rapaz  !  Quem  diria  que 
acabava  domesticado,  aproveitando  os  systemas 
de  cavações  em  moda,  mordendo  mollemente,  elle 
que  tirava  á  força?  Agostinho  sorria  satisfeito. 

Sahi  impressionado.  Oh !  o  Trabalho  augmenta, 
mas  á  proporção  que  augmenta  e  o  dinheiro  entra,  o 
numero  de  parasitas  cresce  espantosamente.  Já 
não  é  precisa  a  violência.  O  ataque  é  feito  suave- 
mente. A  arvore  frondosa  está  cheia  de  parasitas. 
Era  de  desaminar.  Nessa  mesma  noite  fui  a  um 
club  e  dei  de  observar  um  moço  bonito. 

O  joven  era  realmente  elegantissimo.  Cada  gesto 
seu  indicava  o  habito  das  coisas  finas,  o  talhe  do 
seu  frack,  o  corte  do  seu  collarinho,  a  maneira  de 
,pôr  a  gravata  eram  para  um  entendido  outras 
tantas  "indicações  de  fornecedores  notáveis  de  Lon- 


230  JOÃO    DO    RIO 

dres  e  de  Paris  e  de  distincção  instinctiva.  Estáva- 
mos num  desses  clubs  em  que  se  joga  e  sahiamos 
mesmo  da  estupidissima  sala  do  baccarat,  onde  as 
cocottes  perdiam  dinheiro  fácil.  O  gordo  coronel 
Silvano,  fumando  um  charuto  tremendo,  interrom- 
peu-me  com  um  jornal  na  mão. 

—  Estás  a  ver  mais  uma  dos  moços  bonitos? 

—  Que  fizeram? 

—  Agora  comem  de  graça  nos  restaurants.  Que 
achas? 

Eram  duas  da  manhã.  Disse-lhe  aborrecido  : 

—  Acho  uma  acção  heróica. 

E  afastei-me,  tomei  do  chapéu.  Quasi  ao  mesmo 
tempo  o  joven  elegante  fez  o  mesmo,  de  modo  que 
na  rua  nos  encontrámos  lado  a  lado. 

—  Não  faz  uma  boa  noite,  disse  elle. 

—  Para  um  homem  civilisado,  o  bom  ou  o  máo 
tempo  são  indifferentes.   Perdeu? 

—  Eu  nunca  jogo  senão  o  dos  outros. 

—  Ah!  E'  então... 

—  Sou  simplesmente  um  moço  bonito.  E'  a 
minha  profissão.  E  se  me  approximei  do  senhor  foi 
por  ter  ouvido  a  resposta  ao  coronel  Silvano.  Esta 
gente  decididamente  ignora  que  aquillo  que  elles 
pejorativamente  denominam  moço  bonito  —  é 
o  ornamento  essencial  das  perfeitas  civilisações. 
E  o  que  é  mais  :  nenhum  delles  percebe  que  o  nosso 
atrazo  não  permitte  senão  uma  vaga  adaptação 
e  reflexos  realmente  deploráveis. 

—  Vejo  que  é  intelhgente. 


VIDA    VERTIGINOSA  231 

—  Muito  obrigado. 

—  Quer  um  charuto? 

—  Peço  desculpa  para  dizer  que  só  fumo  ha- 
vana. 

—  Faz  muito  bem.  Este  por  acaso  é  e  bom. 

—  Thank... 

Parámos  a  accender  os  charutos  no  lume  do  séu 
isqueiro  —  um  isqueiro  d'oiro  com  rubis  como 
agora  em  Paris  lançou  a  moda  o  Brulé.  E  soprando 
para  o  ar  o  fumo  claro,  eu  disse  : 

—  Com  que  então  na  infância  da  arte? 
O  joven  sorriu. 

—  Pois  claro  !  Que  é  um  moço  bonito?  E'  um 
rapaz  de  educação  e  princípios  finos,  que  detestando 
o  trabalho  e  não  tendo  fortuna  pessoal,  procura, 
sem  escolher  meios,  conservar  boa  cama,  boa  mesa, 
boas  mulheres  e  mesmo  uma  roda  relativamente 
boa.  A  moral  é  uma  invenção  relativa.  A  moral  é 
o  vestido  de  ir  ás  compras  da  hypocrisia.  Si  esse 
moço  bonito  estivesse  na  França  e  tivesse  antepas- 
sados, esperaria  um  dote  fazendo  rapaziadas  como 
o  visconde  de  Courpière  e  o  cadet  Goudras  do  Abel 
Hermant.  Como  porém  está  num  pai^  que  de  fidal- 
guia só  tem  a  vontade  snob  de  possuil-a,  esse  rapaz 
está  ameaçado  da  cadeia,  como  qualquer  gatuno 
sem  intelligencia.  Os  negociantes  honrados,  todas 
as  classes  honradas  do  paiz  abrem  o  olho  attento 
com  medo  dos  planos,  que  em  geral  não  dão  gran- 
des resultados.   Não  acha? 

—  Perfeitamente. 


232  JOÃO  DO  RIO 

—  Digo  lhe  estas  coisas,  porque  de  facto  o  julgo 
acima  da  moral. 

—  Estudei  um  pouco  a  philosophia  de  Nietzsche 
e  como  o  amigo  deve  saber  já  o  Remy  de  Gourmont 
definiu  essa  philosophia  :  a  philosophia  da  mon- 
tanha. 

—  Pois  na  montanha  são  largos  os  horizontes. 
Ainda  bem.  Ninguém  aqui  quer  comprehender  que 
o  moço  bonito  é  um  ornamento  da  civilisação. 
O  senhor  comprehenderá.  Que  é  o  moço  bonito 
afinal  na  sua  raiz?  Parasita.  As  parasitas  só  se 
grudam  ás  arvores  em  plena  força,  e  não  poupam 
a  seiva  dos  troncos  alheios  para  brilhar  na  sua  bel- 
leza.  Assim  o  moço  bonito. 

—  Exacto. 

—  O  moço  bonito  é  o  pendant  da  cocotte 
de  luxo.  Com  os  dois  tudo  marcha  —  o  próprio 
Deus. 

—  Para  a  cadeia? 

—  Para  o  prazer,  para  a  maior  movimentação 
do  dinheiro,  para  a  agitação  civilisada.  Eu  parto 
do  principio  que  ninguém  é  honesto,  honesto  exem- 
plarmente do  começo  ao  fim  da  vida.  Aqui  porém 
onde  as  cocottes  ganham  tanto  e  tem  tanta  consi- 
deração, o  moço  bonito  vê-se  cercado  de  hostili- 
dades. Que  pôde  fazer  um  moço  bonito  no  Rio? 
Pouquissimas  acções  brilhantes  e  com  muito  tra- 
balho. Receber  dinheiros  de  viuvas,  fazer-se  con- 
ductor  de  paios  ás  casas  das  cocottes,  domar  vio- 
lentamnte  uma  senhora  que  lhe  passe  o  arame. 


VIDA    VERTIGINOSA  233 

morder  aqui  e  alli,  viver  na  anciã  do  dia  seguinte. 
Imagine  que  eu  precisava  de  dinheiro  agora... 

—  E'  uma  hypothese? 

—  Absoluta.  Si  fosse  trabalhador,  iria  amanhã 
a  um  prestamista  que  m'o  daria  com  um  juro 
indecentissimo.  Si  fosse  mendigo,  esmolaria.  Sendo 
moço  bonito,  a  simphcidade  desapparece.  E'  uma 
complicação.  Ou  armo  o  grupo  ou  arranjo  uma 
scena.  A's  vezes  a  scena  e  o  grupo  falham  e  é  pre- 
ciso inventar  outros.  Um  moço  bonito  é  sempre 
um  génio  de  calçada  e  imagine  o  senhor  um  desses 
pobres  rapazes  deitando-se  pela  madrugada  sem 
ter  a  certesa  de  fazer  a  barba  e  perfumar-se,  de 
almoçar  e  dar  o  seu  gyro  pelas  pensões  d'artistas, 
sem  a  segurança  do  collarinho  limpo. 

—  E'  horrível ! 

—  Um  collarinho  do  Tramlett  por  lavar  ! 

—  Que  desastre  !  Verdade  é  que  ha  agora  os  de 
papel,  cujo  preço  é  seis  vinteis... 

—  Conheço;  elegância  de  Buenos  Aires,  deplorá- 
vel. Entretanto,  meu  caro,  o  moço  bonito  deita-se 
e  dorme.  E  na  purée,  absolutamente  sans  le  sou 
eil-o  a  guiar  automóveis  a  tomar  aperitivos,  a 
farejar  a  Besta  Doirada. 

—  Bonita  a  imagem. 

—  E'  a  maneira  literária  de  indicar  a  victima. 
Mas  como  o  meio  é  hmitado,  as  caras  são  sempre 
as  mesmas,  a  roda  chie  irrevogavelmente  sem  aug- 
mento,  o  moço  bonito  atira-se  ao  anonymo,  ás 
classes  menos  desprovidas  e  acaba  em  complica- 


234  JOÃO  DO  RIO 

ções  com  a  policia,  cujos  serviços  estavam  ao  seu 
dispor  dias  antes.  Eis  porque  achei  a  sua  frase 
sensatissima.  Com  a  estreiteza  do  meio,  a  incom- 
prehensão  da  grande  corrente  civilisada  que  exige 
a  cocotte  e  o  moço  bonito  —  o  moço  bonito  é  um 
heróe. 

Estávamos  no  cáes  da  Gloria  á  espera  de  um 
tramway.  O  dandy  remirou  as  unhas  lustrosas  : 

—  A  humanidade  é  ferozmente  egoista.  A  socie- 
dade esquece,  e  tanto  que  nos  nega  apoio.  Porque 
de  facto  analyse  a  vida  dos  homens  que  têm  hoje 
cincoenta  annos,  analyse  a  dos  jovens  trabalhadores 
com  um  pouco  de  psychologia.  Bem  raros  serão 
aquelles  que  uma  vez  na  vida  não  foram  moços 
bonitos  e  bem  raros  são  os  que  não  tiveram  já 
pelo  menos  o  desejo  rápido  de  o  ser... 

—  O  cavalheiro  é  profundo. 

—  Sou  um  desilludido,  e  não  vivo  aqui,  vivo  em 
Paris. 

—  Ah! 

—  Faço  como  a  maior  parte  dos  moços  bonitos 
que  se  arriscavam  a  ir  para  a  Correcção  aqui.  Emi- 
grei para  a  Cidade  Luz.  E'  a  única  cidade  onde  o 
homem  é  pago  para  divertir-se.  Tenho  lá  nos  Cam- 
pos Elyseos  rez-do-chão  elegante,  onde  ficam 
alguns  brasileiros  ricos. 

Como  tenho  muitas  relações  nas  diversas  coló- 
nias —  a  brasileira,  a  argentina,  a  egypciana,  nos 
melhores  restaurants  dão-me  20  %  sobre  as  des- 
pezas  dos  meus  amigos.  Quando  vou  só  —  como 


VIDA   VERTIGINOSA  23í> 

grátis.  E  isto  no  Café  de  Paris,  na  Aibaye  do 
Albert,  em  todos  os  restaurants  da  noite.  As  cocot- 
tes  para  lhes  arranjar  bons  michès  transatlânticos 
estão  nos  meus  braços  pelo  mesmo  preço  dos  pra- 
tos  dos  restaurants.   Uma   casa    de    automóveis 
fez-me   presente   de   um   excellente   auto   com   o 
competente  motorista  para  aguicher  os  meus  ami- 
gos, restacueros  ricos  doidos  pelo  automobibsmo. 
Os 'fornecedores  vestem-me  como  commissão  da 
freguezia  que  lhes  levo.  Os  meus  amigos  são  lou- 
cos por  mim  e  deixam-se  sangrar.  De  modo  que 
eu  vivo  docemente,  e  até  ás  vezes  viajando,  em 
passeios  pela  Rivera,  em  excursões  automobibcas 
a  Itália,  em  voos  rápidos  a  Londres,  onde  sempre 
vou  para  o  Savoy...  Não  se  admire.  Nestas  condi- 
ções ha  uma  dúzia  de  jovens  brasileiros  em  Paris. 
Nem  todos  estão  na  alta,  mas  os  que  não  vao  a 
Abbaye  vão  ao  Royal  e  passam  muitíssimo  melhor 
do  que  aqui... 

—  Quando  parte? 

—  Estou  á  espera  de  um  negociante  de  gado 
argentino,  com  o  qual  vou  para  o  Egypto.  Somos 
elle,  eu  e  a  Blondinette. 

—  Amante  dos  dois... 

—  Delle... 

— -  Creia  que  é  um  bello  rapaz. 

—  Faço  o  possível  para  rançonner  o  burguez 
com  certa  linha.  Aqui  isso  seria  material  e  moral- 
mente impossível. 

—  Nós  estamos  num  atrazo  medonho! 


236  JOÃO  DO  RIO 

•  —  E'  o  que  eu  digo  ! 

—  Em  que  bond  vae? 

—  Vou  a  pé. 

—  Pois  prazer  em  cumprimental-o. 

—  E  lá  estamos  ao  dispor,  em  Paris«  Naquelle 
divino  trecho  dos  Campos  Elyseos... 

E'  sempre  melhor  do  que  a  Avenida,  onde  se 
discute  e  se  falia  nos  jornaes  de  alguns  civilisados 
que  jantam  grátis  contra  a  vontade  dos  famige- 
rados hoteleiros. 

E  seguio  a  pé,  elegantemente  pela  rua  da  Glo- 
ria, caminho  da  Givihsação  —  de  que  é  um  orna- 
mento do  capitel. 

E  foi  então  que  eu  vi  que  nós  trabalhamos  furio- 
samente para  a  conquista  da  Givilisaçáo,  mas 
ainda  não  a  conseguimos.  Precisamos  de  mais 
duzentos  annos,  e  na  arvore  colossal  do  labor-a 
maravilha    esplendida   do    parasitismo... 


As   Impressões  do  boróro 


AS  IMPRESSÕES  DO  BORÓRO 


Os  Índios  retomam  o  seu  logar.  O  Brasil,  segundo 
alguns  jacobinos  ferozes,  naturalmente  filhos  de 
estrangeiros,  pertence-lhes  de  direito.  Quando 
Pedro  Alvares  Cabral  descobriu  a  grande  terra, 
que  encontrou  nella?  índios.  índios,  alguns  fero- 
zes, outros  de  um  pouco  caso,  considerada  man- 
sidão, verdadeiramente  digno  de  nota.  Quando 
os  portuguezes  precisaram  de  gente  para  os  guiar 
caminho  do  interior,  com  quem  se  acharam?  Com 
os  Índios  !  E  é  preciso  convir  que  os  brancos,  resol- 
vidos a  civilisar  os  pelles  vermelhas,  os  bororós,  os 
tupinambás,  os  tupiniquins  e  outras  tribus  de 
nomes  curiosos,  escravisando-as  e  ensinando-lhes 
a  religião  de  Ghristo,  matando-as,  exterminando- 
as  e  discutindo  em  seguida  si  o  indio  tinha  ou  não 
alma  —  não  procederam  com  uma  correcção  muito 
aproveitável  paca  exemplo   do   futuro... 

O  indio  fugio  para  o  interior  e  ficou  pouco  amá- 
vel. Nós  os  brancos  :  brancos  relativamente  como 


240  JOÃO    DO    RIO 

todas  as  coisas  misturadas  —  tomamos  conta  des- 
sas maravilhas,  estabelecemos  o  Progresso,  fize- 
mos varias  proezas,  mas  no  fundo  convencidos  de 
que  estamos  a  usurpar  a  casa  alheia.  Sim,  porque 
afinal  de  contas,  o  Brazil  é  dos  indios.  E  tanto  o 
Brazil  é  dos  indios,  que,  ao  pensar  em  symboli- 
sar  o  Brazil,  logo  os  desenhistas  pintam  um  joven 
Índio  de  casaca,  claque  alto  e  tanga  emplumada. 

Assim,  de  vez  em  quando,  através  da  historia, 
encontra-se  sempre  a  crepitar  o  fogo  sagrado  do 
amor  pelo  indio.  Ah  !  nós  amamos  o  antigo  dono  da 
terra  natal.  Amamos  muito  !  Apenas,  como  seria 
demasiado  dar  o  governo  dopaiz  a  um  cacique,  con- 
templar o  primeiro  page  das  selvas  amazonicas 
com  os  palácios  do  Cardeal,  distribuir  os  empre- 
gos elásticos  da  guarda  civil  entre  os  Pinheiros 
Machados  do  sertão,  os  Ubirajaras  de  desconhe- 
cidos aldeamentos,  tomamos  á  norma  geral  de  ir 
ás  tabas,  forçar  os  pobres  animaes  a  trabalhar  para 
nós,  batendo-lhes  sem  dó  nem  piedade,  mudando- 
Ihes  o  nome  do  Deus,  vestindo-os  de  calças,  infil- 
trando-lhes  as  nossas  bellissimas  qualidades  ruins, 
e  quasi  sempre  acabando  ou  por  trazer  para  a 
cidade  um  bando  de  cretinos  ou  por  estabelecer 
conflictos  tremendos,  em  que  por  signal  perdemos 
ás  vezes.  Mas  convencidos  de  que  o  Brazil  é  dos 
indios. 

Gomo  nunca  tive  a  coragem  civilisadora  da  pro- 
fessora Daltro,  só  consigo  approximar-me  dos 
authenticos  proprietários  deste  paiz,  quando  por 


VIDA    VERTIGINOSA  241 

cá  apparece  alguma  caravana  de  suieilos  d»^  Daiiz 
esborrachado,  a  pedir  ao  Papae  Grande  instru- 
mentos agrários.  Essas  caravanas  são  conduzidas 
por  jesuitas  dedicados.  Um  desses,  durante 
a  exposição,  trouxe  o  bando  de  Índios  formado 
em  orchestra  —  memorável  e  dolorosa  banda  de 
musica  em  que  se  condensavam  todas  as  bandas 
más,  desde  as  bandas  recreativas  da  roça  á  banda 
de  musica  allemã  !  E  desse  contacto  com  os  Índios, 
tive  a  impressão  de  que  os  pobres  diabos  têm  o 
espirito  da  ironia  desenvolvidíssimo.  Não  podendo 
com  os  seus  malfadados  civilisadores,  frecham-nos 
de  ironias  mordazes.  Hei  de  me  lembrar  sempre  de 
um  valoroso  capitão,  hospedado  no  pateo  da  Poli- 
cia Central,  ha  uns  dez  annos.  O  capitão  era  velho 
e  solemnissimo.  Dormia,  havia  oito  dias,  de  colla- 
rinhos,  gravata  e  frack,  com  as  botas  na  mão.  Fui 
encontral-o,  rodeado  de  reporters,  que  o  entrevis- 
tavam como  entrevistariam  o  indigitado  autor  de 
um  crime  celebre,  um  viajante  notável  ou  uma 
actriz  de  nomeada.  O  capitão  dava  as  suas  impres- 
sões sobre  o  mar,  cuja  agua  era  salgada  —  (grande 
riso  dos  assistentes  !)  —  sobre  Tupan  carregador 
que  era  o  bond  eléctrico  e  outras  sinistras  boba- 
gens. A  tribu  civilisada  fazia  uma  verdadeira  dansa 
de  scalp,  dilacerando-o  de  perguntas  a  que  o  sel- 
vagem não  podia  responder.  Afinal,  no  meio  dos 
entrevistadores  estava  um  negrinho  de  oito  a  dez 
annos,  a  quem  o  cacique  agrário  fixava  de  vez  em 
quando.  Indaguei. 

14 


242  JOÃO  DO  RIO 

—  Gosta  de  creanças,  capitão? 
O  cacique  bocejou  : 

—  Não  gosta  não.  Já  comi,  mas  não  gosta.  Me- 
lhor mais  grande  e  branco. 

O  selvagem  já  comera  creanças,  era  anthropo- 
phago... 

Os  outros  com  que  depois  falei  de  certo  ainda 
não  tinham  chegado  ao  excesso  de  comer  os  civili- 
sadores  guizados,  mas  não  comprehendiam  abso- 
lutamente nada  de  civilisação,  selvagens  dentro 
das  fatiotas  urbanas,  como  os  mais  selvagens. 

A'  primeira  manifestação  impetuosa  de  senti- 
mentos punham-se  a  agglutinar  gritinho,  e  a 
maioria  dos  nossos  confortos  causava-lhes  uma 
immensa  vontade  de  rir.  Que  pensariam  elles  das 
autoridades,  dos  reporters,  dos  presidentes?  Mas 
para  que  indagar?  Vinte  dias  depois  de  chegados, 
esses  pobres  entes  eram  abandonados,  literalmente 
abandonados.  Nunca  soube  ao  certo  da  volta  de 
uma  dessas  missões  de  Índios  domesticados,  mas 
previa  que,  se  alcançassem  de  novo  a  floresta  vir- 
gem, deviam  retomar  o  ódio  antigo,  com  prazer. 

Não  retomaram,  entretanto.  E  felizmente. 
Porque  neste  momento  um  movimento  governa- 
mental resolveu  o  problema  do  seu  aproveita- 
mento colonisando-os. 

—  Sim,  senhor.  Esse  paiz  é  seu.  Nós  tomámos 
conta  disso.  Basta  de  vadiação,  porém.  Venha 
para  cá  prestar-nos  serviços  ! 

E  deante  desse  movimento  intelhgentissimo  da 


VIDA    VERTIGINOSA  243 

nossa  parte,  segundo  informam  as  noticias  varias, 
o  sertão,  onde  existe  campo  de  indio  está  a  vibrar 
de  contentamento.  Em  Goyaz,  no  Paraná,  em 
Matto  Grosso,  no  Amazonas,  os  indios  sentem-se 
colonos,  com  tanto  direito  como  a  maioria  dos 
habitantes  passados,  presentes  e  futuros  deste 
grande   paiz. 

A  própria  cidade  começa  a  ter  indios  de  mais. 
Os  jornaes  dão  noticias  desenvolvidas  a  respeito 
da  chegada  de  caciques  sórdidos ;  não  se  entra  por 
uma  secretaria  sem  encontrar  em  cada  sala  um 
lote  de  indios  —  dos  verdadeiros  brasileiros^ 
como  dizem  os  jacobinos.  A  principio,  para  que 
não  dizel-o,  eu  tinha  um  medo  serio  dessas  mana- 
das nomo-selvicolas.  Pensava-os  incapazes  de 
pensar,  de  agir,  de  fazer  outra  coisa  que  não-fosse 
atacar  o  próximo.  Via  porém  tanta  gente  com  cara 
de  indio  que  certa  vez  encontrando  num  bonde  com 
certo  sujeito  talhado  pelo  mesmo  molde,  atirei-me 
a  elle. 

— ^  Bom  dia.  Então  como  vae  isso? 

—  Gomo? 

—  Você  não  é  um  dos  colonos  indios  do  coronel 
Rondon? 

—  Perdão.  Sou  realmente  colono. 

—  Do  Rondon. 

—  Não  senhor,  do  Japão.  Sou  japonez  e  ha  dez 
annos  vivo  aqui. 

Essa  lamentável  confusão  resolveu-me  a  encon- 
trar um  indio  e  a  ouvil-o  falar.  Era  uma  questão 


244  JOÃO  DO  RIO 

fechada.  Precisamente  os  jornaes  davam  com 
retracto  a  chegada  de  uma  família  de  cacique  de 
Matto  Grosso,  cujo  filho  mais  velho,  interrogado 
por  um  repórter,  respondera  com  enfado. 

—  Não  sei  nada.  Fala  com  Rondon,  fala  com 
elle... 

Atirei-me  ao  hotel,  onde  se  instalara  o  principe. 
Vou  divertir-me  pensei.  E  mandei  levar -lhe  o 
meu  cartão.  Instantes  depois,  o  creado  fez-me 
entrar  para  um  salão  delicado  e  intimo.  No  centro 
do  salão  estava  um  joven  bororó.  O  joven  bororó 
estendeu  o  braço  cumprido.  Na  estremidade  desse 
braço  cumprido  havia  uma  larga  mão  respeitável 
que  apertou  a  minha.  O  bororó,  depyjamade  seda 
e  meias  côr  de  vinho  bocejava  largamente.  Accor- 
dara,  certo,  pouco  tempo  antes. 

—  Sente-se  você,  fez,  cahindo  num  divan.  Que 
ha  de  novo? 

Sentei-me,  acceitei  uma  cigarreta  pointe  d^or^  e 
por  entre  as  espiraes  perfumosas,  informei  : 

—  Nada  de  muito  novo.  O  assumpto  palpitante 
continua  a  ser  a  protecção.  Era  exatamente  esse  o 
motivo  de  minha  visita :  saber  a  impressão  que  lhes 
tem  deixado  a  cidade  . 

O  joven  bororó  sorrio  com  todos  os  seus  den- 
tes. 

—  Para  que  falar  de  nós?  Eu  detesto  o  reclamo. 
Isto  é  bom  para  os  Garuso,  a  Sarah  Bernhardt,  o 
Luiz  MancinelH.  Você  não  pôde  imaginar  como  a 
celebridade  me  peza. 


VIDA    VERTIGINOSA  245 

—  E  aos  outros? 

—  Falo  por  todos.  Alguns  ficaram  até  tão  can- 
çados  que  morreram.  A  celebridade  é  fatigante. 
Fatigante  e  banal.  Não  posso  comprehender 
€omo  entre  os  bárbaros  europeus  e  vocês  seus  des- 
cendentes se  pôde  viver  numa  tal  tensão  de  menti- 
ras permanentes.  Verdade  que  mentira  é  illusão, 
illusão  é  desejo  de  realidade,  e  no  fim  da  maior 
pilhéria  do  reclame  ha  sempre  o  nobre  desejo  de 
ser  melhor.  Se  eu  falasse  de  mim... 

—  E  dos  outros? 

—  Falo  por  todos.  Se  eu  falasse  de  mim,  inti- 
mamente, com  ordem  expressa  de  você  não  publi- 
car as  minhas  opiniões  capazes  de  susceptibilisa- 
rem  os  homens  de  valor  da  terra,  naturalmente  só 
falaria  verdade, e  não  seria  interessante.  Que  quer? 
A  vida  é  sempre  assim.  Vocês  ficaram  sabendo  ha 
tempos  por  causa  do  padre  Malan  com  a  sua 
banda,  por  causa  do  amável  coronel  Rondon  com 
as  linhas  telegraphicas,  por  causa  do  Teixeira 
Mendes  e  de  Augusto  Gomte,  que  o  Brasil  ia  pro- 
teger o  selvicola.  Vae  dahi,  era  certa  a  chegada  de 
varias  levas  de  brasileiros... 

Que  exotismo !  bradaram  os  neurasthenicos 
urbanos.  E  começaram  a  pensar  logo  em  alguns 
indivíduos  mais  nús  que  as  cantoras  de  cafés  con- 
certos. Também  para  vocês  era  exotismo  o  bororó, 
como  seriam  exóticos  um  mandarim  possuidor  da 
jaqueta  amarella,  um  turco,  ou  simplesmente  uma 
senhora  de  chapéo  muito  grande. 


246  JOÃO  DO  RIO 

Ora,  precisamente  na  nossa  cidade,  nós  somos 
quasi  todos  filhos  de  caciques... 

—  Ah  !  muito  bem  !  de  caciques  ! 

—  Não  me  interrompa.  Você  não  sabe  o  que  é 
um  cacique,  e  ahás,  com  isso,  acompanha  a  maio- 
ria,  Ouça.   E'  melhor. 

Nós  somos  todos  filhos  de  um  formidável  caci- 
que, filho  do  Sol  e  neto  da  Lua. 

—  Porque  neto  da  Lua? 

—  Pela  razão  simples  de  que  a  Lua  é  muito  mais 
velha  que  o  Sol.  Os  nossos  parentes  fizeram  civi- 
lisações  grandiosas  antes  da  entrada  violenta  dos 
bárbaros  transatlânticos.  Nós  mesmos  tinhamos 
instituido  as  bases  do  direito  das  gentes  na  guerra 
e  na  paz,  não  pensávamos  no  divorcio  graças  á 
polygamia  e  a  comprehensão  hellenica  de  que  a 
mulher  no  lar  é  a  primeira  serva. 

—  Perdão,  Penélope... 

—  Não  me  interrompa.  Você  deve  saber  que  nós 
somos  de  origem  gregos  asiáticos,  vindos  para  esta 
região  muito  antes  da  queda  de  Troya.  Eu  devo 
conhecer  a  parentada.  Ora  muito  bem.  Com  esta 
comprehensão,  chegáramos  a  poesia,  que  é  o 
capitel  de  uma  civilisação.  Mas  os  brancos,  essa 
raça  sem  medida,  tudo  acabou  ferozmente.  Meu 
pae  e  pae  de  quarenta  e  oito  irmãos  meus  com 
vinte  e  duas  esposas  fiéis,  percebeu  que  o  único 
meio  de  escapar,  era  passar  de  cacique  guer- 
reiro a  cacique  industrial,  a  .cacique  agricola 
pastoril.    Acceitou    immediatamente    a     invasão 


VIDA    VERTIGINOSA  247 

dos  colonos  de  estamenha  chamados  salesianos... 

—  Intelligente  ! 

—  Está  comprehendendo?  Meu  pae  era  uma 
águia.  Esses  colonos  fizeram  no  nosso  meio  o  papel 
dos  gregos  no  império  romano,  ensinando-nos 
varias  coisas.  Graças  a  elles  admirei  a  missa,  esse 
interessante  «  almoço  religioso  »,  li  Wagner,  ouvi 
trechos  de  Parsifal  e  a  emoção  curiosa  do  Vem  cá, 
mulata?  Li  os  psychologos  desde  Ribot  até  o  Manuel 
Bomfim,  folheei  álbuns  de  caricatura,  estudei  varias 
linguas  pelo  methodo  Berlitz,  assignei  jornaes,  fui 
no  sertão  leitor  assiduo  do  Femina,  do  Tico  Tico, 
do  Binóculo... 

—  E  os  outros? 

—  Já  disse  que  falo  por  todos.  Emfim,  consegui 
uma  educação  que  não  digo  igual  á  dos  bárbaros 
pela  razão  mais  simples  de  que  a  minha  é  maior. 
Conheço  a  sciencia,  a  philosophia,  a  arte,  as  reli- 
giões européas  e  a  sciencia,  a  arte,  a  philosophia  e  a 
religião  bororós  :  Vejo  por  consequência  do- 
brado. 

—  Evidentemente,  concordei  convencido  de  que 
sonhava. 

—  Depois  é  uma  questão  de  raça. 

—  Gomo  assim? 

—  Nós  somos  príncipes  de  raça.  Não  tivésse- 
mos essa  superioridade  e  não  estaríamos  tão  á 
vontade  sustentados  pelos  outros... 

O  joven  bororó  ergueu-se  sorrindo  terrivelmente 
com  todos  os  seus  dentes.  Eu  estava  humilhado. 


248  JOÃO  DO  RIO 

Toda  a  familiaridade  fugira.  Estava  na  ponta  da 
poltrona,  jogara  para  o  cinzeiro  o  cigarro  e  olhava 
O  bororó  como  imaginara  que  o  bororó  olhasse 
para  mim. 

—  E  tem  se  divertido,  Alteza? 

—  Nem  tanto.  O  nosso  manager  vela  por  nós 
como  Mentor  por  Telemaco  ou  o  Frack-Brown 
pelos  seus  jockeys. 

Elle  tem  muito  medo  daquillo  em  que  vocês  tem 
estragado  o  melhor  da  vida  e  a  que  chamam  o 
Amor.  Mas,  de  vez  em  quando,  uma  escapada... 
Emfim,  Viajei,  vi  cidades,  verifiquei  como  vocês 
são  basbaques... 

—  São  apenas  essas  as  suas  impressões? 

—  Não.  Tenho  algumas  outras.  A  primeira  é  que 
ha  falta  de  gente  em  comparação  ao  que  dizem  os 
jornaes.  Quando  passeio  pela  Beira-Mar  tenho  a 
impressão  do  deserto;  quando  entro  num  theatro 
prende-me  o  frio  que  se  deve  sentir  nas  steppes. 
E'  desolador.  Quanto  aos  homens,  são  todos  per- 
feitamente idiotas.  A  maneira  porque  olhana  para 
nós  é  extremamente  cómica.  Imagine  você  si  não 
fossemos  menos  intelligentes  com  a  tolice  de  nos 
julgarmos  superiores !  Gomo  poderíamos  andar  na 
rua  vendo  tanto  carioca !  Imagine  você  —  depois 
de  comparar  com  o  que  fazem  ellesvendo-nos pas- 
sar... 

.  —  Também  S.  Alteza  e  os  seus  manos  são  netos 
da  Lua? 

—  Mas  elles  não  o  sabem,  e  quem  não  sabe  não 


VIDA    VERTIGINOSA  249 

vê.  De  resto,  o  bororó  é  mais  do  que  Voltaire,  por- 
que Voltaire  sentia-se  embaraçado  com  o  universo 
e  nenhum  de  nós  ainda  sentio  esse  embaraço. 
Nem  nós  nem    o  nosso  impertinente  manager  : 

—  Mas  que  philosopho  é  S.  Alteza  ! 

—  Não  me  chame  de  Alteza.  Dá-me  um  ar  de 
príncipe  europeu  em  decadência,  e  neste  paiz  de 
exaggero  parece  mal. 

—  Gomo  hei  de  tratal-o  então? 

—  Não  me  trate.  Eu  chamo-me  simplesmente 
o  Bororó.  Si  quizer  saber  o  meu  nome  todo  inda- 
gue do  colono  que  é  um  cartaz  vivo. 

—  Que  juizo  mau  faz  de  nós  ! 

—  Eu?  pois  julga-os  exaggerados?  Pois  si  é  ver- 
dade. A  impressão  geral  dos  bororós  é  que  os  bár- 
baros só  se  interessam  pelo  que  é  inteiramente 
inútil.  Outro  dia,  eu  que  tinha  sabido  só,  perdi- 
me  deante  de  um  cinematographo  em  que  avida- 
mente a  multidão  entrava.  Entrei.  A  multidão 
guinchava,  ria  e  batia  palmas,  porque  no  tal  cine- 
matographo appareciam  algumas  mulheres  ape- 
nas vestidas  de  meia.  Ha  coisa  mais  tola?  Na 
minha  terra  ellas  andavam  assim  sem  que  nenhum 
de  nós  perdesse  tempo  em  olhal-as.  Hontem  perdi 
o  tempo  indo  á  Gamara  e  a  um  café  cantante.  Na 
Gamara  uns  cavalheiros  diziam  coisas  perfeita- 
mente sem  sentido,  no  café  cantante  uma  com- 
panhia inteira  no  palco  palestrava  em  fraldas  de 
camisa.  E  havia  gente  grave  a  ver  aquillo.  E'  a 
civihsação  !  E'  a  inutilidade.  Um  bororó  não  com- 


250  JOÃO    DO    RIO 

prehende  esse  prazer.  Pasmo  de  como   se  perde 
O  tempo. 

—  O  Bororó  também? 

—  Se  a  época  é  a  da  falta  de  tempo  ! 

—  Admirável. 

—  E  deixe-me  dizer-lhe  que  os  taes  palácios,  e 
as  invenções  da  mecânica  e  da  electricidade  indus- 
triaes  não  conseguiram  enthusiasmar-me. 

Um  creado  appareceu,  ia  ser  servido  o  almoço, 
e  o  bororó  tinha  ainda  o  banho,  a  toilette,  o  exer- 
cido do  tacape  que  faz  todo  o  dia  num  quarto 
fechado  com  os  manos,  untados  de  óleos  e  de  cocar 
de  plumas  variegadas.  Além  do  mais  esquecera 
a  sua  oração  a  Tupan  Nosso  Senhor  e  logo  depois  do 
almoço  tinha  ensaio  da  banda  —  porque  o  bororó 
toca  trombone.  A'  vista  disso  ergueu-se. 

—  E  mulheres,  bororó? 

O  bororó  olhou  para  os  lados  receioso. 

—  E'  a  única  coisa  que  me  parece  melhor.  Mas 
também  exaggeradas.  Grandes  chapéos,  muitos 
vestidos,  muitas  rendas. 

—  E'  a  moda. 

O  joven  bororó  rio  antropophagamente  com 
todos  os  seus  dentes. 

—  Filho  do  Canal  do  Mangue,  por  Jacy  o  juro  : 
ellas  devem  ser  melhores  sem  nada  disso... 

Não  gostei  de  ser  filho  do  Canal  do  Mangue. 
Fechando  a  cara,  indaguei. 

—  Mas  precisamente,  grande  filho  das  selvas, 
você  não  veiu  cá  apenas  fazer  censuras. 


VIDA    VERTIGINOSA  251 

O  bororó  ficou  serio  : 

—  Ah !  não  !  Queres  saber  o  que  vim  cá  fazer? 

—  Se  não  for  inconveniente... 

O  joven  bororó  olhou  para  os  lados  e  alteou  a 
voz.  Alteou  a  voz  e  proferio  a  ultima  phrase.  E 
esse  phrase,  oh !  senhores  !  oh  !  senhoras  !  oh  ! 
rapazes  !  oh !  meninos !  foi  a  noção  irónica  de 
um  paiz  inteiro,  foi  a  troça  mais  completa  ao 
momento,  aos  homens,  ás  coisas,  foi  um  resumo 
integral  do  paiz,  foi  todo  o  Brasil  encarado  por 
um  Mark  Twain  pratico,  foi  sesquipedal.  O  indio 
alteou  a  voz  e  terminou  : 

—  Vim  buscar  uma  patente  da  Guarda  Nacional ! 
Sim,  glorioso  representante  de  uma  raça  que  nós 

vamos  colonisar,  sim,  descendente  de  guerreiros 
illustres,  já  glorificados  pelo  defunto  Gonçalves 
Dias  e  por  outros  poetas  fallecidos  e  vivos,  sim, 
ex-senhor  do  tapace,  do  cocar,  da  embira,  da  inu- 
bia,  sim !  o  teu  génio  apanhou  numa  phrase  lapi- 
dar o  paiz  inteiro. 

Sim  !  Para  valer  alguma  coisa  é  preciso  uma 
patente,  uma  patente  de  invenção,  de  uma  auto- 
ridade, illusoria,  para  entrar  na  civilisação  com 
dignidade,  mesmo  como  colono,  é  preciso  um 
posto !  Gomo  considerar-se  brasileiro  sem  uma 
patente,  como  pensar  em  ser  eleitor  sem  galões, 
como  agir  sem  o  bordado  de  uma  hierarchia  hypo- 
thetica? 

Não  ha  mortal  brasileiro  que  não  seja  pelo  menos 
sargento,  sargento  de  uma  brigada  elevada  pelo 


252  JOÃO  DO  RIO 

numero,  absolutamente  fantástica,  mas  brigada 
nacional.  Um  indio,  convencido  de  que  vae  reto- 
mar O  Brazil,  assimilando-se  ao  meio,  só  poderia 
começar  pedindo  uma  patente.  Antes  do  mais,  a 
patente.  Tel-a-á  de  certo,  assim  como  todos  os 
outros  Índios  formados  numa  nova  brigada  que 
a  espontânea  brigada  do  Trotte  de  Britto  com  os 
apinagés  da  D.  Deolinda  já  desvairadamente 
annunciára  por  estas  ruas  civilisadas !  Tel-a-á  1 
E  só  assim  o  problema  indio,  ficará  resolvido  pelo 
único  grande  systema  elevador  das  classes,  o 
systema  de  patente.  Os  pósteros,  venerando  esse 
indio  de  hontem  num  grande  monumento,  de  certo 
positivista,  erigido  na  praça  publica,  talvez  não 
façam  a  inteira  justiça  á  nobre  idéa  de  Rodolpho 
Miranda.  Mas,  fatalmente  exaggerarão  o  papel  do 
indio  vidente,  que,  abrindo  a  porta  a  mais  dez  mil 
coronéis,  cinco  mil  capitães  e  oitocentos  mil  alferes, 
fez  entrar  definitivamente  para  a  civilisação  todos 
os  selvicolas  e  mesmo  as  selvas  com  a  palavra  que 
sustem  as  sociedades,  com  as  três  syllabas  magicas, 
com  a  —  patente. 

E  eu  sahi  aturdido  com  o  bororó,  as  suas  idéas, 
o  canal,  o  exaggero,  Jacy  e  um  retrato  do  joven  civi- 
lisadamente  selvagem  que  o  próprio  neto  da  Lua 
me  concedera,  apezar  do  seu  horror  ao  Reclamo  — 
para  publicar  nos  jornaes.  j 


o    Sr,  patriota 


15 


o  SR.  PATRIOTA 


Encontrei  hontem  o  Patriota.  O  Patriota  é  um 
homem  considerável.  Ninguém  sabe  porque  o  cerca 
um  tão  curioso  prestigio,  mas  ninguém  lhe  nega 
a  grande  consideração  a  que  tem  direito  personali- 
dades de  monta.  Gonheço-o  ha  muito  tempo.  De 
físico  varia  ás  vezes.  E'  em  certos  momentos  joven, 
com  a  cara  suarenta,  o  cabello  por  cortar,  o  olhar 
scintillante.  Em  outros  surge  velho,  de  grandes  bar- 
bas, brandindo  o  guarda-chuva.  Quasi  sempre, 
porém,  apparenta  ter  de  quarenta  a  cincoenta  an- 
nos.  Mas  o  seu  moral  não  varia  como  não  variam  as 
roupas,  que  segundo  o  philosopho  tem  uma  secreta 
correspondência  com  o  moral.  Veste  mal,  muito 
mal.  Parece  esfregado  d'oleo  tão  reluzente  está,  e 
com  dignidade,  com  emphase,  como  um  propheta, 
clama  em  favor  da  pátria.  E'  no  paiz  inteiro  o 
único  homem  que  comprehende  o  patriotismo  sem 
interesse  e  ama  verdadeiramente  o  Brasil.  Gomo? 
sabendo  tudo  sempre  péssimo  e  clamando  por  medi- 
das de  extrema  violência.  Depois  de  ouvil-o  —  e 


25U  JOÃO  DO  RIO 

toda  gente  já  o  ouviu  —  ninguém  se  atreve  a  consi- 
deral-o  menos  que  intangivel,  porque  para  elle  todos 
são  perdidos,  devassos  e  deshonestos,  ninguém 
ousa  pensar  no  progresso  do  paiz  porque  elle  o 
corta  com  o  gladio  negro  do  impossível;  ninguém 
tenta  uma  palavra  que  não  seja  de  applauso  ás 
suas  idéas  porque  elle  fala  como  inspirado  por  um 
poder  superior.  E'  radical,  é  esplendido,  é  divino. 
E'  o  único  homem  que  pensa  sempre  da  mesma  for- 
ma, o  único  homem  coherente  porque  pensa  sempre 
mal  dos  outros  homens,  das  outras  coisas,  só  com- 
prehendo  uma  intenção  boa  e  honesta  :  a  própria. 
Muitas  vezes,  depois  de  escutar  religiosamente  o 
Patriota,  tive  a  ousadia  de  reflectir  nos  seus  decre- 
tos e  nas  suas  imperiosas  verdades.  Se  cumprísse- 
mos esses  decretos  no  exterior  teríamos,  ha  muito 
tempo  declarado  guerra  ao  Peru,  á  Bolivia,  á 
Republica  Argentina,  á  Allemanha  e  á  França. 
Apenas.  Nenhum  dos  tratados  de  limites  que  o  notá- 
vel cartographo  Sr.  Rio  Branco  realisou,  tem  o  seu 
assentimento.  A  compra  do  Acre  foi  uma  humilha- 
ção, a  intervação  dos  Estados  Unidos  em  questões 
de  politica  sul-americana  é  irritante,  a  Allemanha 
procede  deslealmente  criando-nos  no  sul  o  dominio 
germânico,  a  França  não  tem  o  direito  de  discutir 
as  nossas  preferencias  na  questão  dos  instructores 
militares,  posto  que  a  sua  vontade  seja  contra  os 
instructores  de  qualquer  nacionalidade.  Com  a 
Itália,  é  devido  á  baixeza  e  á  fraqueza  dos  nossos 
políticos  que  a  lei  Prinetti  ainda  não  foi  revogada, 


VIDA    VERTIGINOSA  257 

posto  que  a  sua  opinião  seja  inteiramente  avessa 
a  immigração.  Com  a  Argentina  o  seu  ódio  é  quasi 
um  delirio  sagrado.  A  Argentina  serviu-se  dos  nos- 
sos guerreiros  no  Paraguay  e  não  pôde  supportar 
a  nossa  evidente  superioridade.  Só  haveria  um 
meio  de  liquidar  a  rivalidade:  erareduzil-aa  nada 
numa  tremenda  guerra,  porque  os  brasileiros  tem 
a  coragem  dos  japonezes,  apesar  do  Patriota  abomi- 
nar os  japonezes  considerando  um  grave  perigo  a 
sua  colonisação  no  Brasil. 

Internamente  o  Patriota  ainda  é  mais  grave. 
Não  ha  um  homem  que  preste,  não  ha  um  acto  do 
governo  que  não  seja  considerado  um  verdadeiro 
desastre  para  a  causa  publica.  O  Brasil,  que  ainda 
não  se  bateu  com  todos  os  paizesdos  quaesjá  devia 
ter  saido  vencedor,  elevado  á  ruina  pelos  seus  esta- 
distas, uns  ladravazes  desavergonhados. 

—  Então  a  cidade  illuminada  a  luz  eléctrica? 

—  Dizem  os  estrangeiros,  Sr.  Patriota,  que  é 
a  cidade  mais  illuminada  do  mundo. 

—  Também  com  tantos  ladrões,  quanto  mais 
luz,  melhor.  Vejo  porém  nisso  uma  verdade. 

—  Qual,  Sr.  Patriota? 

—  As  ladroeiras  da  Light !  As  batotas  do  governo 
essa  miséria  dos  nossos  governantes... 

Gomo  para  achar  que  uma  coisa  vae  de  mal  a 
peior,  é  preciso  fatalmente  acreditar  que  os  tempos 
passados  foram  melhores,  o  illustre  Patriota  vae 
transferindo  a  sua  opinão  dia  a  dia,  de  modo  que, 
graças  ao  tempo,  os  patifes  de  ha  dez  annos  são 


258  JOÃO  DO  RIO 

hoje  senhores  respeitáveis  em  comparação  com  os 
contemporâneos.  Firme  no  tempo  da  monarchia,  o 
Sr.  Patriota  era  repubhcano  e  clamava  contra  a 
inércia  bandalha  dos  ministérios  que  faziam  em- 
préstimos para  pagar  dividasinhas,  sem  iniciativa, 
sem  amor  ao  progresso,  inimigos  da  Hberdade  por- 
que possuiam  a  guarda-negra.  Oito  dias  depois  de 
feita  a  Repubhca,  o  Sr.  Patriota,  num  gesto  de 
desalento,  exclamou  : 

—  Esta  não  era  a  Republica  que  eu  sonhava  ! 

E  começou  a  comparar  as  instituições,  para 
achar  peior  a  nova. 

Se  a  Republica  não  tivesse  sido  feita,  seria  pre- 
ciso invental-a  para  que  o  Sr.  Patriota  tivesse  uma 
base  de  comparação.  No  tempo  de  Floriano,  já  o 
Imperador  era  um  homem  extraordinário  e  Flo- 
riano um  infame  tyranno.  Hoje  Floriano  foi  um 
grande  homem  e  nós  precisávamos  de  um  Floriano 
para  moralisar  a  Republica.  Todas  as  revoltas 
internas  devemol-as  ao  admirável  Patriota,  movi- 
do pelos  mais  puros  ideaes,  e  a  sua  superioridade 
está  em  condemnar  os  de  agora  com  os  de  hontem 
contra  os  quaes  já  se  revoltara. A  sua  ultima  revolta 
foi  contra  a  vaccina  obrigatória.  O  grande  homem, 
em  nome  da  Pátria  —  nome  sempre  sagrado  —  pre- 
tendeu depor  um  presidente  apenas  porque  esse 
presidente  tinha  o  desaforo  de  embellezar  e  sanear 
a  capital.  E  esse  admirável  gesto  lhe  trouxe  o 
amargor  de  não  ser  comprehendido. 

—  Este  paiz  está  inteiramente  perdido. 


VIDA    VERTIGINOSA  259 

—  Porque,  Sr.  Patriota? 

—  Já  nem  o  povo  vibra  senão  na  pandega. 

—  Com  eíTeito. 

—  Olhe,  quer  saber?... 

—  Com  prazer. 

—  Os  exemplos  de  cima  corromperam  até  aos 
ossos  o  povo.  A  época,  meu  filho,  é  apenas  de  cava- 
ção. Adeus  Pátria  !... 

E  contra  os  que  trabalham,  os  que  se  esforçam 
os  que  lutam  e  pretendem  vencer,  contra  os  progres- 
sos evidentes  do  paiz,  o  sr.  Patriota,  á  porta  de  um 
botequim,  clama  possesso.  São  umas  bestas,  são 
uns  deshonestos,  são  uns  patifes.  Da  vida  actual 
apanhou  duas  palavras  adulteradas  pelo  calão  da 
terra  :  cavação  e  fita.  Ha  uma  grande  prova  de  pro- 
gresso ? 

—  Oh !  Oh !  o  que  elles  comeram  !  Que  «  cava- 
ção » ! 

Ha  um  grande  acto  em  que  é  impossivel  ver  di- 
nheiro ? 

— *  Não  vês?  é  uma  «  fita»  de  primeira  ordem... 

Quando  vejo  o  sr.  Patriota  —  eu,  como  toda 
gente  —  tenho  um  arrepio  de  pavor.  O  sr.  Patriota 
com  o  fato  sujo,  as  botas  por  engraxar  e  os  olhos 
duplicando  a  lanterna  de  Diógenes,  causa-me  medo. 
Se  não  me  vê,  fujo.  Mas  se  desconfio  que  deu 
commigo,  approximo,  faço-lhe  zumbaias,  encho-o 
de  hsonjas,  tentando  evitar  que  o  sr.  Patriota  tam- 
bém me  estraçalhe  moralmente.  E  é  com  timidez, 
quasi  humilde,  que  concordo,  sou  da  sua  opinão. 


260  JOÃO    DO    RIO 

Hontem,  dei  de  cara  com  o  sr.  Patriota.  Abri  os 
braços. 

—  Oh  !  meu  caro  amigo... 

—  Gomo  vae  você?... 

—  Mais  ou  menos. 

—  Tenho-o  visto  pelos  jornaes. 

—  Ora  eu...  E  o  meu  amigo? 

—  Gomo  vê  —  mal.  Neste  paiz  só  estão  por  cima 
os  ladravazes.  E'  uma  indecencia,  um  fim  de  raça. 
Nunca  vi  assim,  nunca  imaginei.  Os  homens  dignos 
no  ostracismo.  Os  «  fitas»  e  os  «  comedores»  na  pri- 
meira fila.  Já  não  temos  homens.  Temos  alarves  por 
traz  de  cinematrographos. 

—  V.  exc.  sr.  patriota,  sempre  com  a  sua  veia... 

—  Gom  o  meu  patriotismo,  diga  antes.  Sourepu- 
bhcano  histórico.  Posso  dizer  da  Repubhca  que 
infelizmente  ajudei-a  a  fazer  na  jornada  de  15  de 
novembro. 

—  Infelizmente  nada  difficil. 

—  Gomo  nada  difficil? 

—  Por  que  não  houve  resistência. 

—  Sim,  realmente.  E'  que  os  patifes  sabiam 
serem  os  únicos  a  aproveitar.  Quaes  são  os  republi- 
canos verdadeiros  que  tem  governado?  Também, 
meu  amigo,  isto  estar  a  liquidar. 

—  Isto  o  que? 

—  O  Brasil. 

—  V.  exc.  acha? 

—  Glaro.  Somos  a  risota  do  estrangeiro  e  vira- 
mos centro  dos  cavadores  sem  escrúpulos.  Ah  !  per- 


VIDA   VERTIGINOSA  261 

demos  o  sentimento  sagrado  da  Pátria!...  O  paiz 
está  nas  mãos  de  mercenários,  de  vis  ganhadores,  e 
o  futuro  se  apresenta  negro  de  problemas  insolú- 
veis. 

—  Mas  com  as  estradas  de  ferro,  o  augmento  das 
rendas,  a  afíluencia  de  capitães  estrangeiros,  tantos 
emprehendimentos,  a  paz  sul-americana  garantida? 

—  Fitas,  meu  amigo,  fitas... 

—  Mas  a  opinão? 

—  A  opinão  dos  jornaes  pagos. 

—  Até  o  «  Diário  Official»? 

—  São  coisas  que  não  saem  do  papel,  de  decretos, 
de  palhaçada  para  enganar  os  tolos. 

—  Ah! 

—  Quando  não  é  apenas  o  esbanjamento  dos 
dinheiros  públicos,  a  crise  megalomanica  dos  esta- 
distas de  occasião  espalhando  o  suor  do  povo 
amoedado. 

—  Na  verdade. 

—  Não  é  possivel  que  a  nossa  Pátria  estremecida 
caminhe  muito  tempo  á  beira  desse  precipicio  cria- 
do pela  inépcia  filauciosa  e  a  arrogância  dos  his- 
tóricos de  ultima  hora...  E'  a  baixeza,  a  hquefação 
dos  caracteres  —  aqui,  nos  estados  sob  o  dominio 
ganancioso  e  amordaçado  das  olygarchias,  em  todo 
esse  Brasil,  do  Amazonas  ao  Prata... 

—  Do  Rio  Grande  ao  Pará. 

—  O  sr.  brinca? 

—  Oh !  nunca !  Continuei  apenas  uma  frase 
poética. 

15. 


262  JOÃO  DO  RIO 

O  sr.  Patriota  ficou  serio  e  gravemente  : 

—  Mesmo  porque  recebo  com  o  despreso  os  que 
não  sabem  amar  o  seu  paiz.  Fique  certo,  entretanto 
de  uma  coisa. 

—  Qual? 

—  E'  que  eu,  que  ainda  nunca  tive  empregos 
nem  gordas  propinas,  sei,  apesar  de  tudo,  amar  a 
minha  pátria  e  que  estou  sempre  na  estacada  para 
defendel-a. 

Era  á  porta  de  um  botequim.  Na  rua  cheia  pas- 
sava gente  nervosa  e  apressada  a  trabalhar;  onde 
os  olhos  poisavam  viam  movimento,  vida,  labor, 
agitação  de  homens  movendo-se  para  a  conquista 
do  conforto.  Eram,  no  dizer  do  Patriota  os  inimi- 
gosda  pátria.  Elle,  parado  á  porta  de  um  botequim, 
estava  convencido  de  ser  o  mais  útil  cavalheiro,  o 
único  útil  neste  paiz  perdido.  E  eu  senti  que  estava 
ainda  mais  furioso  porque,  apesar  dos  seus  acces- 
sos  de  insultos,  sentia-se  cada  vez  mais  seduzido  na 
onda  de  vida  nova  que  tudo  avassalava. 

Então,  alliviado,  estendi-lhe  a  mão  : 

—  Pôde  contar  commigo  a  seu  lado. 

O  sr.  Patriota  olhou-me,  e  num  Ímpeto  : 

—  Serio? 

—  Lealmente. 

—  Pois  então  ajuda-me.  Vê  se  me  arranjas  um 
emprego  modesto  em  que  não  se  trabalhe  muito. 
Ha  vários  :  Ha  verdadeiros  escândalos !  E'  uma 
vergonheira.  E  só  nomeiam  imbecis  e  patifes.  Que 
diabo !  Eu  sou  republicano  histórico,  eu  sou  brasi- 


VIDA    VERTIGINOSA  263 

leiro,  eu  amo  a  minha  pátria.  Uma  pensão  da  verba 
secreta  da  policia,  hein?  Os  governos  precisam  ser 
justos.  Quando  posso  saber  da  resposta? 
E  com  as  duas  mãos  apertando  a  minha  : 
—  Mostre   que  neste  paiz  ainda  ha  homens ! 
Serei  dedicadissimo... 

Estou  ainda  commovido  com  o  encontro.  E  com 
medo  redobrado.  O  sr.  Patriota  é  caipora.  Não 
arranjo  o  emprego  que  tão  patrioticamente  desejo, 
o  governo  continu'a  ser  uma  miséria,  mas  eu?  eu 
se  não  o  arranjar,  serei  para  sempre  o  maior  dos 
imbecis  velhacos  que  infelicitam  a  desgraçada 
pátria  do  sr.  Patriota.  E  afinal  é  desagradável  ser 
isso,  quando  seria  tão  fácil  ser  o  contrario. 


Um  grande  Estadista 


UM  QRANDE   ESTADISTA 


Na  nevrose  dos  últimos  momentos  de  governo,  o 
Palácio  Presidencial  tem  uma  extraordinária  agi- 
tação de  gente  que  quer  ser  recebida,  de  gente  que 
fala  baixo  e  fala  alto  —  mil  pretenções,  mil  enga- 
nos, mil  illusões.  Com  um  tacto  muito  delicado,  ha 
quasi  meio  mez  o  presidente  que  se  vae  não  habita 
o  Palácio.  Com  uma  distincção  que  o  eleva,  ha 
quinze  dias  não  resolve  graves  problemas  mas 
apenas  os  communica  ao  que  virá...  E'  noite.  Os 
funcionários  tem  um  ar  de  fadiga,  impossivel 
de  esconder  após  quatorze  horas  de  trabalho  conse- 
cutivo sob  a  luz  fixa  das  lâmpadas  eléctricas.  Mui- 
ta gente  ainda.  Ha  no  salão  de  espera,  ha  nos 
corredores,  ha  na  secretaria,  ha  nas  salas  contí- 
guas á  sala  dos  despachos,  ha  mesmo  nesse  vasto 
quadrilátero  onde  se  resolvem  os  destinos  da  Na- 
ção. 

Mas  o  presidente  entra.  Acompanha-o  o  chefe  da 
casa  militar.  Entra  a  sorrir,  com  uma  palavra  amá- 
vel para  cada  um.  Não  está  cançado.  Nunca  esteve 


268  JOÃO  DO  RIO 

cançado.  E'  a  mesma  impressão  de  saúde  e  de  juven- 
tude. Deixa  O  Governo  como  se  para  elle  entrasse. 
Senta-se.  Ha  na  mesa  rumas  de  papeis  a  assignar.  O 
trabalho  é  rápido,  emquanto  continua  a  conversar 
e  a  attender  os  que  chegam.  Foi  assim  no  primeiro 
dia  de  Gattete.  E'  assim  nos  últimos. 

«  Placez  une  energie  exaltée  devant  un  champ 
d'activité  immense  :  elle  brúlera  d'entreprendre. 
L'initiative  est  un  des  traits  constitutifs  du  carac- 
tere americain». 

Temos  deante  de  nós  o  Presidente  americano,  o 
Presidente-administrador,  o  joven  estadista,  o 
despertador  das  energias  do  paiz.  Cada  vez  que  foi 
elevado  as  poder  revela  esse  Ímpeto  de  em- 
prehendimento  e  iniciativa.  Gomo  supremo  ma- 
gistrado da  Nação  fez  um  dos  mais  intensos 
períodos  de  progresso  da  vida  nacional.  Ao  deixar 
o  poder,  ha  em  torno  delle  uma  plethora  de 
esperança  e  de  seiva.  Nem  um  desanimo.  Vê-se 
que  deante  daquella  energia  exaltada  não  se 
fechará  o  campo  immenso  da  actividade.  Elle  tem  a 
intelligencia,  a  segurança,  o  enthusiasmo  e  a  expe- 
riência immediata  da  vida  «  capaz  de  resolver  os 
problemas  que  mais  desconcertam  a  intelligencia 
pura.»  Elle  vê  num  relance  e  por  inteiro  o  que  os 
outros  nunca  vêem  de  todo  em  vários  dias.  E  a  sua 
fisionomia,  transpirando  a  satisfação  de  ter  cum- 
prido o  seu  dever,  incute  a  confiança,  uma  confiança 
que  se  deposita  nelle  para  o  vago  bem  commum,  in- 
sopitavel  e  immediata,  antes  que  o  cérebro  reflicta. 


VIDA    VERTIGINOSA  269 

Esse  governo  que  assim  termina  com  tal  elegân- 
cia moral  e  crescerá  na  memoria  do  paiz  á  propor- 
ção que  fôr  passando  o  tempo  surgiu  de  um  facto 
imprevisto. 

Foi  um  acaso  a  repentina  elevação  á  presidência 
da  Republica  do  vice-presidente. 

Muitos  mostraram  admiração  pelo  modo  por  que 
o  seu  governo  no  dia  immediato  agia  com  a  certeza  e 
segurança  de  quem  se  preparara  para  a  chefiado  paiz. 

Era  apenas  um  homem  culto  e  joven,  um  tempe- 
ramento de  estadista  e  de  verdadeiro  patriota  conhe- 
cedor das  necessidades  da  Nação.  Os  que  o  accom- 
panham  desde  o  primeiro  momento,  quando  a 
noticia  da  morte  de  Aííonso  Penna  foi  sabida  no 
Senado,  tiveram  a  justa  medida  do  seu  valor  e  da 
comprehensão  que  esse  homem  tinha  do  poder  :  não 
a  empáfia  louca  dos  conselheiros,  não  a  vaidade  da 
gloriola  social,  mas  o  sentimento  integral  da  im- 
mensa  responsabihdade  que  lhe  caia  sobre  os  hom- 
bros  alhada  á  esperança  de  cumprir  o  seu  dever.  Era 
o  governo  de  um  paiz  novo  cuidando  do  seu  pro- 
gresso moral,  mental  e  pratico.  Deixava  de  ter  os 
ódios  communs  para  ser  o  primeiro  magistrado  da 
Nação.  A  sua  primeira  vontade  foi  para  manter  a 
constituição  no  ponto  relativo  á  separação  da 
Igreja  e  do  Estado,  ponto  que  os  presidentes  con- 
selheiros, indo  á  missa  ao  domingo  e  permittindo 
a  invasão  dos  frades  estrangeiros,  a  pouco  e  pouco 
pareciam  esquecer.  O  seu  primeiro  movimento 
politico  foi  de  congraçamento. 


270  JOÃO    DO    RIO 

Nunca  tivemos  uma  época  politica  mais  agitada 
e  mais  perigosa.  A  primeira  reunião  do  ministério 
foi  um  acto  de  coragem  em  pleno  palácio  invadido 
pelos  politicos  e  os  interessados  de  toda  espécie  e 
de  ambos  os  partidos.  Acto  de  coragem  calma  e 
tranquilla.  A  sua  situação  na  politica  não  podia  ser 
outra.  A  principio  procurou  esquivar-se  ás  lutas 
partidárias,  neutro.  A  politica  exigia  que  elle  to- 
masse um  partido  ou  que  escolhesse  outro  candi- 
dato. Foram  mesmo  oíTerecer-lhe  a  presidência 
para  o  novo  quatrienio.  S.  Ex.  respondeu  : 

—  Não  me  afasto  uma  linha  do  meu  dever. 

E  não  se  afastou.  Ataques,  violências,  insultos, 
discursos  opposicionistas  não  o  demoveram.  A 
multidão  —  a  mesma  que  em  delirio  seguia  Ruy 
Barbosa  para  applaudir  Hermes  da  Fonseca  á 
sua  chegada  da  Europa  —  gritou  de  baixo  das 
janellas  de  palácio.  Elle  que  não  se  tinha  envolvido 
na  escolha  de  candidatos,  deixou  que  o  pleito  se 
realisasse  entre  os  dois  candidatos.  Mas  não  se  lhe 
notara  jamais  uma  violência  contra  o  povo,  contra 
a  liberdade  nesse  governo  de  vigor,  de  energia  e  de 
brilho.  Os  jornaes  de  opposição  disseram -lhe  hor- 
rores. Continuaram  a  dizer  com  inteira  liberdade. 
Os  deputados  na  Gamara  procuravam  todos  os 
meios  de  ataque.  Poderam  continuar.  A  agitação 
das  ruas  foi  durante  mezes  formidável.  Os  politi- 
queiros de  vinganças,  com  exemplos  no  bolso  desde 
Floriano  ao  Sr.  Rodrigues  Alves,  iam  propôr-lhe  o 
estado  de  sitio.  Não  houve  uma  só  violência  da 


VIDA    VERTIGINOSA  271 

politica,  apezar  da  agitação,  contra  a  agitação,  o 
espirito  do  estadista  irradiou  em  todos  os  departa- 
mentos da  administração. 

Elle  foi  o  administrador.  A  sua  obra  no  Estado  do 
Rio  era  de  resto  annunciadora  do  que  poderia  fazer 
com  o  Brasil  inteiro.  Em  seis  mezes  de  administra- 
ção, o  Sr.  Nilo  salvara  o  Estado  de  uma  formidá- 
vel crise  financeira.  Na  sua  segunda  mensagem  ao 
Congresso,  S.  Ex.  dizia  :  —  «  Depois  de  onze  annos 
de  «  deíicits»  successivos  pôde  a  administração 
declarar  que  encerrou  o  balanço  do  anno  findo  com 
um  saldo  approximado  de  mil  e  quinhentos  contos 
de  réis.  Todas  as  verbas  de  receita  do  orçamento  ti- 
veram augmento».  E  isso  era  conseguido  incen- 
tivando a  producção  particular,  protegendo  a 
industria,  accordando  as  forças  vivas  do  Estado. 

Foi  o  Sr.  Nilo  Peçanha,  depois  das  reformas  reali- 
sadas  com  uma  coragem  de  ferro,  tendo  modificado 
inteiramente  o  organismo  politico  do  estado  e  dando 
conta  desse  prodigio  de  cirurgia  económica,  o  pri- 
meiro politico  brasileiro  capaz  de  dizer  esta  frase 
que  resume  na  sua  ironia  o  mais  nobre  dos  program- 
mas  políticos  : 

—  «  De  politica,  como  se  entende  geralmente, 
nada  vos  disse  porque  delia  não  cogitei  e  a  ella  não 
servi ». 

Serviu  ao  seu  Estado,  porém.  E  veiu  servir  depois 
ao  Brasil.  A  sua  acção  fecundíssima,  —  o  brilho 
enthusiastico  junto  á  ponderação,  o  Ímpeto  juvenil 
querendo  fazer  e  fazendo  em  mezes  o  que  outros  não 


272  JOÃO  DO  RIO 

tinham  conseguido  em  quatrienios  successivos  — 
são  o  desdobramento  das  idéas  do  presidente  do 
Estado  do  Rio  ha  seis  annos,  são  a  crystahsação 
das  idéas  do  deputado  a  constituinte,  condensam  o 
mesmo  sopro  de  generosidade  e  de  esforço  pelo  bem 
pubhco. 

A  sua  única  mensagem  ao  Congresso  diz  : 

«  O  quatriennio  que  está  para  findar  realisa  em 
relação  á  viação  férrea  as  aspirações  que  surgiram 
na  juventude  da  nossa  nacionalidade  e  que,  hon- 
rando a  visão  clara  dos  antepassados,  testemunha 
os  espirito  de  fidehdade  e  de  perseverança  que  tem 
presidido  á  formação  do  progresso  do  paiz». 

A  extensão  total  da  viação  férrea  da  Republica 
já  inaugurada  era  de  1.227.135  kilometros.  S.  Ex. 
inaugurou  até  os  últimos  dias  mais  de  900.000  kilo- 
metros. O  seu  desejo  de  trazer  os  estados  do  inte- 
rior ao  mar,  elle  os  realisou  com  as  vias-ferreas  que 
vêem  até  ao  porto.  E  ligou  o  Sul  da  Republica,  li- 
gou o  Rio  a  Montevideo  pelo  caminho  de  ferro  e  a 
cada  estado  deu  essa  força  de  progresso  que  é  a  lo- 
comotiva. 

A  sua  única  mensagem  diz  :  «  Praticando  uma 
politica  de  rigorosa  restripção  das  despezas  pubh- 
cas,  poude  o  Governo  nos  mezes  ultimamente  decor- 
ridos, iniciar  as  remessas  para  a  Europa  de  fundos 
que  attingiram  a  importância  superior  a  9.000.000 
esterlinos ». 

E  fez  o  resgate  do  empréstimo  de  1879  e  fez  o  pa- 
gamento antecipado  da  nossa  divida  externa  e  fez  o 


VIDA    VERTIGINOSA  273 

pagamento  da  nova  esquadra  e  do  novo  material 
do  Exercito  e  realisou  a  conversão  dos  juros  de 
5  por  cento  para  4  por  cento. 

Só  essa  obra  seria  a  de  um  quatriennio  que  se 
imporia  á  gratidão  publica.  Quando  a  Caixa  de 
Conversão,  abarrotada  de  ouro,  chegava  ao  limite 
máximo,  prevendo  uma  situação  financeira  irregu- 
lar, o  Sr.  presidente  em  mensagen  ao  congresso 
pediu  urgência  para  se  votar  a  nova  taxa. 

O  Congreso  fazia  politiquinhas  e  sacrificou  o  paiz 
á  teimosia  de  uma  obstrucção  lamentável.  Nem 
por  isso  o  trabalho  do  presidente  ficou  diminuído. 
E  esse  labor  é  de  resto  immenso  e  múltiplo  : 

—  A  obra  financeira,  chamando  as  correntes  do 
capital  estrangeiro. 

—  A  politica  dos  caminhos  de  ferro  como  a  base 
da  sua  acção  no  paiz  pela  penetração,  a  reducção 
de  fretes  e  as  linhas  trazidas  até  aos  portos  de  mar, 
Hgando  o  Brasil  á  civilisação. 

—  A  conquista  da  terra  com  a  resolução  do  pro- 
blema da  secca  nos  estados  do  Norte  e  o  sanea- 
mento da  baixada,  do  Estado  do  Rio,  obras  já  ini- 
ciadas. 

—  A  obra  urbana  com  a  illuminação  eléctrica,  o 
remodelamento  dos  subúrbios  e  dos  seus  meios  de 
transporte;  o  desenvolvimento  dos  bairros  pelas 
reducções  do  preço  das  passagens  e  das  cargas,  a 
reconstituição  do  mais  bello  parque  do  mundo. 

—  A  obra  dos  estados. 

—  A   execução   do   ministério   da   Agricultura, 


274  JOÃO  DO  RIO 

Industria  e  Gommercio,  que  foi  o  grande  incentivo 
e  é  o  despertar  agricolae  industrial  do  paiz,  a  absorp- 
ção  do  estrangeiro  na  sua  actividade,  o  verdadeiro 
patriotismo. 

Nesse  anno  febril  de  affirmação  o  Sr.  Nilo  Pe- 
çanha  não  desejava  só  ser  o  administrador  incom- 
parável, mas  também  mostrar  a  sua  comprehensão 
da  attitude  internacional  do  Brasil  e  comprehensão 
das  relações  entre  o  governo  federal  e  os  estados. 

Nas  relações  com  os  estados,  nenhum  presidente 
mostrou  uma  tal  energia  em  assegurar  a  união  dos 
estados  pelo  respeito  aos  princípios  cardeaes  da 
Constituição  e  ás  leis  da  Republica.  A  reposição  em 
Sergipe,  a  reposição  no  Amazonas  são  actos  que 
marcam  um  homem  e  a  sua  attitude  transfor- 
mado em  guarda  do  Sr.  Backer  no  seu  próprio 
Estado  só  mais  augmenta  o  brilho  do  estadista  que 
sabe  pôr  a  Constituição  acima  de  interesses  pessoaes. 

Os  actos  mostram  mais  que  os  discursos.  As 
insolências  dos  discursos  de  opposição  levou-as 
o  vento.  Tudo  quanto  se  lhe  poude  attribuir  morre 
deante  dos  factos  inilludiveis  :  —  o  Sr.  Dória  está 
em  Sergipe;  o  Sr.  Bittencourt  está  em  Manáos;  e  o 
Sr.  Backer  continua  a  infelicitar  o  Estado  do  Rio. 

E,  se  assim  nas  relações  internas  o  Sr.  Nilo  Pe- 
çanha  deixa  um  sulco  de  respeito  indelével,  na  poli- 
tica interamericana  teve  a  sorte  de  apagar  com  a 
visita  de  Sanz  Pena  um  longo  periodo  de  pretencio- 
sos  resentimentos  de  parte  a  parte,  entre  o  Brasil 
e  a  Argentina,  periodo  em  que  certas  individuali- 


VÍDA    VERTIGINOSA  275 

dades  ligaram  a  vaidade  pessoal  aos  destinos  das 
respectivas  pátrias,  confundindo  lamentavelmente 
as  duas  coisas. 

Mas  a  característica  desse  governo  já  denomi- 
nado :  o  Governo  das  iniciativas,  a  característica 
desses  mezes  de  febre  de  progresso  e  de  nobres  idéas 
é  que  foi  pela  primeira  vez  —  Oh  !  sim  !  como  uma 
porção  de  casos  mais  1  —  um  Governo  democrata, 
um  governo  em  que  o  presidente  presidia  pelo  povo. 

Os  seus  principios  democratas  longe  de  se  pedes- 
talisarem  com  o  alto  posto,  como  sóe  acontecer 
com  os  homens  guindados  apenas  pela  sorte,  tor- 
naram-se  a  sua  única  satisf acção  própria.  Elle  só 
tinha  uma  preoccupação  :  o  povo.  Os  seus  actos, 
o  seu  formidável  trabalho,  aquella  actividade  febril 
que  fará  o  novo  presidente  ter  no  seu  quatriennio  qua- 
tro a  cinco  inaugurações  por  mez,  eram  o  desejo  de 
servir  ao  paiz  e  por  consequência  de  agradar  ao 
povo.  O  fallecido  Penna  teve  uma  frase  pretenciosa : 
«  quem  manda  sou  eu  ».  O  Sr.  Rodrigues  Alves 
cujo  governo  foi  o  de  um  admirável  prefeito,  disse 
num  momento  critico  :  «  o  meu  logar  é  aqui».  A 
frase  do  estadista  Sr.  Nilo  Peçanha  é  sempre  uma 
pergunta  : 

—  «  E  o  povo?  )) 

Assim,  o  Sr.  Nilo  Peçanha  fez  da  presidência  da 
Republica  um  verdadeiro  posto  de  sacrifício  e  um 
lugar  de  ensinamento  da  lei,  do  direito,  da  justiça 
e  do  desinteressado  amor  á  pátria.  Gomo  na  Suissa, 
nos  Estados  Unidos,  o  presidente  deixou  de  ser  um 


276  JOÃO    DE    RIO 

bicho  raramente  visível  para  ser  o  cidadão  que  rece- 
be e  attende  todo  mundo.  O  Sr.  Nilo  Peçanha  vinha 
para  a  sala  de  despachos  ás  9  horas  da  manhã  e 
attendia  aos  políticos,  aos  ministros  como  a  sim- 
ples particulares  até  ás  6  horas  da  tarde.  A's  vezes 
ainda  descia  após  o  jantar  e  só  das  o  em  diante 
recolhia  aos  seus  aposentos  para  estudar  as  ques- 
tões graves.  No  dia  seguinte  ás  6  da  manhã  viam- 
no  a  galopar  no  parque,  já  tendo  feito  os  exercí- 
cios de  hygiene  que  lhe  davam  aquelle  inquebravel 
vigor,  e  de  novo  ás  9,  com  o  seu  sorriso  e  a  sua 
frase  ponderada  e  bondosa,  lá  estava  na  sala  de 
despacho. 

Um  intimo  do  Gattete  diza  certa  vez  : 
—  Nunca  vi  aqui  tanta  linha,  posso  mesmo 
dizer  que  nunca  o  Gattete  me  pareceu  assim  o  palá- 
cio da  Presidência;  mas  também  posso  affirmar  que 
nunca  elle  foi  tanto  do  povo.  Entra  quem  quer; 
fala  quem  quer  com  o  presidente.  Se  desejassem 
attentar  contra  a  sua  vida  era  facihmo. 

E  com  effeito.  Gontam  dessa  liberdade  varias 
anecdotas.  De  uma  feita,  á  tarde,  o  presidente  foi 
tomar  um  pouco  de  ar  ao  parque  e  sem  sorpreza 
viu  dois  estrangeiros  que  tranquillamente  photo- 
graphavam  aspectos  da  linda  paysagem.  Os  estran- 
geiros nem  lhe  prestaram  attenção.  Gontinuaram. 
Afinal,  um  armado  de  um  guia  começou  a  discutir 
com  o  outro  e  vendo  aquelle  grave  senhor  de  chapéu 
de  Ghile,  escarpins  acompanhado  de  um  cachorro, 
foram  a  elle. 


VIDA    VERTIGINOSA  277 

—  Não  é  aqui  o  Jardim  Botânico?  indagaram 
em  inglez. 

—  Não,  senhor. 

—  Mas  tem  a  aléa  das  palmeiras  !  interrompeu  o 
outro. 

—  Ah  !  sim,  fez  o  presidente  sorrindo,  tem,  mas 
o  do  Jardim  Botânico  é  muito  maior.  Não  deixem 
de  ir  vêr. 

—  Então,  isto  aqui? 

—  E'  o  parque  reservado  do  Palácio  da  Presi- 
dência. 

—  Gomo? 

O  do  guia  folheava  nervosamemte  o  pequeno 
volume,  e  de  repente  vendo  um  retrato  e  encarando 
o  presidente  : 

—  Mas,  perdão,  é  V.  Ex.  o  próprio  presidente  ! 

—  E'  o  próprio  presidente  !  exclamou  o  outro 
confuso. 

O  Sr.  Nilo  Peçanha  sorria  bondosamente. 

—  E  tenho  muito  gosto  que  continuem  a  ver  o 
parque. 

O  inglez  que  se  desfazia  em  cumprimentos  não 
se  conteve  porém. 

—  Então,  no  Brasil  é  assim? 

Doutra  feita,  uma  senhora  a  cujo  marido  ia  um 
ministro  fazer  uma  injustiça  resolveu  em  dia  de 
despacho  falar  ao  presidente.  Foi  com  a  filha, 
ambas  em  cabello.  Era  difficil  naquelle  dia  aproxi- 
mar-se  alguém.  A  pobre  senhora  esperou  no  corre- 
dor, junto  á  porta,  de  uma  ás  seis.  Os  continuos 

16 


278  JOÃO  DO  RIO 

diziam  ser  impossivel.  Num  Ímpeto,  afinal,  ella  poz 
a  mão  na  porta  e  entrou.  O  presidente  lia,  cercado 
de  papeis.  Levantou-se  immediatamente  e  com 
a  maior  cordura  : 

—  Que  deseja,  minha  senhora? 

Nunca  essa  senhora  imaginara  ser  recebida  assim. 
A  commoção  fazia-a  tremer.  O  presidente  ouvia-a. 
Quando  ella  acabou,  disse  : 

—  Pôde  ir  tranquilla,  minha  senhora.  E  para  o 
ofíicial  de  gabinete  :  Mande  chamar  o  ministro, 
íamos  commetter  um  acto  menos  justo. 

Contam  que  no  Estado  do  Rio  a  sua  chegada 
annunciada  a  qualquer  cidade  era  motivo  de  jubilo 
popular. 

—  O  Nilo  vem ! 

Como  presidente  da  Republica,  onde  foi,  a  popu- 
lação logo  o  envolveu  em  amor  e  logo,  incansavel- 
mente, elle  attendeu,  dispondo  do  poder  para  o 
bem,  a  mil  coisas.  Foi  assim  na  Tijuca,  querendo  e 
fazendo,  foi  assim  em  Petrópolis.  A  somma  de 
melhoramentos  impostos  pela  sua  vontade  estão 
ahi.  Petrópolis  já  se  transformou  num  arrabalde  do 
Rio.  A  Tijuca  teve  as  passagens  reduzidas,  as  estra- 
das cuidadas,  os  pequenos  proprietários  ruraes  com 
meios  de  transporte  barato  e  rápido  para  as  suas 
mercadorias. 

Póde-se  dizer,f apenas  escudado  nos  factos,  que 
com  esse  labor  formidável  o  Sr.  Nilo  Peçanha  cui- 
dava também  da  vida  social.  As  suas  recepções 
ficaram  como  exemplos  de  finura,  de  elegância  e 


VIDA    VERTIGINOSA  279 

de  entrelaçamento  das  classes  representativas  do 
paiz.  Elle  conseguiu  juntar  a  essas  festas  o  pró- 
prio elemento  mundano,  arredado  de  festas  officiaes 
desde  a  monarchia.  E  pela  primeira  vez,  num  paiz 
democrático,  o  povo  teve  espectáculos  gratuitos  em 
todas  as  casas  de  espectáculo,  o  povo  teve  festas 
para  seu  prazer. 

Mesmo  sem  ter  nos  olhos  o  daltonismo  da  sym- 
pathia,  esse  estadista  mostra  uma  figura  de  tão  largo 
destaque  e  de  uma  projecção  moral  tão  intensa  que 
se  não  lhe  pôde  ser  indiíTerente.  O  Brasil  tem  uma 
estrella  occasional.  O  Sr.  Nilo  Peçanha  culto,  fino, 
patriota,  tem  também  essa  estrella.  Mas  não  basta 
ter  estrella.  E'  preciso  ajudal-a.  E  esse  homem, 
elevado  com  uma  rapidez  pasmosa  á  mais  alta  posi- 
ção do  paiz  por  um  curto  prazo  de  tempo,  conseguiu 
imprimir  a  sua  individualidade  á  direcção,  desfez 
a  rotina  e  teve  no  Brasil  novo,  no  Brasil  de  depois 
da  Aveinda  Central,  um  governo  realmente  extraor- 
dinário. 

Póde-se  dizer  que,  investido  do  alto  cargo,  do 
cargo  dado  aos  generaes  e  a  dois  conselheiros  antes 
delle,  —  o  professor  de  diplomacia,  o  ardente  depu- 
tado e  o  presidente  excepcional  do  Estado  do  Rio 
condensou  todas  as  energias  para  a  obra  colossal 
e  não  descançou  mais  um  minuto. 

Realmente,  não  descançou.  O  pubhco  viu-o  tra- 
balhar. Era  de  manhã  á  noite  e  era  em  cada  depar- 
tamento da  administração  esse  mesmo  trabalho 
suggerido  pela  sua  vontade.  Não  houve  periodo  de 


280  JOÃO    DO    RIC 

politica  mais  agitado,  desde  1893  na  Repujjlica.  E 
na  ameaça  das  revoltas,  na  continuidade  das  arrua- 
ças, na  agitação  primeira  dos  partidos  em  crises 
epilépticas  previsoras  do  adhesismo  lastimável,  co- 
mo politico  firmou  com  um  vigor  inquebravel 
mesmo  á  solicitação  de  amigos  os  principies  do 
respeito  á  Constituição,  curvando-se  a  ella  até  contra 
os  justos  interesses  próprios,  e  os  superiores  e  altos 
sentimentos  da  tolerância  e  da  liberdade,  consen- 
tindo sem  o  sitio  nos  maiores  excessos  de  uma  oppo- 
sição  que  o  atacava  por  elle  não  ter  intervindo  na 
eleição  presidencial  apenas,  emquanto  na  Argen- 
tina Alcorta  eternisava  o  sitio  e  em  varias  republi- 
cas sul-americanas  os  chefes  das  nações  á  menor 
insegurança  empregavam  a  suppressão  de  garantias. 
E  —  phenomeno  que  todos  sentirão  eloquen- 
tíssimo á  proporção  que  o  tempo  fôr  passando  — 
nesse  período  de  arruaça,  de  rolo,  de  ânimos  exal- 
tados, com  uma  coragem  enorme,  porque  não  ha 
coragem  maior  do  que  defender  a  liberdade  do 
inimigo,  pondo  acima  das  divergências  occasionaes 
da  politica  a  sua  pátria,  sustentando,  com  sacrifí- 
cio da  própria  pessoa,  a  tranquillidade  e  a  segu- 
rança do  paiz,  intervindo  nos  estados  com  uma  rec- 
tidão e  uma  consciência  que  nenhum  presidente 
republicano  teve  antes  (porque  todos  teem  no  seu 
activo  vários  governadores  engulidos),  esse  presi- 
dente do  período  mais  agitado  da  Republica,  fez 
desse  período  o  inicio  da  vida  intensa,  o  fim  da 
rotina,  a  transformação  dos  velhos  moldes  admi- 


VIDA    VERTIGINOSA  281 

nistrativos,  foi  o  creador  de  um  Brasil  que  se  reco- 
nhecia, foi  o  Administrador. 

E  o  Administrador  possuidor  do  mysterioso 
talisman  da  vontade,  ao  aceno  do  qual  todas  as 
coisas  obedeciam  e  todas  as  energias  acordavam. 
Só  uma  das  suas  obras  valeria  um  quatriennio. 
Numa  dúzia  e  meia  de  mezes  não  descançou  porém 
um  dia. 

O  segredo  da  sua  politica  unionista  e  forte,  da 
sua  politica  muito  diversa  da  politiquice  comezaina 
dos  partidinhos,  era  a  consolidação  interna  do  paiz, 
o  seu  fortalecimento  pelo  despertar  das  suas  vivas 
energias  naturaes,  ligando-o  á  civilisação  inteira- 
mente pelas  estradas  de  ferro,  querendo-o  rico  pela 
sua  agricultura,  auxiliando  eííicazmente  a  sua  in- 
dustria e  projectando-o  assim  como  o  grande  paiz 
de  amanhã  á  barra  das  nações,  sem  rivalidades  e 
sem  pretenções.  E  fez.  Fez  estradas  de  ferro.  Domi- 
nou a  terra.  Poz  em  execução  o  ministério  que  é  o 
sonho  dos  paizes  novos  e  que  o  nosso,  dito  essencial- 
mente agrícola  não  tinha,  praticando  agricultura  em 
familia.  Consolidou  o  nosso  credito.  Chamou  a  atten- 
ção  de  todos  os  paizes  para  o  nosso,  com  as  rendas 
crescendo,  a  população  a  augmentar  vertiginosa- 
mente, um  sopro  ardente  de  enthusiasmo  ameri- 
cano sacudindo  a  vida  nacional,  e  assim  collocou  o 
seu  paiz  sob  o  prisma  da  sympathia,  principalmente 
das  republicas  sul -americanas  —  obra  sua,  exclusi- 
vamente sua  porque  era  a  applicação  de  idéas  suas 
em  discursos  alguns  dos  quaes  proferidos  ha  mais 

ifi. 


282  JOÃO  DO  RIO 

de  doze  annos,  obra  coroada  no  seu  governo  pela 
visita  de  Saenz  Pena. 

Mas,  o  Sr.  Nilo  Peçanha,  ia  entregar  o  poder  ao 
seu  successor  constitucional.  Mais  três  dias  apenas. 
Então,  vendo- o  assim,  alguém  perguntou -lhe  : 

—  E  que  pensa  V.  Ex.  do  futuro? 

—  Não  tenhamos  as  idéas  antigas  de  ver  sempre 
o  paiz  á  beira  do  abysmo  e  de  ser  contra,  sempre 
contra  todas  as  coisas  boas  ou  más.  O  Brasil  não 
pára  mais  no  caminho  novo.  E'  o  grande  paiz  do 
futuro.  Deixo  o  poder  com  uma  grande  esperança  e 
uma  grande  fé  na  civilisação  proximamente  domi- 
nadora deste  immenso  pedaço  de  terra,  possuidor  de 
todas  as  riquezas  e  destinado  aos  maiores  triumphos. 

Estava  joven,  estava  como  se  todo  o  seu  trabalho 
não  o  tivesse  cançado.  Seria  impossível  pensar  que 
esse  homem  forte,  depois  de  uma  immensa  e  forte 
obra,  o  presidente  democrata  e  o  grande  presidente 
ia  apear-se  da  vida  publica.  Todos  o  olhavam  nesse 
ultimo  suspiro  de  governo,  que  elle  fez  agitado, 
febril,  apotheotico  como  um  começo  de  quatriennio. 
E  ninguém  duvidava  do  futuro,  daquelle  futuro 
em  que  elle  sorridentemente  confia  com  o  seu  labor, 
o  seu  espirito  e  o  seu  consciente  patriotismo.  Não  se 
mostrava  uma  melancholia.  Em  cada  lábio  havia  o 
sorriso  da  esperança  certa.  E  elle  próprio,  tal  a  sua  ju- 
ventude, vibrando  no  calmo  gesto  do  estadista,  era 
a  insopitavel  e  confiante  esperança  da  pátria  nova. 


o   Fim  de  um  Symbolo 


o  FIM  DE  UM  SYMBOLO 


No  ultimo  garden-party  de  uma  associação  de 
caridade,  eu  percorria  com  a  directora  da  festa,  dama 
de  excessivas  virtudes  philantropicas,  os  diversos 
divertimentos,  quando,  em  afastado  recanto,  uma 
barraquinha  afestoada  de  metim  vermelho  chamou 
a  nossa  attenção. 

—  E'  o  Guignol,  imi  authentico  mandado  vir 
de  Paris.  Mais  não  imagina,  meu  caro  amigo,  como 
tudo  custa  nesta  horrível  cidade.  Não  havia  nin- 
guém para  mover  as  marionnettes .  E'  crivei? 

Levantei  as  mãos  para  o  céu,  com  o  gesto  de 
quem  achava  a  falta  clamorante  e  inacreditável.  A 
senhora  directora  animou -se  : 

—  E'  o  que  lhe  digo.  Só  a  muito  custo  é  que 
conseguimos  um  velho  typographo,  que  fala  varias 
linguas,  julga  ser  um  prodígio  de  graça  e  começou 
por  não  trabalhar  com  os  bonecos  vindos  de  Paris. 
E'  o  jacobino  das  marionnettes.  Ghama-se  Baptista. 
Dizem  que  foi  o  creador  do  João  Minhoca. 

—  Que  diz,  minha  senhora?  O  João  Minhoca 


286  JOÃO  DO  RIO 

por  traz  d'aquelles  pannos  vermelhos  e  nós  aqui 
sem  ir  admirar  o  alegre  agitador  da  nossa  meninice? 
V.  Ex.  ha  de  permittir  mas  eu  entro. 

—  Ha  lá  dentro  creanças  e  bonecos. 

—  As  duas  únicas  creações  de  Deus  que  se 
pôde  amar  sem  receio. 

Depois  desta  phrase  evidentemente  amarga,  mer- 
gulhei no  metim.  Era  um  canto  do  parque  com 
grandes  arvores  verdes  e  bancos  pintados.  Ao  fun- 
do o  theatrinho,  na  platéa  um  sonoro  bando  de 
creanças,  meninas  loiras  com  grandes  chapéus  e 
mitaines  alvas,  petizes  enfardelados  em  roupas  á 
marinheira,  amas  solemnes  de  touca.  Um  riso  jovial 
alegrava  o  ar. 

—  Que  estão  a  representar?  perguntei  a  uma 
pequenita  que  trepara  no  banco  para  melhor  ver. 

—  E'  o  pretinho,  respondeu  ella,  é  o  Minhoca... 

—  MUe,  corrigiu  ao  lado  a  noiínou^  Mlle,  diga 
direito.  Estão  a  representar  o  Giiarany. 

Mas  não  era  preciso  a  informação.  Por  traz  de 
uma  arvore,  vestido  de  indio,  eu  via  a  cara  malan- 
dra e  preta  de  João  Minhoca^  que  espiava  e  fugia 
para  tornar  a  espiar.  E  não  sei  porque,  no  riso  das 
creanças,  tão  claro  riso  que  mais  parecia  o  trinado 
dos  pássaros,  comecei  a  rir  como  não  ria  ha  dez 
annos.  Estava  em  scena  um  boneco  branco.  O  boneco 
era  o  Aventureiro^  e  cantava  a  celebre  canção  com 
um  burlesco  tal,  uma  ironia  tão  disparatada,  tão 
infantil  que  a  pequenada  toda  gargalhava  da  obra 
do  venerável  Alencar  e  do  venerável  Carlos  Gomes. 


VIDA  VERTIGINOSA  287 

A  canção  era  simplesmente  inacreditável.  Uma 
só  voz  roufenha,  uma  voz  de  ventriloquo  grasnava 
casquinava  as  palavras  com  um  fogo  impetuoso. 

Oh!  que  graça! 
Fazer  nada, 
Estar  na  cama 
Descançar! 

A  pequenada  desfechava  em  palmas  e  o  fanto- 
che, duro,  impassivel,  malandro,  parecia  ser  o  pró- 
prio a  dizer  todas  as  barbaridades  do  disparate 

De  pastinhas,  embonecado 
Pela  rua  de  Sabão 
Principiando  nosso  azeite 
Bebendo  vinho  «  bão)) 

E  continuaria  na  impetuosidade  da  musica  se 
de  repente  João  Minhoca,  de  um  pulo,  não  lhe 
caisse  em  cima  :  —  Hespanhol  de  uma  figa  vaes  ver 
o  china-secco  !  Gecy  não  é  para  o  teu  beiço  ! 

Havia  rolo,  havia  apitos,  havia  gritos,  as  crean- 
ças  enchiam  o  ar  dos  timbres  argentinos  do  seu  riso. 
Em  João  Minhoca  sorriam  apenas  esboçados,  todos 
os  instinctos  dos  espectadores,  e  eu  tive  vontade 
de  ir  ao  bastidor  ver  de  perto  esse  symbolo  irreve- 
rente. 

João  Minhoca  foi  absolutamente  nacional  nesta 
cidade  de  colónias  e  imitações.  A  arte  de  animar 
bonecos  existiu  sempre  desde  os  mais  remotos  tem- 


288  JOÃO  DO  RIO 

pos.  O  homem  devia  ter  reproduzido  as  próprias 
formas  e  os  próprios  gestos  para  ousar  depois  ima- 
ginar a  dos  deuses.  Já  nos  hypogeus  do  Egypto 
appareciam  uns  fantoches  acompanhando  a  morte 
e,  no  vale  do  Nilo,  sob  a  dynastia  dos  Tutmés  os 
mecânicos  que  moviam  os  bonecos  chamavam-se 
solemnemente  nevrospathas.  Em  Athenas  nos 
theatros  de  Bacchus  a  arte  subtil  de  fazer  viver  as 
angustias  da  vida  por  pequenos  actores  de  madeira 
de  tal  modo  agradava  que  até  disso  se  fez  um  mo- 
nopólio usufruido  por  Pothinos.  Em  Roma  o  segil- 
lionus  e  o  imaguneula  intrepretavam  nos  bairros 
escuros  scenas  livres  capazes  de  atordoar  Plauto,  e 
desde  a  edade  média,  em  que  o  fantoche  desce  dos 
altares  para  representar  os  mysterios,  cada  povo, 
cada  paiz  tem  o  seu  boneco,  symbolo  dos  seus  cos- 
tumes. Todas  as  províncias  da  Itália  arvoram  esse 
fantoche  com  um  nome  diverso  nas  feiras  dos 
puppí  e  dos  honifrates.  Punch  ridicularisa  os 
inglezes  depois  de  ser  um  dos  puppets  que  repre- 
sentavam para  a  rainha  Elisabeth  as  tragedias  de 
Shakspeare,  e  a  Allemanha  mostra  ás  creanças  o 
Hanswurt  como  a  índia  o  Ranguin^  a  França  Poli- 
chínelle  e  a  Turquia  Karagueuz^  o  depravado  pae 
do  theatro  islâmico.  Nós  tivemos  João  Minhoca  que 
foi  a  nossa  vida  no  que  ella  tinha  de  pessoal  —  com 
as  suas  rasteiras,  os  negrinhos  malandros,  o  calão,  a 
ironia  despreoccupada,  e,  quando  já  nos  habituá- 
vamos a  perdel-o  também  como  temos  perdido  todas 
as  tradicções  poeticamente  inúteis,  eu  ia  encon- 


VIDA    VEHTKilNOS.V  289 

trar  a  face  experta  do  mariola,  fazendo  rir  as  crean- 
ças  de  hoje  como  fizera  rir  as  de  hontem  ! 

Uma  grande  commoção  prendia-me  ao  banco 
entre  a  álacre  e  christalina  jocundidade  das  crean- 
ças,  mas,  de  súbito,  duas  bombas  estoiraram  en- 
chendo o  palco  minúsculo  de  fumo  e  quando  o  fumo 
se  dissipou,  ao  clarão  vermelho  dos  fogos  de  ben- 
gala eu  vi  João  Minhoca  de  joelhos  conduzindo 
Maricota  para  o  infinito,  entre  as  palmas  verdes  da 
palmeira.  Tinha  terminado  o  Guarany  e  o  demónio 
preto  de  novo  se  perdia. 

Fiquei  na  platéa  deserta  agora.  Começava  a  cho- 
ver. Vagarosamente  o  panno  do  theatro  subiu  e 
nessa  quasi  escuridão  appareceu  a  cara  bonanchei- 
rona  de  um  velho  de  óculos. 

—  E'  o  senhor  o  inventor  do  João  Minhoca'^ 

—  Sim  meu  senhor,  sim  sou  eu,  ou  antes  fui. 
Olhe  que  se  molha.  A  festa  acaba  com  chuva.  Antes 
assim.  Não  me  aborreço  mais.  E'  a  ultima  vez  que 
trabalho.  Entre. 

Accedi  ao  convite.  Gonvidava-me  um  artista  que 
na  sua  ascendência  tinha  os  nomes  de  Basoche  e 
Pagotin,  e  nessa  caixa  de  theatro  eu  iria  de  certo 
encontrar  menos  vaidade  e  menos  pintura  que  nos 
theatros  considerados  sérios.  Havia  uma  quasi 
penumbra  no  pequeno  espaço.  Uma  arca  aberta 
deixava  ver  uma  infinidade  multicor  de  fatos  de 
bonecos.  Numa  prateleira,  arrumados  e  graves,  o 
Aventureiro,  D.  Diogo,  Maricota  e  João  Minhoca 
olhavam  sem  ver  a  treva  que  crescia. 


290  JOÃO  DO  RIO 

—  São  estes  os  bonecos? 

—  Tenho  doze  :  João  Minhoca,  Maricota,  um 
galã/um  velho,  uma  velha,  a  donzella,  a  sogra,  satã 
naz  e  a  caveira. 

—  A  caveira? 

—  Como  é  possivel  a  vida  sem  a  morte?  Todos 
elles  foram  feitos  em  1880  por  um  entalhador  hábil. 
As  cabelleiras  fazia-as  o  Baptista  a  cinco  mil  réis. 
as  roupas  uma  costureira  dos  theatros.  São  os  res- 
tos do  Theatro  de  João  Minhoca,  bahiano  da  fre- 
guezia  de  Santo  António,  além  do  Carmo.  Vou  dar 
tudo  isso. 

Sorriu  com  melancolia,  atirou  dentro  da  área 
o  Satanaz. 

—  Já  não  se  pode  representar ! 
Eu  me  sentei  no  único  banco  vago. 

—  Escreveu  o  seu  repertório,  sr.  Baptista? 

—  O  meu  repertório?  Tolices,  invenções  para 
fazer  rir  as  creanças,  troças  ás  peças  em  moda... 
para  que?  Tenho  umas  vinte  peças  :  Os  Milhões  do 
Diaho^  O  Guarany,  As  proezas  do  João  Minhoca, 
Aida,  A  defunta  viva,  Drama  no  alto  mar,  Os  Hu- 
guenottes,  O  marquez  de  Pombal,  Os  Piratas,  Bar- 
beiro de  Sevilha,  A  Romã  Encantada,  D.  Joanita 
de  Molho  Pardo,  Boccacio,  A  Cabana  de  Belém,  Os 
Moedeiros  Falsos.  Talvez  hoje  não  possa  reproduzir 
aspilherias  do  outro  tempo.  Faziamagicas,  comedias, 
operas,  representava  revistas  —  só  Dizem  que  ha 
volumes  de  Theatro  para  creança.  Nunca  os  li.  O 
João  Minhoca  nasceu  de  um  accaso.  O  Recreio  cha- 


VIDA    VERTIGINOSA  291 

mava-se,  em  1880,  Brasilian-Garden.  Para  o  Brasi- 
lian-Garden  chegara  uma  companhia  de  fantoches 
do  senhor  Lupi.  Liipi  tmha  bonecos,  mas  não  tinha 
vozes.  Podia  haver  nesse  tempo  a  senhora  Pepa 
prompta  a  vestir  todos  os  papeis  de  uma  revista 
inteira  mas  o  Fregoh  era  desconhecido.  Um  amigo 
do  emprezario  inculcou-me  :  —  Ha  na  typogra- 
phia  do  Jornal  um  rapaz  chamado  Baptista  que  imi- 
ta todas  as  vozes,  assobios  e  sons  de  instrumentos. 
Aproveita-o.  —  Lupi  mandou  chamar-me,  offe- 
recendo  dois  mil  réis  por  noite.  —  Nessa  não  caio, 
disse  eu,  ganho  cinco  no  Jornal.  Olhe,  experimen- 
temos uma  noite.  Se  agradar  paga-me  o  mesmo  que 
o  Jornal.  Gomo  eu  ia  nervoso  e  que  successo !  O 
Theatro  ficava  repleto  todas  as  noites  e  eu,  ga- 
nhando apenas  cinco  mil  réis,  sentia  na  garganta  a 
sensação  de  estar  sendo  explorado. 

—  Das  sensações  más  é  sempre  a  peior. 

—  Quando  Lupi  partiu  levando  os  fantoches  e  a 
bolsa  cheia,  eu  comecei  a  pensar.  Fazer  um  thea- 
tro com  bonequinhos  brasileiros,  arranjar  uns  typos 
bons.  Mas  quem  seria  capaz  de  adiantar  capitães 
para  uma  grande  companhia  de  fantoches?  Reduzi 
as  proporções  do  desejo,  reduzi-as  a  uma  dúzia  de 
bonecos  de  dois  palmos.  Quem  moveria  os  bone- 
cos? Eu.  Quem  escreveria  as  peças?  Eu.  Quem  fa- 
laria? Eu.  Um  mez  depois  eu  inventava  João  Mi- 
nhoca, bahiano  da  freguezia  de  Santo  António... 

Não  se  pergunta  ao  génio  como  chegou  a  con- 
ceber o  prodigio.  Deante  do  génio,  que  modesta- 


292  JOÃO  DO  RIO 

mente  falava,  não  lhe  perguntei  a  concepção  de 
João  Minhoca.  Disse-lhe  apenas  umas  palavras 
simples. 

—  Eu  aprecio  muito  os  seus  bonecos. 

—  Toda  a  gente  os  apreciou  !  fez  o  velho.  Eu 
entrei  na  Guarda-Velha.  O  Machado,  dono  da  hras- 
serie  em  que  se  tomava  cerveja  a  sete  vinténs  o  copo 
mais  os  tremoços  cedeu-me  grátis  um  canto  do 
jardim.  Eu  annunciei  os  Milhões  do  Diabo ^  e  ás 
6  horas  da  tarde  a  Guarda-Velha  apanhava  uma 
enchente  formidável.  O  Machado  estava  contente. 
Eu  alugara  um  homem  para  pedir  nickeis  aos  con- 
sumidores. O  publico  rio  a  morrer,  applaudiu  e 
depositou  no  prato  tremoços  e  pontas  de  cigarros. 
Isso  assim  não  serve,  resmunguei  cá  commigo.  No 
outro  dia  a  mesma  coisa.  Então  coijibinei  com  o 
Machado  fazer  uma  separação  pagando-se  duzentos 
réis  a  entrada.  Gontractara  a  orchestra  e  annunciei. 
As  proezas  do  João  Minhoca  em  que  o  negrinho 
dançava  pela  primeira  vez  no  Rio  uma  dança  depois 
famosa  —  o  fandaguassu.  Fiz  nessa  tarde  sessenta 
e  sete  mil  réis !  E  depois  foi  sempre  assim.  O  di- 
nheiro entrava-me  pelas  algibeiras.  Dei  para  gastai- 
o  a  rodo.  Jogava,  era  roubado  pelos  cobradores,  e, 
no  fim  para  envergonhar  os  outros  sérios,  foi  o  João 
Minhoca  o  primeiro  theatro  que  fardou  os  seus  por- 
teiros. 

—  Exemplo  digno,  que  até  hoje  é  mal  seguido... 

—  O  meu  theatro  tinha  cartazes  com  desenhos  e 
gente  notável  o  foi  ver.  Uma  vez,  que  João  Minhoca 


VIDA   VERTIGINOSA  293 

cantava  a  Aida  appareceram  na  platéa  Castel- 
mary,  Robeso,  Rossi,  a  Durand.  Rossi  saiu  por  ulti- 
mo e  quando  o  negrinho  cantava  a  parodia  da  ária 
do  ultimo  acto  da  opera. 

Adeus  bananas  e  cajás 

gritava  na  platéa,  a  rir  :  —  Per  dio!  buffone  questo 
Joon  Minhoca...  Oh !  meu  senhor,  que  vida  de  glo- 
ria !  As  imitações  appareceram  logo,  o  Theatro  In- 
fantil^ o  Philomena  Borges ;  mas  cairam  todos.  Os 
jornaes  falavam  'de  mim,  os  emprezarios  celebres 
descompunham-me  !  Foi  por  essa  occasião  que  dei- 
xei a  Guarda-Velha  e  parti  para  Petrópolis  a  dar 
espectáculos  no  salão  do  Hotel  Bragança.  O  suc- 
cesso  seguiu-me,  o  salão  estava  sempre  cheio  apezar 
de  se  cobrar  caro  porque  a  Gamara,  a  Collectoria 
e  outras  repartições  esfolavam -me  com  os  impos- 
tos. Um  dia  vieram-me  dizer  :  Você  deve  convidar 
S.  Magestade.  —  O  imperador?  para  ver  os  meus 
pobres  bonecos?  Está  maluco?  Não  vou.  —  Nessa 
mesma  tarde  appareceu  o  altíssimo  Paiva  :  —  Por 
que  não  vaes  convidar  S.  Magestade?  —  Deus  me 
livre  !  —  Vae,  é  a  praxe.  S.  Magestade  tem  desejo 
de  assistir  ao  espectáculo...  Que  fazer?  Senti  um 
aperto  no  coração  não  sei  si  de  satisfação  si  de  medo 
mas  no  outro  dia  fui  ao  palácio.  Entrei  pelo  jar- 
dim, fui  dar  nos  fundos  do  edifício  o  ahi  encontrei 
uma  velha  de  olhar  bondoso.  Por  onde  se  fala  com 
S.  Magestade?  —  Vae  por  ah,  meu  filho...  —  Em 


294  JOÃO  DO  RIO 

meio  do  caminho  encontrei  um  mordomo.  --  S. 
Magestade?  —  E'  por  ali,  disse  elle.  —  Mas  a  velha 
que  está  no  fundo  do  jardim  diz  que  é  por  aqui.  O 
mordomo  abriu  numa  gargalhada.  —  A  velha  é 
S.  Magestade  a  Imperatriz... 

—  Baptista,  a  sua  historia  é  maravilhosa.  Deve 
começal-a  sempre  como  nas  lendas  encantadas.  — 
Era  num  paiz  em  que  a  soberana  chamava  nos  jar- 
dins os  humildes  de  filhos... 

—  Eu  conto  a  verdade.  Quando  o  mordomo  disse 
isto  embarafustei  pela  primeira  porta  meio  apate- 
tado. Dei  numa  sala  em  que  todos  estavam  de 
casaca  e  me  mediam  de  alto  a  baixo.  Eu  estava 
envergonhadíssimo.  Appareceu  o  Paiva,  passou  a 
mão  pelo  meu  hombro  e  eu  ouvi,  emquanto  todos 
se  perfilavam,  uma  voz  que  bradava  :  —  S.  Mages- 
tade !  Na  escada  foi  apparecendo  o  imperador.  Ea 
tremia  e  recuava.  Afinal  murmurei  collado  á  pare- 
de :  —  Tenho  a  subida  honra  de  convidar  V.  Ma- 
gestade a  assistir  ao  meu  espectáculo  de  bonecos. 
—  Sim,  sim;  terei  prazer,  fez  o  monarcha  com  uma 
vozsinha  fina,  passando  adiante... 

Desappareci  e  annunciei  o  espectáculo  honrado 
com  a  augusta  presença  de  SS.  MM.  e  AA.  II.  Todo 
o  corpo  diplomático  appareceu,  depois  de  ter  hdo 
o  annuncio. 

—  E'  a  funcção  desse  corpo,  Baptista. 

Que  noite  !  O  throno  tinha  sido  armado  em  cai- 
xões cobertos  de  velludo,  a  orchestra  era  composta 
dos  três  irmãos  Alberti.  Eu  imaginava  um  monologo 


VIDA    VERTIGINOSA  295 

de  João  Minhoca  :  Viagem  a  i'olta  do  mundo  no 
balão  Júlio  César.  A  Imperatriz  quando  falei  de 
Nápoles  começou  a  rir.  O  Imperador,  a  principio 
conteve-se  mas  depois  sorriu.  Que  lhe  dizer  mais? 
Estaria  recompensado  do  valor  que  me  apregoa- 
vam apenas  com  a  sua  presença. 

Anoitecera  de  todo,  o  Baptista  accendera  uma 
vela.  Fora  a  chuva  tamborinava  nas  plantas. 

—  E  depois?  indaguei. 

—  Depois  vim  para  o  Polytheama  no  verão 
de  1883,  estreando  com  o  Drama  no  alto  mar  e 
comecei  as  tournées.  Em  quatro  annos,  fora  todas 
as  ladroeiras  de  que  era  victima,  tive  de  lucro  cen- 
to e  cincoenta  contos.  Comecei  as  viagens  pela 
Barra  do  Pirahy,  percorri  Minas,  S.  Paulo,  Rio  de 
Janeiro.  Em  Santos,  no  Rink,  os  camarotes  de  seis 
mil  réis,  eram  vendidos  por  cem,  em  Juiz  de  Fora 
as  cadeiras  custavam  dois  mil  réis,  em  Vassouras 
João  Minhoca  foi  tomado  por  abolicionista.  Os  ba- 
rões de  Gananéa,  Amparo  e  Massambará  julgaram 
que  o  negrinho  pregava  o  desrespeito  ao  branco  e 
mandaram  os  escravos  impedir  o  espectáculo.  Com 
o  dinheiro  de  João  Minhoca  montei  um  estabeleci- 
mento commercial  e  arruinei-me.  Quando  quiz  re- 
começar, na  Republica,  os  bonecos  pagavam  tantos 
impostos  como  os  theatros  sérios  e  a  invasão  estran- 
geira, o  guignol  apparecera.  Mas  eu  contei  a  minha 
historia !  E'  como  um  testamento.  João  Minhoca 
deu  hoje  o  seu  ultimo  espectáculo.  Já  não  tenho 
vóz,  já  não  tenho  graça... 


296  JOÃO  DO  RIO 

Agarrou  Maricota,  o  Aventureiro,  D.Diogo,  ati- 
rou-os  com  fúria  á  arca.  Só  João  Minhoca,  relu- 
zente como  um  deus  africano,  ficara,  João  Minhoca 
que  resumira  a  vida  de  uma  cidade,  na  rasteira,  no 
namoro,  na  politica,  no  theatro,  na  chalaça,  João 
Minhoca  capoeira,  fidalgo,  inventor  de  balões,  abo- 
licionista !  Baptista  pegou-o  com  raiva. 

—  E  tu  também  ! 

Atirou-o  sobre  os  outros.  O  boneco  parecia  rir. 
Fechou  a  arca.  Sentou-se  como  querendo  esmagar 
com  o  próprio  pezo  o  seu  theatro  e  o  imperecivel 
riso  de  João. 

—  Duas  phrases  eu  as  guardo  até  hoje  desse  pe- 
riodo  de  gloria.  A  primeira  escreveu-a  Luiz  de  Cas- 
tro, o  urso  branco,  no  Jornal :  —  O  João  Minhoca  é 
a  salsaparrilha  do  nosso  theatro ! 

— -  Hoje  seria  preciso  um  depurativo  mais  forte. 

—  A  outra  disse-me  o  Imperador,  á  beira  do 
Piabanha  :  —  O  seu  theatro.  Baptista,  é  muito 
interessante.  Volto  a  vêl-o  hoje. 

—  Esses  dois  homens  guardavam  a  clara  intel- 
ligencia  dos  hellenos,  meu  pobre  amigo.  Só  os 
espiritos  grandemente  raros  comprehendem  a  subti- 
leza dos  symbolos  populares. 

Mas  a  minha  phrase  não  foi  ouvida.  Um  cavalheiro 
elegante,  de  guarda-chuva  a  pingar,  irrompera  : 

— •  Oh  !  homem,  ainda  aqui?  Precisamos  fechar  o 
jardim.  Os  seus  bonecos  custam  a  despir-se.  Safa ! 
Depois,  dando  commigo  : 

—  Aposto  que  esteve  a  falar  do  imperador  e  a 


VIDA    VERTIGINOSA  297 

atacar  o  Guignol.  Esse  Baptista  !  Meu  caro  despache 
os  seus  bonecos.  No  Rio  já  não  temos  nem  rasteiras 
nem  moleques.  Despache  os  bonecos  e  vá  dormir. 
Baptista  sorria,  endireitando  os  óculos.  Eu  sairá 
para  a  escuridão  da  noite.  E  sempre  me  pareceu 
sob  a  chuva,  que  o  céu  chorava,  na  indiííerença 
obtusa  d'aquella  festa  elegante,  a  morte  irreparável 
do  boneco  symbolo  da  nossa  vida  e  da  alegria  das 
creanças  de  hontem... 


17. 


o   Homem   que  queria  ser  rico 


o  HOMEM  QUE  QUERIA  SER  RICO 


O  homem  que  queria  ser  rico  foi  um  dia  á  For- 
tuna. 

—  Fortuna,  disse  elle,  eu  tinha  vontade  de  ter 
dinheiro,  porque  o  dinheiro  é  até  agora  o  melhor  ele- 
mento de  felicidade.  Xão  digas  que  eu  tenho  ambi- 
ção desmedida.  Tenho  ambição  igual  á  de  toda 
gente,  nem  mais  nem  menos.  E  talvez  a  causa  dessa 
vontade  seja  a  resultante  do  pavor,  do  terror  de 
ver-me  um  dia  impossibilitado  de  trabalhar,  a 
morrer  de  fome.  Os  ignorantes  chamam -te  de  cega. 
E's  irónica,  apenas.  Dás  aos  idiotas  o  dinheiro.  E 
dás  aos  intelligentes  também.  Dás  ao  maior  numero. 
O  mundo  parece-me  uma  grande  negociata,  donde 
só  eu  não  me  arranjo  !  Fortuna,  não  rias  !  Faze-me 
ganhar  dinheiro,  faze-me  ! 

O  homem  que  queria  ser  rico  estava  de  joelhos. 
A  fortuna  cessou  de  rir. 

—  Meu  caro,  o  teres  dinheiro  é  uma  questão 
da  vondade  do  Destino.  A  minha  roda,  como  todas 
as  rodas,  mesmo  as  mais  mecanicamente  certas, 


302  JOÃO    DO    RIO 

roda  para  onde  elle  quer.  Pôde  haver  bandalheira, 
mas  é  por  sua  vontade. 

—  Então  eu...  Fortuna,  soluçou  o  pobre  homem. 

—  Tu  propriamente  não  és  infeliz,  senão  porque 
queres  ser  rico.  Tenta-o  pois.  A's  vezes  o  Destino 
deixa  se  enternecer... 

—  Gomo? 

—  Fazendo  o  que  os  outros  fazem... 

O  homem  que  queria  ser  rico  amava  o  luxo  e  era 
honesto.  Despresou  o  luxo  e  começou  a  encarar  a 
honestidade  como  um  escrúpulo  pernicioso.  Tinha 
amigos  talvez,  si  é  possivel  que  neste  mundo  vindo 
de  Caim  e  Abel  haja  amizades.  Tinha  sympathias. 
Resolveu  ver  no  homem  apenas  um  bicho  a  explo- 
rar. De  manhã,  ao  acordar,  andando  pelas  ruas 
durante  o  dia,  ao  almoço,  ao  jantar,  ao  dormir, 
a  preoccupação  de  arranjar  dinheiro  verrumava- 
Ihe  o  cérebro.  Era  preciso  uma  grande  somma, 
uma  somma  para  o  banco  !  E,  curvado  sobre  o 
trabalho  ou  á  caça  delle,  a  idéa  apunhalava-o  :  — 
dinheiro  ! 

O  dinheiro  vinha,  mas  vinha  pouco,  á  custa  do 
seu  suor.  O  homem  juntava  as  pequenas  notas  até 
fazer  uma  grande  e  nesse  dia  delirava. 

— •  Não  a  troco  nem  que  esteja  para  morrer  !  Na 
semana  que  vem  talvez  arranje  outra  ! 

E'  alguma  coisa  :  um  conto  !  Quando  tiver  dez 
ponho-os  no  banco  ! 

Mas  na  semana  seguinte  havia  atrazos  de  paga- 
mentos, regeitavam-lhe  serviço,  havia  o  imprevisto 


VIDA    VERTIGINOSA  303 

e  elle  tinha  de  trocar  a  única  nota  —  porque  tanto 
falava  em  contos  de  réis  que  os  fornecedores  não 
lhe  deixavam  a  porta.  Verdade  é  que  o  contratempo 
vinha  com  esperança.  Um  sujeito  approximava-se. 

—  Quer  você  fazer  um  negocio? 

Era  sempre  uma  questão  de  influencia,  de  jogos 
de  dinheiro,  de  deshonestidade.  O  homem  que  que- 
ria ser  rico  compromettia-se  logo  sem  a  menor  ver- 
gonha. 

—  Qual !  O  trabalho  honrado  não  dá  fortuna  a 
ninguém  !  Trabalha- se  para  não  morrer  de  fome 
e  enriquecer  os  outros.  O  negocio  é  tudo  ! 

E  vinham -Ihíí  á  mente  historias  fabulosas  de 
cavalheiros  a  que  a  advocacia  administrativa  dera 
fortuna,  ladrões  do  estado  millionarios,  propostas 
acceitas  com  gordas  commissões. 

—  Ora,  se  não  acceito !  Acceito !  Amanhã 
mesmo... 

E  mentahnenle  ia  calculando  os  negócios  :  d'aqui 
um  conto,  d'alli  três,  (Facolá  vinte.  Talvez  uma  vez 
podesse  fazer  quarenta  contos.  Quantos  compa- 
nheiros do  seu  tempo  de  menino,  quasi  analphabetos, 
estavam  ricos,  com  automóveis,  prédios.  Ter  di- 
nheiro, poder  não  fazer  nada  com  a  existência  garan- 
tida, agir  conforme  a  fantasia  própria ! 

Porque  a  amante  o  roubasse  um  pouco  á  idéa 
fixa,  abandonou-a,  e,  muita  vez,  nos  grupos  ficava 
como  esquecido,  impotente  para  conter  a  onda 
tumultuosa  de  pensamentos,  de  plano,  de  idéas 
para  arranjar  o  dinheiro  —  que  o  desvairava  quasi. 


304  JOÀo  DO  RIO 

Mas  os  negócios  não  se  realisavam.  Uns  depois 
da  proposta  passavam  adeante  sem  satisfação; 
outros  eram  tomados  mais  gordamente  pelos  de 
fora.  E  essa  gente  que  o  lubidriava  e  figurava  no 
grande  baiie  dos  panamás  de  toda  ordem  —  sorria 
apertava-lhe  a  mão  como  si  não  tivesse  preoccupa- 
ções  graves. 

Que  diíTerença  ! 

No  seu  cérebro  as  circumvoluções  entumeciam- 
se;  o  desespero,  a  vergonha,  a  ambição  giravam- 
Ihe  em  vertigem  dentro  do  craneo.  O  pobre  homem 
que  queria  ser  rico  voltava  ao  labor  sério. 

—  Que  se  ha  de  fazer?  Não  nasci  para  as  tra- 
palhices.  Ao  menos  o  trabalho  dá  para  se  viver ! 

Então,  como  um  furo  de  grampo  atravessava- 
Ihe  o  cérebro  a  idéa  :  e  se  não  podesse  mais  traba- 
lhar? E  teria  de  toda  a  vida  fazer  o  mesmo,  sem 
cansar,  quando  tudo  cansa,  quando  o  próprio  aço 
quebra  de  cansado?  Ah!  era  preciso  ser  rico,  era 
preciso  arranjar  dinheiro,  massos  de  notas  a  ren- 
der. E  elle  teria,  elle  havia  de  ter,  porque  querer  e 
força  de  vontade  são  as  duas  alavancas  do  mundo. 

Extenuava-se  de  novo  no  trabalho.  A's  pessoas 
que  apparentavam  riqueza  ou  que  tinham  mostrava 
sempre  a  jactância  de  igual  em  sorte.  Os  sujeitos 
que  tiravam  a  grande  na  loteria,  os  roleteiros  e 
bolsistas  fehzes,  os  meninos  com  dote,  os  emprei- 
teiros milionários,  os  typos  amigos  Íntimos  das 
altas  posições  causavam-lhe  ironias  e  desprezo. 

—  Também  eu  hei  de  ter ! 


VIDA    VERTIGINOSA  305 

E  OS  annos  iam  passando.  O  homem  que  queria 
ser  rico  não  notava  que  perdera  o  cabello,  que  já 
corcovava  e  que  de  facto  não  tinha  vivido  na  vida 
normal.  Não  se  divertira  nos  bailes,  não  dansára, 
não  pulara,  não  cantara,  não  assobiara.  Nem  asso- 
biara quando  o  assobio  é  o  mais  libertário  trans- 
porte permittido  pela  educação.  As  mulheres,  os 
prazeres,  os  carinhos  da  amizade  não  os  tivera.  De 
manhã  á  noite  só  a  grande  vontade  de  ser  rico,  de 
ter  dinheiro,  não  muito,  qualquer  coisa,  o  bastante 
para  ter  tempo  de  entrar  na  vida.  E  suando,  arfan- 
do, batendo  a  enxada  no  terreno  safaro,  os  seus 
olhos  viam  sem  ver,  por  deante  delle  passar  a  tor- 
rente da  existência  feita  de  risos,  de  lagrymas,  de 
fúrias  de  ambições,  de  desesperos,  apenas  sem  aquellc 
caracter  de  excepção. 

Um  dia,  ao  sahir  de  casa,  o  homem  topou  uma 
carteira.  Abriu-a.  Tinha  um  cheque  ao  portador 
sobre  um  banco.  Encostou-se  a  uma  parede,  allu- 
cinado.  E  nem  um  segundo  passara,  deante  delle  um 
cavalheiro  correcto,  dizia  : 

—  Muito  obrigado  IFehzmente  o  senhor  achou-a. 

—  E'  sua? 

—  Perdi-a  ha  dez  minutos.  Estava  louco ! 
Obrigado. 

O  homem  que  queria  ser  rico  vio  que  lhe  toma- 
vam a  fortuna  e  sem  coragem  de  reagir  quedou-se, 
desilludido.  Era  impossível !  Evidentemente  era 
impossível !  Quanta  gente  acha  carteiras,  quanta 
gente  as  rouba  mesmo  sem  as  restituir?  A  elle,  só 


306  JOÃO    DO    RIO 

a  elle  que  queria  ser  rico  é  que  acontecia  tamanho 
caiporismo  !  Teria  de  ser  toda  vida  um  pobretão, 
indo  cada  vez  mais  para  a  miséria,  andando  a  pé 
quando  sonhava  automóveis,  morando  em  bibocas 
quando  imaginava  palácios,  vestindo  pannos  gros- 
sos quando  desejava  c  contacto  de  tecidos  precio- 
sos. Foi  andando  trôpego  pela  rua,  enveredou  por 
um  jardim,  sentou-se  num  banco,  muito  triste.  Que 
fazer  mais?  Resignar-se?  Não  pensar  mais  em  ser 
rico?  A  essa  idéa  rilhou  os  dentes,  torceu  os  braços 
de  raiva !  Oh !  não  poder  fazer  o  que  queria,  não 
conseguir  o  seu  fim  ! 

—  Porque  entregaste  a  carteira?  perguntou- 
Ihe  uma  voz. 

Voltou-se  e  vio  a  Fortuna,  que  sorria  amavel- 
mente, porque  o  sorriso  da  Fortuna  é  como  o  das 
meretrizes,  sem  significação  de  sympathia. 

—  Não  me  fales  !  Não  me  fales  !  Podias  ter  sido 
ao  menos  leal  comigo  !  Vê.  Estou  velho,  magro, 
corcovado,  extenuado,  sem  cabello,  sem  viço,  sem 
idéas.  Só  penso  numa  coisa  :  em  fazer  dinheiro,  e 
cada  vez  mais  raro  o  dinheiro  nas  minhas  mãos,  eu 
sinto,  estás  a  ouvir?  sinto  que  tudo  quanto  passa 
se  pôde  converter  em  moedas  para  quem  tem  sorte  ! 
E'  o  final  da  moléstia.  Não  posso  mais. 

—  Mas  tu  tens  sido  infeliz? 

—  Ainda  o  perguntas ! 

—  Vejo-te  sempre  com  algum  dinheiro. 

—  Algum  dinheiro  que  diminue,  não  cresce, 
mingua,  não  augmenta,  encurta.  Algum  dinheiro, 


VIDA    VERTIGINOSA  307 

sempre  algum  dinheiro  para  dar-me  a  angustiosa 
idéa  de  que  se  vae  sumir  de  todo  para  nunca  mais 
voltar.  Algum  dinheiro  !...  Era  melhor  não  ter  ne- 
nhum, era  melhor  viver  sem  uma  moeda  de  cobre 
para  não  ter  a  esperança.  Esse  dinh?iro  que  me 
dás  em  troca  do  suor  da  minha  agonia  é  o  chumbo 
que  me  prega  ao  desespero  ! 

Então  a  Fortuna  sorrio  piedosamente. 

—  Tens  razão.  Mas  que  se  ha  de  fazer?  Os  ma- 
nuaes  de  enriquecer  são  mentiras.  Para  fazer  di- 
nheiro é  preciso  não  pensar  apenas  em  fazer  di- 
nheiro. O  dinheiro  está  no  fim  das  coisas  ou  no  come- 
ço. Não  se  deve  ser  nem  muito  trabalhador  m^m 
muito  ladrão.  Mas  é  preciso  ser  as  duas  coisas  a 
propósito,  vivendo.  Tu  esqueceste  de  viver.  Sem 
viver  não  se  aproveita  a  occasião.  Aquella  carteiri 
não  era  da  pessoa  que  t'a  tomou.  Si  soubesses  viver, 
não  a  terias  entregue.  Fica  sabendo,  meu  caro,  que 
não  basta  querer  ser  rico  para  o  conseguir.  E'precÍ50 
saber  guardar  as  carteiras  e  interessar-se  pelos  que 
as  perderam. 

—  A  Fortuna  não  deve  philosophar. 

—  E'  a  única  coisa  que  não  custa. 

O  homem  que  queria  ser  rico,  simplesmente  rico, 
sem  outra  qualidade,  curvou  a  cabeça,  ergueu-se, 
e  deixou  o  banco  onde  estivera  com  a  Fortuna.  Ao 
sahir,  olhou  para  trás  e  ainda  a  vio,  que  lhe  dizia 
adeubí. 

Nesse  mesmo  dia,  ao  passar  por  umas  obras, 
cahio-lhe  um  andaime  cm  cima,  quebrando-lhe  uma 


308  JOÃO    DO    RIO 

perna.  Remettido  para  o  hospital,  o  homem  exigio 
do  dono  do  andaime  uma  indemnisação  louca. 
Obteve-a.  Estava  com  dinheiro  grosso. 

E  desde  então  começou  de  enriquecer,  convencido 
de  que  o  que  tem  de  ser  tem  muita  força  e  que  não 
são  os  que  procuram,  a  fortuna  os  que  mais  depressa 
a  obtém... 


Um  mendigo  original 


UM  MENDIGO  ORIGINAL 


Morreu  traz-ante-hontem,  ás  7  da  tarde,  de  uma 
congestão,  o  meu  particular  amigo,  o  mendigo 
Justino  António. 

Era  um  homem  considerável,  subtil  e  sórdido, 
com  uma  rija  organisação  cerebral  que  se  estabelecia 
neste  principio  perfeito  :  a  sociedade  tem  de  dar- 
me  tudo  quanto  gosa,  sem  abundância  mas  também 
sem  o  meu  trabalho  —  principio  que  não  era  socia- 
lista mas  era  cumprido  á  risca  pela  pratica  rigo- 
rosa. 

A  primeira  vez  que  vi  Justino  António  num  alfar- 
rabista da  rua  de  S.  José,  foi  em  dia  de  sabbado. 
Tinha  um  frack  verde,  as  botas  rotas,  o  cabello 
empastado  e  uma  barba  de  propheta,  suja  e  cheia 
de  lêndeas.  Entrou,  estendeu  a  mão  ao  alfarrabista. 

—  Hoje,  não  tem. 

—  Devo  notar  que  ha  já  dois  sabbados  nada 
me  dás. 

—  Não  seja  importuno.  Já  disse. 

—  Bem,  não  te  zangues.  Notei  apenas  porque  a 


Ólz  JOÃO    DO    RIO 

recusa  não  foi  para  sempre.  Este  cidadão,  entre- 
tanto, vae  ceder-me  quinhentos  réis. 

—  Eu! 

—  Está  claro.  Fica  com  esta  despesinha  a  mais  : 
quinhentos  réis  aos  sabbados.  E'  melhor  dar  a  um 
pobre  do  que  tomar  um  chopp.  Peço,  porém,  para 
notares  que  não  sou  um  mordedor,  sou  mendigo, 
esmolo,  esmolo  ha  vinte  annos.  Tens  deante  de  ti 
um  mendigo  authentico. 

—  E  por  que  não  trabalha? 

—  Porque  é  inútil. 

Dei  sorrindo  a  cédula.  Justino  não  agradeceu,  e 
quando  o  vimos  pelas  costas,  o  alfarrabista  indi- 
gnado prorompeu  contra  o  malandrim  que  com 
tamanho  descaro  arrancava  os  nickeis  á  algibeira 
alheia.  Achei  original  Justino.  Como  mendigo  era 
uma  curiosa  figura  perdida  em  plena  cidade,  capaz 
de  permittir  um  pouco  de  fantasia  philosophica 
em  torno  da  sua  diogenica  dignidade.  Mas  o  men- 
digo desapparecera,  e  só  um  mez  depois,  ao  sahir 
de  casa,  encontrei-o  á  porta. 

—  Deves-me  dois  mil  réis  de  quatro  sabbados, 
6  venho  ver  se  me  arranjas  umas  botas  usadas. 
Estás  estão  em  petição  de  miséria. 

Fil-o  entrar,  esperar  á  porta  da  saleta,  forneci- 
Ihe  botas  e  dinheiro. 

—  E  si  me  desses  d'almoço? 

Mandei  arranjar  um  prato  farto,  e  com  a  gula  de 
descrevel-o,  fui  generoso. 

—  Vem  para  a  mesa. 


VIDA    VERTIGINOSA  313 

—  A  mesa  e  o  talher  são  inutilidades.  Não  peço 
senão  o  que  necessito  no  momento.  Póde-se  comer 
perfeitamente  sem  mesa  e  sem  talher, 

Sentou-se  num  degráo  da  escada  e  comeu  grave- 
mente o  pratarraz.  Depois  pedio  agua,  limpou  as 
mãos  nas  calças  e  desceu. 

—  Espera  ahi,  homem.  Que  diabo  !  Nem  dizes 
obrigado. 

—  E'  inútil  dizer  obrigado.  Só  deste  o  que  falta 
não  te  faria.  E  deste  por  vontade.  Talvez  fosse  até 
por  interesse.  Déste-me  as  botas  velhas  como  quem 
compra  um  livro  novo.  Gonheço-te. 

—  Gonheces-me? 

—  Não  te  enchas,  vaidoso.  Eu  conheço  toda  a 
gente.  Até  para  o  mez. 

—  Queres  um  copo  de  vinho? 

—  Não.  Gostumo  embriagar-me  ás  quintas;  hoje 
é  segunda. 

Gonfesso  que  o  mendigo  não  me  deixou  uma 
impressão  agradável.  Mais  era  quanto  possivel 
novo,  inédito,  com  a  sua  grosseria  e  as  suas  atti- 
tudes  de  Sócrates  de  ensinamentos.  E  diariamente 
lembrava  a  sua  figura,  a  sua  barba  cheia  de  lên- 
deas... Uma  vez  vi-o  na  galeria  da  Gamara,  na  pri- 
meira fila,  assistindo  aos  debates,  e  na  mesma  noite, 
entrando  num  theatro  do  Rocio,  o  empresário  deso- 
lado disse-me  : 

—  Ah !  não  imaginas  a  vasante !  E'  tal  que 
mandei  entrar  o  Justino. 

—  Que  Justino? 

18 


314  JOÃO    DO    RIO 

—  Não  conheces?  Um  mendigo,  um  typo  muito 
interessante,  que  gosta  de  theatro.  Chega  á  bilhe- 
teira e  diz  :  «  hoje  não  arranjei  dinheiro.  Posso 
entrar?»  A  primeira  vez  que  me  vieram  contar  a 
pilhéria  achei  tanta  graça  que  consenti.  Agora, 
quando  arranja  dez  tostões  compra  a  senha  sem 
dizer  palavra  e  entra.  Quando  não  arranja  repete  a 
phrase  e  entra.  Um  que  mal  faz? 

Fui  ver  o  curioso  homem.  Estava  em  pé  na  geral, 
prestando  uma  sinistra  attenção  ás  facécias  de  certo 
cómico. 

—  Justino,  porque  não  te  sentas? 

—  E'  inútil.  Vejo  bem  de  pé. 

—  Mas  o  empresário... 

—  Contento-me  com  a  generosidade  do  empres- 
sario. 

—  Mas  na  Gamara  estavas  sentado. 

—  Lá  é  a  communhão  que  paga. 

Insisti  no  interrogatório,  a  fallar  da  peça,  dos 
actores,  dos  prazeres  da  vida,  do  socialismo,  de 
uma  porção  de  coisas  fúteis,  a  ver  si  o  mendigo  fal- 
lava.  Justino  conservou-se  mudo.  No  intervallo 
convidei-o  a  tomar  uma  soda,  por  não  ser  quinta- 
feira. 

—  Soda  é  inútil.  Estás  a  aborrecer-me.  Vae 
embora. 

Outra  qualquer  pessoa  ficaria  indignadissima. 
Eu  curvei  resignadamente  a  cabeça  c  abalei  vexado. 

A  voz  daquelle  homem  branca,  fria,  egual,  no 
mesmo  tom,  era  inexorável. 


VIDA    VERTIGINOSA  315 

—  E'  um  typo  o  teu  espectador,  disse  ao  emprcs- 
sario. 

—  Ah!...  ninguém  lhe  arranca  palavra.  Sabes 
que  nunca  me  disse  obrigado? 

Eu  andava  precisamente  neste  tempo  a  interro- 
gar mendigos  para  um  inquérito  á  vida  da  miséria 
urbana  e  alguns  dos  artigos  já  haviam  apparecido. 
Dias  depois,  estando  a  comprar  charutos,  entra  pela 
tabacaria  a  dentro,  o  homem  estranho. 

—  Queres  um  charuto? 

—  Inútil.  Só  fumo  ás  terças  e  aos  domingos. 
Os  charuteiros  fornecem-me.  Entrei  para  receber 
os  meus  dois  mil  réis  atrazados  e  para  dizer  que  não 
te  mettas  a  escrever  a  meu  respeito. 

—  Por  que? 

—  Porque  abomino  a  minha  pessoa  em  letra  de 
forma,  apezar  de  nunca  a  ter  visto  assim.  Si  fizeres' 
a  feia  acção,  sou  forçado  a  brigar  comtigo,  sempre 
que  te  encontrar. 

A  perspectiva  de  rolar  na  via  publica  com  um 
mendigo,  não  me  sorria.  Justino  faria  tudo  quanto 
dissera.  Depois  era  um  phenomeno  de  hypnose. 
Estava  inteiramente  dominado,  escravisado  áquel- 
la  figura  esphingetica  da  lama  urbana,  não  tinha 
forças  para  resistir  á  sua  calma  e  fria  vontade.  Oh  ! 
ouvir  esse  hom.em !  Saber-lhe  a  vida ! 

Como  certa  vez  entretanto,  á  1  h.  da  noite,  atra- 
vessasse o  equivoco  e  silencioso  jardim  do  Rocio, 
vi  uma  altercação  num  banco.  Era  o  tempo  em  que 
a  policia  resolvera  não  deixar  os  vagabundos  dor- 


316  JOÃO    DO    RIO 

mirem  nos  bancos.  Na  noite  de  luar,  dois  guardas 
civis  batiam-se  contra  um  vulto  esquálido  de  gran- 
des barbas.  Acerquei-me.  Era  elle. 
■ —  Vamos,  seu  vagabundo. 

—  E 'inútil.  Não  vou. 

—  Vae  á  força ! 

—  E'  inútil.  Sabem  o  que  é  este  banco  para  mim? 
A  minha  cama  de  verão  ha  doze  annos !  De  uma 
hora  em  deante,  por  direito  de  habito,  respeitam-na 
todos.  Tenho  visto  passar  muito  guarda,  muito  sup- 
plente,  muito  delegado.  Elles  vão-se,  eu  fico.  Nem 
tu,  nem  o  supplente,  nem  o  commissario,  nem  o 
delegado,  nem  o  chefe  serão  capazes  de  me  tirar 
esse  direito.  Moro  neste  banco  ha  uma  dúzia  de 
annos.  Boa  noite. 

Os  civis  iam  fazer  uma  violência.  Tive  de  inter- 
vir, convencel-os,  mostrar  autoridade,  emquanto 
Justino,  recostado  e  impassivel,  dizia  : 

—  Deixa.  Elles  levam-me  eu  volto. 

Afinal  os  guardas  accederam,  e  Justino  deitou- 
se  completamente. 

—  Foi  iniitil.  Não  precisava.  Mas  eu  sou  teu 
amigo. 

—  Meu  amigo? 

—  Certo.  Nunca  te  pedi  nada  que  te  podesse 
fazer  falta  e  nunca  te  menti.  Fica  certo.  Sou  o  teu 
melhor  amigo,  sou  o  melhor  amigo  de  toda  a  gente. 

—  E  não  gostas  de  ninguém. 

—  Não  é  preciso  gostar  para  ser  amigo.  Amigo  é 
o  que  não  sacrifica. 


VIDA    VERTIGINOSA  317 

E  desde  então  comecei  a  sacrifioar-me  volunta- 
riamente por  elle,  a  correr  á  policia  quando  o  sabia 
preso,  a  procural-o  quando  o  não  via  e  desesperado 
porque  não  acceitava  mais  de  dois  mil  réis  da  minha 
bolsa,  e  dizia,  inexorável,  a  cada  prova  da  minha 
sympathia. 

—  E'  inútil,  inteiramente  inútil ! 

Durante  três  annos  dei-me  com  elle  sem  saber 
quantos  annos  tinha  ou  onde  nascera.  Nem  isso. 
Apenas  ao  cabo  de  seis  mezes  consegui  saber  que 
fumava  aos  domingos  e  ás  terças,  embebedava-se  ás 
quintas,  ia  ao  theatro  ás  sextas  e  ás  segundas,  e 
todo  dia  á  Camará.  Nas  noites  de  chuva  dormia  no 
chão!  numa  hospedaria;  em  noites  seccas  no  seu 
banco.  Nunca  tomava  banho,  pedia  pouco,  e  ao 
menor  alarde  de  generosidade,  limitava  o  alarde 
com  o  seu  desolador  :  é  inútil.  Teria  tido  vida  me- 
lhor? Fora  rico,  sábio?  Amara?  Odiara?  Soffrera? 
Ninguém  sabia !  Um  dia  disse-lhe  : 

—  A  tua  vida  é  exemplar.  E's  o  Budha  contem- 
porâneo da  Avenida. 

Elle  respondeu  : 

—  E'  um  erro  servir  d'exemplo.  Vivo  assim 
porque  entendo  viver  assim.  Condensei  apenas  os 
baixos  instinctos  da  cobiça,  exploração,  deprava- 
ção, egoismo  em  que  se  debatem  os  homens  se  na 
consciência  de  uma  vontade  que  se  restringe  e  por 
isso  é  forte.  Numa  sociedade  em  que  os  parasitas 
tripudiam  —  é  inútil  trabalhar.  O  trabalho  é  de 
resto  inútil.  Resolvi  conduzir-me  sem  idéas,  sem 

18. 


318  JOÃO    DO    RIO 

interesse,  no  meio  do  desencadear  de  interesses 
confessados  e  inconfessáveis.  Sou  uma  espécie  de 
imposto  minimo,  e  por  isso  nem  sou  malandro, 
nem  mendigo,  nem  um  homem  como  qualquer  — ■ 
porque  não  quero  mais  do  que  isso. 

—  E  não  amas? 

—  Nem  a  mim  mesmo  porque  é  inútil.  Desses 
interesses  encadeiados  resolvi,  em  logar  de  explorar 
a  caridade  ou  outro  género  de  commercio,  tirar  a 
percentagem  minima,  e  dahi  o  ter  vivido  sem  esfor- 
ço com  todos  os  prazeres  da  sociedade,  sem  invejas 
e  sem  excessos,  despercebido  como  o  invis  vel.  Que 
fazes  tu?  Escreves?  Tempo  perdido  com  preten- 
ções  a  tempo  ganho.  Que  gosas  tu?  Theatros,  jan- 
tares, festas  em  exceso  nos  melhores  logares.  Eu 
goso  também  quando  tenho  vontade,  no  dia  de 
porcentagem  no  logar,  que  quero  —  o  menor,  o 
insignificante  —  os  theatros  e  tudo  quanto  a  cidade 
pôde  dar  de  interessante  aos  olhos.  Apenas  sem  ser 
apontado  e  sem  ter  ódios. 

—  Que  intelligencia  a  tua ! 

—  A  verdadeira  intlligtncia  é  a  que  se  limita 
para  evitar  dissabores.  Tu  podes  ter  contrariedades 
Eu  nunca  as  tive.  Nem  as  terei.  Com  o  meu  systema, 
dispenso-me  de  sentir  e  de  fingir,  não  preciso  de  ti 
nem  de  ninguém,  retirando  dos  defeitos  e  das  orga- 
nisações  más  dos  homens  o  subsidio  da  minha  calma 
vida. 

—  E'  prodigioso. 

—  E'  um  systema,  que  serias  incapaz  de  prati- 


VIDA    VERTIGINOSA  319 

car,  porque  tu  és  como  todos  os  outros,  ambicioso 
e  sensual. 

Quando  soube  da  sua  morte  corri  ao  necrotério 
a  fazer-lhe  o  enterro.  Não  era  possível.  Justino 
tinha  deixado  um  bilhete  no  bolso  pedindo  que  o 
enterrassem  na  valia  commum  «  a  entrada  geral  do 
espectáculo  dos  vermes ». 

Sahi  desolado  porque  essa  creatura  foro  a  única 
que  não  me  dera  nem  me  tirara,  e  não  chorara,  e 
não  soíTrera  e  não  gritara,  amigo  ideal  de  uma  cidade 
inteira  fazendo  o  que  queria  sem  ir  contra  pessoa 
alguma,  livre  de  nós  como  nós  livres  d'elle,  a  dez 
mil  léguas  de  nós,  posto  que  ao  nosso  lado. 

E  também  com  certa  raiva  — porque  não  dizel-o? 
—  porque  o  meu  interesse  fora  apenas  o  desejo 
teimoso  de  descobrir  um  segredo  que  talvez  não 
tivesse. 

Emfim,  morreu.  Ninguém  sabia  da  sua  vida,  nin- 
guém falou  da  sua  morte.  Um  bem?  Um  mal? 

Nem  uma  nem  outra  coisa,  porque,  afinal  na 
vida  tudo  é  inteiramente  inútil... 


o    Ultimo   Burro 


o  ULTIMO   BURRO 


Era  o  ultimo  bonde  de  burros,  um  bondinho 
subitamente  envelhecido.  O  cocheiro  lerdo  descan- 
çava  as  rédeas,  o  recebedor  tinha  um  ar  de  final 
de  peça  e  o  fiscal,  com  intimidade,  conversava. 

—  Então  paramos? 

—  E'  a  ultima  viagem. 

Estávamos  numa  rua  triste  e  deserta.  Viéramos 
do  movimento  allucinante  de  centenas  de  trabalha- 
dores que  em  outra,  á  luz  de  grandes  focos,  planta- 
vam as  calhas  da  tracção  eléctrica  e  viamos  com 
uma  fúria  satânica  ao  cabo  da  rua  silenciosa, 
outras  centenas  de  trabalhadores  batendo  os  tri- 
lhos. 

Saltei,  um  pouco  entristecido.  Olhei  o  burro  com 
evidente  melancholia  e  pareceu-me  a  mim  que  esse 
burro,  que  finalisava  o  ultimo  cyclo  da  tracção  muar, 
estava  também  triste  e  melancholico. 

O  burro  é  de  todos  os  animaes  domésticos  o  que 
mais  ingratidões  soffre  do  homem.  Bem  se  pôde 
dizer  que  nós  o  fizemos  o  pária  dos  bichos.  Gomo 


324  JOÃO  DO  RIO 

elle  tivesse  a  complacência  de  ser  humilde  e  de  ser- 
vir, os  poetas  jamais  o  cantaram,  os  fabulistas 
referem-se  a  elle  com  despreso  transparente,  e  cada 
um  resolveu  nelle  encontrar  a  comparação  de  uma 
qualidade  má. 

—  E'  teimoso  como  um  burro  !  dizem,  e  de  um 
sujeito  estúpido  :  —  que  burro  !  Cada  bicho  é  um 
symbolo  e  o  burro  ficou  sendo  o  symbolo  da  falta  de 
intelligencia.  Mas  ninguém  quiz  ver  que  no  burro 
o  que  parece  insufíiciencia  de  pensar  é  candura 
d'alma,  e  ninguém  tem  a  coragem  de  notar  a  in- 
nocencia  da  sua  dedicação. 

Eu  tenho  uma  certa  sympathia  por  esse  estranho 
soíTredor.  Ha  homens  infinitamente  mais  estúpidos 
que  o  burro  e  que  entretanto  até  chegam  a  ser  ricos 
e  a  ter  camarote  no  Lyrico.  Ha  bichos  muito  menos 
dotados  de  intelligencia  e  que  entretanto  ganharam 
fama.  A  raposa  é  espertissima,  quando  no  fundo  é 
uma  fúria  irreflectida,  o  boi  é  philosophico,  o  ca- 
vallo  só  falta  fallar,  quando  de  facto  regulam  com 
o  burro,  e  a  infinita  serie  de  inutilidades  do  lar  desde 
os  gatos  e  fraldiqueiros  aos  pássaros  de  gaiola  tem  a 
admiração  pateta  dos  homens,  quando  essa  admi- 
ração devia  pender  para  o  caso  simples  e  doloroso 
do  burro. 

O  burro  é  bom,  é  tão  bom  que  a  lenda  o  pôz  no 
estabulo  onde  se  pretende  tenha  nascido  um 
grande  sonhador  a  que  chamam  Jesus.  O  burro 
é  resignado.  Elle  vem  através  da  historia  prestando 
serviços  sem  descansar  e  apanhando  relhadas  como 


VIDA    VERTIGINOSA  325 

se  fosse  obrigação.  Não  é  um,  são  todos.  Eu  co- 
nheço os  burros  de  carroça,  com  o  couro  em  sangue, 
suando,  a  puxar  pesos  violentos,  e  conheço  os  burros 
de  tropa  na  roça,  e  os  burros  de  bonds,  magros  e 
esfomeados.  São  fatalmente  fiéis  e  resignados.  Não 
lhes  perguntam  se  comeram,  se  dormiram,  se  estão 
l)em.  Elles  trabalham  até  rebentar,  e  até  a  sua 
morte  é  motivo  de  pouco  caso.  Para  demonstrar  nos 
conílictos,  que  não  houve  nada,  sujeitos  em  fúria 
dizem  para  os  curiosos  : 

—  Que  olham?  Morreu  um  burro! 

O  burro  é  carinhoso  e  famiUar.  Ide  vêl-os  nas 
limitadas  horas  de  descanso.  Deitam-se  e  rebolam 
na  poeira  como  na  grama,  e  beijam-se,  beijam-se 
castamente,  sem  outro  motivo,  chegando  até  por 
vezes  a  brincar. 

O  burro  é  triste.  O  seu  zurro  é  o  mais  confran- 
gente  grito  de  dor  dos  seres  vivos;  o  ornejar  de  um 
gargolejar  de  soluços.  O  burro  é  intelligente.  Exa- 
minae  os  burros  das  carroças  de  limpeza  publica 
ás  horas  mortas,  nas  ruas  desertas.  Vae  o  varredor 
com  a  pá  e  a  vassoura.  E'  burro  de  resignação.  Vae 
o  burro  a  puxar  a  carroça.  E'  o  varredor  pela  intel- 
ligencia.  São  bem  dois  amigos,  conhecem-se,  conver- 
sam, e  quando  o  primeiro  diz  ao  segundo  : 

—  Ghó,  pára ! 

Logo  o  burro  pára,  solidários  na  humilde  obra, 
comem  os  dous  coitados. 

Esse  exemplo  é  diário.  A  historia  cita  o  burro 
do  sábio  Ammonius  em  Alexandria,  que  assistindo 


326  JOÃO  DO  RIO 

as  aulas  preferia  ouvir  um  poema  a  comer  um  molho 
de  capim.  tíl 

O  burro  é  pacifico.  Si  só  houvesse  burros  jamais 
teria  havido  guerras.  E  para  mostrar  o  cumulo  da 
paciência  desse  doce  animal,  é  preciso  accentuar  que 
quasi  todos  gostam  de  ouvir  musica.  Um  abade 
anonymo  do  século  vii  tratando  do  homem  e  dos 
animaes  num  livro  em  que  se  provava  terem  os  ani- 
maes  alma,  diz  que  foram  os  animaes  a  ensinar  ao 
homem  tudo  quanto  elle  desenvolveu  depois.  O 
burro  ensinou  o  labor  continuo  e  resignado,  o  labor 
dos  pobres,  dos  desgraçados.  Todo  os  bichos  podem 
trabalhar,  mas  trabalham  ufanos  e  fogosos  como  os 
cavallos  ou  com  a  gloria  abacial  dos  bois.  O  burro 
está  na  poeira,  lá  em  baixo,  penando  e  sofírendo.  Por 
isso  quando  se  quer  dar  a  medida  immensa  dos  esfor- 
ços de  um  coitado,  diz-se  : 

—  Trabalha  como  um  burro  ! 

Pobre  quadrúpede  doloroso  !  Não  tem  amores, 
não  tem  instinctos  revoltados,  não  tem  ninguém 
que  o  ame  !  Quando  cáe  exhausto,  para  o  levantar 
batem -lhe;  quando  não  pôde  puxar  é  a  murros 
no  queixos  que  o  convencem.  De  facto,  o  homem 
domesticou  uma  série  de  animaes  para  ser  delles 
servo.  Esses  animaes  são  na  sua  maioria  uns  refi- 
nados parasitas,  com  a  alma  ambigua  de  todo  para- 
sita, tenha  pello  ou  tenha  pelle  ou  tenha  pennas.  Os 
grandemente  úteis  dão  muito  trabalho.  Só  o  burro 
não  dá.  E  ninguém  pensa  nelle  ! 

Aqui,  entre  nós,  desde  o  Brasil  colónia,  foi  elle  o 


VIDA    VERTIGINOSA 


327 


incomparável  auxiliador  da  formação  da  cidade  e 
depois  o  seu  animador.  O  burro  lembra  o  Rio  de 
antes  do  Paraguay,  o  Rio  do  segundo  império,  o 
Rio  do  começo  da  Republica.  Historicamente, 
approximou  os  pontos  urbanos,  conduzindo  as 
primeiras  viaturas  publicas.  Atrelaram-no  á  gôn- 
dola, prenderam-no  ao  bonde.  E  elle  foi  a  alma  do 
bonde  durante  mais  de  cincoenta  annos,  multipli- 
cando-se  estranhamente  em  todas  as  linhas,  for- 
mando famílias,  porque  eram  conhecidos  os  burros 
da  jardim  Botânico,  os  lerdos  burros  da  S.  Ghristo- 
vão,  os  magros  e  esfomeados  burros  da  Carris. 

O  progresso  veio  e  tirou-os  fora  da  primeira.  Mas 
era  um  progresso  prudente,  no  tempo  em  que  nós 
éramos  prudentes.  Vieram  os  allemães,  vieram  os 
assaltantes  americanos,  e  na  nuvem  de  poeira  de 
tantas  ruas  abertas  e  estirpadas,  carros  eléctricos 
zuniram  matando  gente  aos  magotes,  matando  a 
influencia  fundamental  do  burro.  Eu  via  o  ultimo 
burro  que  puxara  o  ultimo  bond  na  velha  disposi- 
ção da  viação  urbana.  E  era  para  mim  muito  mais 
cheia  de  idéas,  de  recordações,  de  imagens  do  que 
estar  na  Gamara  a  ouvir  a  rethorica  bal-ofa  dos  de- 
putados. 

Approximei-me  então  do  animal  amigo. 

Certo,  o  burro  é  desses  destinados  ao  olvido 
immediato.  Entre  a  força  eléctrica  e  a  força  das 
quatro  patas  não  ha  que  escolher.  Ninguém  sen- 
tirá saudades  das  patas,  com  o  desejo  de  chegar  de 
pressa.  O  burro  do  bond  não  terá  nem  missa  de 


328  JOÃO  DO  RIO 

sétimo  dia  após  uma  longa  vida  exaustiva  de  sacri- 
fícios incomparáveis.  Que  fará  elle?  Dáva-me  von- 
tade de  perguntar-lhe,  no  fim  daquella  viagem, 
que  era  a  ultima  : 

—  Que  farás  tu? 

Resta-llie  o  recurso  dos  varaes  das  carroças. 
Burro  de  bond  além  de  especialisado  numa  profis- 
são formava  a  casta  superior  dos  burros.  Sahir  do 
bond  para  o  varal  é  decadência.  Também  as  car- 
roças são  substituídas  por  automóveis  rápidos  que 
supportam  muito  mais  pezo.  E  ninguém  falia  dos 
monoplanos.  Dentro  de  alguns  annos  monoplano  e 
automóvel  tornarão  lendárias  as  tropas  com  a  poesia 
das  madrinhas...  Como  as  espécies  desapparecem 
quando  lhes  falha  o  meio  e  não  as  cuidam  os  ho- 
mens, talvez  o  burro  desappareça  do  mundo  nas 
condições  dos  grandes  saurios.  Em  breve  não  have- 
rá nas  cidades  um  nem  para  amostra. 

As  creanças  conhecel-o-hão  de  estampas.  Em 
três  ou  quatros  séculos  ver  um  burro  vivo  será  mais 
difficil  do  que  ir  a  Marte. 

Oh  !  a  tremenda,  a  colossal  ingratidão  do  egoismo 
humano  !  Nós  outros  só  damos  importância  ao  que 
alardeia  o  serviço  que  nos  presta  e  aos  parasitas.  O 
burro  na  civihsação  é  como  um  desses  escravos  ve 
lhos  e  roidos,  que  não  cessou  um  segundo  de  tra- 
balhar sem  queixumes.  Vem  o  apparelho  novo. 
Empurram-no. 

'—  Sahe-te,  toleirão  ! 

E  ninguém  mais  lembra  os  serviços  passados. 


VIDA.    VERTIGINOSA  329 

Eu  mesmo  seria  incapaz  de  pensar  num  burro 
tendo  um  eléctrico,  apesar  de  considerar  o  doce  e 
resignado  animal  o  maior  symbolo  de  uma 
paciente  agglomeração  existente  em  toda  parte  e  a 
que  chamam  povo.  —  povo  batido  de  cocheiros, 
explorado  por  moços  de  cavallariça,  a  conduzir 
malandros  e  idiotas,  carregado  de  cargas  e  de  im- 
postos. Naquelle  momento  desejava  saber  o  que 
pensava  o  burro.  Mas  de  certo  elle  talvez  não  sou- 
besse que  era  o  ultimo  burro  que  pela  ultima  vez 
puxava  o  ultimo  bondinho  do  Rio,  Analisando  alli  a 
acção  geral  do  burro  na  viação  e  na  civilisação  urba- 
nas. Tudo  quanto  pensara  era  de  facto  literatura 
mórbida,  porque  nem  os  burros  por  ella  se  interessa- 
riam nem  os  homens  teriam  a  gratidão  de  pensar 
no  animal  amigo,  mandando  fazer-lhe  um  monu- 
mento ao  menos.  O  homem  nem  sabia,  pois  o  caso 
não  fora  annunciado.  Aquelle  burro  representativo 
talvez  pensasse  apenas  na  baia  —  que  é  o  ideal  na 
vida  para  os  burros  e  para  todas  as  outras  espécies 
vivas. 

Assim,  sentindo  por  elle  a  angustiosa,  a  tortu- 
rante, a  despedaçante  sensação  da  grande  utihdade 
que  se  faz  irrevogavelmente  inútil,  eu  estava  como 
a  vêl-o  boiar  na  maré  cheia  da  velocidade,  como  os 
detrictos  que  vão  ter  á  praia,  como  os  deputados 
que  deixam  de  agradar  ás  olygarchias,  como  os 
amigos  dos  governos  que  caem,  como  os  sujeitos 
desempregados.  Quanta  coisa  esse  burro  exprimia  ! 

Então  peguei-lhe  a  queixada,  quiz  guardar-lhe 


330  lOÀO    DO    RIO 

a  phisionomia,  posto  que  elle  teimasse  em  não  m'a 
deixar  ver  bem.  Mas  como,  na  outra  rua,  retinisse 
o  annuncio  de  um  eléctrico  estuguei  o  passo,  lar- 
guei o  burro  sem  saudade  —  eu  também  !  sem  inda- 
gar ao  menos  para  onde  levariam  esse  animal  encar- 
res^ado  de  acto  tão  concludente  das  prerogativas 
da  sua  espécie,  sem  mesmo  lembrar  que  eu  vira  o 
ultimo  burro  do  ultimo  bondinho  na  sua  ultima 
viagem  urbana... 

E  assim  é  tudo  na  vida  apresada. 


o   Dia  de  um  homem  em   1920 


o  DIA  DE  UM  HOMEM  EM  1920 


Dentro  de  três  mezes  as  grandes  capitães  terão  um  ser- 
viço regular  de  bonds  aéreos  denominados  «  aerobus  ». 
O  ultimo  invento  de  Marconi  é  a  machina  de  stenographar. 
As  occupações  são  cada  vez  maiores,  as  distancias  menores 
e  o  tempo  cada  vez  chega  menos.  Deante  desses  successivos 
inventos  e  da  nevrose  de  pressa  hodierna,  é  fácil  imaginar 
o  que  será  o  d  a  de  um  homem  superior  dentro  de  dez 
annos,  com  este  vertiginoso  progresso  que  tudo  arrasta... 


O  Homem  superior  deitou-se  ás  três  da  manhã. 
Absolutamente  enervado  por  ter  de  aturar  uma  ceia 
com  champagne  e  algumas  cocottes  millionarias, 
falsas  da  cabeça  aos  pés  porque  é  falsa  a  sua  côr, 
são  falsas  as  olheiras  e  sobrancelhas,  são  falsas  as 
pérolas  e  falsa  a  tinta  do  cabello  nessa  occasiâo, 
por  causa  da  moda,  em  todas  as  bellezas  proíis- 
sionaes  «  beije  foncé».  Accorda  ás  seis,  ainda  meio 
escuro  por  um  movimento  convulsivo  dos  colchões 
e  um  jacto  de  luz  sobre  os  olhos  produzido  pelo  des- 
pertador eléctrico  ultimo  modelo  de  um  trust 
pavoroso. 

19. 


334  JOÃO  DO  RIO 

—  Caramba  !  Já  seis  ! 

Aperta  um  botão  e  o  creado  mudo  abre-se  em 
forma  de  mesa  apresentando  uma  taça  de  café 
minúscula  e  um  cálix  também  minúsculo  do  elixir 
nevrosthenico.  Dois  goles;  ingere  tudo.  Salta  da 
cama,  toca  noutro  botão,  e  vae  para  deante  do 
espelho  applicar  á  face  a  navalha  maravilhosa  que 
em  trinta  segundos  lhe  raspa  a  cara.  Caminha  para 
o  quarto  de  banho,  todo  branco,  com  uma  porção 
de  aparelhos  de  metal.  Ahi  o  espera  um  homem  que 
parece  ser  o  creado. 

—  Gymnastica  sueca,  ducha  escosseza,  jornaes. 
Entrega-se  á  gymnastica  olhando  o  relógio.  De 

um   canto,    ouve-se   uma   voz   phonographica   de 
leilão. 

—  Ultimas  noticias  :  hoje,  ál  da  manhã  incêndio 
quarteirão  leste,  40  prédios,  700  feridos,  virtude 
máo  funccionamento  Corpo  de  Bombeiros.  Seguro 
prédios  10  mil  contos.  Acções  Corpo  baixaram. 
Hoje  2  12  um  aerohus  rebentou  no  ar  perto  do 
Leme.  As  12  e  45  presidente  recebeu  telegramma 
encommenda  prompta  Allemanha,  500  aeronaves 
de  guerra.  O  cinematographo  Pão  de  Assucar  em 
sessão  continua  estabeleceu  em  suportes  de  ferro 
mais  cinco  salas.  Annunciase  o  crack  da  Companhia 
da  Exploração  Geral  das  Zonas  Aéreas  do  Estreito 
de  Magalhães.  Em  excavações  para  o  Palácio  da 
Companhia  do  INIotu  Continuo  foi  encontrado  o 
esqueleto  de  um  animal  domestico  nas  civilisações 
primitivas  :  o  burro. 


AIDA    VERTIGINOSA  335 

Installou-se  neste  momento  por  quinhões,  a 
Sociedade  Anonyma  das  Gosinhas  Aéreas  no  Tur- 
kestan.  O  movimento  hontem  nos  trens  subterrâ- 
neos foi  de  três  milhões  de  passageiros.  As  acções 
baixam.  O  movimento  de  aerobus  de  oito  milhões 
havendo  apenas  vinte  desastres.  O  record  da  velo- 
cidade :  chega-nos  da  Republica  do  Congo  com  três 
dias  de  viagem  apenas  no  seu  aeroplano  de  course 
o  notável  embaixador  Zambeze.  Foi  lançada  na 
Gafraria  a  moda  das  toilettes  pyrilampe  feitas 
de  tussór  luminoso.  Fundaram-se  hontem  trezentas 
companhias,  quebraram  quinhentas,  morreram 
cinco  mil  pessoas.  Gom  a  avançada  edade  de 
38  annos,  o  marechal  Ferrabraz  deu  hontem  o 
seu  primeiro  tiro  acertando  por  engano  na  cara 
do  seu  maior  amigo  o  venerando  coronel  Saave- 
dra.  Impossível  a  cura,  applicou-se  a  elotrocu- 
ção... 

Dez  minutos.  O  Homem  superior  está  vestido.  O 
jornal  pára  de  fallar.  O  Homem  bate  o  pé  e  desce 
por  um  ascensor  ao  17  :  andar  onde  estão  a  traba- 
lhar quarenta  secretários. 

Ha  em  cada  estante  uma  machina  de  contar,  e 
uma  machina  de  escrever  o  que  se  falia.  O  Homem 
superior  é  presidente  de  cincoenta  companhias, 
director  de  três  estabelecimentos  de  negociações 
licitas,  intendente  geral  da  Gompra  de  Propinas, 
chefe  do  celebre  jornal  Electro  Rápido  com  uma 
edição  diária  de  seis  milhões  de  telephonographos  a 
domiciho,    fora    os    quarenta   mil   phonographos 


336  JOÃO  DO  RIO 

informadores  das  praças,  e  a  rede  gigantesca  que 
liga  ás  principaes  capitães  do  mundo  em  agencias 
colossaes.  Não  se  conversa,  O  systema  de  palavras 
é  por  abreviatura. 

—  Desminta  S.  C.  Aéreas.  Ataque  governo  senil 
vinte  nove  annos.  Somme.  Escreva. 

Os  empregados  que  não  sabem  escrever,  entre- 
gam á  machina  de  contar  a  operação  emquanto  fal- 
iam para  a  machina  de  escrever. 

Depois  o  homem  superior  almoça  algumas  pilu- 
las  concentradas  de  poderosos  alimentos,  sobe  ao 
30  andar  num  ascensor  e  lá  toma  o  seu  coupé  aéreo 
que  tem  no  vidro  da  frente  em  reproducção  cine- 
matographica  os  últimos  acontecimentos.  São  visões 
instantâneas.  Elle  tem  que  fazer  passeios  de  ins- 
pecção ás  suas  múltiplas  empresas  com  receio  de 
que  o  roubem,  receio  que  aliás  todos  tem  um  dos 
outros.  O  secretario  ficou  encarregado  de  fazer 
oitenta  visitas  telephonicas  e  de  sensibilisar  em 
placas  phonographicas  as  respostas  importantes. 
Antes  de  chegar  ao  «  bureau »  da  sua  Companhia  do 
Chá  Paulista,  com  sede  em  Guaratinguetá,  o  appare- 
Iho  Marconi  installado  no  forro  do  coupé  communica : 

—  «  Mandei  fazer  quinze  vestidos  tussor  lumi- 
noso. Tua  Bertha.)) 

—  «  Ordem  Paquin  dez  vestidos  pyrilampos. 
Condessa  Antónia. » 

—  «  Asylo  dos  velhos  de  trinta  annos  fundado 
embaixatriz  da  Argélia  dia  completou  12  anniver- 
sario,  pede  protecção.» 


VIDA    VERTIGINOSA  337 

—  «  Governo  espera  ordem  negocio  aeroplanos. » 

—  «  Casa  29  das  Greanças  Ricas  informa  falleci- 
mento  sua  filha  Emma. » 

—  «  Guerra  cavallaria  aérea  riograndense  ces- 
sada fantasma  Pinheiro  miragem. » 

O  Homem  superior  aproveita  um  minuto  de 
interrupção  do  transito  aéreo  pelo  silvo  do  veloci- 
paereo  do  civil  de  guarda  da  Inspectoria  de  Vehicu- 
los  no  Ar  e  responde  successivamente  : 

—  Sim,  sim,  sim.  Perfeito.  Enterro  primeira 
classe  communique  Mulher  Superior,  Cortejo  Car- 
pideiras Eléctricas.  Occulte  noticia  cavallaria  entre- 
vista fantasma. 

E  continua  a  receber  telagrammas  e  a  responder 
quer  ao  ir  quer  ao  voltar  da  companhia  onde  se 
produz  um  kilo  de  chá  por  minuto  para  abafar  a 
producção  da  republica  chineza,  porque  todas  as 
senhoras,  sem  ter  nada  que  fazer  (nem  mesmo  com 
os  maridos),  levam  a  vida  a  tomar  chá —  o  que  se- 
gundo o  Conselho  Medico  embelleza  a  cútis  e  adoça 
os  nervos.  Esse  Conselho  de  certo,  o  Homem  com- 
prou por  muitos  milhões  e  foi  até  aquella  data  o 
único  Conselho  de  que  precisou.  A  sciencia  super 
omnia... 

Ao  chegar  de  novo  ao  escriptorio  central  das 
suas  emprezas,  tem  mais  a  noticia  da  greve  dos 
homens  do  mar  contra  os  homens  do  ar.  Os  empre- 
gados das  docas  revoltam-se  contra  a  insuficiência 
dos  salários  :  58  S 500  por  dia  de  cinco  horas  desde 
que  os  motoristas  aéreos  estão  ganhando  talvez  o 


338  JOÃO  DO  RIO 

dobro.  O  Centro  Geral  Socialista,  de  que  o  Homem 
superior  é  superiormente  sócio  benemérito,  con- 
corda que  os  vencimentos  devem  ser  egualados 
numa  cifra  maior  que  a  dos  homens  do  ar.  Qual  a 
sua  opinião?  E'  preciso  pensar!  Sempre  a  questão 
social !  Si  houvesse  uma  machina  de  pensar?  Mas 
ainda  não  ha  !  Elle  tem  que  resolver,  tem  que  dar 
a  sua  opinião,  opinão  de  que  dependem  exércitos 
humanos.  Ao  lado  da  sua  ambição,  do  seu  motor 
interno  deve  haver  uma  bússola,  e  elle  se  sente, 
olhando  o  ar,  donde  fugiram  os  pássaros,  egual  a  um 
desses  animaes  de  aço  e  carne  que  se  debatem  no 
espaço.  Não  é  gente,  é  um  ap parelho. 

Então,  esquecido  das  coisas  frivolas,  inclusive  do 
enterro  da  filha,  telephona  para  o  atelier  do  grande 
chimico  a  quem  sustenta  vae  para  cinco  annos  na 
esperança  de  realisar  o  sonho  de  Lavoisier:  o 
homem  surgindo  da  retorta ;  e  volta  a  trabalhar, 
parado,  mandando  os  outros,  até  á  tarde. 

Depois,  sobe  a  relógio,  ducha-se,  veste  uma 
casaca.  Deve  ter  um  banquete  solemne,  um  ban- 
quete de  alimentos  breves,  inventado  pela  Socie- 
dade dos  Vegetaristas,  cuja  descoberta  principal 
é  a  cenoura  em  confeitos. 

O  Homem  superior  apparece,  é  amável.  A  sua 
casa  de  jantar  é  uma  das  maravilhas  da  cidade,  toda 
de  crystal  transparente  para  que  poderosos  reflec- 
tores eléctricos  possam  dar  aos  convidados  por  meio 
de  combinações  babeis,  impressões  imprevistas; 
reproducções  de  quadros  celebres,  colorações  cam- 


VIDA    VERTIGINOSA  339 

biantes,  fulgurações  de  incêndio  e  prateados  tons 
de  luar.  No  coiip  du  miliea,  um  sorvete  amargo  que 
ninguém  prova,  a  casa  é  um  iceberg  tão  exacto  que 
as  damas  tremem  de  frio ;  no  cognac  final,  que  nin- 
guém toma  por  causa  do  arthritismo,  o  salão  inteiro 
ílamba  n'um  incêndio  de  cratera.  Para  cada  prato 
vegetal  ha  uma  certa  musica  ao  longe  que  ninguém 
ouve  por  ser  muito  enervante. 
^  As  mulheres  tratam  negócios  de  modas  desde  que 
não  têm  mais  a  preoccupação  dos  filhos.  Algumas, 
as  mais  velhas  dedicam-se  a  um  género  muito  usado 
outr'ora  pelos  desoccupados  :  a  composição  de 
versos.  Os  homens  degladiam-se  pollidamente,  a 
ver  quem  embrulha  o  outro.  O  Homem  superior, 
de  alguns,  nem  sabe  o  nome.  Indica-os  por  uma  letra 
ou  por  um  numero.  Gonhece-os  desde  o  collegio. 
Insensivelmente,  acabado  o  jantar,  aquellas  figuras 
sem  a  menor  cerimonia  partem  em  vários  aeropla- 
nos. 

—  Já  sabes  da  morte  Emma? 

—  Gommunicaram-me,  diz  a  Mulher  superior. 
Tenho  de  descer  á  terra? 

—  Acho  prudente.  Os  convites  são  feitos,  hoje, 
pelo  jornal. 

—  Pobre  creança  !  E  o  governo  !  ? 

—  Submette-se. 

—  Ah  !  Mandei  fazer... 

—  Uns  vestidos  pyrilampos? 

—  Já  sabes? 

—  E'a  moda. 


340  JOÃO    DO    RIO 

—  Sabes  sempre  tudo... 

O  Homem  superior  sobe  no  ascensor  para  tomar 
o  seu  coupé  aéreo.  Mas  sente  uma  tremenda  pon- 
tada nas  costas. 

Encosta-se  ao  muro  branco  e  olha-se  num  es- 
pelho. Está  calvo,  com  uma  dentadura  postiça,  e 
corcova.  Os  olhos  sem  brilho,  os  beiços  molles,  as 
sobrancelhas  grisalhas. 

E'  o  fim  da  vida.  Tem  30  annos.  Mais  alguns 
mezes  e  estalará.  E'  certo.  E'  fatal.  A  sua  fortuna 
avalia-se  numa  porção  de  milhões.  Sob  os  seus  pés 
fracos  um  Hymalaia  de  carne  e  sangue  arqueja.  Si 
descançasse?...  Mas  não  pôde.  E'  da  engrenagem. 
Dentro  do  seu  peito  estrangularam-se  todos  os 
sentimentos.  A  falta  de  tempo,  numa  ambição  des- 
vairada que  o  faz  querer  tudo,  a  terra,  o  mar,  o  ar, 
o  céo,  os  outros  astros  para  explorar  para  apanhal- 
os,  para  condensal-os  na  sua  algibeira,  impelle-o  vio- 
lentamente. O  Homem  rebenta  de  querer  tudo  de 
uma  vez,  querer  apenas,  sem  outro  fito  sinão  o  de 
querer,  para  aproveitar  o  tempo  reduzindo  o  próxi- 
mo. Faz-se  necessário  ir  á  via  terrestre  que  o  seu 
rival milhonario  arranjou  empontespensis,  com  jaca- 
randás em  jarras  de  crystal  e  canelleiras  artificiaes. 
Nemmesmovae  ver  as  amantes.  Também  para  que?... 

De  novo  toma  o  coupé  aéreo  e  parte,  para  voltar 
tarde,  de  certo,  emquanto  a  Mulher  superior,  em 
baixo,  na  terra  procura  materialmente  conservar  a 
espécie  com  um  joven  conductor  de  machinas  de 
12  annos,  que  ainda  tem  cabellos. 


VIDA    VERTIGINOSA  341 

Vae,  de  repente  com  um  medo  convulsivo  de  que 
o  coupé  abalroe  um  dos  formidáveis  aerobus,  atu- 
lhados de  gente,  em  disparada  pelo  azul  sem  fim, 
aos  roncos. 

—  Para?  indaga  o  motorista  com  a  vertigem 
das  alturas. 

-  Para  frente !  Para  frente !  Tenho  pressa, 
mais  pressa.  Caramba  !  Não  se  inventará  um  meio 
mais  rápido  de  locomoção? 

E  cae,  arfando,  na  almofada,  os  nervos  a  la- 
tejar, as  têmporas  a  bater,  na  anciã  inconsciente 
de  acabar,  de  acabar,  de  acabar,  emquanto  por 
todos  os  lados,  em  disparada  convulsiva,  de  baixo 
para  cima,  de  cima  para  baixo,  na  terra,  por  baixo 
da  terra,  por  cima  da  terra,  furiosamente,  milhões  de 
homens  disparam  na  mesma  anciã  de  fechar  o 
mundo,  de  não  perder  o  tempo,  de  ganhar,  lucrar, 
acabar... 


índice 


A  era  do  automóvel 1 

O  povo  e  o  momento 13 

O  amigo  dos  estrangeiros 33 

O  Chá  e  as  visitas 45 

Os  Sentimentos  dos  estudantes  d' Agora 55 

O  Reclamo  moderno 69 

Modern  Girls 85 

A  Crise  dos  creados 97 

O  Muro  da  vida  privada 113 

Jogatina 125 

Os  Livres  acampamentos  da  miséria 141 

O  Bem  das  viagens 153 

Esplendor  e  miséria  do  jornalismo 169 

Cabotinos 181 

A  má  lingua 197 

Feminismo  activo 207 

O  Trabalho  e  os  parasitas 221 

As  Impressões  do  boróro 237 

O  Sr.  patriota 253 

Um  grande  Estadista 265 

O  fim  de  um  symbolo 283 

O  homem  que  queria  ser  rico 299 

Um  mendigo  original 309 

O  ultimo  burro 321 

O  Dia  de  um  homem  em  1920 331 


Chartres.  —  Inip.  Ed.  Garnier.  —  !il-l-  11, 


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